Como escovar os dentes num incêndio

Raquel Jones, lamba seus dentes, 2021
image_pdf

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro de Marcílio Godoi

A capa e o título insólito flertam com o surrealismo, à primeira vista. A leitura dos 43 contos curtos do volume, porém, vai expandir as possibilidades estéticas e formais, não se enquadrando em um gênero específico. Há textos mais densos, que colocam o leitor em frente aos dilemas e angústias do ser humano, e outros mais rarefeitos, que requerem a sensibilidade de quem sabe apreciar a beleza das nuvens.

Assim é o livro Como escovar os dentes num incêndio, de Marcílio Godoi. Cada conto é o nome de um ou uma personagem (Carmen, Renata, Augusto, Wesley, etc.), que podem ter raízes concretas e atitudes abstratas, ou vice versa. Uma mulher que tem um pé maior que o outro. Um homem que escreve epitáfios gongóricos. Um outro que perde coisas. A mulher atravessada por setas. A jovem que leva as cinzas do pai pra passear de bicicleta.

Algumas referências a personagens reais ganham relevo, na paisagem fantasmagórica. O conto Getúlio remete a Getúlio Vargas, mas tem um narrador surpreendente. O craque da sinuca Carne Frita é personagem principal de um causo. O narrador cujo pai vai se transformando em árvore remete a Guimarães Rosa, certamente. É provável que outros personagens, que para nós parecem ser produto de pura ficção, façam parte da galeria pessoal do autor. Não importa.

Estamos diante de um mosaico de retratos, ou esboços de retratos, costurados pela linguagem refinada de Marcílio Godoi. Mestre em crítica literária e doutor em letras, o polígrafo mineiro já publicou romances (Etelvina), literatura infanto-juvenil e poesia. Jamais utiliza a brutalidade das ações ou a crueza descritiva, tão ao gosto de alguns ficcionistas contemporâneos, para compor suas narrativas.

Prefere a linguagem poética, pontilhada de metonímias e imagens inusitadas, e se delicia com palavras inusuais e pitadas de humor extravagante. Bebe na fonte de expressões populares, distorce chavões e inventa significados. Há algo de cortazariano impregnando a leitura.

Ao final, não temos certeza se lemos uma coletânea de crônicas poéticas, um conjunto de esquetes biográficos ou especulações sobre os caminhos tortuosos da loucura que, em maior ou menor grau, afeta toda a humanidade. A variedade de ritmos, as mudanças de tom e as alternâncias de linguagem contribuem para o resultado polifônico do volume. E o mais surpreendente é que esta indeterminação estilística parece ser algo muito planejado e bem executado, incluindo a capa, que também é criação do autor. Coisa de quem domina o ofício narrativo e sabe onde quer chegar.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Marcílio Godoi. Como escovar os dentes num incêndio. São Paulo, Patuá, 2023, 218 págs. [https://amzn.to/49s9nQq]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
4
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
14
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES