Lembram o que fizeram no verão passado?

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Por FRANCISCO FOOT HARDMAN

A comparação com as Diretas-Já de 1984, no caso do “Estamos juntos” é presunçosa e descontextualizada. Lembra mais uma valsa nostálgica de quem não quer assumir responsabilidade pelos descalabros cometidos

Está bem. Estamos todos juntos. Vamos unificar e fortalecer um movimento para remover, o quanto antes, o governo miliciano neofascista de Bolsonaro. Não é nenhuma ideologia que assim postula. É um imperativo de vida. Vidas que o desgoverno atual em seus descaminhos da morte, ajudou e ajuda a cada dia e hora, a ceifar, nos pondo no alto do inglório ranking mundial de óbitos. Parcela grande deles que poderia ter sido evitada, é que o evidenciam todos os estudos científicos sérios. E, nisso, não há que tergiversar, porque se trata de emergência sanitária a que toda cidadania e todo agente público deve ter como prioridade ineludível.

Vidas que o fundamentalismo neoliberal do “Posto Ipiranga” e sua retórica vazia jogou e joga nas calendas do desemprego recordista e da depressão que já se anuncia a mais abissal. Estamos juntos, sim, os que apostam em outros modos possíveis de organizar a vida econômica, com priorização total, não aos dinheiros mas às pessoas comuns de cujo trabalho depende tudo que somos, e enfrentar, com cara e coragem, o colapso socioambiental que é planetário, mas é brasileiro, amazônico, e cujo destino está nas mãos desta geração.

Vamos defender o que resta da Constituição de 1988, antes que seja toda rasgada. E as manifestações crescentes de setores populares de torcidas futebolísticas organizadas, antifascistas e antirracistas, não têm nada de baderna, senhor vice-presidente Gal. Mourão, porque o cerne da baderna está no presidente que calamitosamente chefia o seu governo, com seus rompantes golpistas e provocadores, com os anjos do mal que o cercam armados e fazem algazarras ameaçadoras aos poderes da República. Com o gabinete do ódio montado às escancaras desde a campanha de 2018, alojado no Planalto, destilando a desordem da irrazão e da violência contra todas e todos que não juram fidelidade à “família”. Quem é o astro central da baderna nacional, neste instante? Quem faz a imagem internacional do Brasil disparar rumo ao poço? O cerne da baderna está na famigerada reunião ministerial de 22 de abril, em que se pregou abertamente o armamento do “povo” (leia-se: milícias) para defender um presidente violento e sua família. Nas barbas dos militares que ali assentavam cargo. Será que a “liberdade de expressão” abriga o incitamento claro ao ataque a governadores, prefeitos, STF, Congresso? Pregar abertamente o golpe é um ato de “livre expressão”?

Contra essas aberrações de típica filiação fascista, estamos juntos. É preciso unir forças nas ruas, dos movimentos populares, sociais, sindicais, às ações concretas que se fazem ver no STF, Congresso, TSE. É preciso encarar essa luta com a urgência que o caráter destrutivo do atual desgoverno contra a Nação dá mostras, ao país e ao mundo, todo santo dia. Sim, quem sabe a inspiração dos atuais combates de rua nas principais cidades norte-americanas, e já da Europa, contra o racismo atávico da polícia de lá (qualquer semelhança com os negros mortos diariamente no Brasil não é mera coincidência) seja o elo de solidariedade que faltava à retomada das mobilizações massivas em nosso país.

O ar que faltou na asfixia assassina de George Floyd é a centelha do grito de milhões, inclusive no Brasil. Essa é a democracia que se faz na luta. Essa luta que mostra como são ainda precárias as tais instituições democráticas nos dois maiores países escravistas da história moderna, EUA e Brasil. Como os tão decantados “pesos e contrapesos” estão com sua balança bichada, de há muito, e pendente, se sabe bem, para qual lado.

Estamos juntos, sim. Mas é forçoso lembrar aos democratas do pau oco, e suas grandes mídias insinuantes, que não há democracia digna do nome num país que convive, há mais de dois anos, com o não esclarecimento peremptório acerca dos mandantes da morte da vereadora negra Marielle Franco. Que convive há anos, com o descarado partidarismo e politização dos Intocáveis de Curitiba, chefiados pelo Eliot Ness de Maringá, Sérgio Moro, mais vocacionado, em seu arrivismo oportunista incontido, a ser ajudante de ordens de Bolsonaro, em várias medidas de cunho autoritário, até que seu apetite de poder o levou a ser apeado pelo chefe. Que posterga, como questão menor, a anulação das condenações do ex-presidente Lula, assim como a devolução de seus direitos políticos cassados. Que elide o claro golpismo na ação orquestrada – FHC, Aécio, Serra e Aloísio à frente, entre outros – que levou ao impeachment da presidente Dilma, anulando a vontade manifesta de 54 milhões de eleitores. Que corroborou, em 2018, a estrondosa manipulação e financiamento ilegais da máquina de fake-news responsável em grande parte pela vitória de Bolsonaro contra Haddad.

Que democracia é esta? A que vai da Barão de Limeira até Higienópolis? Da Marginal do Limão, no máximo Lapa, até Consolação? Do Jardim Botânico, no Rio, à avenida Berrini, em São Paulo, voando pelo alto? Que drones do mau jornalismo fazem essa cobertura chantilly, melosa com Huck e Moro, e preconceituosa, mais ou menos disfarçada, com os não nascidos em berço esplêndido?

A comparação com as Diretas-Já de 1984, no caso do “Estamos juntos” é presunçosa e descontextualizada. Lembra mais uma valsa nostálgica de quem não quer assumir responsabilidade pelos descalabros cometidos, a começar do veto ao uso da expressão “extrema-direita” para caracterizar o perfil de Bolsonaro, que ascendeu, assim, rumo à sua articulação de tipo fascista, posando de mais um direitista meio aloprado. Parece que esse erro de análise, que nos está custando caríssimo, foi encampado, no geral, pelos militares que o rondam como servos fiéis.

Porque, por mais assinaturas e petições que se abram, o momento trágico, do Brasil e do mundo, exige: se é para se construir um novo pacto democrático, ele não pode ser novamente um acordão das elites – como bem lembraram, nesses dias, entre outros, Roberto Requião e Roberto Amaral[1] — e, para isso, o povo brasileiro, em sua absoluta maioria (certamente maior do que 70%), de todas as regiões do país, deve ser convocado, com os cuidados que o momento exige, a participar efetivamente dessa reconstrução do país.

Sirvo-me livremente de imagens do já antológico Manifesto da Antropofagia Periférica, do poeta mineiro-paulista Sérgio Vaz, para lembrar que só pode haver esperança de um Brasil renascido das cinzas se se assumir a centralidade de todas as periferias neste processo, essa sim a verdadeira unidade que se constrói “pelo amor, pela dor, pela cor”. É só dessa liga que se pode reafirmar o que na história brasileira tem sido reiteradamente sequestrado. E, aqui, com o poeta, o que pode com efeito fazer a diferença: “Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros”.

*Francisco Foot Hardman é professor de teoria e história literária do IEL da Unicamp e, atualmente, professor visitante da Escola de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim (PKU).

[1] Roberto Requião, “Sempre a mesma coisa, a mesma merda, sempre”, 2-6–2020, site Brasil247; Roberto Amaral, “A casa grande já teme o caos”, 2-6-2020, site www.ramaral.org.