Sociedade perversa

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Por João Sette Whitaker*

A sociedade brasileira, ou melhor, sua classe média e alta, é perversa. Se sente à salvo porque vê o fenômeno (covid-19) se dirigir para as periferias pobres, para as quais ela na verdade nunca ligou muito

O site UOL estampou esta semana: “Bairros com favelas e cortiços concentram mais mortes por covid-19 em SP”. Segundo a reportagem, “Sapopemba, na zona leste, registrou 101 óbitos, dez vezes mais do que o verificado em bairros centrais”. As mortes caem nos bairros ricos, mas crescem na periferia, muito rapidamente. Em comentada “live” nesta semana, Átila Lamarino previu um cenário catastrófico. O que vai acontecer quando a epidemia chegar de vez nas regiões mais pobres e densas país afora? Aliás, como se vê em Manaus, Belém, nas periferias do Rio e de São Paulo, já está chegando.

Escrevi dois ou três textos sobre isso, nos últimos dois meses (por exemplo ‘A sombra do Apocalipse projeta-se nas cidades“, no site Outras Palavras, em 20/03), e não fui o único. Na verdade, todos os urbanistas minimamente engajados na luta pelo direito a cidade alertaram: a tragédia iria explodir quando chegasse nas periferias pobres e densas.

É impressionante como a notícia agora confirma a previsão, justo quando, nos bairros ricos, se vê a população menos tensa e começando a sair nas ruas. Como se estivesse acabando.

Na Riviera São Lourenço, diz o UOL, um tal de “advogado e empresário Fernando Vieira” fez hoje uma festa de aniversário reunindo dezenas de carrões de luxo na sua porta, com som alto de o mesmo tanto de convidados. Todos devem estar bem, fiquem tranquilos. No máximo, bêbados de uísque 24 anos.

A sociedade brasileira, ou melhor, sua classe média e alta, é perversa. Se sente à salvo porque vê o fenômeno se dirigir para as periferias pobres, para as quais ela na verdade nunca ligou muito.

A quarentena, fácil de fazer para essa população, é na verdade um ato de solidariedade para com todos, sobretudo os mais pobres. Se tivesse sido adotada radicalmente desde o início pelos moradores do centro expandido, pelos que chegaram de suas viagens internacionais, o Covid se alastraria de forma mais lenta, e tardaria a chegar nesses bairros, talvez o suficiente para achatar mesmo a curva.

Mas essa solidariedade de cima para baixo na nossa pirâmide social não é nossa característica. Se a pandemia começa a fazer vítimas na “distante” Brasilândia, já se tornou parte do normal. É como ver as taxas de homicídios policiais contra jovens pobres e negros nas periferias, e como assistir desabamentos na TV. É como ver uma barragem quebrar na distante Mariana.

Tivesse havido mil avisos, não adiantaria. O sujeito vai correr na Av. Sumaré, porque sabe que – para ele – é seguro. Entender que o ato de se isolar é um ato para proteger os outros mais do que a si mesmo é pedir algo que não está no DNA de uma sociedade patrimonialista,onde quem tem pode tudo, por definição.

Para piorar, como escrevi também, o efeito Bolsonaro sobre muita gente mais simples que acredita religiosamente no seu discurso boçal – ele é o mito – fez também sua parte nesse alastramento descontrolado. Como acontece desde o voto de cabresto, uma parte da população mais pobre, com pouco acesso à informação, judiada pela vida sem privilégios que este Brasil lhe deu, cai nas manipulações políticas mais vis.

Agora, é torcer para que a batalha intensa dos profissionais de saúde dos hospitais públicos, as mobilizações incríveis das associações de bairros e ONGs populares nos bairros da periferia (fazendo flashmobs e divulgando podcasts de conscientização, distribuindo água, máscaras e alimentos, promovendo acolhimento solidário de idosos, etc.), que se substitui ao sempre ausente Estado nessas regiões, surta algum efeito.

Senão, a pandemia vai ceifar em cheio muita, mas muita gente, sempre os mais pobres, na maioria. E os mais ricos, se faltar vagas em hospitais. Nisso, o coronavírus até tenta ser democrático.

E o palhaço lá em Brasília continua lá. Sem impeachment, pelo jeito ainda não haveria razão para isso? Que saudades de uma mísera pedaladinha fiscal, que ninguém entendeu muito o que era. Mas aqueles que naquela época clamavam pela gravidade do “crime” e fechavam os olhos para o “viva Ustra” em nome do afastamento presidencial, hoje “temem que um terceiro impeachment em poucas décadas seja fatal para a nossa jovem democracia”. Ah tá bom. Em 2016, ninguém pensou nisso.

Fique em casa. Ainda. Não por você. Pelos outros.

*João Sette Whitaker é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP).