Estranhezas do século romântico

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Por CILAINE ALVES CUNHA*

Apresentação da autora ao livro recém-lançado

1.

Os textos aqui reunidos abordam aspectos da obra de Gonçalves Dias, Sousândrade e Gonçalves de Magalhães: o nacionalismo, o historicismo literário romântico, o indianismo, a reflexão sobre a escravidão, a estilização do medievismo e, em maior escala, a singularidade com que esses dois primeiros poetas manejam os procedimentos formais e teóricos do sublime.

Como se observa no alargamento das imagens de Castro Alves em amplidões inesperadas, a teoria romântica do sublime marca profundamente a estrutura argumentativa, a dicção e a definição da linguagem poética no século XIX. Tal como então concebido, o sublime não se concretiza simplesmente como um estilo elevado, enfático e pomposo.

Absorve um conjunto de princípios teóricos e políticos e técnicas complexas que alcançam partes do texto, a relação entre elas, e estrutura seu conjunto. Seus procedimentos formais tornam-se, na obra de Gonçalves Dias e Sousândrade, estratégia de representação das contradições sociais que atravessam a história do Brasil e da América, e de composição, em contrapartida, de um projeto de nação.

As teorias do sublime são assuntos centrais na teoria estética do romantismo, ao lado da ironia, da distinção entre “clássicos” e “modernos”, da valorização da imaginação, da reflexão sobre o historicismo moderno, da diferenciação entre símbolo e alegoria, entre outros assuntos.

A reflexão de Friedrich Schiller sobre o sublime funda uma tendência que conduz a literatura oitocentista na direção do trágico. Ela se desenrola em um longo percurso até se estabilizar como romântica. Inicia-se, no mundo moderno, com a tradução, em 1674, de Longino por Boileau, atravessa a obra de Edmund Burke (Uma Investigação sobre As Origens de Nossas Ideias do Belo e do Sublime, 1757) e de Kant (Crítica da Faculdade do Juízo, 1790), até desembocar em Schiller (Sobre o Sublime, 1792).

Entre esses autores, interessa aqui, sobretudo, a síntese desse trajeto levada a cabo pelo dramaturgo alemão, responsável por determinar o código regulador da linguagem sublime. Partindo da teoria que o descreve como um sentimento desencadeado por um jogo conflituoso entre imaginação e razão e como uma experiência inerente à contemplação da natureza, Friedrich Schiller instala a vivência desse sentimento novamente na linguagem artística, retomando a seu modo filosófico próprio Longino e Boileau.

No autor de A Noiva de Messina, a representação das forças contraditórias que movem a história e o mundo da cultura desencadeia um conflito interior durante a contemplação do assunto dito “sublime”, vivenciado como um misto de prazer e dor que tende a suprimir as forças vitais do indivíduo, dificultando o exercício da liberdade.

2.

O sublime trágico de Friedrich Schiller torna-se uma das principais referências da arte romântica, mas não a exclusiva. Outro caminho foi aberto pela sátira irônica, pensada, inclusive, em oposição e paralelamente àquele, como representação do infinitamente pequeno na condição humana e como inversão de ideias e ideais que se querem nobres e elevados.

 Protagonizado por Friedrich Schlegel, o desenvolvimento da teoria do discurso irônico alastrou-se até se tornar sinônimo de arte moderna, dando corpo à composição do sujeito da enunciação distanciado que cede a interpretação de assuntos e eventos narrados a perspectivas diferentes e mesmo em choque.

Na Parte I, dedicada a Gonçalves Dias, o capítulo 1, “O Pensamento Poético de Improviso” procura descrever a singular dicção poética de Gonçalves Dias, bem como sua prudente adesão a certos princípios da estética romântica, como a convenção que atribui à livre imaginação a fonte principal da inspiração e propõe a subjetivização a linguagem poética.

O capítulo 2, “A Meditação Cristã” prioriza o modo como o poeta concebe o fluxo do tempo, apropriando-se do providencialismo cristão para concretizar uma escrita singular da história do Brasil que incorpora as reflexões do autor sobre a permanência da escravidão. “Tempestades do Coração em ‘Leito de Folhas Verdes’”.

O capítulo 3, aborda em que medida Gonçalves Dias se vale das lições do sublime antigo para compor a matéria nacional e traçar a figura do tipo local, concedendo-lhes atributos de alta grandeza.

Diferentemente, o capítulo 4, “O Temporal Sublime de Gonçalves Dias” analisa a apropriação, por esse poeta, da teoria romântica do sublime na lenta pintura da tempestade tropical, bem como o modo com que ele, a despeito de Kant e Schiller, apresenta a transcendência cristã como solução para os impasses sociais acarretados pelo modo de produção escravagista.

“A Invenção da Tradição Brasileira”, capítulo 5, contrapõe poemas de Gonçalves Dias em que ele se apropria de traços das cantigas trovadorescas e rearranja o lugar das etnias indígenas e africanas em sua concepção de nação. Fechando essa parte, o último texto traça um balanço de seus ideais utópicos nacionalistas.

Na Parte II, dedicada a Sousândrade, o capítulo 6, “A Contemplação Polimórfica de O Guesa” leva em conta o diálogo dessa obra com Gonçalves Dias, especialmente com seu indianismo. Também analisa os graus de maior ou menor verossimilhança que O Guesa estabelece com os valores e o sistema estético do tempo. O texto procura acompanhar o modo com que essa, nesse poema narrativo, a consciência lírica figura os sucessivos passos da ação de contemplar a paisagem e a história da América, num acúmulo metafórico que as compõe como um excesso temático e formal e funde o épico, o satírico e o lírico.

O capítulo 7 dessa mesma segunda parte discorre sobre uma das peculiaridades da obra de Sousândrade: enquanto apresenta arrojada soluções poéticas, ela também se vale de recursos e estiliza formas líricas com traços medievizantes.

Em que pesem certas afinidades entre Gonçalves Dias e Sousândrade, o fato de O Guesa ter sido escrito e reescrito ao longo de mais de trinta anos demanda ainda várias pesquisas que possam nele reconhecer diferentes camadas de valores, de pressupostos estéticos e do debate intelectual e artístico que se acumulam em cada um dos momentos em que o poema foi sendo gestado e republicado.

Neste trabalho, o agrupamento de Gonçalves Dias e Sousândrade tornou-se possível apenas na medida em que delimito o diálogo entre eles e, sobretudo, tendo em vista as semelhanças e as diferenças do estilo satírico, mas prioritariamente trágico, com que estilizam o fluxo da história. Ao lado desse diálogo, o caráter abolicionista que fundamenta boa parte da obra desses autores, a despeito da tendência monarquista de Gonçalves Dias e da republicana de Sousândrade, permite reconhecer o caráter mais libertador de suas obras distante das concepções artísticas e políticas de Gonçalves de Magalhães.

Ao criticar a política imperial brasileira e, de modo contraditório, o moderno sistema de acumulação do capital, o autor de O Guesa repõe, com efeito, alguns procedimentos da sátira irônica, como a ironia em eco, a paródia e o pastiche. Mas não formula, sob a ótica desse trabalho, uma total ruptura com a ordem socioeconômica do tempo, nem propõe uma crítica de seu próprio pensamento poético e ideológico, como é praxe na ironia romântica.

Defende a supressão do liberalismo escravocrata, o que não era de somenos, sem romper com as premissas liberais do sistema. Distancia-se, assim, dos objetivos da sátira irônica romântica que prioriza a desestabilização do conjunto de crenças e da hierarquia de valores em curso, em sua recusa de repor qualquer tipo de princípio ético-político, gesto entendido como ilusório.

A Parte III, dedicada a Gonçalves de Magalhães, trata da metodologia da história da literatura que atravessa o Ensaio sobre a história do Brasil, de Gonçalves de Magalhães, com seu pressuposto de que a literatura aqui produzida já se concebia como “brasileira” desde o século XVII. A coincidência entre o processo de independência e a busca de definição da especificidade da literatura gerou um movimento na cultura voltado para buscar os pressupostos tanto da escrita da história propriamente quanto da história literária.

Esse texto Gonçalves de Magalhães (1836), ao lado de Ensaio histórico sobre as letras no Brasil (1847), de Francisco Adolfo Varnhagen, tornou-se responsável por estabelecer critérios cronológicos para uma periodologia da história da literatura e da história do Brasil.

O capítulo 8, “A Escada de Gonçalves de Magalhães”, discorre sobre os nexos causais que Gonçalves de Magalhães estabelece entre os eventos da história e os da cultura local, vistos em sua interligação com os preceitos do autor para diferenciar a literatura aqui produzida.

Durante a pesquisa e a produção deste livro, tive o privilégio de dialogar sobre esses e outros assuntos com João Adolfo Hansen, Antonio Candido (in memoriam) e Alfredo Bosi (in memoriam). Deixo registrada a felicidade dos encontros com esses intelectuais que fazem a riqueza de uma universidade verdadeiramente pública.

*Cilaine Alves Cunha é professora de literatura brasileira na USP. Autora entre outros livros, de O belo e o disforme: Álvares de Azevedo e a ironia romântica (Edusp).

Referência


Cilaine Alves Cunha. Estranhezas do século romântico: Gonçalves Dias, Sousândrade e Gonçalves de Magalhães. São Paulo, Edusp, 2025, 286 págs. [https://amzn.to/3GWN78m]


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