Colonizar o século XXI

Imagem: RobinMcPherson
image_pdf

Por JUAREZ GUIMARÃES*

Como resposta regressiva à crise da hegemonia norte-americana, o neoliberalismo criou uma nova linguagem para legitimar o colonialismo no século XXI

O período do pós-guerra costuma ser identificado historicamente como uma época da descolonização: as lutas de libertação nacional na Ásia, na África, os nacionais-desenvolvimentismos na América do Sul. Era o tempo do pan-africanismo, do pan-arabismo, do movimento terceiro-mundista, o apogeu da Cepal como construção dos caminhos próprios do desenvolvimento na América Latina. Uma consciência histórica dos crimes coloniais emergiu como um paradigma incontornável de civilização.

Como se recriou, então, em pleno século XXI a legitimação de novos colonialismos, abafando e neutralizando aquela consciência do direito à auto-determinação dos povos?

Já no início dos anos cinquenta, os intelectuais formadores do neoliberalismo identificaram neste movimento de auto-determinação dos povos, com o empoderamento dos Estados nacionais e a noção de planejamento para a superação do subdesenvolvimento, um inimigo siamês dos socialismos e do keynesianismo. Tratava-se de entender à luta pela supremacia do Ocidente, agora identificado com a liderança do Estado norte-americano, como parte da luta contra a ameaça totalitária, ampliando e aprofundando a dinâmica da “guerra fria”.

Dialogando criticamente com John Toye (A contrarrevolução na economia do desenvolvimento), Dieter Plehwe em “As origens do discurso neoliberal na economia do desenvolvimento” identifica já no início dos anos cinquenta as primeiras agendas e obras neoliberais sobre o tema do desenvolvimento para os países saídos de experiências de domínio colonial, os anos sessenta e setenta como disputa de paradigmas e os anos oitenta do século passado já com um discurso neoliberal dominante nas agências internacionais de desenvolvimento e no mainstrean econômico.

Peter Bauer, elogiado e condecorado por Thatcher e parceiro de Friedrich Hayek na Sociedade Mont-Pèlerin,, se tornaria um autor referencial neoliberal nesta área com o seu The Economics of Under-developed countries (Cambridge, 1957).

 

Seis argumentos

A primeira linha de argumentação foi exatamente a de investir em uma revisão histórica do colonialismo, oferecendo uma alternativa à “consciência culpada” da experiência imperialista: ao contrário do discurso crítico à experiência colonial, os povos colonizados teriam se beneficiado do contato civilizatório com os países capitalistas avançados. Os povos mais atrasados do mundo seriam aqueles que não teriam se beneficiado deste contato. Hong Kong e Nova Zelândia seriam exemplos virtuosos deste contato com o progressivismo destas civilizações. A própria escravidão teria origem em práticas já estabelecidas entre os povos africanos.

O ordoliberal Alexander Rustow, em polêmica com o clássico John Hobson de Imperialismo (1902), propôs separar capitalismo de imperialismo, indicando este último à prática de Estados centralizados e de poder político expansionista.

O segundo argumento foi a crítica ao ponto 4 do famoso discurso do presidente Truman de 1949, no qual este defendia a ajuda econômica aos países subdesenvolvidos em prol de sua dinâmica de modernização, em alternativa a caminhos nacionalistas e revolucionários. Os neoliberais argumentariam cerradamente que toda ajuda financeira seria inútil, devido às elites corruptas que dirigiriam os Estados destes países e frente aos impasses estruturais a um desenvolvimento similar aos dos países capitalistas centrais. Rustow mais cinicamente, argumentaria que uma lógica de segurança do Ocidente deveria prevalecer sobre o princípio de auto-determinação e idealismos.

Na prática, o que se procurou neutralizar foi o direito de reparação histórico destes povos submetidos à colonização.

Estabeleceu-se, em terceiro lugar, uma polêmica contra as obras referenciais de Gunnar Myrdal (Economic Theory and Underveloped Regions, 1957) e de Raul Prebisch, fundador da Cepal, autor da teoria da troca desigual, a quem Celso Furtado chamava de mestre. O que se arguiu foi que a base de dados usada por Raul Prebisch era insuficiente para provar as tendências desfavoráveis historicamente aos países subdesenvolvidos na importação de produtos industrializados dos países capitalistas centrais e na exportação dos produtos primários para eles.

A tradição nacional-desenvolvimentista, hegemônica no Brasil nos anos cinquenta até 1964, seria levada nas décadas seguintes à condição de uma teoria econômica heterodoxa sobre o desenvolvimento.

O quarto campo de argumentação neoliberal foi no sentido de atacar o “mito” da industrialização periférica, no sentido de confirmar o destino agrarista destes países. A ausência de capitais internos acumulados devido à baixa propensão a poupar vigente nestes países, a ausência de um mercado de capitais configurado e sistemas bancários inadequados seriam bloqueios estruturais a um processo autônomo de industrialização. Neste sentido, autores neoliberais chegaram a levantar dúvidas sobre a economicidade e o retorno de campanhas amplas de educação pública ou de alfabetização.

Tratava-se aqui, em suma de cristalizar a divisão internacional de trabalho herdada do século XIX, obstaculizando políticas e planejamentos sistêmicos voltados à industrialização, mantendo estes mercados cativos e não competitivos.

Um quinto campo neoliberal foi o de propor o caminho da integração e do comércio internacional como futuro para os países subdesenvolvidos. As suas dinâmicas de modernização passariam a ser estritamente dependentes da aposta unilateral na integração econômica, via o acesso ao comércio internacional.

Não deixa de ser impressionante como todas estas linhas argumentativas foram como que uma base de fundamentos para as grandes opções econômicas neoliberais no Brasil, de FHC até hoje.

Por fim, uma sexta linha de argumentação dirigia-se contra a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e seus esforços de universalizar os direitos trabalhistas e a própria noção de trabalho digno. A crítica à regulação dos salários, feita por Eugenio Gudin, ia no sentido de que essa regulação levaria à destruição da mais importante vantagem comparativa destes países subdesenvolvidos, exatamente o custo menor da mão-de-obra.

 

Seleção competitiva das civilizações

Críticos do neoliberalismo a partir do chamado Sul Global tem questionado com razão as teorias do neoliberalismo que não colocam no centro a sua dimensão imperial. Nesta série, procurou-se integrar esta crítica ao definir o neoliberalismo com o uma resposta regressiva à crise da hegemonia norte-americana, isto é, um programa imperial de poder baseado na força e na extorsão.

Mas como esta dimensão colonialista se integra à obra de Hayek que, como vimos, parece ser uma espécie de síntese argumentativa desta tradição?

Esta relegitimação do colonialismo ou, para dizer como Aníbal Quijano, da “colonialidade do poder”, se integra à teoria geral hayekiana em sua noção de que a história procede a partir de uma seleção competitiva das civilizações. Assim, o Ocidente capitalista seria vencedor e caberia aos vencidos apenas a culpa pelo seu atraso histórico.

O americanismo, este traço forte da cultura neoliberal, seria assim mais do que a própria expressão da língua, a própria gramática de articulação do neoliberalismo.

*Juarez Guimarães é professor de ciência política na UFMG. Autor, entre outros livros, de Democracia e marxismo: Crítica à razão liberal (Xamã).

Para acessar o primeiro artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/por-uma-teoria-critica-do-neoliberalismo/

Para acessar o segundo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/por-um-dicionario-critico-ao-neoliberalismo/

Para acessar o terceiro artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/neoliberalismo-como-jaula-de-ferro/

Para acessar o quarto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/neoliberalismo-e-regressao/

Para acessar o quinto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/a-razao-da-desigualdade/

Para acessar o sexto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/da-batalha-das-ideias-ao-poder-global/

Para acessar o sétimo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/financeirizacao-dos-estados/

Para acessar o oitavo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/morte-ao-trabalho/

 

⇒O site A Terra é redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.⇐
Clique aqui e veja como.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES