As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

O economista que sabia javanês

Jacarta. Imagem: Tom Fisk
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Por qual razão, em PIB por Paridade do Poder de Compra, apesar da economia brasileira ser a 8ª no ranking mundial, foi ultrapassada largamente pela Indonésia?

Tenho de pregar uma peça às convicções e às respeitabilidades para sobreviver. Sou obrigado esconder a minha qualidade de professor titular para me aproximar da malta ignara sem conhecimento de javanês.

Palestrando para alunos latino-americanos junto às Três Fronteiras, na UNILA em Foz do Iguaçu, levantei uma hipótese explicativa estruturalista, em vez de ser baseada em política econômica de curto prazo, para o retrocesso econômico brasileiro no ranking mundial de PIB nominal. Em 2022, o do Brasil ficou na 12ª colocação, logo atrás do Irã, este com US$ 1,973 trilhão, o nosso país com US$ 1,895 trilhão.

À frente, além dos países ricos da América do Norte e da Europa, estavam os demais países emergentes do BRIC. Seguiam logo atrás, completando o G15, Coreia do Sul (US$ 1,734 tri), Austrália (US$ 1,724 tri) e México (US$ 1,424 tri). A Argentina se colocou em 24º lugar com PIB de US$ 631 bilhões, equivalente a 1/3 do brasileiro.

Até o 16º (Espanha), todos os países, exceto Índia (1,425 bilhão), China (1,412 bilhão), Estados Unidos (331 milhões), têm população abaixo da brasileira (212 milhões). Em 17º, a Indonésia (PIB nominal de US$ 1,289 trilhão) tem população superior (260 milhões), bem como o Paquistão (220 milhões) e a (Nigéria 218 milhões), à brasileira.

O que importa isso? Segundo o Banco Mundial, em PIB per capita, o Brasil se coloca em 72º lugar com US$ 15.893, a China em 85º com US$ 13.262 e Índia em 123º com US$ 5.701. Entre estas, Indonésia fica em 100º com US$ 10.517. Têm grandes populações.

A renda per capita por PPC (Paridade do Poder de Compra) não espelha a desigualdade social em concentração de renda. Em contrapartida, comparações feitas à base do PIB nominal não relacionam o poder aquisitivo de um dólar com o custo de vida local.

Do alto de sua hipotética sapiência, “o economista que sabia javanês” com uma abordagem estruturalista defendeu sua hipótese explicativa. O crescimento populacional, concentrado em cidades, leva à predominância de ocupação em serviços urbanos, por definição, de baixa produtividade, pois se refere a encontros de produtores diretamente com consumidores – muitas vezes de um para um.

Este mercado interno é o foco principal do desenvolvimento nacional, pois os serviços urbanos geram 70% das ocupações e 70% da renda. A “financeirização” propicia lenta e gradual acumulação de riqueza com sobras da renda do trabalho protegidas da inflação.

Na divisão interna de trabalho, de maneira complementar (e para evitar crises cambiais), o inter-relacionamento com o mercado externo oferece superávit no balanço comercial, de modo a cobrir o déficit na remessa de lucros e juros das multinacionais industriais aqui instaladas para explorar o grande mercado interno, além de pagamentos na conta de serviços internacionais como transportes, viagens e aluguel de equipamentos. Como, tradicionalmente, registra-se um déficit de cerca de 3% do PIB no balanço de transações correntes, há dependência de IDP (Investimento Direto no País) para o cobrir, em espécie de “círculo vicioso” pela ótica da contínua e progressiva desnacionalização.

Fazer o que?! O país obteve autonomia financeira, mas não conquistou autonomia tecnológica, dado seu atraso na massificação da educação, ciência e tecnologia. Tem um povo inculto com baixo percentual de pessoas formadas em ensino superior, cerca da metade do argentino (40%) e muito inferior ao da Coreia do Sul (70%) e da Rússia (62%).

Mas “o economista que sabia javanês” necessitou responder à questão: por qual razão, em PIB por Paridade do Poder de Compra, apesar da economia brasileira manter a 8ª colocação no ranking mundial, foi ultrapassada largamente pela Indonésia?! Esta ficou junto com a Rússia com US$ 4,7 trilhões e bem à frente do Brasil com US$ 3,9 trilhões, ou seja, infiltrou-se entre o BRIC, os EUA, o Japão e a Alemanha.

Como me contou Lima Barreto, “neste Brasil imbecil e burocrático (…) eu já fui professor de javanês!” Acudiu-me segui-lo e recorrer à Wikipedia a fim de consultar o verbete relativo a Java e à língua javanesa. Fiquei sabendo Java ser uma grande ilha do arquipélago da Indonésia e… surpresa! É uma ex-colônia holandesa!

Falseou minha hipótese de “Recife poderia ter sido New York”, caso a Companhia das Índias Ocidentais não tivesse cobrado as dívidas dos colonos portugueses para com os holandeses. Ao irem contra a tradição católica de tomar empréstimos com devoção e não os amortizar, baseados na denúncia da usura, os portugas se revoltaram com tropas de nativos contra a Invasão Holandesa (1630-1654) de Olinda e Recife em Pernambuco.

Em consequência das invasões à Região Nordeste do Brasil, o capital neerlandês passou a dominar todas as etapas da produção de açúcar, do plantio da cana-de-açúcar ao refino e distribuição. Com o controle do mercado fornecedor de escravos africanos, passou a investir na região das Antilhas.

Sem dinheiro para investir, antecipar o assalariamento de trabalhadores e tampouco dominar o processo de refino e distribuição, o açúcar português não conseguiu concorrer no mercado internacional. Por isso, a economia do Brasil (e a de Portugal) entrou em crise até a descoberta de ouro nas Minas Gerais no século XVIII.

Pior para nossa história, em 1654, 23 judeus expulsos de Pernambuco desembarcaram na cidade de Nova York, até então conhecida por Nova Amsterdã. Antes, servia apenas de entreposto comercial e abrigava passageiramente comerciantes e navegadores. Os brasileiros fundaram a primeira comunidade judaica em solo norte-americano. Depois, descendentes lutaram na Guerra da Independência e criaram a bolsa de valores (NYSE)!

O “economista que sabia javanês” teve de se informar para, como cientista, falsear sua hipótese anterior. Caso a Invasão Holandesa conquistasse todo o Brasil, “a Indonésia – e não o Haiti – seria aqui!” Mas a geoeconomia não continuaria sendo uma barreira?

Indonésia é um país localizado entre o Sudeste Asiático e a Austrália, sendo o maior arquipélago do mundo, composto pelas Ilhas de Sonda, a metade ocidental da Nova Guiné e compreendendo no total 17.508 ilhas, muitas desabitadas. Por ser um arquipélago, tem fronteiras terrestres com a parte oriental da Malásia (na ilha de Bornéu), Timor-Leste (na ilha do Timor) e Papua-Nova Guiné (na Nova Guiné), além de fronteiras marítimas com as Filipinas, Malásia, Singapura, Palau, Austrália e com parte do território indiano. A localização entre dois continentes — Ásia e Oceania — faz da Indonésia uma nação transcontinental.

Quando se observa um mapa das principais cadeias globais de valor, a única conexão discernível na América Latina se dá pela integração da indústria automobilística entre Argentina e Brasil, enquanto muitas economias asiáticas e europeias estão altamente interligadas por meio de suas relações comerciais, tanto entre si, quanto com outras economias avançadas. É o caso indonésio, com enormes vantagens competitivas do seu bloco comercial, em termos de custos de transportes, assim como tem a União Europeia.

Sempre estrangeiros foram atraídos pelos vastos recursos naturais da Indonésia. Comerciantes árabes muçulmanos levaram o islamismo ser a religião dominante no país e, portanto, ela ser o maior país islâmico.

As potências europeias tentaram implantar o cristianismo e lutaram entre si para monopolizar o comércio de especiarias durante a Era dos Descobrimentos. Foi quando navegadores portugueses aportaram, em 1511, e instalaram uma colônia portuguesa no Timor (1596-1975), com a língua portuguesa sendo falada por 5% de sua população.

Em 1975, a Indonésia invadiu e anexou a antiga colônia portuguesa de Timor Leste, com apoio militar e político dos Estados Unidos, submetendo a população local a uma terrível repressão. O número de mortos, entre soldados e civis, foi estimado em até 180 mil pessoas. Houve uma intervenção da ONU e, em 1999, a realização de um referendo, quando os timorenses votaram pela independência, ocorrida em maio de 2002.

Depois de três séculos e meio de colonialismo holandês, a Indonésia conquistou sua independência, após a Segunda Guerra Mundial, em outro sangrento conflito armado. Em 1965, em paralelo ao ocorrido no Brasil, um golpe de Estado do general Suharto, apoiado pelos Estados Unidos e seus aliados, derrubou o governo do líder populista Sukarno, sob o pretexto de deter o avanço comunista.

O banho de sangue vitimou mais de 500 mil de indonésios supostamente comunistas. Violenta e essencialmente corrupta, a ditadura militar de Suharto até quase o fim do século XX, em 1997, promoveu a repressão e a opressão da população. Lá como cá…

O setor industrial é o maior da economia indonésia e, em 2012, respondia por 46% do PIB, seguido por serviços (40%) e pela agricultura (14%). No entanto, o setor de serviços empregava mais pessoas (49% da força de trabalho total do país), seguido pela agricultura (39%) e pela indústria (22%).

As principais importações do país incluem máquinas e equipamentos, produtos químicos, combustíveis e produtos alimentares. Entre os principais produtos de exportação estão petróleo e gás, eletrodomésticos, madeira, borracha e têxteis.

Tenho de continuar estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês…

Paródia sobre: Lima Barreto. O homem que sabia javanês. In: Ítalo Moriconi (org.). Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Rio de Janeiro: Objetiva; 2000.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Antônio Sales Rios Neto Bento Prado Jr. Paulo Martins Carla Teixeira Roberto Noritomi Eugênio Bucci Dênis de Moraes Flávio Aguiar Daniel Brazil Marcus Ianoni Celso Frederico Bruno Fabricio Alcebino da Silva André Márcio Neves Soares José Raimundo Trindade Alexandre de Lima Castro Tranjan Eduardo Borges Valério Arcary Luiz Costa Lima Thomas Piketty José Machado Moita Neto Antonio Martins Heraldo Campos João Adolfo Hansen Remy José Fontana Mário Maestri Luiz Marques Claudio Katz Gerson Almeida Salem Nasser Jean Pierre Chauvin Vinício Carrilho Martinez Eugênio Trivinho Manchetômetro José Geraldo Couto Luis Felipe Miguel Liszt Vieira Antonino Infranca José Costa Júnior João Carlos Salles Sandra Bitencourt Luiz Werneck Vianna Denilson Cordeiro Paulo Fernandes Silveira Paulo Capel Narvai Renato Dagnino Juarez Guimarães Daniel Costa Rodrigo de Faria Rafael R. Ioris Alysson Leandro Mascaro Boaventura de Sousa Santos Andrew Korybko Tales Ab'Sáber Samuel Kilsztajn Francisco Fernandes Ladeira Mariarosaria Fabris Fernão Pessoa Ramos Lorenzo Vitral Eleonora Albano Marjorie C. Marona João Paulo Ayub Fonseca Vladimir Safatle Henri Acselrad Luiz Renato Martins Jorge Luiz Souto Maior Leda Maria Paulani Leonardo Avritzer Jorge Branco André Singer Alexandre Aragão de Albuquerque Luciano Nascimento Marilena Chauí Armando Boito Roberto Bueno Marilia Pacheco Fiorillo Ari Marcelo Solon Igor Felippe Santos Gilberto Maringoni Lucas Fiaschetti Estevez Elias Jabbour Kátia Gerab Baggio Eleutério F. S. Prado Henry Burnett João Sette Whitaker Ferreira Ronald Rocha Ronaldo Tadeu de Souza Luiz Roberto Alves Chico Whitaker Plínio de Arruda Sampaio Jr. Caio Bugiato José Dirceu Marcelo Guimarães Lima José Luís Fiori Osvaldo Coggiola Benicio Viero Schmidt Everaldo de Oliveira Andrade Ricardo Musse Vanderlei Tenório Francisco de Oliveira Barros Júnior Jean Marc Von Der Weid Airton Paschoa Otaviano Helene Michael Löwy Ricardo Abramovay Marcos Aurélio da Silva Berenice Bento Marcos Silva Luiz Bernardo Pericás Fábio Konder Comparato Daniel Afonso da Silva Eliziário Andrade Annateresa Fabris Luiz Carlos Bresser-Pereira Julian Rodrigues Manuel Domingos Neto Ronald León Núñez Paulo Sérgio Pinheiro Luiz Eduardo Soares Walnice Nogueira Galvão Gilberto Lopes Marcelo Módolo Ladislau Dowbor José Micaelson Lacerda Morais Michael Roberts Chico Alencar Lincoln Secco Maria Rita Kehl Gabriel Cohn Celso Favaretto Francisco Pereira de Farias Tarso Genro Milton Pinheiro Érico Andrade Carlos Tautz Fernando Nogueira da Costa Sergio Amadeu da Silveira Ricardo Fabbrini Atilio A. Boron Luís Fernando Vitagliano Flávio R. Kothe Rubens Pinto Lyra Anselm Jappe Dennis Oliveira Leonardo Boff João Feres Júnior Alexandre de Freitas Barbosa Paulo Nogueira Batista Jr João Carlos Loebens João Lanari Bo Valerio Arcary Priscila Figueiredo Anderson Alves Esteves Ricardo Antunes Leonardo Sacramento Yuri Martins-Fontes Bruno Machado Afrânio Catani Bernardo Ricupero Tadeu Valadares Slavoj Žižek

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada