Por MASSIMO CACCIARI*
Longe de ser a Grande Mãe arquetípica, Maria encarna o corte teológico que inaugura uma nova era – não a submissa, mas a co-herdeira que redime ao tornar-se órfã com o Filho
Anúncio do Anjo: “Maria, o Pai está cansado de tanta solidão – e ainda mais de filhos de cabeça dura. Ele deseja gerar um Filho todo seu, de se transpassar nele. Mas para isto precisava de ti, Maria. Precisava que tu também o queira. Seja sua herdeira junto ao Menino que tu darás a Ele. Dê esta bela morte, Maria”.
Maria consente, assim como seu Filho consentirá, com a mesma liberdade, no Jardim do Getsêmani. Um duplo e inseparável Sim.
Em toda parte, na sua época, havia imagens devotas da Mater Matuta [Mãe matuta].[i] Maria nunca se refletiu nelas. Ela não é a Mãe submetida ao ciclo perene de renascimentos como a Grande Mãe, mas a criadora de uma nova Era, a encarnação de um novo destino. O poder de sua imagem se eleva além “das mil virgens e mães do sincretismo, de Ísis, Tanit, Cibele e Deméter (…) Ao dar à luz o Redentor, é precisamente ela quem redimiu o mundo”.[ii]
Maravilha-thauma [espanto maravilhoso]: o Pai depositou nas mãos desta pobre Puer [pobre Criança]. Tudo nas mãos daquele que se entrega, que bebe o cálice da sua vontade de se entregar, que recusa todo o poder. De kenosis a kenosis.[iii]
E nesta sequência kenótica está, ao centro, Maria.
Maria cai aos pés da Cruz; somente esta queda eleva.
O Pai o escolheu herdeiro – mas como herdar se não se tornou, primeiro, órfão? Assim nos aparecem em tantas imagens, perfeitamente sós, Mãe e Filho. Abandonados. “Por que nos abandonaste, Senhor?” Todavia, nos ícones em que eles aparecem, a pergunta não se trata de um grito. O mais doloroso dos silêncios o diz. Assim, na Madonna [Nossa Senhora] com o Menino, a Madonna grega de Bellini, com o Menino quem quase não contém suas lágrimas, ou na extraordinária Lamentação, em que a Mãe, desgastada pelos anos e pelas dores, abraça o Filho, bochecha com bochecha, na mesma pose dos mais doces ícones.
Trindade é a relação entre os Dois [Mãe e Filho] e dentre ambos com o Espírito que a eles dá força para invocar o Ausente [Deus]. Porque vem em Seu nome, ninguém os escuta. Trazer o Céu para dentro dos muros da mais humilde igreja, esta é aspiração da arquitetura bizantina.[iv] Assim, o Beato Angelico[v] introduz a figura de Maria na cela de São Marcos. Aurora consurgens [Aurora que se ergue] da perfeita humilitas [humildade].


A Encarnação é a realização do Amor divino (Baader). O Filho não é concebível se não em um com a mulher. Por isto, ele é sempre o noivo dela. A mulher o considera. A voz que os une é o Cântico dos Cânticos, em cada imagem deles, em cada momento da sua vida, até à própria cruz e à deposição. Ouvimos o grande Coro das Mulheres na Deposição de Santa Felicidade, acompanhadas apenas por João, com Nicodemos, o velho, relegado a um canto escondido, ou, ainda, de Pontormo, a Visitação de Carmignano:[vi] o ventre das mulheres, qualquer que seja a sua idade, é o único lugar onde se guarda o mistério. O seu ventre o matura [amadurece] em si, consciente, até o revelar.
A ligação entre maria e o filho é a videira, a imagem da árvore da vida.
Maria não promete salvar, mas acolhe sob o seu manto quem é peregrino in hoc saeculo [neste tempo mundano], para que lhe seja dado mais tempo para ouvir a voz que o chama. Ela guarda o tempo que resta e não se questiona sobre quanto tempo isso será. Ela é uma figura de paciência. Enquanto isso, ela dá abrigo; é um porto para o “navio dos loucos”[vii].
Não retém, não obriga a ficar. Consola? Talvez também, mas não é essa a sua característica essencial. O olhar da Nossa Senhora da Misericórdia é severo. Ela conhece bem a natureza daqueles que protege sob a sua tenda, sabe que a oração que agora lhe dirigem dura apenas um suspiro. Iria protegê-los mesmo que não houvesse esperança de que fossem salvos.
Ela intercede por todos? Ela quer salvar todos? E isso não é possível? São Bernardo aposta que sim, ela tem esse poder. Que o seu amor tenha valido tanto no caso de Dante, antecipando o mesmo “pedido” (Paraíso, XXXIII, 18),[viii] significa que ela sempre pode fazer o que quer, ou apenas que ela sempre gostaria de salvar todos os miseráveis? A ideia de predestinação é, de qualquer forma, radictus [radicalmente] posta em dúvida, se não negada, por todas as imagens de Maria.
Mas não como a de Michelangelo no Giudizo [Juízo Final]. É claro que o Cristo juiz, em seu corpo glorioso e com seu gesto, também acolhe – mas, ao mesmo tempo, rejeita, separa. É um verdadeiro Juiz: ele de-cide.[ix] A Mãe, aos seus pés mais do que ao seu lado, está recolhida numa pose de silenciosa contenção. Até o seu simples papel de intercessão parece se empalidecer. Impossível, porém, imaginá-la com a mão direita estendida para cima, impondo o fatal “deixai toda a esperança”.[x]
Porta Caeli [Porta do Céu] – fechada também para ela, então, mesmo para a sua oração? Nem mesmo Maria sabe se a ela será aberta? Ou será que a sua eloquência silenciosa quer nos dizer que a Porta está sempre aberta, e que ela apenas ignora se seremos pacientes o suficiente para esperar o tempo necessário – cuja medida ninguém conhece, pois não existe medida – para atravessar o seu limiar [soglia]?
Nenhuma palavra do Evangelho conseguiu descrever a Assunção em seu aspecto mais dramático. Os apócrifos falaram do transitus [trânsito da ascensão], com os apóstolos reunidos à sua volta numa nuvem, vindos de todos os lugares onde pregavam. Os anjos entoam o Cântico dos Cânticos e os apóstolos caem diante da claritas [brilho] do corpo de Maria assumido ao Paraíso, como quando Cristo se transfigurou no Monte Tabor.[xi]
O amor a leva para lá, como ela o acolheu aqui embaixo. Mas o que acontece na terra? Uma agitação tremenda toma conta dos que ficam. Se fosse abandono? Será que o grito da nona hora se repetirá para nós? Quem pode excluir essa possibilidade? Ela se eleva, certamente, diante dos nossos olhos. Agitamos os braços em direção a ela, seguimos com o olhar o seu voo, mas não podemos detê-la. Ela vai ad sidera [para o alto, às estrelas], e a nós resta apenas de-siderá-la.[xii] Somos obrigados a de-sistir de con-siderá-la, de poder vê-la aqui entre nós, presente.
O desejo e o arrependimento abalam as figuras daqueles que terão de viver o tempo que resta, como se o momento supremo da Assunção lançasse uma sombra de dúvida e de angústia sobre a imagem daquela Misericordiosa que nos guardava sob o seu manto. O Ticiano da Assunção dos Frari viu este drama – e, no entanto, é precisamente ele que nos remete mais uma vez para todos os rostos de Maria: meditativa, in dubio [em dúvida], lacrimosa e, no entanto, sempre hilaris [alegre], como não pode deixar de ser o céu do amor perfeitamente gratuito.

Silenciosa eloquência de Maria. Os sumos não falam. Nem Francisco nem Domenico falam em Dante. E Maria também não fala. A eloquência da escuta. Por que não falam? Porque sabem que o lógos não é a Arché;[xiii] Princípio do lógos não é o lógos, mas algo maior (Aristóteles, Ética a Eudemos).
A eloquência silenciosa é também a do “corte” da vestimenta sobre a qual repousa, indicando-o e protegendo-o, ao mesmo tempo, a sua mão direita. Talvez fosse precisamente isso que a atenção profana de um artista contemporâneo quis recordar?
*Massimo Cacciari é professor emérito da Faculdade de Filosofia da Universidade San Raffaele de Milão.
Tradução: Ricardo Evandro S. Martins
Publicado originalmente em La Passione secondo Maria.

Notas
[i] Mãe Natureza, da floresta, divindade feminina e materna ligada às culturas agrárias e pagãs. Nota do Tradutor.
[ii] Spengler, Oswald. Il tramonto dell’Occidente. Milano, Longanesi, 1957, p. 1000. Nota do Autor.
[iii] Kenosis é uma palavra grega, cujo sentido teológico poderia ser o do esvaziamento de si, da própria renúncia divina, quando Deus encarna, esvai-se de certo modo de certa medida divina, despojando-se de si. Nota do Tradutor.
[iv] Ch. Smic. La vitad elle immagine. Milano, Adelphi, 2017, p. 129. Nota do Autor.
[v] Pintor italiano do século XIV. Nota do Tradutor.
[vi] Pintura de Jacopo Pontormo, de 1528-1530. Está na Igreja dos Santos Miguel e Francisco, em Carmignano.
[vii] Talvez uma referência à famosa obra de Bosch, referida por Michel Foucault em História da loucura.
[viii] “mas muitas vezes/ espontaneamente se antecipa ao pedido” (ma molte fïate/ liberamente al dimandar precorre v. 17-8), trecho de A divina comédia, de Dante Alighieri.
[ix] O termo “decide” está analisado etimologicamente para revelar a ideia de que “decidir”, tomar uma “decisão”, é também produzir uma “cisão”, uma separação, “de-cidir”.
[x] Passagem da Divina comédia de Dante.
[xi] Passagem da transfiguração de Cristo, em Marcos, 9, 2-10; Mateus 17, 1-9; Lucas 9, 28-36.
[xii] Cacciari está fazendo um jogo de palavras com a expressão latina ad sidera e com as palavras “de-siderar”, no sentido de retirar do alto, do Céu, das estrelas, aproximando Maria de nós, além de “con-siderar”, no sentido de “siderar junto”.
[xiii] Das palavras gregas referentes, primeiramente quanto lógos, ao Verbum do Gênesis,ou no sentido de “discurso”, ou, até mesmo, linguagem; depois, quanto à palavra Arché, que pode significar tanto “princípio”, “começo”, como “princípio regente”, o qual se atualiza no presente. Nota do Tradutor.
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