Frente Ampla para combater o fascismo

Dora Longo Bahia. Revoluções (projeto para calendário), 2016 Acrílica, caneta à base de água e aquarela sobre papel (12 peças) 23 x 30.5 cm cada
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Por FLÁVIO AGUIAR*

Berlim ensina: o nazismo venceu quando comunistas e liberais se recusaram a se falar. Porto Alegre responde: a frente ampla é o antídoto. Enquanto Trump ameaça e as big techs pressionam, o Brasil tem uma escolha – unir-se ou repetir os erros fatais do século XX

1.

Na noite de 14 de julho reuniu-se no Casa Verso (um centro cultural com espaço para debates, sito à rua José do Patrocínio 698, no bairro hoje boêmio da Cidade Baixa) um grupo de militantes de diferentes colorações das tendências democráticas e populares para debater a conjuntura nacional e internacional com a ideia de dar o pontapé inicial no esforço de constituir uma ampla frente política com objetivos acumulados.

Estes foram definidos com um espectro muito amplo, abrangendo desde esforços eleitorais locais, estaduais e nacionais, até a concertação de uma proposta universal para impulsionar uma visão do papel do Brasil como possível vetor de políticas de justiça social e desenvolvimento democrático.

A convocação partiu do Instituto Novos Paradigmas, cujo Conselho diretor é presidido pelo ex-governador do Rio Grande do Sul (2011 – 2014) Tarso Genro, também ex-prefeito de Porto Alegre por dois mandatos e ex-ministro dos governos Lula 1 e Lula 2 (Educação, Relações Institucionais e Justiça).

Tarso Genro abriu a sessão fazendo uma rápida exposição sobre alguns temas da conjuntura internacional, como a impactante ameaça de uma taxação extra de 50% sobre produtos brasileiros feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como represália pelos processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e as medidas de controle sobre big techs norte-americanas no Brasil. Além disto, o presidente Trump manifestou disposição para que o governo norte-americano investigue o que considera como vendas ilegais na rua 25 de Março, em São Paulo, por desrespeito a normas de propriedade intelectual: acredite se quiser e puder.

Seguiu-se uma exposição feita pelo professor de filosofia João Carlos Brum Torres, ex-secretário de Estado de Coordenação e Planejamento nos governos do Rio Grande do Sul nas gestões de 1995 a 1998 e de 2003 a 2005. Nesta exposição é que se destacou, inicialmente, a necessidade de dar uma dimensão universalista ao propósito de formar-se uma Frente Ampla para revigorar o movimento democrático, popular e republicano na capital gaúcha, no estado e no país, aprofundando, ao lado das disputas eleitorais, a discussão sobre o projeto de nação que se quer desenhar para o Brasil e seu papel no novo mapa geopolítico.

Houve outras e variadas intervenções por parte de militantes de diferentes partidos e movimentos sociais, destacando-se a ideia de que ali não se estava propriamente definindo o tamanho ou o espectro desta Frente, mas sim as balizas de sua possível formação. Sublinhou-se a ideia de que ela não deva ter qualquer caráter impositivo por parte dos partidos que venham a forma-la. Isto significa que estes não devem partir da premissa de impor candidaturas previamente estabelecidas no seu domínio sobre os demais participantes do movimento.

Houve também a evocação de momentos considerados exponenciais na história da cidade e do Rio Grande do Sul, como na Revolução de 1930 e no Movimento pela Legalidade, defendendo a posse de João Goulart como presidente, depois da renúncia de Jânio Quadros em 1961.

2.

Para sublinhar a importância deste debate, destaco dois aspectos fundamentais.

O primeiro diz respeito à iniciativa dos tarifaços por parte de Donald Trump. A ameaça dos exponenciais 50% sobre as exportações do Brasil para os Estados Unidos visa, para além da retórica de proteção ao aliado Jair, abalar a liderança do presidente Lula no cenário internacional.

O presidente Lula é a principal voz de esquerda no palco mundial. Desfruta de inequívoco respeito neste cenário, até por parte de quem não concorde com suas posições à esquerda.

Preenche o vazio deixado pela submissão das sociais-democracias europeias aos princípios neo-liberais e pela inserção subalterna de muitos países da União Europeia, com exceção da Espanha e do Vaticano (!!!) às balizas da política norte-americana através da OTAN e da crescente re-militarização de sua economia, o que beneficia a indústria armamentista mundial e a norte-americana em particular, com grave risco para a paz continental e mundial.

O presidente Lula é a voz mais poderosa hoje, à esquerda, em falar sobre paz e diplomacia como necessidades imperiosas da conjuntura. O tarifaço extra sobre o Brasil visa também quebrar a espinha dos BRICS na possível liderança de uma desdolarização das transações internacionais. Aliás a liderança de Lula está sob ataque não apenas de Donald Trump, mas também de porta-vozes das finanças globalizastes, como as revistas Financial Times e The Economist.

Há ainda quem diga que este ataque a Lula se deve a uma rotação na rede de influências sobre Donald Trump, com o afastamento de Elon Musk e a reintrodução, ainda que discreta, de Steve Bannon na sua corte preferencial.

Mas a ousadia tarifária de Donald Trump tem também uma dimensão subliminar, atraindo bilio- e milionários para sua pregação. Durante o século XIX a principal fonte de financiamento do governo federal norte-americano deu-se através das tarifas sobre importações, além das tarifas sobre a produção e o consumo internos de certos produtos, como tabaco e bebidas alcoólicas.

No final daquele século a Suprema Corte norte-americana chegou a decidir que um imposto sobre a renda de corporações e pessoas físicas era inconstitucional. A adoção de um imposto de renda federal e estadual só foi instituída depois da aprovação de uma emenda à Constituição Federal, a de número 16, em 1903, mediante uma votação no Congresso, sob a presidência de Theodor Roosevelt.

A última tentativa de revigoração dos tarifaços deu-se em 1930, sob a presidência do arqui-conservador Herbert Hoover, mediante o chamado Smoot-Hawley Tariff Act, defendido como uma medida de proteção aos produtores e produtos norte-americanos. A medida provocou uma reação de reciprocidade por parte de outros países, levando a uma desorganização do comércio internacional e um aumento da inflação nos Estados Unidos que só agravaram a Grande Depressão já em curso. O desastre levou à eleição de Franklin Delano Roosevelt em 1932 e à criação do New Deal.

Ainda assim, Donald Trump acena veladamente aos multi-ricaços do mundo com uma utopia regressiva de retorno a um mundo donde o imposto de renda seria defenestrado ou pelo menos diminuído, logo num momento em que discute no plano internacional a taxação extra sobre as super-fortunas. E diga-se de passagem que o presidente Lula e o Brasil estão entre as lideranças desta discussão.

O segundo aspecto que destaco é o de uma lição histórica, sob a forma de um convite. Quem for a Berlim, cidade onde morei pelos últimos 18 anos, visite o Gedenkstätte Deutscher Wiederstand, o Memorial da Resistência Alemã, na Stauffenbergstrasse, no prédio que era o QG do Exército Alemão.

Ali, onde foram fuzilados alguns dos militares que praticaram a tentativa de eliminar Hitler em 20 de julho de 1944, entre eles o coronel que dá nome à rua, Claus von Stauffenberg, o visitante aprenderá duas lições. A primeira é a de que a resistência anti-nazista na Alemanha foi muito maior e mais ampla do que se pensa. Foi composta por comunistas, social-democratas, liberais, religiosos, aristocratas e militares.

A segunda é a de que os comunistas não conversavam com os social-democratas e vice-versa; ambos não conversavam com os liberais, que não conversavam com os religiosos, que não conversavam com os aristocratas e militares, que não conversavam com ninguém.

Deu no que deu.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]


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