Inversão acusatória

Imagem: João Henrique
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

A narrativa extremista de “ditadura comunista” e “traidor da pátria” é uma inversão completa da realidade. Mais do que ignorância, é um projeto de má-fé que visa envenenar o debate público, corromper o patriotismo e submeter o país a interesses estrangeiros

1.

É comum a dúvida entre ser ignorância ou ser má-fé contra os fatos quando os patriotários dizem o Brasil ser uma ditadura comunista e o pastor Malafé acusar o Lula, defensor da soberania nacional contra o Imperador Donald, de “traidor da pátria”, em uma inversão total dos fatos! Comumente, a ignorância e a má-fé se misturam em mentes incultas…

Na prática, fazem uma combinação de ignorância política e má-fé retórica. Essa distorção cognitiva é conhecida como inversão acusatória. Vamos a analisar de forma sistemática.

“O Brasil é uma ditadura e comunista”?! Fato: o Brasil é uma democracia, estabelecida em sua Constituição, com eleições regulares, alternância de poder, liberdade de imprensa e separação de poderes.

No entanto, grupos da extrema direita, acompanhados de mugidos repetidores, afirmam existir “ditadura comunista” no país. Essa afirmação é falsa porque ela desconsidera completamente a realidade institucional, eleitoral e jurídica. É, portanto, uma distorção proposital ou ignorante dos fatos.

“O Lula é traidor da pátria”?! Fato: o governo Lula tem adotado políticas de soberania nacional em temas como defesa tecnológica, acordos comerciais e diplomacia internacional, especialmente frente a pressões externas, inclusive dos EUA. Contrafato alegado: pastores ou líderes políticos da extrema direita chamam o governo de “traidor da pátria”.

Evidentemente, isso constitui uma inversão da realidade: quem defende a soberania é acusado de traição, enquanto quem defende a submissão a potências externas é romantizado como patriota. Os covardes tipicamente adotam duas táticas, uma para cada um dos seus dois “neurônio” (sem S): agridem violentamente e se vitimizam em seguida.

Ray Cohn, assessor-chefe do senador Joseph McCarthy (1908-1957) da cruzada anticomunista e, depois, advogado da Máfia, mostrou o caminho para Donald Trump: jamais ceder, não cooperar, chamar a atenção seja como for e ganhar as causas diante da mídia. O advogado transformou-se no mentor de O Aprendiz e o ensinou o “atacar, atacar e atacar” a quem não fazia o que ele queria.

Parte do discurso anticomunista surge de desconhecimento histórico, político e institucional. Muitos incultos não compreendem o funcionamento do Estado brasileiro, a democracia e a realidade internacional.

Outra parte é deliberada má-fé: usar a retórica de “ditadura comunista” ou “traidor da pátria” é uma estratégia de mobilização política baseada em medo, polarização e propaganda, independentemente dos fatos. Essa narrativa cria um mundo invertido, no qual os defensores da democracia e da soberania são demonizados, enquanto aqueles submissos e vendilhões da pátria, ao clamarem por intervenção estrangeira, se apresentam como “patriotas”.

2.

Essa retórica é um exemplo clássico de inversão acusatória, usada em discursos populistas e extremistas de direita. Ela mistura ignorância factual com má-fé, porque ignora ou deturpa dados concretos sobre democracia, soberania e política internacional.

Atribui ao governo legítimo a acusação necessária de recair sobre forças externas ou internas em busca de submeter o país ao tarifaço e à Lei Magnitsky em troca de anistia para o Capachonaro. Em suma, é uma distorção completa da realidade, tanto factual quanto histórica, e serve mais para manipulação política em vez se ser para um debate público sério.

Em um quadro comparativo detalhado, é possível mostrar a diferença entre a retórica da extrema direita e os fatos históricos e institucionais do Brasil.

Quanto à natureza do Estado brasileiro, a retórica dos patriotários é dizer “o Brasil é uma ditadura comunista”. No entanto, o Brasil é uma democracia com eleições periódicas, separação de poderes, liberdade de imprensa e alternância de governo desde 1985.         Tipo de distorção é uma falsa informação resultante tanto de ignorância de quem repete o mugido quanto de má-fé.

Acusar o governo Lula de “traidor da pátria” é outra inversão acusatória de má-fé justamente porque, ao contrário, Lula atua em defesa da soberania nacional, fortalecendo políticas de industrialização, diplomacia multilateral e autonomia tecnológica. Ele combate tentativas de subordinação do país a interesses externos.

Quanto à influência externa, os populistas da extrema-direita consideram “intervenção americana” como solução patriótica. A dependência política ou econômica de potências estrangeiras logicamente não é solução de soberania. Defender a autonomia nacional é o oposto da traição. A submissão é uma distorção intencional para propaganda dos vendilhões da pátria.

Os anacrônicos anticomunistas alegam haver a presença de comunismo no Brasil. Não há partido comunista governando nem controle estatal total da economia. O Brasil segue como uma economia mista com instituições democráticas consolidadas. É uma falsa informação e quem a repete só demonstra sua ignorância diante a realidade.

3.

O conceito de patriotismo é inteiramente distorcido ao pedir intervenção estrangeira. Patriotismo consiste em defender a soberania nacional, integridade territorial e autonomia política e econômica. Essa distorção conceitual é má-fé.

Na narrativa dos “patriotários”, democracia significa “subversão comunista”. A redemocratização, em 1985, restaurou direitos políticos, eleições livres e liberdades civis. Os períodos autoritários (Estado Novo e Ditadura Militar) são históricos e reconhecidos, mas não se aplicam ao presente. Essa falsa equivalência histórica é um discurso de má-fé para manipular a ignorância de uma massa inculta, devido ao baixo nível educacional.

O discurso de “ditadura comunista” e “traidor da pátria” é uma inversão total da realidade factual e histórica. Combina a ignorância factual, com desconhecimento ou negação das instituições democráticas e da realidade internacional, e má-fé deliberada. É uma estratégia de mobilização política baseada em medo e polarização, usando distorção dos conceitos de patriotismo e soberania.

O triste é constatar, em geral, “a opinião pública é a pior entre todas as opiniões”…

Um exemplo é uma pesquisa Quaest há menos de um mês, a maioria dos entrevistados (48%) respondeu Lula e o PT estarem do lado de quem mais faz o que é certo no embate sobre o tarifaço de Donald Trump, enquanto 28% responderam Bolsonaro e seus aliados. Para 15%, nenhum dos lados é o mais certo. Outros 9% não souberam ou não responderam.

A maioria relativa está certa. Mas entristece a maioria absoluta desconhecer os fatos, seja por ignorância, seja por má fé…

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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