A recessão alemã

image_pdf

Por FLÁVIO AGUIAR*

A guerra na Ucrânia se prolonga, e a recessão alemã veio para ficar, afetando o continente inteiro

Durante décadas a Alemanha foi a menina dos olhos da economia europeia. Seus pilares eram uma grande estabilidade monetária com um mínimo de inflação, juros baixos, um sistema de transporte muito eficiente, um padrão de consumo interno alto e estável, uma pauta de exportações e importações de alto padrão e last but not least, um equilíbrio político de espírito “conservador ilustrado” tido como inabalável, com a alternância ou combinação entre social-democratas (SPD), verdes (Bündnis 90/Die Grúnen) e as uniões cristãs, a social da Baviera (CSU) e a democrata (CDU) do resto do país, além da presença eventual do liberal FDP.

No SPD predominava uma visão marcadamente neoliberal, o que garantia que nenhuma oposição de peso viria aos planos de austeridade fiscal implementados, a não ser por parte de uma esquerda reduzida a um nicho de tendências divididas. Pelo contrário, muitas das reformas “austeras” foram implementadas pelo governo Social-Democrata/Verdes no começo doséculo XXI.

Com tais predicados, o governo de Berlim tornou-se o fiel da balança da União Europeia e do continente como um todo, exercendo uma parceria sobretudo com Paris. A chanceler Angela Merkel e seu implacável ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, foram as molas mestras para dobrar, neutralizar e inviabilizar as propostas do governo grego de esquerda, liderado por Alexis Tsipras e seu partido, Syriza.

Ela e Nicolas Sarkozy tiveram uma influencia decisiva para impedir que o estilo histriônico do italiano Silvio Berlusconi se tornasse a marca principal da política europeia. Ao contrário, Angela Merkel transformou a austeridade – para além da fiscal – no brasão político mais importante da Europa no começo do século XXI. Ao mesmo tempo, a Alemanha tornou-se o carro-chefe da economia continental, graças à sua variada pauta de importações e exportações.

Dos dez países que mais importam da Alemanha, oito são europeus: os outros dois são a China e os Estados Unidos. Os mesmos números e as duas exceções se repetem na coluna das exportações. A economia continental europeia está presa à alemã como um comboio na locomotiva, ou… um peixe no anzol.

De repente, não mais que de repente, este belo edifício mostrou frinchas e rachaduras nos alicerces, e hoje ameaça desequlibrar-se, arrastando o continente inteiro. A inflação subiu meteoricamente, de quase 0% para quase 10% ao ano, em média: no setor de alimentos, 20% e na energia, 40%. A demanda interna caiu, a externa adernou perigosamente com as oscilações da economia chinesa e a pressão protecionista dos Estados Unidos. A indústria alemã, carro-chefe das exportações e importações, sobretudo de veículos, auto-peças e acessórios, de produtos farmacêuticos, artefatos elétricos, aviões e helicópteros, além de outros, entrou em depressão. No começo de 2023 o FMI previu uma retração de 0,1% na economia do país. Depois aumentou-a para 0,2% e agora a previsão está em 0,4% negativos.

Como assim?, perguntam-se todos. O que aconteceu? As respostas são várias e variadas, mas há alguns pontos de convergência.

Em geral se apontam as consequências da guerra na Ucrânia como o principal fator inflacionário, sobretudo nos setores já em destaque: alimentos e energia. Com a redução das importações de grãos e óleos da Ucrânia, o preço de produtos agrícolas foi para as nuvens. Muitos dos fertilizantes dados na Europa vinham da Rússia: a fonte secou. E a indústria alemã dependia fortemente das importações de gás russo; com as sanções econômicas impostas à Rússia esta apertou a torneira do fornecimento, além de os gasodutos que ligavam um país ao outro terem sofrido atentados até hoje sem explicação oficial.

Os Estados Unidos acusaram a Rússia de sabotar seus próprios gasodutos. O jornalista norte-americano Seymour Hersh publicou artigo apontando os Estados Unidos como os principais responsáveis pelo atentado, com a colaboração ds Dinamarca. Mais tarde, na mídia alemã divulgou-se a hipótese que a Ucrânia ou pelos menos ucranianos fossem os executores do atentado, com colaboração norueguesa. Seguiu-se um silêncio melancólico: esta hipótese comprometia a imagem de “vítima” que a mídia europeia acalenta diariamente sobre a Ucrânia e seu governo. Todos os mencionados negaram qualquer responsabilidade. Hoje aquele silêncio tornou-se oceânico, recobrindo os atentados. Ninguém mais fala neles.

Apesar das declarações otimistas em contrário, o efeito imediato da quebra no fornecimento de gás russo sobre a indústria alemã foi muito pesado. O governo alemão, liderado pelos social-democrata Olaf Scholz, hesitou muito em aderir ao apoio militar à Ucrânia. Tinha razão em hesitar. Embora não haja reconhecimento oficial a respeito, ficou evidente que a Alemanha não estava preparada, nem política nem economicamente, para entrar na guerra, mesmo indiretamente neste conflito contra a Rússia, terceirizado pelo Ocidente. Esta e suas consequentes sanções econômicas impostas a seus aliados pelos Estados Unidos não estão conseguindo quebrar a Rússia, que correu para debaixo da asa protetora da China. Ao contrário, seu efeito bumerangue pode muito bem ajudar a aleijar, senão quebrar a Alemanha.

Há outros fatores menos evidentes entre as raízes da crise. A pandemia atingiu duramente o comércio, provocando o fechamento inicial de pequenas lojas e logo depois também de algumas grandes, com o aumento exponencial de compras pela internet, que permanece em alta. As reformas de inspiração neoliberal implementadas no começo do século, com o aperto da “austeridade” nos investimentos sociais e a compressão das aposentadorias, começam a cobrar seu preço, diante de uma população cujo envelhecimento cresce a olhos vistos.

Para completar este quadro sombrio, as intenções de voto no partido Alternative für Deutschland, AfD, de extrema direita, anti-União Europeia, ameaçador para imigrantes e refugiados, crescem assustadoramente, sobretudo nos estados da antiga Alemanha Oriental e entre os jovens, região e setor mais duramente atingidos pelo desemprego e pela queda no poder aquisitivo. O AfD está em segundo lugar nas pesquisas, atrás apenas da CDU que, pressionada pela deserção de eleitores em direção àquele partido, vem tornando seu programa cada vez mais conservador. Não há risco imediato para as instituições democráticas da Alemanha, mas já há coriscos e trovoadas na linha do horizonte.

De começo, todos os partidos políticos se negaram a colaborar com o AfD. Agora, já se ouvem vozes dentro da CDU falando nesta colaboração, seguindo o modelo do Partido Popular, na Espanha, que se coligou ao ultra-direitista VOX, que se proclama herdeiro de Franco e dos Cavaleiros Templários da Idade Média.

Hoje em dia as previsões e declarações mais otimistas arrefeceram. A guerra se prolonga, e a recessão alemã veio para ficar, afetando o continente inteiro. A questão mais relevante é o quanto ela vai durar. E até o momento não há bola de cristal que arrisque seu pescoço numa previsão.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
3
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
4
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
5
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
6
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
7
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
8
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
9
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
10
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
11
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
12
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
13
Teoria crítica ou devaneio crítico?
06 Mar 2026 Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO: Considerações sobre o livro “And, Phenomenology of the end” de Franco “Bifo” Beraldi
14
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
15
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES