Joseph Safra na mídia corporativa

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Por CAIO NAVARRO DE TOLEDO e COLETIVO “PENSAR A HISTÓRIA”*

Contra os panegíricos. Por um relato rigoroso e verídico dos fatos

                                “Melhor do que roubar bancos é fundar um” (Bertolt Brecht)

O caráter classista do jornalismo da Folha de S. Paulo ficou amplamente evidenciado pelos textos que noticiaram o falecimento do banqueiro Joseph Safra. Nas quatro matérias publicadas – a rigor, autênticos panegíricos –, são exaltadas, além das qualidades do notável “empreendedor”, suas iniciativas de grande mecenas e filantropo “sempre empenhado em manter a tradição de devoção a causas dignas”. Num dos textos também ficamos sabendo que o maior banqueiro do mundo tinha uma alma sensível, pois teria se arrependido da construção de sua mansão de 11 mil m2 – que não era mais sua residência nos últimos anos –, localizada a centenas de metros das miseráveis casas de favelados no bairro do Morumbi, na capital paulista…

Um jornalismo comprometido com o relato rigoroso e verídico dos fatos não exigiria que o leitor tivesse conhecimento do conjunto da trajetória empresarial e política de uma figura pública, não apenas de seu “sucesso no mundo dos negócios”?

Ao editar quatro matérias que sonegam ao seu leitor informações sobre conhecidas controvérsias nas quais esteve envolvido o vitorioso falecido, a Folha de S. Paulo, sem ambiguidades, toma partido. Não a “serviço do Brasil”, mas de setores sociais e econômicos dominantes no país.

O mesmo pode ser dito sobre a cobertura nos demais veículos da mídia corporativa. Será possível imaginar que o falecimento de uma liderança política – comprometida com a defesa de causas populares – receberia da editoria destes órgãos apenas louvor e eloquentes encômios?

As “controvérsias” públicas nas quais esteve envolvido o Grupo Safra e os gestos de filantropia do homem mais rico do Brasil são relatados no criterioso texto (abaixo) de um coletivo de historiadores brasileiros.

(Caio Navarro de Toledo)

Joseph Safra

Erguida em estilo eclético, com detalhes inspirados na arquitetura do Palácio de Versalhes, a mansão do banqueiro tem 130 cômodos distribuídos por cinco andares e uma infraestrutura completa que inclui heliponto, nove elevadores, entrada de energia capaz de abastecer uma cidade de 2.000 habitantes e até uma piscina subterrânea. A área construída da mansão é de 11.000 metros quadrados – quase o dobro do tamanho do Museu do Ipiranga. A residência figura como uma das propriedades mais caras do mundo. Apesar disso, a mansão quase não era utilizada, já que Joseph Safra passou as últimas décadas vivendo em uma de suas propriedades na Suíça.

Falecido aos 82 anos, Joseph Safra era o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em 120 bilhões de reais. Era também o banqueiro mais rico do mundo. O Banco Safra é o 4º maior banco privado do país, com ativos superiores a 230 bilhões de reais. Em 2019, o lucro líquido da instituição foi de 2,2 bilhões de reais – montante inteiramente direcionado a aumentar o patrimônio de seu proprietário, uma vez que o Banco Safra é uma empresa de capital fechado e o Brasil é um de apenas dois países do mundo que não cobram impostos sobre a distribuição de lucros e dividendos. Os herdeiros de Safra também poderão desfrutar de sua fortuna de forma quase integral, já que o Brasil possui uma das menores alíquotas de impostos sobre herança do mundo.

Joseph Safra nasceu em uma família de banqueiros sírio-libaneses de ascendência judaica. A família, proprietária do Banco Jacob E. Safra, imigrou para o Brasil nos anos 50, fundando o Banco Safra S.A. em 1957. O patriarca da família, Jacob Safra, legou uma grande fortuna aos seus três herdeiros – Joseph, Edmond e Moise. Edmond morreu em um incêndio criminoso e Moise vendeu sua participação na instituição financeira ao irmão, que passou a ser o único controlador do banco.

Apoiadora da ditadura militar, a família Safra conseguiu aumentar exponencialmente seu patrimônio nos anos 60 graças ao bom relacionamento com a alta burocracia do regime. Os Safra foram enormemente beneficiados pelos incentivos dados pelo governo federal aos empresários do Sul e do Sudeste para a aquisição de grandes extensões de terras a preços irrisórios, com estímulos fiscais da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Em 1967, a família Safra adquiriu um gigantesco latifúndio de 50 mil hectares na Bacia do Araguaia, uma região de ocupação tradicional do povo Xavante, expulso pelos militares com o fim de abrir caminho para a exploração comercial do território. A área de vegetação pantaneira foi inteiramente desmatada para a criação de gado e plantação de soja, sob gestão de duas empresas pertencentes ao Grupo Safra – a Pastoril Agropecuária Couto Magalhães S.A. e a Agropecuária Potrillo S.A.

Anos depois, Joseph Safra ampliaria os investimentos no setor agrícola, formando uma joint venture com a Cutrale (gigantesca corporação do setor de cítricos) para adquirir ao custo de 1,3 bilhão de dólares a multinacional estadunidense Chiquita Brands. A empresa é a sucessora da United Fruit Company, que ao longo do século XX financiou ativamente a derrubada de democracias latino-americanas, ajudando a consolidar no poder uma série de ditaduras militares subordinadas aos interesses corporativos dos Estados Unidos. Entre várias outras ações criminosas, a United Fruit Company foi responsável pelo infame Massacre das Bananeiras de 1928, quando mil trabalhadores grevistas foram metralhados no município de Aracataca, na Colômbia. O Grupo Safra também é coproprietário da Aracruz Celulose, maior produtora mundial de celulose branqueada. A Aracruz é acusada de ocupar ilegalmente terras de povos indígenas e quilombolas e de causar graves danos ambientais, incluindo a contaminação de ecossistemas com dioxina, um material altamente cancerígeno.

Joseph Safra foi alvo de várias investigações criminais na última década. No âmbito da Operação Zelotes, o banqueiro foi acusado de pagar 15,3 milhões de reais em propinas para obter posicionamentos favoráveis do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), um órgão da Receita Federal. Safra chegou a ter parte de seu patrimônio temporariamente bloqueado durante a investigação, mas foi absolvido, a despeito das acusações dos promotores sustentarem o seu envolvimento direto no esquema. Em 2019, como desdobramento da Operação Lava Jato, o Ministério Público da Suíça acusou o Banco Safra de acobertar dinheiro proveniente de corrupção e condenou Joseph Safra a pagar 10 milhões de dólares de multa por ter conduzido operações fraudulentas em benefício de Paulo Maluf. Já no Brasil, Safra foi acusado de participar de um esquema de lavagem de dinheiro pelo doleiro Dario Messer, mas o procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, chefiados por Deltan Dallagnol, resolveram arquivar as denúncias sem qualquer investigação sobre o conteúdo da delação.

Após a morte do banqueiro, a imprensa brasileira ignorou todas essas controvérsias, preferindo exaltar o seu “espírito empreendedor” e suas “atividades filantrópicas”, tratadas de forma genérica, sem detalhar qual o alcance desse legado. A economia de detalhes explica-se pela irrelevância para o público nacional. As ações filantrópicas de Joseph Safra concentram-se quase que inteiramente nos Estados Unidos e em Israel: bolsas de estudo para alunos judeus e contribuições financeiras para sinagogas, universidades e centros médicos israelitas. Safra não doou um centavo para a reconstrução do Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas legou um precioso tesouro ao Museu de Israel – um manuscrito original de Einstein sobre a Teoria da Relatividade, adquirido em um leilão em Nova York por alguns milhões de dólares. No Brasil, a atividade filantrópica de Joseph Safra limitou-se à edição de catálogos, doação de cinco cópias de estátuas de Rodin para a Pinacoteca de São Paulo, contribuições financeiras para hospitais privados frequentados pela elite paulistana, como o Sírio Libanês e o Albert Einstein, além da reforma da Sinagoga Beit Yaacov, templo situado entre os luxuosos domicílios do bairro nobre de Higienópolis, na região central da capital paulista.

*Caio Navarro de Toledo é professor aposentado da Unicamp. É autor, entre outros livros, de Iseb: Fábrica de ideologias(Ática). Editor do site marxismo21.

*Pensar a História é um coletivo de historiadores.

Artigo publicado na página do Facebook Pensar a história – Museu de história.

 

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