A fragilidade financeira dos EUA

Imagem: John Guccione
image_pdf

Por THOMAS PIKETTY*

Assim como o padrão-ouro e o colonialismo ruíram sob o peso de suas próprias contradições, o excepcionalismo do dólar também chegará ao fim. A questão não é se, mas como: será por meio de uma transição coordenada ou de uma crise que deixará cicatrizes ainda mais profundas na economia global?

Como devemos analisar a nova onda de tensões comerciais que atingiu o mundo em 2025? Para entender melhor as questões em jogo, o World Inequality Lab publicou recentemente um estudo histórico sobre os desequilíbrios comerciais e financeiros globais desde 1800, intitulado “Troca Desigual e Relações Norte-Sul: Evidências dos Fluxos Comerciais Globais e da Balança de Pagamentos Mundial 1800-2025”.

Várias conclusões são claras. Em geral, a ideia de um livre comércio espontaneamente equilibrado e harmonioso não resiste a um exame minucioso. Desde 1800, há desequilíbrios maciços e persistentes, e uma tendência recorrente das potências dominantes de abusar de sua posição para impor termos de troca que as favoreçam, em detrimento dos países mais pobres.

A novidade da crise atual é que os Estados Unidos vêm perdendo o controle do poder global e agora se encontram em uma situação de fragilidade financeira sem precedentes. Isso explica a agressividade do governo Trump. No entanto, ceder às exigências, como os europeus acabaram de fazer em relação aos orçamentos militares (que são, em grande parte, transferências para a indústria de defesa dos EUA) ou à tributação multinacional, é a pior estratégia possível.

É hora de a Europa se livrar da complacência e unir forças com as democracias do Sul Global para reconstruir o sistema comercial e financeiro em apoio a um modelo diferente de desenvolvimento.

Déficit comercial permanente

Primeiro, lembremos que os fluxos comerciais nunca foram tão altos quanto hoje. As exportações (e importações) totais agora representam cerca de 30% do produto interno bruto (PIB) global, com 7% para matérias-primas (agrícolas, mineração e combustíveis fósseis), 16% para produtos manufaturados e 7% para serviços (turismo, transporte, consultoria, etc.).

Em comparação, os fluxos comerciais eram cerca de 7% do PIB global em 1800, 15% em 1914 e 12% em 1970 (dos quais 4% eram para matérias-primas, 5% para produtos manufaturados e 3% para serviços). O aumento observado desde 1970 tem sido estonteante em todos os setores – com uma pegada material e danos ambientais que estamos apenas começando a perceber.

É frequentemente apontado que o comércio mundial se estabilizou como uma porcentagem do PIB global desde a crise de 2008. Isso é verdade, desde que se especifique que se trata de uma estabilização no nível mais alto já registrado na história.

Vamos analisar os desequilíbrios. O fato básico é bem conhecido: entre 1990 e 2025, os EUA registraram um déficit comercial médio anual (bens e serviços combinados) de cerca de 3% a 4% do seu PIB. Os superávits do país em serviços têm sido pequenos demais para compensar os enormes déficits em produtos manufaturados. Esse fato às vezes provoca descrença: como a potência dominante pode manter um déficit comercial permanente?

Na realidade, essa é a norma histórica. De 1800 a 1914, as potências europeias – lideradas pelo Reino Unido – registraram déficits comerciais permanentes. Os superávits em produtos manufaturados e no transporte marítimo foram amplamente superados pelos vastos fluxos de matérias-primas do resto do mundo (algodão, madeira, açúcar, etc.), embora estes fossem mal compensados.

Entre 1880 e 1914, as principais potências do continente (Reino Unido, França, Alemanha) registraram déficits médios anuais da mesma ordem de magnitude que os dos EUA entre 1990 e 2025.

A diferença é que as potências europeias detinham então possessões ultramarinas que geravam enormes receitas anuais – o equivalente a 10% do PIB do Reino Unido e mais de 5% da França. Isso lhes permitia financiar facilmente seus déficits comerciais enquanto continuavam a acumular dívidas em todo o mundo.

Em contraste, os ativos dos EUA no exterior nunca geraram renda suficiente para compensar seus déficits, deixando o país com um nível de dívida externa sem precedentes. A potência militar dominante no mundo poderá em breve se ver obrigada a pagar juros substanciais e de longo prazo ao resto do mundo, algo nunca antes visto na história. Esta é a fonte da ansiedade trumpista e das tentativas desesperadas de seus seguidores de extrair riqueza do resto do mundo, à força, se necessário.

Financiando um modelo mais sustentável

Um argumento usado para justificar tal extorsão é que o país fornece um bem público global gratuito: uma moeda estável e um sistema financeiro sólido. O resto do mundo, portanto, acumula ativos em dólares – dívida pública e ações – que elevam o valor da moeda americana e alimentam o déficit comercial dos EUA. Na realidade, o dólar já rendeu aos EUA muito mais do que deveria. Mesmo assim, vale a pena considerar o argumento, especialmente porque pode levar a soluções muito diferentes daquelas defendidas pelos trumpistas.

Na prática, os enormes excedentes dos países produtores de petróleo nas últimas décadas são explicados principalmente pelo seu sucesso em triplicar os preços na década de 1970, enquanto o resto do mundo continuou a consumir combustíveis fósseis, independentemente das consequências futuras.

Os excedentes industriais da China, Japão e Alemanha podem ser explicados, em parte, pelos salários excessivamente baixos e pela opção de acumular riqueza no exterior, alimentada por um sentimento de vulnerabilidade ao sistema financeiro internacional e pela ausência de um ativo de reserva global.

Diante dos desequilíbrios globais, a resposta correta seria estabelecer uma moeda comum indexada às principais moedas, permitindo que o mundo se liberte do dólar e melhore os termos de troca para os países mais pobres, tudo com o objetivo de financiar um modelo de desenvolvimento mais equilibrado e sustentável. Esperemos que a brutalidade de Donald Trump ao menos acelere essa concretização.

*Thomas Piketty é diretor de pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor na Paris School of Economics. Autor, entre outros livros, de O capital no século XXI (Intrinseca). [https://amzn.to/3YAgR1q]

Tradução: Artur Scavone.

Publicado originalmente no jornal Le Monde.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
3
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
4
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
5
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
6
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
7
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
8
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
9
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
10
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
11
O novo imperialismo de Donald Trump
03 Mar 2026 Por CARLOS EDUARDO MARTINS: O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional
12
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
13
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
14
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
15
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES