Por FRANCISCO FOOT HARDMAN*
Comentário sobre o filme dirigido por Huo Meng
1.
Grata surpresa ver esse filme chinês dirigido por Huo Meng, que foi lançado internacionalmente com o título em inglês (Living the Land), depois de ter sido finalizado em 2024 e recebido, a justo título, a premiação maior para seu criador – o Urso de Prata – no festival de cinema de Berlim, em 2025.
O título original em chinês é Sheng Xi Zhi Di, que pode muito bem corresponder a sua tradução em inglês, afora o mal-entendido com uma bilheteira do Cine Belas Artes, que deu como certo tratar-se de produção norte-americana… O público que acorreu às poucas salas e sessões em que o filme passou, em São Paulo, foi muito pequeno, que pena!
A grandeza poética das imagens que Huo Meng conseguiu produzir são maravilhosas, tanto no aspecto imagético de figuração das paisagens rurais de uma China ainda dominada pelas comunidades camponesas e pela passagem das estações, quanto no aspecto moral de uma humanidade em que vida coletiva, produção agrícola e laços afetivos formam um só conjunto.
No primeiro aspecto, do que me foi dado ver do cinema chinês, a beleza sublime dos campos na China em Living the Land me fez lembrar de Sorgo Vermelho, filme de Zhang Yimou, de 1987, inspirado em romance homônimo do grande Mo Yan, e que levou o Urso de Ouro como melhor filme no festival de Berlim de 1988.
Mas o esplendor comum de paisagens é apenas um traço comparativo interessante entre essas obras e suas respectivas gerações de artistas e criadores. Enquanto Sorgo Vermelho tem como pano de fundo a invasão japonesa à China e a guerra de libertação nacional (1937-1945) e se passa numa aldeia rural da província de Shandong, no Leste da China, Living the Land trancorre numa pequena vila camponesa ficcional (Bawangtai), mas, certamente, em muito inspirada na terra natal de Huo Meng.
Ele nasceu em Zhoukou, distrito de Taikang, em 1984, na então muito pobre província de Henan, no Sudeste da China. Como ele próprio faz questão de enfatizar, o filme tem sim uma inspiração autobiográfica, e sua narrativa pontua que a história se passa no ano de 1991.
O diretor, portanto, teria seus 7 anos de idade: não há como negar que o personagem-menino Xu Chuang, interpretado pelo grande ator mirim Shang Wang, um dos pontos altos de atuação no filme, guardará afinidades eletivas com as memórias de Huo Meng.
Além de sermos cativados pela sensibilidade infantil e inteligência fina de Chuang, o filme nos aprisiona nas comoventes interpretações femininas da sempre presente tia Li Xiuying, encarnada pela linda e excelente atriz Chuwen Zhang, e na figura essencial da bisavó Zhang Yanrong, vivida pela atriz veterana Zhang Caixia.
2.
Mas essa, afinal, não é uma narrativa fundada em heroicidades épicas. Sua epopeia, se é que é possível falar assim desse modo, repousa na sorte de um povo. Que segue seus rituais fúnebres, suas fainas agrícolas milenares, seus arranjos e intrigas familiares, suas festas ruidosas e, por que não dizer?, carnavalescas, como um destino compartilhado na sucessão de gerações e no aqui-e-agora.
Quanta poesia que emana da cena sem dizer seu nome! Quantas cores na passagem dos caminhos entre aldeia e campo! Eis ali o trigo que a todos sustenta e as águas que sempre ensinam velhas e novas veredas!
Para alinhavar tais efeitos, a película teve que contar com muitíssimos figurantes. Que compõem a cena sem alardes e com harmonia. Não há como fugir, em se tratando de Living the Land, de retomar os ensinamentos do grande cientista social chinês Fei Xiaotong (1910-2005), que encerrou sua trajetória acadêmica, em suas últimas décadas, como professor na Universidade de Pequim.
Desde suas pesquisas de campo pioneiras, no centro da China, em torno da vida rural na região do vale do rio Yangtzé, que deram origem à obra Peasant Life in China (1939), até seu clássico estudo From the Soil: the foundations of Chinese Society (Shanghai, 1947; Berkeley, 1992), as imagens da vida coletiva representada no filme de Huo Meng é como se replicassem suas teses, sem jamais recair, entretanto, em qualquer didatismo ou esquema sociológico preconcebido.
Mas, afinal, por que o diretor insistiu tanto no ano de 1991, para além de qualquer capricho autobiográfico? Como vai sendo sugerido, ao longo das duas horas de sua trama, naquela virada dos anos 1980/90, pós-Revolução Cultural, a China buscava acelerar seu desenvolvimento industrial-tecnológico.
E no caso do Sul do país, o grande símbolo urbano que despontava era a cidade de Shenzhen, na província de Guangdong, que de pacata aldeia de pescadores iria se tornar, em poucos anos ou décadas, um dos polos de inovação técnica e produção industrial de ponta na China e no mundo, hoje alcançando mais de 17 milhões de habitantes.
Fiquem tranquilos: essa metrópole não aparece fisicamente no filme… Mas, naquele entrecho, do início dos anos 1990, ela é citada como destino de vários personagens do filme, em busca de novos trabalhos e da ilusão, quem sabe, de um “sonho feliz de cidade”. Novamente, aqui, estamos diante de fenômeno global, com todas as suas tendências e contradições: a imigração campo-cidade.
Em nenhum momento, entretanto, o filme perde o foco: vivendo a terra. Mesmo quando chegam as primeiras máquinas que substituem o arado tradicional movido a animais. Mesmo quando chegam os técnicos em prospecção de petróleo, que vasculham os campos até aqui férteis para o trigo, a fim de vê-los cobertos com o jorrar do “ouro negro”. E algumas camponesas olham aquele movimento estranho e replicam: – Mas não se pode comer petróleo!
E o que dizer da família que persiste na produção de tijolos numa velha olaria da aldeia, como se o tempo não passasse? Se o tom vermelho escuro predomina nas tomadas mais próximas dos personagens e dos interiores das casas, na grande angular tem-se tonalidades variadas e vivas conforme os caminhos e as estações.
Também de noite veem-se silhuetas, na intermitência da eletricidade que chega às praças e cômodos, ou no lusco-fusco de percursos quase clandestinos, como na cena antológica da troca de cartas e livros entre o professor carismático da escola primária e a inolvidável Xiuying, premida entre o casamento arranjado e imposto com o dono do caminhão da aldeia e seu amor clandestino pelo mestre já de partida. Único cúmplice, portador e testemunha: o garoto Chuang, mais confiável do que qualquer adulto.
Xiuying é a mesma que ajuda outras jovens a enganarem as autoridades quanto ao teste de fertilidade (o controle de natalidade já se instalava com força no país). E é ela quem protagoniza outra cena belíssima, e que tem uma de suas imagens, não por acaso, destacada no cartaz oficial do filme. Com prodigalidade, a tia negocia picolés para mais de uma dúzia de parentes e agregados, numa tarde quente, e essa experiência coletiva é um momento de muita poesia. Isso, depois da mãe ter negado a um dos filhos manhosos a compra do sorvete.
Aqui, também, convivemos com a estranheza do jovem retardado mental Jihua: protegido por muitos, inclusive seu meio-irmão Chuang e a bisavó Yanrong, o jovem cresce sem conseguir falar, nem se comportar como os demais. Isso desencadeia a fúria do pai, dos vizinhos e dos moleques próximos.
E Jihua, na cena há pouco citada, não sabe como saborear o picolé. Gosta mais de se enroscar nos animais da aldeia, a começar das cabras com que brinca alegremente. E elas, saltitantes, parecem retribuir sua alegria. Mas seu fim trágico, de que somente Chuang parece se dar conta, sugere, também, que a vida coletiva é generosa com quem se adapta aos seus ditames, podendo ser extremamente cruel, no entanto, para com seus entes estranhos. Ou idiotas.
*Francisco Foot Hardman é professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China Tropical: crônicas de viagem (Unesp) [https://amzn.to/42nrjKN]
Referência
Vivendo a terra (Living the land).
China, 2025, 132 minutos.
Direção e roteiro: Huo Meng
Elenco: Wang Shang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong Zhang Caixia, Cao Lingzhi.






















