Jerusalém colonial – judeus portugueses no Brasil holandês

Jean-Michel Basquiat, Sem título, 1982.
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por BRUNO GUILHERME FEITLER*

Comentário sobre o livro de Ronaldo Vainfas

Neste livro, Ronaldo Vainfas se mantém dentro da temática dos estudos socioreligiosos, seguindo um veio que iniciou com Trópico dos pecados (1989). Vainfas estuda desde então fenômenos vários de desvios religiosos no mundo católico português. Esse prisma muitas vezes ilumina mais as instituições e as culturas dominantes do que os estudos a elas diretamente dedicados. Trata-se de uma história sociológica, voltada para as rupturas e as descontinuidades, à la Foucault, que Ronaldo Vainfas domina com extrema sensibilidade e familiaridade.

Jerusalém colonial – judeus portugueses no Brasil holandês, além de estudar a estrutura e o funcionamento da comunidade sefardita local, não foge à regra de destacar personagens heterodoxos. Não lhe interessa estudar ritos e cerimônias religiosas, mas antes o comportamento social e os dilemas de identidade de seus personagens, uma questão, diga-se de passagem, bastante atual. Com todos os cuidados necessários, Vainfas abre uma janela para as relações entre religião, cultura, origem geográfica e identidade no mundo português, nas quais esses judeus estavam inseridos muitas vezes com extremo gosto, e a despeito da rejeição que sofriam de parte dos “bons” católicos.

Essa leitura sociológica da (curta) história da comunidade judaico-nordestina (1636-1654) tem origem no próprio percurso de Ronaldo Vainfas. Mas também deve muito à mais recente produção historiográfica sobre a diáspora sefaradita, como ele claramente frisa na introdução, sobretudo aos trabalhos de Yosef Kaplan e seu conceito de “judeu-novo”. Tais judeus, descendentes daqueles convertidos à força no Portugal de 1497, estigmatizados pelo epíteto de “cristãos-novos”, sofreriam, por sua origem judaica e por uma vivência católica por vezes secular, “dramas de consciência”.

Ronaldo Vainfas faz assim uma história geral da comunidade judaica do Recife de Israel (Kahal Kadosh Tsur Israel), cuidadosamente reconstituindo o percurso da comunidade mãe de Amsterdã, e retomando de José Antônio Gonsalves de Mello – sua principal inspiração – temas como a importância dos sefarditas para a economia, sobretudo para o empreendimento comercial da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil, sem deixar de concentrar-se na questão identitária. Ele procurou evitar qualquer conceituação mais ampla de um ‘espírito judaico’ ou sefardita, como fizeram muitos dos seus predecessores. Cuidou assim de não reduzir a análise da religiosidade dessas pessoas a algo de unívoco, desviando-se do caminho seguido pelos inquisidores, e pondo em causa autores mais recentes como Nathan Wachtel, que defendem a idéia de uma “essência judaica” generalizada dos cristãos-novos ibéricos.

Ronaldo Vainfas contudo sucumbe, ao meu ver, a uma certa generalização, ao afirmar que “a ambivalência dos judeus novos era, portanto, inerente à identidade cultural – e individual – da maioria deles”. Mas essa pequena nota não diminui em nada a importância do livro. Ele aplica ao caso brasileiro, no seu estilo instigante e inconfundível, as mais recentes interpretações historiográficas sobre o judaísmo sefardita, que até agora permaneceram restritas a limitadas publicações acadêmicas.

Jerusalém colonial também traz novidades. Revê de modo surpreendente, entre outras questões (a origem recifense do judaísmo de Nova York, a figura do jesuíta Antônio Vieira, as divisões no seio da comunidade judaica…), a personagem de Isaac de Castro Tartas. Preso na Bahia em nome da Inquisição em 1644, e queimado vivo em seguimento ao auto-da-fé lisboeta de 1647, ele foi transformado num verdadeiro mártir do judaísmo pela comunidade de Amsterdã. Vainfas desfaz o mito do erudito e corajoso rapazola que de Recife teria passado a Salvador para proselitizar cristãos-novos, mostrando a trágica indefinição identitária de Isaac.

O autor também consegue, retomando uma documentação já surrada, encontrar novas e interessantes leituras da estrutura social da comunidade judaica do Pernambuco holandês. Mostra que Tsur Israel foi monopolizada por homens vindos da Europa. Ele fala primeiramente de “Uma nova diáspora, diáspora colonial” para se referir à comunidade pernambucana, tendo em vista sua ligação intrínseca com a empresa da Companhia das Índias Ocidentais.

Mas em seguida mostra que essa colonialidade também pode ser flagrada na preponderância numérica, que os “retornados” na Europa tinham sobre os que se tornaram judeus professos no Brasil. Para crescer, a comunidade dependeu sobretudo da imigração. Finalmente, essa preponderância europeia também era social. “Os judeus convertidos no Recife acabaram relegados à condição de judeus de segunda categoria. Judeus incertos. Judeus coloniais”. É sem dúvida isso que explica que alguns desses judeus-novos tenham escolhido ir para Amsterdã para se fazer circuncidar, em vez de utilizar os serviços dos mohelim locais.

A escolha de uma estrela de seis pontas para ilustrar a capa do livro constitui um anacronismo editorial. A chamada estrela de Davi só se tornou um símbolo especificamente judaico durante o século XVIII, a partir do mundo askenazi.

*Bruno Guilherme Feitler é professor de história na UNIFESP. Autor, entre outros livros, de Nas malhas da consciência: Igreja e Inquisição no Brasil – Nordeste 1640-1750 (Alameda).

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 11, março de 2011.

Referência

Ronaldo Vainfas. Jerusalém colonial: judeus portugueses no brasil holandês. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 376 págs.

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Leonardo Avritzer Ricardo Fabbrini Rubens Pinto Lyra Luiz Renato Martins Otaviano Helene Eugênio Trivinho Manchetômetro Luiz Carlos Bresser-Pereira Milton Pinheiro Gilberto Maringoni José Geraldo Couto Luiz Bernardo Pericás Remy José Fontana Michael Roberts Leonardo Boff Ricardo Antunes Alysson Leandro Mascaro Bernardo Ricupero Luiz Eduardo Soares Paulo Nogueira Batista Jr Paulo Sérgio Pinheiro Daniel Costa Flávio R. Kothe Eugênio Bucci Luiz Werneck Vianna Anselm Jappe Eleutério F. S. Prado Vanderlei Tenório Luiz Marques Ronald León Núñez Everaldo de Oliveira Andrade Luís Fernando Vitagliano João Lanari Bo Francisco Pereira de Farias Berenice Bento Michel Goulart da Silva Vinício Carrilho Martinez Ronaldo Tadeu de Souza Daniel Afonso da Silva Chico Alencar Sergio Amadeu da Silveira Valerio Arcary João Sette Whitaker Ferreira Celso Frederico João Adolfo Hansen Maria Rita Kehl André Márcio Neves Soares Samuel Kilsztajn Leonardo Sacramento José Machado Moita Neto Liszt Vieira Priscila Figueiredo João Paulo Ayub Fonseca Afrânio Catani Annateresa Fabris Mariarosaria Fabris Tadeu Valadares Paulo Fernandes Silveira Leda Maria Paulani João Carlos Salles Tarso Genro Fernão Pessoa Ramos Daniel Brazil Salem Nasser João Carlos Loebens Ari Marcelo Solon Atilio A. Boron Alexandre Aragão de Albuquerque Dennis Oliveira José Costa Júnior Andrew Korybko Henri Acselrad Tales Ab'Sáber Ricardo Musse Marcelo Módolo Sandra Bitencourt Luis Felipe Miguel Mário Maestri Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Gilberto Lopes Heraldo Campos Lincoln Secco Yuri Martins-Fontes André Singer José Micaelson Lacerda Morais Marcos Aurélio da Silva Flávio Aguiar Caio Bugiato Jorge Branco Rodrigo de Faria Bruno Machado Eliziário Andrade Marcos Silva Gabriel Cohn Boaventura de Sousa Santos Ronald Rocha Antonio Martins Paulo Martins Francisco Fernandes Ladeira Osvaldo Coggiola Alexandre de Lima Castro Tranjan Gerson Almeida José Dirceu Antonino Infranca Thomas Piketty João Feres Júnior Julian Rodrigues Luciano Nascimento Slavoj Žižek José Raimundo Trindade Bruno Fabricio Alcebino da Silva Walnice Nogueira Galvão Manuel Domingos Neto Jorge Luiz Souto Maior Marilena Chauí José Luís Fiori Carla Teixeira Juarez Guimarães Michael Löwy Eduardo Borges Andrés del Río Henry Burnett Matheus Silveira de Souza Jean Pierre Chauvin Lucas Fiaschetti Estevez Chico Whitaker Rafael R. Ioris Dênis de Moraes Fábio Konder Comparato Igor Felippe Santos Marilia Pacheco Fiorillo Bento Prado Jr. Elias Jabbour Érico Andrade Antônio Sales Rios Neto Renato Dagnino Benicio Viero Schmidt Kátia Gerab Baggio Airton Paschoa Alexandre de Freitas Barbosa Marcelo Guimarães Lima Francisco de Oliveira Barros Júnior Plínio de Arruda Sampaio Jr. Eleonora Albano Paulo Capel Narvai Ricardo Abramovay Vladimir Safatle Ladislau Dowbor Lorenzo Vitral Jean Marc Von Der Weid Anderson Alves Esteves Marcus Ianoni Carlos Tautz Marjorie C. Marona Luiz Roberto Alves Denilson Cordeiro Claudio Katz Armando Boito Celso Favaretto Fernando Nogueira da Costa

NOVAS PUBLICAÇÕES