Ecos do tarifaço

Imagem: Filipp Romanovski
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Por LUIS FELIPE MIGUEL*

Para a direita, questão é o que fazer com o bolsonarismo delirante. Para a esquerda, aproveitar para avançar em vez de se render de novo

Seis dias depois de Donald Trump divulgar suas ameaças, as reações no Brasil já estão claras.

1.

O núcleo duro do bolsonarismo, a começar por Jair e Eduardo Bolsonaro, entendeu que precisa mesmo abraçar a chantagem contra o Estado brasileiro. Às favas as aparências, às favas a soberania, às favas até mesmo o capital eleitoral da direita.

A única questão é obter sucesso no curioso projeto de anistia prévia (já que uma anistia é concedida a quem já foi julgado e condenado, não a quem ainda está respondendo em liberdade) e livrar a cara do capitão. Manifestações dele e sobretudo do filho – em particular o vídeo em inglês divulgado nas redes sociais – deixaram isto claro.

Referências breves, tardias e condicionais ao impacto econômico, omissão completa da questão da soberania nacional, reconhecimento franco de que a manobra foi feita para benefício próprio. Zero, ou quase, preocupação com o desgaste político. É coisa de gente que, em outras circunstâncias, estaria aplaudido os marines quando desembarcassem na costa da Bahia.

Na verdade, com certeza ainda sonham com isso, Donald Trump é que não quer. Já era evidente a natureza antinacional do bolsonarismo, que ia do folclórico (saudação à bandeira estrangeira) à subordinação canina aos Estados Unidos nos fóruns internacionais. Também era evidente que seu projeto político nunca foi além de conseguir vantagens para a família. Agora está escancarado.

A direita próxima de Jair Bolsonaro por mero oportunismo, hoje encarnada em primeiro lugar pelo governador paulista Tarcísio de Freitas, vê com temor que a hora da verdade está se aproximando e que fica cada vez mais difícil se equilibrar entre a lealdade ao capitão e a pretensão de parecer um pouco mais limpinha.

Tarcísio de Freitas mesmo vacilou na busca de um discurso público. Falou aquela imensa besteira sobre mandar Jair Bolsonaro aos Estados Unidos negociar com Donald Trump, da qual logo se arrependeu, tanto, talvez, como se arrepende da ridícula foto com o boné MAGA.

Depois de ter friamente comunicado ao ex-chefe, segundo se lê na imprensa, a mudança de posição, passou à retórica de que está lutando pela economia paulista e desinteressado da questão da anistia. Sabe que desagrada os bolsonaristas raiz, que nunca perdoaram sua ambição de ocupar o lugar do capo, mas no momento está achando mais importante cortejar a burguesia paulista, a grande imprensa e o Centrão.

Não é irrelevante o fato de que, em paralelo com este movimento de distância em relação à estratégia de Jair Bolsonaro para pressionar pela anistia, ele proferiu uma condenação inusualmente direta da violência de sua polícia, no caso da execução de Igor Oliveira de Moraes Santos na favela de Paraisópolis.

Mas as trapalhadas no processo indicam que, cada vez mais, Tarcísio de Freitas parece uma nova encarnação de João Doria. Mais grosseiro e truculento, isto é, adaptado aos tempos que vivemos, mas idêntico no sentido de ser alguém que foi alçado pelas circunstâncias a uma posição que não tinha condição de ocupar, que sente, como é frequente, a tentação de ficar no lugar do padrinho sem o qual não estaria onde está para alçar voos mais altos e que, falto de real talento, confunde o poder do cargo com habilidade política, logo mete os pés pelas mãos, colocando em risco a própria sobrevivência. A ver.

2.

A grande imprensa, lutando para preservar sua posição de porta-voz da burguesia que se quer esclarecida, reforçou o afastamento em relação a Bolsonaro, em termos mais duros do que aqueles até então praticados – começando por ninguém menos que o Estadão, que lançou o primeiro editorial e o mais enfático, depois seguido pela Folha e pelo Globo.

Nunca é possível dizer que uma ruptura entre estes elementos é definitiva, mas é significativo que os jornais admitam alinhamento com o discurso do governo Lula no tema das tarifas e no enquadramento geral da soberania nacional.

A pressão para o surgimento de um candidato viável à direita que rompa expressamente com o bolsonarismo aumentou de forma significativa, o que não é estranho ao vaivém de Tarcísio. Em suma, parece que teremos uma nova temporada de busca pela “terceira via”. A ver.

O nosso empresariado, começando pelo agro, mas não só, sentiu o baque, obviamente, já que o impacto previsto em muitos setores é devastador. O “egoísmo” de Jair Bolsonaro, pensando exclusivamente em livrar o próprio couro, pesa contra ele. A mágoa transparece no discurso de muitos executivos de altos negócios.

Os mais vinculados à extrema direita se escoram no discurso sobre “não politizar a questão” – sabem tanto que uma análise minimamente contextualizada prejudica Jair Bolsonaro quanto que não podem hostilizar o governo federal, que é quem pode conduzir qualquer negociação com o Washington.

No discurso dos patrões, a preocupação com a soberania nacional brilha por sua absoluta ausência. A única preocupação é voltar a garantir os dólares. Não deixa de ser um retrato fidedigno de nossa burguesia.

3.

A esquerda tem uma chance preciosa de tomar a dianteira do debate público, colocando suas próprias pautas, em vez de apenas reagir à direita, como tem sido a praxe já há bastante tempo. À questão da justiça tributária, que está sendo explorada com sucesso, some-se à da soberania nacional.

Nas duas, a direita não está rendida, até porque seus recursos são amplos e possui um grande know-how acumulado no debate digital, mas se vê claramente levada a uma postura defensiva. São pautas materiais, com efeitos concretos na vida cotidiana das massas, que unificam os grupos dominados, ao mesmo tempo em que falam às especificidades de cada um, e assim permitem uma mobilização social forte.

Cabe evitar a dispersão, em especial evitar a tentação de se perder em tretas menores, e garantir a continuidade destas pautas no debate público.

O governo Lula, por fim, se encontra, mais uma vez, diante de seu eterno dilema. Por um lado, pode trabalhar para aprofundar a mobilização popular e aproveitar o ensejo para propor medidas que ajudem a combater – ou, na verdade, minimizar – a estrutura de desigualdades no país.

Como aconteceu, aliás, no caso da questão tributária, em que sem dúvida nenhuma foi a mobilização relativa ao tema que levou Arthur Lira a manter o piso mínimo do imposto dos super-ricos no seu relatório. Mas o governo pode também aproveitar a conjuntura para se reaproximar do empresariado exportador, a começar pelo agro, uma vez que uma parte dele se sente abandonada ou mesmo traída pelo bolsonarismo que abraçou de maneira tão entusiástica nos últimos anos.

Que esta aproximação está sendo feita não há dúvidas. A questão é se, ao longo do processo, o governo tem interesse e força para impor a esses grupos algum tipo de compromisso com padrões mínimos de valorização do trabalho e de justiça social – ou se, uma vez mais, vai entregar tudo sem exigir nada em troca, apenas para ser traído na próxima oportunidade. A ver.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente no substack Amanhã não existe ainda.


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