A indignação seletiva

Imagem: Henry & Co.

Por CARLOS ÁGUEDO PAIVA*

A funcionalidade da russofobia para a manutenção da (des)ordem mundial)

Já estamos na Matrix?

A recente invasão russa da Ucrânia colocou a esquerda mundial numa situação deveras desconfortável. A história parece ter passado por uma rápida aceleração e a crescente convergência político-ideológica da grande mídia (objeto de frequentes e agudas denúncias de Glenn Greenwald) foi transformada, subitamente, em consenso absoluto. Há muito que não se observava tamanha unanimidade na opinião pública mundial.

A crítica radical à ação russa transbordou da grande mídia e unificou organizações, agentes políticos e personalidades que, tradicionalmente, operavam em campos político-ideológicos e culturais muito distintos. Do presidente dos EUA, Joe Biden ao PSTU no Brasil; da presidente da Comissão Europeia Ursula Von Der Leyen à Confederação Sindical Internacional; dos líderes da maior milícia neo-nazista ucraniana (o Azov Battalion) à ativista Greta Thunberg; dos milionários Mark Zuckerberg e Elon Musk ao Secretariado Unificado da Quarta Internacional; do vice-presidente do Brasil, General Mourão à deputada estadual do PSOL-RS Luciana Genro, emergiram manifestações contundentes, de todos os lados, contra a ação político-militar russa na Ucrânia.

Mesmo as raríssimas vozes dissonantes – como o radical PCO, no Brasil, e os governos de Cuba e Venezuela (caracterizados como “ditaduras bananeiras” por parte da grande mídia) – entraram em cena para cumprir o papel de exceções que confirmam a regra. Nunca dantes na história da humanidade houve tamanho consenso de quem é o bandido (Putin, o czar russo) e quem é a mocinha indefesa (a pequena Ucrânia de Zelensky, em busca de seu Ocidente encantado).

Alguém poderia alegar que esta é a reação normal e previsível da opinião pública mundial diante da invasão de um país pelo outro. Ledo engano! Quando das invasões do Afeganistão, em 2001, do Iraque, em 2003, da Líbia, em 2011, e da Síria, em 2014, o “consenso comum” não só era menor como ia em sentido oposto: para a maioria, à época, o mocinho era o invasor, incansável combatente do terrorismo e denodado defensor do povo árabe muçulmano submetido a terríveis tiranias.

A verdade nua e crua é que a mídia ocidental (e o senso comum a ela associado) não trata todas as guerras e invasões como equivalentes: as guerras promovidas pelo “Ocidente” são justas e suas invasões são necessárias. Só são injustas as guerras e as invasões patrocinadas pelo “eixo do mal”. E a Rússia é estrela maligna do mesmo. O que a grande Ursa fez para galgar tão alto posto?

A resposta a esta questão está muito longe de ser trivial. Mas existem inúmero textos e vídeos na rede que, se não esgotam o tema, tangenciam a resposta. Dentre este material, há três intervenções de analistas nacionais que nos parecem particularmente esclarecedoras: a entrevista de Dilma Rousseff ao 247, o texto de Fabio Venturini no InterTelas e a entrevista de Celso Amorim no Opera Mundi. Cada um dos autores contribui com elementos peculiares e distintos à compreensão da crise no Leste Europeu e da ação russa. Os autores e/ou entrevistados estão longe de ter a mesma avaliação da pertinência e/ou eficácia do movimento político-militar de Putin. Dos três, Amorim (ao lado de Lula) é o mais crítico à movimentação russa.

Mas também há importantes elementos de convergência entre os analistas. Uma convergência que não se assenta na conhecida afinidade político-ideológica dos citados, mas nas bases teóricas sobre as quais eles estruturam suas análises. Bases que sequer são “esquerdistas”: inúmeros analistas políticos conservadores, como Henry Kissinger (em textos de 2014 a 2022) e centristas, como o cientista político norte-americano John Mearsheimer e o jornalista e analista político franco-russo Vladimir Pozner comungam desta leitura geral.

Ora, mas se é assim, não podemos pretender (como fizemos acima) que o consenso crítico a Putin e à Rússia perfaça uma unanimidade. Sem dúvida: a unanimidade anti-Rússia tem muitos buracos. Mas as (novas) exceções perfazem um grupo social particular, de agentes que olham para a realidade através de pesquisas atentas e instrumentos analíticos sofisticados. A turma que se informa pelo whatsapp e pelas manchetes da grande mídia (incluindo-se, aí, a quase totalidade dos jornalistas) não tem qualquer dúvida sobre quem está certo e quem está errado.

O que vem alimentando um conjunto de cenas na mídia radiofônica, televisiva e das redes sociais no limite do ridículo: na maior parte das vezes que repórteres recebem especialistas em Relações Internacionais ao vivo, vem à luz o abismo que separa as interpretações dos entrevistados da perspectiva maniqueísta e russofóbica dos entrevistadores. Os jornalistas parecem querer arrancar dos convidados a confirmação daquilo que eles já “sabem”: que a Rússia de Putin é a única culpada da história e a invasão da Ucrânia é uma agressão imperialista irracional a uma pacífica democracia ocidental.

Como regra geral, porém, ouvem esclarecimentos sobre o avanço da OTAN em direção ao Leste Europeu desde 1999; sobre o não cumprimento pelos países ocidentais dos acordos firmados com a Rússia ao fim do Pacto de Varsóvia; sobre os fortes laços históricos, étnicos, religiosos e culturais da Rússia com a Ucrânia; sobre a hegemonia linguística e étnica russa no leste deste país; sobre o “apoio” (melhor dizer: intervenção) norte-americana à Revolução-Golpe Laranja de 2014; sobre os oito anos de guerra civil na Ucrânia; sobre o não cumprimento dos Acordos de Minsk por parte da Ucrânia e do Ocidente; sobre a censura dos partidos e da mídia pró-russa na ex-República da União Soviética; e sobre os “dois pesos e duas medidas” dos EUA, que apoiam, na Ucrânia, a instalação de bases militares similares às que os norte-americanos não admitem em Cuba.

Por vezes, o constrangimento dos representantes da “mídia livre” é tanto que não há como conter o riso. Um constrangimento que só alcança ser maior quando os correspondentes internacionais confrontam diretamente algumas das mais qualificadas lideranças políticas russas. Quando isto ocorre, os vídeos produzidos no confronto viralizam na rede. Este é o caso do vídeo em que Putin responde às demandas da jornalista Diana Magnay, da Sky News, sobre que garantias a Rússia poderia dar de que cumpriria novos acordos com o Ocidente.

Igualmente viral tornou-se a firme resposta de Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, ao questionamento de Dominic Waghorn, da mesma Sky News, sobre a crise humanitária aberta pela invasão russa da Ucrânia: “O senhor se engana. A crise humanitária não começou há poucos dias. Há cidadãos pacíficos morrendo no Leste da Ucrânia há mais de oito anos. Vocês nunca os contabilizaram. Tal como o Presidente Zelensky, vocês não os consideram seres humanos”. Vale ver o os vídeos. Só para ver o olhar atônito, pasmo, perturbado de Magnay e Waghorn.

A reação de ambos é compreensível. Qualquer jornalista tarimbado sabe que a morte de várias crianças muçulmanas iemenitas vale muito menos (vende menos jornal, dá menos manchete, gera menos comoção) do que a morte de uma única criança europeia loira e cristã. Mas, talvez, Magnay e Waghorn ainda não tivessem tomado consciência de quão diferenciado é o valor das vidas cristãs e loiras russas, ucranianas e “ocidentais”. Russos valem menos. Por quê? Esta é parte da história que ainda está mal contada. Nosso intento é contribuir para a mesma.

 

Um pouco de história

Os russos ingressam no palco da história europeia tardiamente. Todos os povos do mediterrâneo herdaram algo das culturas e civilizações egípcia, fenício-cartaginesa e greco-romano. Com a unificação do Mare Nostrum por Roma, todas as regiões e culturas do entorno foram afetadas precocemente pelas três grandes religiões monoteístas do Oriente Próximo. Na sequência imediata dos mediterrânicos, vieram os germânicos e, logo após, os escandinavos. Os povos eslavos e bálticos foram os últimos povos europeus a ingressarem na cristandade e a desenvolver (ou melhor, a receber) uma escrita. Mas mesmo os eslavos não ingressaram simultaneamente neste novo mundo. Os eslavos dividem-se em três grandes grupos: os eslavos norte-ocidentais (Polônia, República Tcheca, Eslováquia e a porção mais ocidental da atual Ucrânia), os eslavos do sul (Eslovênia, Croácia, Bósnia, Sérvia e Macedônia) e os eslavos do leste, os “Rus” (leste da Ucrânia, Rússia e Bielo-Rússia).

Estes últimos foram, também, os que ingressaram mais tarde no cristianismo e na cultura escrita. Vale lembrar que o nome anglo-saxão para escravo – slave – é uma corruptela de eslavo. Sua origem encontra-se na captura de eslavos Rus por escandinavos, que eram vendidos para o Império Bizantino e para o Oriente Médio. É só a partir do ano 1000 D.C. que os Rus ingressam, definitivamente, no mundo cristão e desenvolvem sistemas políticos complexos e fortemente hierarquizados.

Mais do que o caráter tardio, contudo, o que surpreende na História dos Rus é a extraordinária velocidade de seu desenvolvimento econômico, político e cultural. Em 900 anos de história, a produção cultural e teórica russa rivalizará com as produções francesa, alemã, italiana, britânica e norte-americana em todas as áreas: da poesia à ciência política, da música à psicologia, da arquitetura à química, do teatro à economia, das artes plásticas à engenharia. Ao final do século, a Rússia era, pois, um país “de padrão europeu”.

Em 1917, o experimento socialista aberto pela Revolução envolveu uma ruptura com o passado que só é comparável com as revoluções burguesas inglesa, norte-americana e francesas dos séculos XVII e XVIII. E o socialismo levou à criação de uma máquina produtiva tão ímpar e inovadora quanto eficiente e eficaz. Este sistema teve inúmeros percalços, sabemos todos, e, acabou por soçobrar. Mas, por décadas, a Rússia rivalizou técnica e produtivamente com os EUA e com as grandes potências europeias. Mais: a crítica histórica desta experiência foi realizada desde dentro, de forma essencialmente pacífica e se resolveu na construção de um sistema político sólido, que não sofreu qualquer solução de continuidade. Hoje, de acordo com o FMI, em termos de Paridade de Poder de Compra (por oposição ao câmbio nominal) a economia russa é a sexta maior economia do mundo, à frente do Reino-Unido, França, Itália, Coreia do Sul e Canadá. Pergunta-se mais uma vez: qual o problema com a Rússia? Qual a base da russofobia?

Do nosso ponto de vista, o fundamento primeiro (mas insuficiente) da russofobia é o sucesso deste país. Estamos cientes de que este argumento vai na contramão do senso comum. Para a maior parte da intelligentsia ocidental dos mais diversos matizes político-ideológicos, a Rússia é um país conservador, radicalmente avesso a qualquer modernização. Suas estruturas políticas e econômicas seriam autoritárias, corruptas, patrimonialistas e arcaicas. O tradicionalismo religioso e a intolerância com a diversidade étnica, cultural e de orientação sexual seriam o lado sócio-etnológico – do arcaísmo político e econômico. A Rússia não estaria à altura do século XXI.

A fragilidade desta argumentação é tamanha que não vale a pena esgrimir argumentos para contraditá-la. Cabe apenas perguntar: assumindo que estes traços culturais, políticos e econômicos sejam reais e estejam na base da russofobia, no que a Ucrânia difere da Rússia? Onde a corrupção é mais elevada? Há mais estabilidade política e econômica na Rússia ou na Ucrânia? Há mais liberdade de expressão na Rússia ou na Ucrânia? Onde há mais tolerância com a diversidade étnica e religiosa? Por acaso a homofobia na Rússia é maior do que na Ucrânia? Onde os controles jurídicos institucionais são mais sólidos? Onde há mais promiscuidade entre grupos civis armados, a Polícia e o Exército?

E que autoridade tem o “Ocidente” para julgar de forma tão negativa o padrão civilizacional russo? A Hungria – Estado membro da UE – acaba de aprovar a criminalização de toda e qualquer manifestação pública de homoafetividade. Se fosse a Rússia, seria um horror. Na Hungria é apenas um tema para ser discutido democraticamente. É isso? A Polônia recusa-se a adotar a política de acolhimento aos imigrantes definidas pela UE. Até porque esta política penaliza os Estados da periferia do sistema, os primeiros em que os imigrantes ingressam. Mas a insubordinação da Polônia (e a “malandragem” dos países da Europa Ocidental) é legítima, moderna e cidadã. É isso? Enquanto Putin promovia pesquisas que levaram à vacina Sputnik, o líder, à época, do maior país do “mundo livre”, Donald Trump, fazia campanha contra a vacinação. Ao fim de seu governo, promoveu a invasão do capitólio.

Seu colega, Boris Jonhson, o homem-Brexit, que defendia a imunização por contágio no Reino-Unido (seguindo o exemplo da culta e moderna Suécia) vem acusando Putin de genocídio na Chechenia e na Ucrânia. Até agora, apresentou as mesmas provas de G.W.Bush sobre as armas de destruição em massa no Iraque: absolutamente nenhuma. Como é britânico, loiro e usa um (des)penteado “da hora” pode ser boquirroto, grosseiro e irresponsável? Só não poderia se fosse russo. É isso? Em França, a ultradireita avança celeremente: Marine Le Pen parece razoável perto de Eric Zemmour, cuja popularidade não para de crescer. Mas, mesmo assim, o mundo livre e civilizado fica chocado com o conservadorismo, o patrimonialismo, a homofobia e o arcaísmo russo. … Sinto, mas não cola.

O problema com a Rússia, definitivamente, não é com o seu conservadorismo. Desde sua emergência e ingresso na civilização cristã-ocidental que a Rússia é um dos países mais ousados, revolucionários e acelerados do mundo. Este, sim é um grave problema. Especialmente porque ela consegue mesclar esta propensão à transformação com a preservação de sua soberania. A Rússia é fortemente nacionalista. Como, no mundo moderno, só os EUA, a China, o Japão e o Irã alcançam ser. Até os anos 1980, o Japão era um desafiante à hegemonia econômica norte-americana. Desde que perdeu capacidade dinâmica, seu nacionalismo deixou de ser um problema. Mas, quando se trata de China, Rússia e Irã, a história é outra. Os três são desafiantes do “bom e velho status quo ante”. E, por isto mesmo, são os líderes do “eixo do mal”.

O que parece idiossincrasia cultural na tirania saudita, é sociopatia no regime iraniano. O que parecem traços peculiares da política econômica e industrial japonesa, é intervencionismo ilegítimo na China. O que na Ucrânia, Bulgária, Romênia e Hungria são traços da secular cultura política nacional transforma-se, por um passe de mágica, em perversidade czarista-stalinista na Rússia.

Ora, é compreensível que o centro imperial decadente use 200 pesos e 400 medidas na avaliação de governos títeres e países soberanos. Mais difícil é entender como e porquê os países da Europa – os que mais sofreram com os desdobramentos desastrosos das recentes guerras de Tio Sam contra o terror – continuam a participar de um jogo de xadrez em que operam como peões ou, no máximo, cavalos. E ainda mais difícil é entender como a esquerda – que um dia foi crítica – deixou-se enredar na teia da aranha.

 

Matrix e brasilidade

Parte da resposta é de ordem econômica. A Europa – seja enquanto UE, seja enquanto Estados nacionais específicos – é permeada por conflitos e contradições inerentes a qualquer sociedade de classe. A burguesia da Eslováquia é, em primeiro lugar, burguesia. Só secundariamente ela é eslovaca. Com a unificação monetária e as limitações impostas pela UE às políticas fiscais e industriais nacionais, a exposição competitiva da burguesia eslovaca foi exponenciada. A burguesia eslovaca não pode mais apelar ao Estado “nacional” para defender-se da concorrência imposta pelas (mais poderosas) burguesias alemã, holandesa, belga ou checa.

Além disso, os processos imbricados de negação do trabalho, concentração de renda, oligopolização produtiva e financeirização da riqueza ampliaram ainda mais as diferenças de capacidade competitiva dos distintos blocos de capital. Por fim, no plano político-ideológico, a construção de uma “Europa sem Fronteiras”, emasculou os Estados Nacionais e pôs em xeque a própria ideia de nação e de unidade nacional, catalisando e aprofundando as tendências entrópicas e a anômicas da ordem mercantil-capitalista. Ao fim e ao cabo, a Europa Unificada – moderna, civilizada e solidária na superfície – vem se “brasilisando” e já ingressou na era do “salve-se quem puder, se puder, e como puder”.

Afinal, é preciso levar vantagem em tudo, certo? A “brasilisação” é particularmente radical nos estratos menos competitivos das burguesias periféricas. Muitas vezes a melhor (ou única) opção de sobrevivência é tornar-se sócio menor do capital externo. Afinal, a própria noção de externo e interno foi sendo diluída. A tal ponto que já não importa mais se o sócio majoritário é alemão, coreano, indiano ou norte-americano. Só importa quanto ele pode pagar. E, neste quesito, os donos do dinheiro mundial usualmente apresentam argumento$ mai$ forte$.

Evidentemente, tais transformações não se realizam sem fricções. Há resistências de todas as ordens legais, institucionais, políticas, morais e ideológicas. O que fazer com as noções de identidade e cultura nacional? Onde colocar o patriotismo? O que fazer com os preceitos luteranos e calvinistas de honestidade, vocação, frugalidade, trabalho e amor ao próximo?… O rodopio não é fácil. Mas, felizmente, as novas “Tecnologias da (des)Informação” vem ao auxílio dos corações partidos e mentes culpadas.

Em sua emergência, a internet e as redes sociais foram vistas como as bases de uma nova era, marcada pela democratização da informação e pela mais plena liberdade de expressão e acesso à cultura. Ledo engano. A verdade está muito mais próxima do oposto: a internet e as redes sociais alimentaram um processo de concentração e centralização de capital inimaginável até o último quartel do século XX. Google, Facebook, Microsoft, Apple e Amazon são os símbolos da nova era. Em nenhuma época pretérita, alguns poucos indivíduos privados, sem qualquer tipo de investidura social politicamente acordada, detiveram tanto poder sobre o planeta. Ao mesmo tempo, estes verdadeiros impérios desenvolveram (e continuam desenvolvendo) sistemas de monitoramento das atividades dos usuários privados no interior da rede mundial que lhes permite oferecer, a cada indivíduo, devidamente empacotado, os serviços que lhes convém. Convém a quem?

Em tese, ao usuário, pois é a sua atividade de busca que é rastreada e que informa o que deve ser ofertado. Mas, na verdade, não se oferta exatamente o que o usuário gostaria de acessar. Mas aquele similar “médio B” que é capaz de despertar o interesse do internauta e cuja firma produtora pode arcar com a “caixinha” das redes. Ao fim e ao cabo, a internet e as redes sociais têm servido para aprofundar a concentração do capital e da renda em todos os níveis, enquanto vicia os usuários finais em jogos, pornografia e nas fofocas e tramas da informação superficial, em que as manchetes (de preferência, chocantes) valem mais do que o conteúdo central, e o conteúdo só chega a ser lido se for pequeno e simples. De preferência, bem pequeno e bem simples. Não há tempo para ler, para fazer visitas presenciais, para conversar, para questionar, para filosofar. Militar, então, ne se fala. Aliás, o que é mesmo militar? Virar milico?

Este é o mundo brasílico. O brasileiro é o povo mais conversador e amistoso do planeta. E também é um dos que menos lê e estuda. E um dos que mais confunde fato, narrativa, desejo e delírio. Se eu digo que o Lula é ladrão e que eu sou um honesto meritrocata, então é fato. Não importa se sou grileiro e traficante e Lula é líder mundial e foi inocentado A realidade é a que eu quero que seja. O mundo das redes é o “Mundo Brasil”. As redes esgarçaram e liquidificam as noções de fidelidade, continuidade, profundidade, seriedade, complexidade, trabalho esforço, estudo, conhecimento, território, nação e ética. Deprimem o superego e a culpa e, assim, libertam os europeus das peias luteranas, calvinistas e de identidade nacional. Bingo! Um último detalhe e teremos nas mãos todas as pontas da trama.

Dissemos acima, que o sucesso histórico da Rússia era condição necessária, mas insuficiente, da russofobia. É claro. Se a Rússia não fosse um “case” de sucesso, não seria objeto de ódio. Como dizia o Barba, não se bate em cachorro morto. A Rússia é um cachorro muito vivo e bem grande. Grande o suficiente para ser a justificativa necessária para a sustentação da OTAN. Desde que a Rússia seja perigosa. Muito perigosa! Se não for, temos que transformá-la nisto. Pois disto depende o enorme e riquíssimo complexo industrial-militar norte-americano. Um complexo que, hoje, é a condição da hegemonia dos EUA e do qual fazem parte todos os grandes blocos de capital monopolista que operam na rede web (sob comando dos EUA!). Na dúvida, leia Mazzucato.

Ora, Zuckerberg, Steve Jobs, Elon Musk, Bill Gates, dentre tantos outros meganos da TI mundial são (ou foram) geniais em suas áreas. E, mesmo que não tenham expertise em Sociologia e Ciência Política e Economia, seria muita ingenuidade pretender que eles tomam suas decisões estratégicas influenciados pelo que “dá no zap” ou pelas manchetes (tantas vezes compradas por eles mesmos) da grande mídia mundial. Eles conhecem muito bem os caminhos tortuosos que leva(ra)m ao próprio sucesso. E estes caminhos passam pelo apoio àqueles que os apoiam, vale dizer, à turma da política que garante a valorização dos seus negócios. A turma que defende o complexo industrial-militar norte-americano. A turma que depende da existência de um “grande inimigo”, de um grande bandido: Putin e a Rússia são os inimigos ideais para a sustentação da “Liga da Justiça”. Aliás, Putin até lembra Lex Luthor. Perfeito. Só falta fazer o mundo todo acreditar nisto.

É onde (re)entram as redes. Por favor, não pensem que a Google decidiu impedir o mundo de acessar o Russia Today e o Sputnik pelo YouTube e que o Elon Musk e cedeu o uso do Starlink à Ucrânia porque estes pobres meninos ricos se condoeram das criancinhas ucranianas. Nem porque foram sensibilizados pelo protesto de Madonna nas redes ou pela crônica de Fernanda Torres acusando Putin de fazer a cabeça do Monark. Nem pense que o motivo de vocês só encontrar posts criticando o Putin no face é porque todos estão contra ele. É que o Mark também defende o mundo livre (de ideias próprias). E não vai deixar de frear Lex Luthor e os russomínions amestrados, seus apoiadores.

Não seja ingênuo, camaradinha. O que está em operação são os algoritmo$ e e os interÉ$$e$ (como gostava de dizer o saudoso Brizola). É buSine$$, somente bu$ine$$.

 

Ainda há esperança?

Neste mundo cada vez mais “Matrix”, o que surpreende é que ainda existam lideranças com capacidade e coragem para dizerem algo que destoa do vulgar “consenso comum”. O Presidente francês, Emmanuel Macron, é uma delas. Declarou – para o espanto de muitos! – que manteria conversações com Putin pois “a França não está em guerra contra a Rússia”. Evidentemente, tal afirmação, tão dissonante das fanfarronices estrepitosas de Biden e Johnson, do silêncio acovardado de Scholz e do infindável rosário de retaliações contra a Rússia que von Der Leyen desfia com sua elegância fria e algo malévola, veio acompanhada de uma saraivada de críticas a Putin. Afinal, haverá eleições na França este ano. E há limites estreitos para a tolerância do povo da Matrix mundial com qualquer frase que “não dá no feici ou no zap”.

O problema de fundo é que uma andorinha não faz verão. E, na Europa, aparentemente, Macron ainda está só. E o jogo que está sendo jogado é duríssimo. Desde a queda do muro que o Ocidente (leia-se, a OTAN, capitaneada pelos EUA) vem avançando sobre o leste europeu e plantando mísseis em torno da Rússia. Em 2014, um presidente legitimamente eleito foi derrubado e os novos governantes (como sempre, apoiados pelos EUA) deram início a uma luta contra a população étnica russa. Em 2015 foram assinados os Acordos de Minsk que nunca foram implementados. O governo Zelensky aprofundou a repressão à mídia russófila e solicitou o ingresso da Ucrânia na OTAN.

Mas para que serve a OTAN? Para controlar o único inimigo que sobrou: a Rússia, QG de “Putin-Luthor”. E, por isto mesmo, Putin e a Rússia estão 100% certos em não aceitarem mais mísseis voltados para si. A questão é: como podemos colaborar para que este “não” seja finalmente ouvido, compreendido e aceito pelos EUA e pela UE? Todos os que são efetivamente (e não retoricamente) contra a guerra tem que ser a favor da criação de uma área de exclusão. E esta área de exclusão deve ser o núcleo original dos eslavos Rus: a Ucrânia. Não precisa ser de esquerda ou progressista para entender isto. Até Kissinger entende, Cacilda!

Como muito bem disse Fábio Venturini na InterTelas, não se trata de “apoiar a guerra”. Só loucos e irresponsáveis podem ser a favor de uma guerra. Ser contra a guerra é tão óbvio, tão elementar, quanto ser “a favor do bem e ser contra o mal”. A questão real é como contribuir para o fim da guerra?

Os EUA vão forçar a corda contra qualquer acordo até o limite. Afinal, tal como nos conflitos da Líbia e da Síria, a Europa é que vai pagar o pato. Para os EUA, a guerra da Ucrânia pode durar o tempo que for. O complexo industrial-militar agradece.

É a Europa que precisa assumir suas responsabilidades e coordenar o processo de negociação. Mas isto só ocorrerá se a esquerda (nem tão cândida, algo oportunista, de olho nos votos e nos “likes” do facebook) sair das redes, desplugar da Matrix e parar de cantar o mantra simplório “Rússia Má” X “Ucrânia Noiva do Ocidente, Boazinha”.

Simultaneamente, é preciso que os demais líderes do mundo – e não só da Europa – contribuam com propostas objetivas e gestos de solidariedade reais para com os sofridos povos da Ucrânia, de Donbas e da Rússia (que suporta, há anos, as retaliações impostas pelo Ocidente Livre e Democrático) para a solução deste impasse. Dentre as lideranças “do G-13” (vale dizer: G-20 – 7) o único que (até onde posso perceber) está atuando com a responsabilidade e a grandeza que lhe caberia é Xi Jiping, que fala através de seu Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi. Mas ainda é preciso mais.

Desde logo, quer me parecer que algumas palavras de ordem devem ser consensuadas o mais rapidamente possível. Dentre as quais: (1) a Ucrânia não entrará para a OTAN; (2) fica garantida e reconhecida a independência das repúblicas do Leste da Ucrânia, de maioria russa; (3) todas a tropas russas serão retiradas da Ucrânia e das novas repúblicas; (4) cessam todas as sanções europeias à Rússia (as dos EUA, não cessarão. E não adianta pedir o impossível.)

Circulam pela internet propostas aparentemente mais radicais do que as alinhavadas acima na linha: Putin fora da Ucrânia / OTAN fora da Europa. Sinto, mas isto é tão realista e factível quanto pedir: “Putin: de volta para casa com o rabo entre as pernas / Europa: livre de todo o mal e ódio do mundo”. Ou: “Rússia: volte à estaca zero / Europa: prometa (mais uma vez) o que não vai cumprir”.

Definitivamente, não é este o caminho. O pior resultado possível desta guerra seria retroceder a uma versão piorada (em função da destruição já imposta) do quadro anterior à mesma. É hora de mudar a correlação de forças no mundo. E, para tanto, a esquerda mundial tem que se posicionar firme e resolutamente. As lideranças da Europa (Johnsons fora: donde menos se espera é donde não sai nada mesmo!) tem que assumir suas responsabilidades. E os líderes dos demais países do G-13 devem se envolver e apoiar resolutamente o fim deste conflito a partir de um acordo que contemple todos os interesses. Só assim poderemos transforma a “guerra-limão” numa “paz-limonada” que altere definitivamente a face do mundo.

Isto é possível? Sim muito possível. Esta crise pode levar a que a Europa sacuda a decrépita águia americana dos seus ombros. E este é, justamente, o quadro que os EUA mais temem: que a crise mundial seja resolvida e superada a despeito de sua mais absoluta inação. O Império é decadente, sabemos bem. E, nesta decadência, perdeu toda a capacidade de agir como um hegêmona construtivo, tal como o fez no passado, com Roosevelt e Truman conduzindo a construção do Sistema ONU e o Plano Marshall. Hoje, a velha águia está presa a jogos de soma zero: seus ganhos são obtidos às custas dos demais jogadores. Já passou da hora do resto do mundo assumir a maioridade e arranjar as peças no tabuleiro e as regras do jogo de acordo com os seus interesses.

Sem dúvida, este movimento seria traumático para o orgulho da águia velha. E ela vai morder. Mas, contraditoriamente, poderá ter desdobramentos muito positivos para o povo norte-americano. Como dizia Trump (sim, até o Trump diz algo razoável, vez por outra), a América deve se voltar mais para dentro, para seus problemas internos. Se e quando isto acontecer, o mundo deixará, de ser unipolar e um novo padrão de diálogo se estabelecerá

A esquerda deveria estar lutando por isto. Infelizmente, não está. Está presa na Matrix e no jogo oportunista das ovelhinhas de Orwell, balindo de satisfação ao verem os porcos caminhando sobre duas patas. Basta de servilismo. É preciso refletir e infletir o discurso e as práticas. Ainda temos tempo para isto. Mas não muito.

*Carlos Águedo Paiva é doutor em economia e professor do mestrado em desenvolvimento da Faccat.