Slavoj Žižek, o bobo da corte do capitalismo neoliberal

Imagem: Lăzuran Călin
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Por GABRIEL ROCKHILL*

O mais famoso “marxista” no mundo capitalista, enfeitado pelos jornais vinculados ao motor do imperialismo dos EUA

Em 2012, um dos intelectuais mais proeminentes do mundo contemporâneo foi nomeado para a lista dos “Top 100 pensadores globais” da revista Foreign Policy.[i] Ele compartilha essa honraria com gente como Dick Cheney, Recep Tayyip Erdoğan, Benjamin Netanyahu e o antigo diretor da Mossad, Meir Dagan. A concepção mais célebre desse teórico – de acordo com a conhecida revista, que é na prática um braço do departamento de Estado dos EUA – é que “a grande revolução aguardada pela esquerda nunca virá”.[ii]

É certo que outras ideias suas concorrem seriamente com essa e poderíamos acrescentar à lista concepções mais recentes. Para ficar em apenas alguns exemplos, esse eminente pensador global descreveu o comunismo do século XX, e mais especificamente o stalinismo, como “talvez a pior catástrofe ideológica, política, ética, social (e assim por diante) da história da humanidade”.[iii] Na realidade, ele agrega a isso, como ênfase, que “se você comparar em certo nível abstrato de sofrimento, o stalinismo foi pior do que o nazismo”, ao que parece lamentando-se de que o Exército Vermelho de Stálin derrotou a máquina de guerra nazista.[iv]

O Terceiro Reich não teria sido tão “radical” em sua violência quanto o comunismo, insiste ele, e “o problema de Hitler é que não foi suficientemente violento”.[v] Talvez ele pudesse ter pego algumas dicas com o Mao Tsé-Tung, que, de acordo com a sumidade intelectual, assumiu a “impiedosa decisão de matar de fome dezenas de milhões”.[vi] Essa afirmação infundada posiciona o autor bem à direita do anticomunista Livro negro do comunismo, que reconheceu que Mao não pretendia matar seus compatriotas.[vii] Entretanto, tal informação não é relevante para o teórico, pois considera que “o pior crime contra a humanidade”, no mundo moderno, não foi cometido pelo nazismo ou pelo fascismo, mas pelo comunismo.

O pensador em questão é também um autodeclarado eurocêntrico, pois insinua que a Europa é superior política, moral e intelectualmente a todas as outras regiões do planeta.[viii] Quando a crise dos refugiados se intensificou na Europa – graças às brutais intervenções militares do Ocidente em toda a região do Mediterrâneo –, ele papagaiou o credo de Samuel Huntington sobre o “conflito de civilizações” e afirmou que “o fato evidente é que a maioria dos refugiados provém de uma cultura incompatível com as noções de direitos humanos da Europa Ocidental”.[ix]

Além disso, esse distinto comentador apoiou Donald Trump nas eleições de 2016.[x] Recentemente, posicionou-se explicitamente à direita do notório belicista Henry Kissinger (acusado por ele de ser “pacifista”); registrou “total apoio” aos EUA em sua guerra por procuração na Ucrânia; e argumentou que “precisamos de uma OTAN mais forte” para defender a “unidade europeia”[xi].

Ser incensado pelo destacado jornal co-fundado por Huntington – arquiconservador agente da Segurança Nacional dos EUA – é apenas a ponta do iceberg para esse superstar global que atingiu um nível de fama internacional raramente concedido a intelectuais profissionais[xii]. Além de ser uma celebridade acadêmica, com posições de prestígio em destacadas Universidades do mundo capitalista e inumeráveis conferências internacionais, ele consolidou uma enorme plataforma midiática. Isso inclui publicar livros e artigos em velocidade vertiginosa em alguns dos mais importantes veículos, servir de tema de diversos filmes e aparecer regularmente na televisão e grandes espetáculos midiáticos.

Dada a natureza dessas posições políticas e a sua amplificação pelo aparato cultural burguês, pode-se supor que o pensador em questão seja um ideólogo de direita, promovido por think tanks imperialistas e pela Segurança Nacional dos EUA. Entretanto, é um comentador que todo mundo que pesquisa on-line, à procura de teoria radical ou mesmo de marxismo, encontra quase imediatamente; é um dos intelectuais de maior visibilidade entre os considerados de esquerda: Slavoj Žižek.

Donald Trump expressou sua crença no poder da máquina de propaganda dos EUA com a infame afirmação de que poderia “parar no meio da 5ª Avenida e atirar em alguém” sem perder um único eleitor.[xiii] No coração imperialista da nossa perversa e decadente sociedade do espetáculo, muito disso se aplica também ao garoto-propaganda da indústria da teoria global. Slavoj Žižek poderia assumir as posições políticas mais reacionárias possíveis, transmiti-las pelo aparato cultural capitalista, e, ainda assim, ser apresentado como intelectual de destaque da esquerda. Na realidade, é exatamente isso que ele faz.

Enchendo linguiça para ignorantes

Como jovem estudante de filosofia nos Estados Unidos no começo dos anos 1990, tenho de admitir que fui seduzido por esse mercenário e o sistema que o promoveu. Ele brotou na cena como um Evel Knievel da indústria da teoria quando eu me graduava. Mais do que monótonas e infindáveis dissertações sobre a história da filosofia europeia – da qual eu nada sabia –, ali surgia alguém que, a um jovem de dezenove anos, mal educado, aspirante a intelectual, podia falar sobre filmes de Hollywood, ficção científica, sociedade de consumo, cultura digital, teorias da moda na Europa, pornografia, sexo e, sobretudo, sexo. Era inebriante lê-lo, ainda mais para alguém deseducado pelo aparato ideológico americano e faminto por algo – mercantilizado como – diferente.

Devorei cada um dos seus livros quando vieram à luz nos anos 1990 e início do século XXI. Além disso, segui seus passos na busca de um Ph.D. sob a orientação de seu pai intelectual parisiense: Alain Badiou. Entretanto, à medida que segui me educando, comecei a me cansar de suas repetições, superficialidades teóricas e movimentos retóricos mecânicos. Cada vez mais vi suas provocativas travessuras como um Ersatz [substituto] para a análise histórica e materialista. Isso veio à tona em 2001, quando ele se esforçou para explicar os eventos do onze de setembro com uma atrevida interpretação lacaniana do filme Matrix. Suas sacadas ardentes, ainda que vendessem como bolos quentes, empalideciam frente às rigorosas análises materialistas da história do imperialismo estadunidense e das maquinações de seu aparelho de segurança nacional – como as apresentadas na obra de Noam Chomsky ou, melhor ainda, Michael Parenti.[xiv]

Na pós-graduação, quando traduzi um livro de Jacques Rancière, tive uma oportunidade única para ver como Slavoj Žižek enchia linguiça. Dado que Jacques Rancière era então amplamente desconhecido no mundo anglófono, editora após editora declinou o projeto [de publicação da tradução]. Quando finalmente pude fazer uma delas considerar a possibilidade, após ríspida rejeição inicial, o diretor de vendas da editora – já desaparecida – impôs-me uma condição: para garantir seus lucros, eu teria de assegurar o prefácio de um peso-pesado mercadológico da teoria radical, alguém como Slavoj Žižek. Falei com este, que concordou e depois me mandou um texto confuso que tinha clara semelhança com a seção sobre Rancière de seu livro The Ticklish Subject [O assunto delicado][xv].

Por meio de associações livres, ele adicionou certas ruminações e comentários introdutórios a um dos livros do Rancière sobre cinema, o que demonstrou pouco ou nenhum conhecimento de sua obra sobre estética ou sobre o livro em questão (eu tinha traduzido Le Partage du sensible: Esthétique et politique [A partilha do sensível: estética e política. Ed. 34]). Desgostoso com esse descarado desrespeito ao rigor acadêmico, mas então desprovido de qualquer poder institucional ou análise política mais profunda, vi-me de mãos atadas, na necessidade de aceitar o uso do charlatão para vender mercadorias da indústria da teoria, caso quisesse que minha tradução visse a luz do dia. Tentei enterrar o prefácio, tornando-o um posfácio e cercando-o com elucidações eruditas sobre a obra de Rancière. Hoje, entretanto, creio que deveria ter simplesmente interrompido o projeto.

Passando em retrospecto minhas experiências com o assim chamado Elvis da teoria cultural, percebo hoje que, enquanto parte de um estrato de classe de profissionais gerenciais pobremente educados, mas ascendentes no coração do imperialismo, eu era o alvo das travessuras de Slavoj Žižek. Em 1989 caiu o Muro de Berlim e seu primeiro grande livro apareceu em inglês, pela editora Verso: The Sublime Object of Ideology. Com um prefácio do democrata-radical e “pós-marxista” – ou seja, antimarxista – Ernesto Laclau, o livro foi apresentado como uma publicação emblemática na nova série deste com Chantal Mouffe.

A série buscou se basear na moda teórica “anti-essencialista”, como aquela da França (inspirada em Martin Heidegger), visando a prover “uma nova visão para a esquerda, concebida em termos de uma democracia radical e plural”, em vez de apoio ao socialismo[xvi]. Esses dois democratas radicais [Laclau e Mouffe] – cuja orientação política ressoava com os movimentos anticomunistas apresentados como “pró-democracia” e usados para desmantelar os países socialistas –, tiveram papel central na promoção de Žižek. Eles o convidaram a apresentar sua obra no mundo anglófono e lhe abriram prestigiosas plataformas de publicação.

Ele retribuiu, usando explicitamente a declaração pós-marxista deles, Hegemony and Socialist Strategy [Hegemonia e estratégia socialista, Intermeios] para enquadrar seu livro, com base na oposição comum à “revolução como solução global” defendida pelo “marxismo tradicional”[xvii]. Em 1991, a URSS foi desmantelada e o aspirante a teórico pós-marxista voltado ao Ocidente publicou mais dois livros: outro na série de Laclau e Mouffe e um pela Outubro[xviii]. Assim, ele surfou decididamente a onda da democracia radical no momento em que os movimentos dissidentes, “pró-democracia”, apoiados pelos Estados imperialistas e seus serviços de inteligência, reduziam violentamente os ganhos da classe trabalhadora e redistribuíam a riqueza entre os de cima.

À medida que o socialismo de tipo soviético era desmantelado, esse influencer nativo do leste-europeu apresentava cada vez mais o seu pós-marxismo como nada menos que a forma mais radical de marxismo. Um pouco como Elvis – que claramente alcançou a fama na indústria musical graças à apropriação, domesticação e integração da música das comunidades negras (frequentemente enraizada em resistências reais) –, Slavoj Žižek tornou-se o vocalista da indústria mundial da teoria, pegando emprestado da tradição marxista alguns dos seus insights mais importantes e os submetendo a uma cômica mistura cultural pós-moderna.

Assim, lograva esmagar a substância do marxismo e a mercantilizava para o consumo de massas na era do revanchismo anticomunista neoliberal. Sobre isso, vale notar que, nos anos 1990, ao mesmo tempo em que celebrava o suposto fim da história, o establishment capitalista também promovia o símbolo do marxismo entre um estratificado nicho da intelligentsia radlib [radical-liberal], mas pretensamente libertado de sua substância, quase como um balão vermelho que flutua para onde quer que o vento (do capitalismo) sopre. Esse foi Slavoj Žižek: o mais conhecido “marxista” da frenética era do anticomunismo neoliberal. Tal sujeito misterioso do Leste – a caricatura exata do “marxista maluco”, melhor captado pela alcunha de “o Borat da filosofia” – ergueu-se como uma fênix perversa que se regozijava nas chamas da destruição do socialismo soviético.

Sofistaria dialética

Como muitos de seus colegas autointitulados pensadores radicais – cujo óleo de peixe vendem bem, pois são muito escorregadios –, Slavoj Žižek se orgulha de sua prosa esquiva e comportamento errático. Ao lê-lo, podemos pressentir, ao virar cada página, mais uma pegadinha, quando descobrimos que ele quer dizer na verdade o oposto (do que quer que seja que nos tenha levado a acreditar antes)! Como uma criança que jamais se cansa de brincar de esconde-esconde – apesar de sua incapacidade de realmente se esconder –, o prodígio esloveno se contorce e esquiva do controle discursivo, dizendo tudo e seu oposto, na esperança de cobrir seus rastros e permanecer sempre elusivo. Ele parece ignorar o fato de que uma ideologia óbvia e consistente opera no caráter camaleônico dos intelectuais de sua laia. É o oportunismo.

Quando Slavoj Žižek foi entrevistado para o catálogo da [empresa de roupas] Abercrombie & Fitch, sua entrevistadora o informou que lhe enviaria o texto antes da publicação. A isso, respondeu: “Ah, não tem necessidade. O que quer que eu diga, você pode pôr o contrário”[xix]. Dizer algo vale tanto quanto dizer o oposto para um oportunista cujo objetivo é ter o nome nos holofotes. De fato, se você disser duas coisas ao mesmo tempo – e atribuir falsamente esse jogo retórico à “dialética”, dando cobertura pseudo-intelectual a uma chicana grosseira para autopromoção – você ocupará mais espaço, economizará tempo e esmagará os que realmente têm algo a dizer.

O fato de o aparato cultural burguês oferecer a ele uma plataforma tão grande revela sua propensão a promover tolices em detrimento de formas de análise realmente radicais. Vale lembrar, nesse sentido, que sua dialética dadaísta tem limites bastante precisos. Até onde sei, nunca o ouvimos dizer algo como “a ideologia dominante diz frequentemente que o socialismo realmente existente foi completamente horrendo… mas é exatamente o contrário!”.

Podemos nos perguntar por que um autointitulado marxista abraça acriticamente os elementos mais grosseiros que o promovem na indústria cultural, voluntariamente prostituindo-se a megacorporações de linhas de moda ranqueadas no “Sweatshop Hall of Shame” [Salão industrial da vergonha] pelo International Labor Rights Forum [Fórum Internacional de Direitos do Trabalho] em 2010. No entanto, esse é só um dos vários exemplos da relação umbilical entre a indústria global da teoria e a indústria geral de consumo do capitalismo. Slavoj Žižek não apenas vende livros anuncia livros, arte, literatura, revistas, jornais, espetáculos públicos, mas, também, roupas americanas “para pessoas descoladas e de boa pinta” (nos termos do CEO da A&F[xx]).

Um dissidente anticomunista e pró-ocidental

Já que esse vigarista diz e desdiz tudo e seu oposto, vale nos focarmos no que ele realmente fez e na natureza de sua prática teórica. Para melhor entender isso, temos de situá-lo, com suas maquinações, dentro das relações sociais da produção intelectual. Em outras palavras, por prática teórica entendo não apenas as suas atividades subjetivas enquanto intelectual, mas também a totalidade social objetiva dentro da qual ele se move e que o promoveu a international superstar. Parte do meu argumento é que Slavoj Žižek deve ser entendido como produto cultural da indústria global da teoria, mais do que fetichizado como um sujeito sui generis.

O autor de In Defense of Lost Causes [Em defesa das causas perdidas] nasceu em 1949 e cresceu na República Socialista Federativa da Iugoslávia (RSFI). Ele depois afirmaria – com nada além de anedotas para comprová-lo – que “a vida num Estado comunista era em geral pior do que em muitos Estados capitalistas”[xxi]. Entretanto, seu país natal proveu uma qualidade de vida às massas que vale ser rapidamente relembrada:

Entre 1960 e 1980, a Iugoslávia tinha uma das maiores taxas de crescimento, além de serviços de saúde e médico gratuitos, o direito garantido de rendimento [salarial], um mês de férias remuneradas, uma taxa de alfabetização acima de 90% e uma expectativa de vida de 72 anos. A Iugoslávia também oferecia a seus cidadãos transporte público, aluguel, luz e água, numa economia de socialismo de mercado majoritariamente pública[xxii].

De acordo com seu biógrafo, Tony Myers, Slavoj Žižek não gostava da cultura comunista da sua terra natal. Certamente informado sobre vantagens socioeconômicas pessoais no mundo capitalista mais amplo, o mercenário jovem intelectual devotou-se à absorção da cultura pop ocidental. “Como estudante”, escreve Myers, “ele desenvolveu interesse e escreveu mais sobre filosofia francesa do que sobre os paradigmas comunistas de pensamento”[xxiii]. Seu mestrado sobre teoria francesa “foi considerado politicamente suspeito” porque, nas palavras de seu colega Mladen Dolar (filósofo esloveno), “as autoridades estavam preocupadas de que as ideias carismáticas de Slavoj Žižek pudessem influenciar indevidamente estudantes com pensamento dissidente”[xxiv].

No final das contas, seu primeiro livro foi sobre o impenitente nazista Martin Heidegger, a principal referência da oposição anticomunista eslovena, segundo o próprio Slavoj Žižek. Ele também publicou a primeira tradução eslovena do primeiro filósofo que teve um enorme papel na reabilitação de Heidegger após a Segunda Guerra Mundial: Jacques Derrida[xxv]. O próprio mago francês da desconstrução esteve envolvido diretamente no ativismo político dissidente anticomunista contrário ao governo da Checoslováquia[xxvi]. Ele co-fundou o braço francês da fundação educacional Jan Hus, que tem sido financiada por uma impressionante variedade de corporações e governos ocidentais com histórico de apoio à subversão anticomunista, como a Fundação Margaret Thatcher, a Open Society Fund (Soros), a Fundação Ford, a Agência de Informações dos EUA e a National Endowment for Democracy (NED), um apêndice da CIA[xxvii].

Após uma estadia em Paris, para completar um segundo Ph.D., Slavoj Žižek retornou à República Socialista Federativa da Iugoslávia e primeiramente chamou a atenção como um dissidente anticomunista que fazia parte da “oposição” pró-ocidental influenciada pela teoria francesa[xxviii]. “Ao final dos anos 1980”, explica ele, “eu mesmo estava empenhado pessoalmente em minar a ordem da Iugoslávia socialista”[xxix]. Ele era o “colunista político principal” da Mladina, uma publicação semanal proeminente, parte do movimento dissidente e contra o governo comunista[xxx]. Num longo e detalhado relatório do Partido Comunista Iugoslavo, tal revista – na qual ele escrevia semanalmente uma coluna – era acusada de ser apoiada pelos EUA.

Esse relatório também destacou a proliferação de contrarrevolucionários que ameaçavam a própria existência da República Socialista Federativa da Iugoslávia[xxxi]. Slavoj Žižek depois afirmou, em diversas ocasiões, que foi essa precisamente a sua orientação, enquanto dissidente que contribuiu para a queda do comunismo[xxxii]. Ele esteve envolvido, entre outras coisas, com o Comitê para a Proteção dos Direitos Humanos dos Quatro Acusados, o qual em 1988 exigia – em suas próprias palavras – “a abolição do sistema socialista atual” e “a derrubada mundial do regime socialista”[xxxiii]. Slavoj Žižek estava perfeitamente alinhado à National Security Decision Directive 133 (NSDD) [diretiva decisória da segurança nacional dos EUA, a respeito da política norte-americana na Iugoslávia], do presidente Ronald Reagan. Em 1984, essa diretiva defendia “a expansão de esforços para uma ‘revolução silenciosa’, visando a derrubar governos comunistas e partidos” da Iugoslávia e outros países do leste europeu[xxxiv].

Slavoj Žižek co-fundou o Partido Liberal-Democrata (PLD) e serviu como um de seus principais porta-vozes[xxxv]. O PLD se baseava na tradição liberal a favor do “pluralismo” e dominou a Eslovênia na primeira década após o fim do socialismo[xxxvi]. Slavoj Žižek foi o candidato do partido à presidência (então, composta por quatro pessoas) na primeira eleição da república separatista, que serviu como uma cunha para desmantelar a República Socialista Federativa da Iugoslávia. Ele fez a seguinte promessa de campanha num debate televiso em 1990: “Como membro da presidência, posso ajudar substancialmente na decomposição do aparato ideológico de Estado do socialismo real”[xxxvii].

Ele expressou a sua intenção de implementar políticas de estruturação econômica liberais, que já tinham tido consequências desastrosas para os trabalhadores, afirmando ser, quanto a isso, “um pragmático”: “se funciona, por que não tentar uma dose disso?”[xxxviii]. De fato, ele defendeu publicamente “privatizações planejadas” e asseverou categoricamente, como um bom ideólogo capitalista: “mais capitalismo, em nosso caso, significaria mais seguridade social”[xxxix]. Novamente, isso estava perfeitamente alinhado às diretrizes da NSDD 133 de Reagan, que explicitamente defendia “uma liberalização interna de longo prazo na Iugoslávia” e a promoção de uma “estrutura econômica orientada para mercado na Iugoslávia”[xl].

O liberal do leste também afirmou seu apoio – pelo menos para o curto prazo da demolição do socialismo – a o que o filósofo anticomunista Karl Popper chamou de “sociedade aberta”. Ele argumentou que George Soros – o anticomunista fundador do Open Society Fund [Fundo Sociedade Aberta] e ex-aluno de Popper – fazia “um bom trabalho nos campos da educação e dos refugiados, mantendo vivo o espírito da teoria e da ciência social”[xli]. Popper apoiou a intervenção da OTAN na República Socialista Federativa da Iugoslávia e seu trabalho foi promovido pelo Congress for Cultural Freedom [Congresso para a liberdade cultural], uma infame organização de fachada da CIA.

George Soros investia muito nas operações antissocialistas de mudança de regime no leste europeu. Na Iugoslávia, seu “Open Society Institute direcionou mais de US$ 100 milhões aos cofres da oposição anti-Milosevic, fundando partidos políticos, editoras e medias ‘independentes'”[xlii]. Além disso, Soros admitiu francamente que – através do generoso financiamento de organizações e atividades anticomunistas – “estava profundamente envolvido na desintegração do sistema soviético”[xliii].

Embora Slavoj Žižek tenha sido derrotado por pouco em sua corrida presidencial, ele serviu como Embaixador para Ciências na emergente república pós-socialista e ao que parece ainda atua como conselheiro do governo[xliv]. De fato, ele expressou seu “apoio público ao Estado esloveno após a restauração capitalista nos anos 1990” e se manteve fiel a seu liberalismo anticomunista: “Eu fiz algo pelo que perdi todos os meus amigos, que nenhuma boa pessoa de esquerda jamais faria: eu apoiei totalmente o partido governante da Eslovênia”[xlv].

O PLD, enquanto partido capitalista, atuou pela desnacionalização e privatização. Isso num contexto em que o FMI e o Banco Mundial pressionavam por contrarreformas econômicas brutais, que destruíam o setor industrial, desmantelavam o Estado de bem-estar, promoviam o colapso dos salários reais e demitiam trabalhadores a passos largos (614 mil pessoas, numa força de trabalho industrial total de cerca de 2,7 milhões, foram demitidas entre 1989-90)[xlvi]. O partido pró-privatização apoiado abertamente por Žižek no período da “queda massiva dos padrões de vida de amplas camadas da população mundial” era também favorável a tornar-se membro menor do campo imperialista. Foi o “principal proponente da entrada na União Europeia (UE) e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)”[xlvii]. Esse processo se iniciou nos anos 1990; a Eslovênia se juntou oficialmente à União Europeia em 2003 e à OTAN no ano seguinte[xlviii].

Portanto, não devemos perder de vista que esse empreendedor intelectual foi pró sociedade civil ocidental e contra o Estado quando este era socialista, e orgulhosamente contra sociedade civil e a favor do Estado quando este se tornou capitalista (e buscou filiação a organizações transnacionais capitalistas e imperialistas)[xlix]. Aliás, em sua campanha presidencial ele advogou por uma purga antissocialista do aparato estatal, acrescentando que seria muito rigoroso e “começaria do zero” a respeito da “Administração dos Assuntos Domésticos, da polícia política etc.”[l]. Ele defendeu explicitamente o desenvolvimento de um serviço de inteligência totalmente livre de quaisquer sujeitos socialistas, o que só podia ser interpretado como um dos sonhos mais doces da CIA para a república dissidente (e levanta sérias dúvidas sobre a sua relação com tal agência, que desempenhou papel central na derrubada de governos socialistas por todo o mundo, em geral de mãos dadas com partidos políticos antissocialistas, serviços de inteligência, veículos de publicação e intelectuais).

Como afirmou: “Eu cortaria isso [A administração de Assuntos Domésticos e a polícia política]. E agora direi algo pecaminoso. Creio que nestes tempos turbulentos a Eslovênia precisará de um serviço de inteligência, pois nesta batalha por sua soberania haverá ações para desestabilizá-la. Mas é particularmente importante que esse serviço não compartilhe qualquer continuidade com a Administração dos Assuntos Domésticos [i.e., a socialista]. Nisso eu defendo um corte”[li]. Os comunistas, segundo o bajulador do Ocidente, odeiam-no. Eles certamente reconhecem nele um oportunista desempenhando um papel arriscado para avançar em sua carreira – e com ela os esquemas brutais de privatização e a expansão imperialista – às expensas das massas trabalhadoras. “Sou na verdade visto como um tipo de manipulador político obscuro, ameaçador e conspirador” – escreve o brincalhão lacaniano sobre como é visto na Eslovênia – “algo de que me alegro imensamente e gosto bastante”[lii].

Ainda que ele tenha criticado levemente a narrativa da propaganda ocidental de que o ódio étnico teria sido a principal causa da dissolução da Republica Socialista Federativa da Iugoslávia, seu raciocínio nesse sentido – como em tantas outras posições políticas suas – alinha-se perfeitamente à propaganda promovida pelas empresas de relações públicas pró-capitalistas, como Ruder & Finn e ativos de mídia da CIA. Num texto denominado “NATO, the Left Hand of God” [OTAN, a mão esquerda de Deus], ele afirmou categoricamente que “foi apenas a agressão sérvia, e não um conflito étnico, que desatou a guerra”[liii].

Os sérvios, vale lembrar, tinham “proporcionalmente uma maior porcentagem de membros do partido comunista do que as outras nacionalidades”[liv]. Slavoj Žižek, assim, papagaiava a posição apresentada pelo diretor da Ruder & Finn, James Harff, que se gabou de que seus hábeis doutores eram capazes de construir uma “história simples de mocinhos e bandidos” sobre a República Socialista Federativa da Iugoslávia[lv]. Os liberais ocidentais até tentaram condenar os comunistas – que mantiveram um Estado multiétnico funcional por décadas – por fomentar o nacionalismo e por “um apego forçado à questão nacional”[lvi]. Ele também abraçou a demonização do presidente socialista Slobodan Milošević e entregou-se à teoria liberal da ferradura, argumentando que “ele [Milošević] consegue ser a síntese de uma inimaginável combinação entre fascismo e stalinismo”[lvii].

Entretanto, quaisquer que sejam os erros e as más condutas dos socialistas, o fato é que (como explicou Michael Parenti num livro factual sobre o tema): “não havia guerra civil, nem assassinatos generalizados, nem limpeza étnica até as potências ocidentais começarem a se meter nos assuntos internos da Iugoslávia, financiando organizações dissidentes e criando a crise político-econômica que desencadeou o conflito político”[lviii].

Qual a posição dos pró-capitalistas a respeito das bombas autodenominadas humanitárias da OTAN, que mataram população civil indefesa e destruíram a infraestrutura socialista, e cujo objetivo real era a “terceiro-mundialização” e a efetiva colonização da única nação da região que se recusou a se livrar do que restava de seu socialismo? Ele descaradamente afirmou, com seu gosto particular pela provocação pueril: “Então, exatamente por eu ser de esquerda, a minha resposta ao dilema ‘bomba ou não bomba?’ foi: ainda não foram bombas O suficiente e elas estão muito atrasadas”[lix]. Dado que esse seu endosso ao assassinato ilegal em massa de civis circulou online num esboço, e esse trecho em particular foi retirado de contexto quando publicado, temos de lembrar que ele foi claro como a luz do dia em outras entrevistas, nas quais afirmou sem papas na língua que “sempre fui a favor da intervenção militar do Ocidente”[lx].

Em sua carreira subsequente como um dos intelectuais de maior visibilidade internacional, Slavoj Žižek repetidamente assumiu fortes posições contra o socialismo realmente existente. Cuba, para ele, não seria nada além de “uma rememoração nostálgica e inerte do passado” e não traria qualquer esperança para o futuro. Seria até mesmo inútil considerar um apoio discreto[lxi]. Perfeitamente alinhado com a propaganda capitalista, ele rejeita a China, considerando-a uma ameaça existencial, e descreve inflexivelmente o líder comunista chinês, Xi Jinping, como um capitalista autoritário, pertencente à mesma gangue corrupta de Trump, Putin, Modi e Erdoğan[lxii].

Ao lê-lo, fica bastante óbvio – a despeito de sua aparência radical – que ele se atém ao infame lema liberal de Margaret Thatcher: TINA – There is no alternativa [não há alternativa]. Na verdade, ele mesmo diz isso com frequência: “Não estou convencido de qualquer alternativa de esquerda radical” e “não tenho quaisquer esperanças fundamentais numa revolução socialista ou algo do gênero”[lxiii]. No debate eleitoral presidencial já mencionado ele abraçou expressamente as visões de Winston Churchill – cuja defesa obstinada da carnificina colonial o posicionou “na extremo mais brutal e cruel do espectro imperialista britânico” –, afirmando que o capitalismo “é o pior de todos os sistemas” mas “não temos outro melhor”[lxiv].

Ao mesmo tempo, ele tem frequentemente participado de debates para expressar seu apoio à União Europeia (um projeto capitalista de longa data, promovido pela segurança nacional de Estado dos EUA como um baluarte contra o comunismo) e certos atos do imperialismo ocidental, incluindo algumas das mais brutais intervenções militares da OTAN, particularmente aquelas próximas à Europa[lxv]. Sua principal concepção de um futuro para a humanidade não deveria ser encontrada nos estados socialistas do sul global, que ergueram vitoriosas lutas anticoloniais contra o imperialismo. Pelo contrário, deveria ser encontrada no epicentro histórico do imperialismo e colonialismo. “No mundo capitalista de hoje”, escreve, “ela [a ideia da Europa] oferece o único modelo de uma organização transnacional com autoridade para limitar a soberania nacional e com a tarefa de garantir um mínimo de normas para o bem-estar ecológico e social. Algo que subsiste nessa ideia descende diretamente das melhores tradições do iluminismo europeu”[lxvi].

Aliás, segundo sua narrativa histórica de difusão europeia, as lutas anticoloniais do terceiro mundo seriam elas próprias dependentes de conceitos supostamente importados do Ocidente, incluindo o que Žižek descreve como “o exame autocrítico”, pelo Ocidente, de sua própria “violência e exploração” no terceiro mundo[lxvii]. Como um social-chauvinista que crê profundamente que a Europa é a dirigente natural do mundo desenvolvido, ele até mesmo concorda coma afirmação reacionária de Bruno Latour de que “apenas a Europa pode nos salvar”[lxviii].

Cosplay de comuna

Apesar da clara orientação política prática de Slavoj Žižek como um anticomunista pró-ocidental, que apoiou raivosamente a derrubada do socialismo em nome do capitalismo, esse autodenominado excêntrico jamais se cansa de afirmar que é comunista. Ele até tenta vestir a fantasia, por assim dizer, apresentando-se como um “comunista sujo” do Leste. Além da barba obrigatória e dos cabelos desgrenhados, ele fala belicamente com seus interlocutores, vomitando provocações esquerdistas sem fim como se a logorreia pseudo-intelectual estivesse fora de moda. Uma verdadeira performance para épater les bourgeois [impressionar os burgueses].

Žižek é o bobo da corte do capitalismo neoliberal. Ao brincar com a figura do marxista-como-fanático-antissocial, ele encoraja o desdém ao verdadeiro projeto mundial do socialismo e ainda vende mercadorias na sociedade de consumo ocidental, por meio de seus mash-ups pop-culturais. O show histriônico desse enfant terrible contumaz se desenrola – nunca nos esqueçamos – no palco do capitalismo. O trapaceiro é apenas um mercenário, um sintoma do aparato cultural neoliberal. É a corte capitalista que fez de seu palhaço um superstar, precisamente porque tem desempenhado tão bem o seu papel. Como todos os bons bobos da corte, ele cruza os limites do decoro cortês e diz as coisas mais ultrajantes num espetáculo histérico de crítica, mas afinal se posiciona na linha mais importante e demonstra sua fidelidade ao mestre das marionetes (o rei capital).

Para melhor desempenhar sua função provocativa, esse arlequim diz não apenas que é marxista, mas insiste em ser nada menos do que “leninista”. Ouçamos um de seus ridículos desabafos, o qual, claro, é parte de seu cotidiano e por isso está repetido em inúmeros textos seus: “Eu sou leninista. Lenin não tinha medo de sujar as mãos. […] Quando você pega o poder, se puder, agarre-o. Faça tudo o que for possível”[lxix]. Essa descrição do cosplay de comuna equivale a dizer que o leninismo se resume a jogar sujo e buscar impiedosamente o poder. Tal representação hipócrita de Lenin, e do marxismo-leninismo em geral, está perfeitamente de acordo com uma longa ideologia histórica.

Benedetto Croce, o liberal italiano e simpatizante do fascismo, disse a exata mesma coisa sobre Marx: ele foi o Maquiavel do proletariado pois colocou destaque, primeiro e sobretudo, na impiedosa conquista do poder[lxx]. Steve Bannon, baseando-se na mesma associação simplista entre leninismo e poder político brutal, afirma também ser um “leninista” à la Žižek[lxxi]. Essa é provavelmente uma das razões pelas quais Richard Spencer, líder neo-nazi, afirmou: “Slavoj Žižek é o meu esquerdista favorito. Ele tem mais a ensinar à alt right [direita alternativa, nova extrema-direita] do que um milhão de conservadores americanos idiotas”[lxxii].

Dado que o bobo da corte sempre tem algo mais a dizer sobre todos os assuntos, ouçamo-lo a respeito do que é ser um leninista. Em 2009 ele afirmou o seguinte: “Eu sou leninista […]. Eis por que apoiei Obama”[lxxiii]. Eis uma das suas melhores piadas em todos os tempos. E o mais engraçado é que ele realmente quis dizer isso. Ele literalmente iguala leninismo a apoio ao comandante em chefe do neoliberalismo cuja imagem de “diversidade” serviu para encobrir a aceleração do motor da máquina imperialista em todo o globo (o que desaguou na infame declaração de Obama sobre seu programa de assassinatos, quando disse ser “realmente bom em matar pessoas”[lxxiv]).

Slavoj Žižek, entretanto, valoriza a suposta abordagem revolucionária do ex-presidente em matéria de saúde, no caso do mandato imposto a seguros privados (baseado no plano do republicano Mitt Romney): “Acho que a luta que ele trava agora, a respeito do seguro de saúde, é extremamente importante, pois toca no próprio âmago da ideologia dominante”[lxxv]. Obama, lembremos, rejeitou todas as discussões sobre plano de saúde de pagador único, um sistema de cobertura universal de matriz socialista.

Quando você é um idealista tolo como Slavoj Žižek, leninismo é só uma palavra, um significante movediço, com o qual pode brincar, usando-o como adereço ou truque. Isso é sofridamente óbvio em seu livro cômico Repeating Lenin [Repetindo Lenin]. A despeito do que o título pode dar a entender a inocentes e desavisados, ele proclama: “Tomo o cuidado para falar sobre não repetir Lenin. Não sou um idiota. Nada significaria hoje retornar ao partido leninista da classe trabalhadora”[lxxvi]. O que ele gosta no leninismo é “precisamente o que assusta as pessoas a seu respeito – a vontade implacável de descartar todos os preconceitos. Por que não a violência? Por pior que possa soar, creio que é um antídoto útil contra todo esse pacifismo ascético, frustrante e politicamente correto”[lxxvii].

É essa desenfreada pulsão de morte que o lacaniano esloveno se sente impelido a repetir. “Repetir Lenin”, escreve com tal arlequinesca tipografia, “não significa voltar a Lenin – repetir Lenin é aceitar que ‘Lenin está morto’, que sua solução particular falhou, e falhou mesmo monstruosamente, mas houve uma faísca utópica que vale ser salva. […] Repetir Lenin é repetir não o que Lenin fez, mas o que ele falhou em fazer, suas oportunidades perdidas”[lxxviii]. Como nunca cansa de repetir esse evidente leninista, o comunismo foi e é uma falha colossal. Sua compulsão por repetir isso é melhor compreendida em termos do lema beckettiano que ele sempre cita nesses contextos: “Tente outra vez. Fracasse de novo. Fracasse melhor”. O que o futuro reserva, segundo esse rebelde de causa perdida, é, portanto, nada mais do que um fracasso acentuado: “temos de aceitar o fato de que é impossível que o comunismo vença […], i.e., que o comunismo, nesse sentido, é uma causa perdida”[lxxix].

A recompensa final do bobo da corte, cosplay de comuna, é a diversão dos super-ricos, que gargalham segurando seus martinis e o convidam a escrever textos para anúncios. Enquanto isso, alguns estudantes e membros do estrato de classe dos profissionais gerenciais compram a sua filosofia pop, na esperança de talvez aprender algo sobre marxismo. Em vez disso, sentam num tapete mágico teórico e são conduzidos numa viagem que lhes mostra quão ridículo é o marxismo, ao mesmo tempo em que recebem anúncios de filmes blockbusters, de Hollywood, shows de TV, romances de ficção científica e diversos produtos de consumo da indústria global da teoria.

O discreto charme da pequena burguesia

Slavoj Žižek, como Alain Badiou, não é um materialista-histórico[lxxx]. Nenhum desses filósofos se engaja em análises rigorosas da história material e concreta do capitalismo e do movimento socialista mundial; eles evitam a seriedade da economia política em favor da discussão sobre elementos superestruturais e produtos do aparato burguês capitalista. Ambos se satisfazem com uma abordagem filosófica idealista que privilegia ideias e discursos e são metafísicos pois defendem uma crença anticientífica na superstição.

Se colocarmos seu vocabulário excêntrico entre parênteses e examinarmos suas práticas teóricas fora do limite do fetichismo mercadológico cultural, o seu tipo específico de idealismo pode muito bem ser descrito como um idealismo transcendental. Eles apresentam seu típico quadro conceitual (amplamente baseado em interpretações pessoais de discursos não marxistas, como aqueles de Jacques Lacan e G.W.F. Hegel) como a estrutura transcendental da realidade. Eles então escolhem elementos empíricos – um evento do presente, um texto, um filme de Hollywood, um site de pornografia, ou literalmente qualquer coisa, particularmente no caso de Žižek – cujo conteúdo confirma o modelo teórico pré-estabelecido, produzindo assim a ilusão de que este se provou correto. Tal procedimento, entretanto, nunca pode ser testado coletivamente de maneira rigorosa, pois cabe aos caprichos do prestidigitador especulativo decidir quais dados empíricos corroboram seus pressupostos teóricos (e, portanto, qual informação será ignorada).

Isso é claramente notado em sua abordagem do comunismo. Diferentemente de Karl Marx e Friedrich Engels, que sustentaram que “o comunismo é o movimento real que suprime [aufhebt] o estado de coisas atual”, eles afirmam que o comunismo é uma “Ideia” e um “desejo”[lxxxi]. Ao mesmo tempo, eles quase sempre seguem a propaganda capitalista ao condenar o movimento comunista real por supostamente passar ao terrorismo sanguinário, à ditadura violenta e ao genocídio (ignorando facilmente a necessidade de prover documentação para tais afirmações ou simplesmente evocando como “prova” o trabalho de reacionários anticomunistas ou fontes fundadas pelo Departamento de Estado dos EUA ou o Open Society Fund)[lxxxii].

As únicas exceções que eles às vezes apoiam poderiam ser melhor descritas como anarquistas – pelo menos como eles as interpretam –, nas quais tendem a celebrar os momentos de insurgência anti-estatal e antipartidária (inclusive contra Estados socialistas, como na interpretação de Alain Badiou sobre a Revolução Cultural chinesa)[lxxxiii]. Enquanto isso, os que apoiam o socialismo realmente existente são apresentados como tolos ideológicos ou remanescentes de uma era passada, presos num mundo imaginário, portanto não muito diferentes dos enredados na ideologia capitalista. “A esquerda que se alinhou ao ‘socialismo realmente existente’ desapareceu ou se tornou uma curiosidade histórica” – eis o que nos diz a introdução de seu famoso livro The Idea of Communism[lxxxiv].

Quando esse livro foi publicado pela editora Verso, em 2010, o Partido Comunista Chinês tinha cerca de 80 milhões de membros – o que ultrapassava a população total da França e da Eslovênia (juntas) em cerca de 16 milhões de pessoas. Podemos então nos perguntar: onde esses chauvinistas sociais obtêm suas informações sobre o estado atual do mundo? A resposta é embaraçosamente simples no caso desses filósofos idealistas: em Jacques Lacan e em elementos lacanianos da obra de Louis Althusser.

Este, em sua famosa cena da interpelação, baseou-se no estágio do espelho de Lacan e na conceptualização do imaginário para criar um retrato enganoso da ideologia[lxxxv]. Como afirmou Althusser ­– numa passagem que contradiz sua análise anterior –, um indivíduo se torna sujeito ideológico quando se reconhece como o que é abordado (interpellé) por um policial na rua, o que significa que o indivíduo se identifica com a imagem lançada pelo outro e assume, assim, seu lugar na ordem simbólica vigente.

Há, entretanto, outra possibilidade, à qual Lacan se referiu em seu seminário VII, a de seguir o imperativo de não comprometer o próprio desejo (ne pas céder sur son désir), o que Slavoj Žižek teorizou em termos de ‘ato ético’. Em vez de permanecer como um sujeito ideológico, preso numa relação imaginária com as relações sociais de produção dentro da ordem simbólica, pode-se tornar um Sujeito à la Badiou, que persegue corajosamente o Real, que é aquele je ne sais quoi [não sei o quê] que escapa e resiste à ordem simbólica (embora reste ao mesmo tempo “contido na própria forma simbólica”, na medida em que o Real é “a Causa ausente do Simbólico”)[lxxxvi].

O objeto-causa do desejo, que Lacan chamou de objet petit a [pequeno objeto A], é, nas palavras de Žižek, “o vazio [do Real] preenchido pela ficção simbólica criativa”[lxxxvii]. Ele dirige nosso jouissance [gozo] no sentido de que o desejamos precisamente porque é impossível: o Real nunca pode ser perfeitamente integrado à ordem simbólica ou meramente traduzido pelo que Lacan chama de “realidade”[lxxxviii].

Dado que Alain Badiou é mais sistemático e rigoroso do que o disperso Slavoj Žižek, e este frequentemente toma emprestado ideias do idealista – a quem se refere como “um Platão vivo” –, vale relembrar a estrutura lacaniana básica da “Ideia de comunismo” de Badiou: “a Ideia comunista é a operação imaginária pela qual uma subjetivação individual projeta um fragmento do político real na narração simbólica de uma História”[lxxxix]. Numa linguagem um pouco mais direta, isso significa que a Ideia do comunismo é uma operação pela qual um indivíduo (o imaginário) se compromete ideologicamente com um evento político inexplicável (o Real) – como o maio de 1968 francês, para Alain Badiou – cujas consequências eles tentam rastrear dentro de uma dada situação histórica (o simbólico).

Isso não pode ser realmente (réellement) feito, segundo o metafísico francês, pois o “Acontecimento como Real” é resistente ao reino simbólico da “História” e do “Estado”; só pode ser feito imaginariamente (imaginairement) pelo Sujeito individual[xc]. Essa é uma das razões pelas quais Badiou afirma bruscamente que “comunista” não pode ser usado como adjetivo para descrever um partido ou Estado real[xci]. Um século de aspirações e horrores coletivos aparentemente teriam demonstrado que “a forma de Partido, como a de Estado socialista, são doravante inadequadas para assegurar o apoio real da Ideia”[xcii]. Aliás, a Ideia comunista só poderia dar base a políticas que, “definitivamente, seria absurdo dizer que são comunistas”[xciii]. “Anarquismo” seria o termo comum, mais especificamente “anarquismo insurgente”, mesclado com uma dose nada saudável de metafísica e socialismo utópico. Afinal, trata-se de uma política em que o indivíduo se torna Sujeito ao ser fiel a um Acontecimento inexplicável (que interrompe a história), agindo sobre suas consequências tal qual os seguidores de Cristo.

O “comunismo real”, portanto, é um comunismo metafísico do Real lacaniano. Consequentemente, dizem eles, o projeto coletivo de transformação material do mundo está na realidade destinado ao fracasso se assume a forma de partidos ou Estados, uma vez que assim se dá uma forma concreta ou “simbolização” ao Real sobrenatural. O comunismo é dessa forma deslocado do reino da ação coletiva, voltada a projetos de construção do Estado socialista – como um primeiro passo necessário para quebrar as correntes do imperialismo –, para o reino da consciência individual, da experiência subjetiva dos poucos privilegiados (aqueles a que Nietzsche referia como os de “espírito livre”).

Em contraposição a esse pequeno grupo de grandes pensadores e artistas do mundo – explica Slavoj Žižek com seu desdém característico pela classe trabalhadora –, 99% das “pessoas concretas” seriam “idiotas e chatas”[xciv]. Esses infelizes proletários e camponeses não estudaram em Paris com os pequeno-burgueses iluminados da indústria global da teoria, então não entenderam o verdadeiramente essencial: o comunismo é um processo subjetivo de resistência à ordem simbólica das sociedades existentes, é um desejo do impossível, mesmo quando se age individualmente com base nesse desejo[xcv].

Uma das razões pelas quais os idealistas adoram desprezar os materialistas como alguma forma de reducionistas grosseiros, “não filosóficos”, é precisamente porque estes são capazes de revelar as estruturas materiais que sustentam e determinam os jogos conceituais daqueles. Se submetermos a concepção idealista de “comunismo do Real” a uma análise de classe, tornar-se-á evidente que ela nega, sob o título de “socialismo realmente existente”, justamente o projeto das massas, dos Untermenschen (subumanos) globais que imaginam poder fazer do “Real de seu desejo” uma realidade histórica.

É aqui que a orientação nietzschiana desses aristocratas radicais transparece claramente, porque eles ridicularizam a suposta ignorância dos hoi polloi [maioria]. Indo além e contra o materialismo grosseiro, os “comunistas do Real” aspirariam a muito mais do que a simples luta por acesso coletivo a água potável, comida, abrigo, saúde etc. por meio de projetos concretos de construção de Estados anti-imperialistas (tudo isso estaria no domínio do que Lacan chamou de “necessidade” em oposição a “desejo”). Os verdadeiros comunistas, no sentido lacaniano, teriam a suprema dignidade subjetiva de exigir individualmente o impossível – não algo que possa ajudar materialmente a melhorar a vida das massas globais aqui e agora[xcvi].

Essa postura significa apenas que esses autodenominados pensadores radicais demandam algo que não pode ser realizado. É o resumo do radicalismo pequeno-burguês. O que eles realmente desejam – se traduzirmos sua autocomiseração narcisista e pseudointelectual em termos materialistas – é a aparência de fazer demandas ultrarradicais ao mesmo tempo em que evitam qualquer ameaça material ao sistema hierárquico que os elevou a importantes intelectuais do núcleo imperialista. Eles desejam o impossível, e até “agem de acordo” com esse desejo, justamente porque não querem que nada mude substancialmente. Eis então sua grande Ideia de comunismo: ele é impossível[xcvii].

“O trabalho dos marxistas”, escreveu V.I. Lenin numa passagem que antecipa a inclinação liberal dos lacanianos-authusserianos, “é sempre ‘difícil’, mas o que os torna diferentes dos liberais é que eles nunca afirmam que o que é difícil é impossível. O liberal fala que o trabalho difícil é impossível para escamotear a sua renúncia a ele”[xcviii]. Marx também descreveu em detalhes, avant la lettre, esses adaptados ao capitalismo. Ele apresentou a essência do sofisma pequeno-burguês em sua crítica ao anarquismo, que se funde à ideologia liberal em pontos essenciais. Marx rastreou as raízes materiais disso até o carreirismo oportunista dentro do núcleo capitalista. O que ele afirma sobre Proudhon descreve com total precisão o idealismo casuístico de Badiou e as contradições evidentes de Žižek:

“Proudhon pendia por natureza para a dialética. Mas, uma vez que ele nunca compreendeu a dialética realmente científica, apenas a reduziu à sofística. De fato, isso coincidia com o seu ponto de vista pequeno-burguês. O pequeno-burguês é igual ao historiador Raumer, composto de ‘por um lado…’ e ‘por outro lado…’. É assim nos seus interesses económicos e, portanto, [também] na sua política, nas suas visões religiosas, científicas e artísticas. É assim na sua moral, é assim in everything [em tudo]. Ele é a contradição viva. Se, além disso, como Proudhon, for um homem rico de espírito, em breve aprenderá a jogar com suas próprias contradições e a elaborá-las, segundo as circunstâncias, em paradoxos vistosos, ruidosos, às vezes escandalosos, outras vezes brilhantes. Sob certo ponto de vista, charlatanismo científico e acomodação política são inseparáveis. Resta apenas um motivo impulsionador, a vaidade do sujeito, e trata-se, como com todos os vaidosos, apenas do sucesso momentâneo, da sensação do dia. Assim se extingue necessariamente o simples tato moral que, por exemplo, sempre manteve afastado um Rousseau de qualquer compromisso, mesmo aparente, com os poderes estabelecidos”[xcix].

O recuperador da radicalidade

O colapso na biosfera, a ascensão do fascismo e a ameaça de a “nova” Guerra Fria se transformar na IIIª Guerra Mundial significam que os riscos da luta de classes contemporânea não poderiam ser maiores. O bobo da corte do capitalismo, assim como outros intelectuais de sua laia, é aplaudido pelos gerentes elitistas da classe dominante e promovido internacionalmente para nos encorajar a cavalgar destemidamente o apocalipse do ‘Real’, ao mesmo tempo em que apreciamos suas sacadas ardentes e provocativas assistindo compulsivamente aos filmes de grande sucesso e aos programas de TV promovidos por ele.

Esse travesso neoliberal é, portanto, o resumo do recuperador da radicalidade. Ele cultiva e vende a aparência de radical tendo em vista aproximar elementos potencialmente radicais da sociedade, particularmente jovens e estudantes, dentro do curral imperialista anticomunista. Eis precisamente por que é o mais famoso “marxista” no mundo capitalista, enfeitado pelos jornais vinculados ao motor do imperialismo dos EUA. Seu mantra não é nada senão uma perversa inversão das linhas finais do Manifesto Comunista: “Consumidores de cultura do mundo pró-ocidental, uni-vos – para comprar meu novo livro, ou filme, ou produto multicultural, ou o que quer que seja, and so on, and so on [e assim por diante]!”.

*Gabriel Rockhill é professor de filosofia na Villanova University. Autor entre outros livros de Radical History & the Politics of Art (Columbia University Press).

Tradução: Rafael Almeida.

Publicado originalmente em Counterpunch.

Notas


[i] Gostaria de agradecer Jennifer Ponce de León, Eduardo Rodríguez e Marcela Romero Rivera por me encorajar a escrever este artigo, bem como por – juntamente com Helmut-Harry Loewen e Julian Sempill – prover um feedback deste texto. Entretanto, é toda minha a responsabilidade por quaisquer equívocos ou infortúnios.

[ii] Veja Foreign Policy (dezembro de 2012): <https://web.archive.org/web/20121201034713/http://www.foreignpolicy.com/articles/2012/11/26/the_fp_100_global_thinkers?page=0,55#thinker92> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[iii] Veja a sua entrevista ao show “HARDtalk” (da BBC britânica) em 4 de novembro de 2009: <https://www.youtube.com/watch?v=ThTJBKYPiNo&t=153s> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[iv] Ibid. E também Slavoj Žižek. Did Somebody Say Totalitarianism? Five Interventions in the (Mis)use of a Notion (London: Verso, 2011) [ed. bras.: Alguém disse totalitarismo? São Paulo Boitempo, 2013], p. 127-129.

[v] Slavoj Žižek, In Defense of Lost Causes (London: Verso, 2009) [ed. bras.: Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011], p. 151 (ênfase de Žižek).

[vi] Ibid., p. 169.

[vii] Veja a perspicaz crítica de Žižek por Domenico Losurdo em Western Marxism. Trad. de Steven Colatrella (New York: 1804 Books, no prelo) [ed. bras.: O marxismo ocidental. São Paulo: Boitempo, 2018].

[viii] Veja, por exemplo, Slavoj Žižek. “A Leftist Plea for ‘Eurocentrism.’” [Um apelo de esquerda pelo eurocentrismo]. Critical Inquiry, 24:4 (verão de 1998): 998-1009; Slavoj Žižek. “Nous pouvons encore être fiers de l’Europe!” [Ainda podemos nos orgulhar da Europa]. Le Figaro (31 de outubro de 2022); e sua apresentação oral sobre o futuro da Europa, disponível aqui <https://www.youtube.com/watch?v=8pA35HuhEYY> (acesso em 22 de novembro de 2022).

[ix] Citado segundo Thomas Moller-Nielsen. “What Is Žižek For?”. Current Affairs (set./out. de 2019): <https://www.currentaffairs.org/2019/10/what-is-zizek-for> (acesso em 22 de novembro de 2022).

[x] Veja, por exemplo, suas declarações numa entrevista de 2016 ao Channel 4, arquivada aqui: <https://www.facebook.com/watch/?v=10154211377601939> (acesso em 22 de novembro de 2022).

[xi] Veja Slavoj Žižek, “Pacifism Is the Wrong Response to the War in Ukraine” [Pacifismo é a resposta errada à guerra na Ucrânia]. The Guardian (21 de junho de 2022): <https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jun/21/pacificsm-is-the-wrong-response-to-the-war-in-ukraine> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xii] Huntington atuou como coordenador do plano de segurança da Casa Branca no Conselho de Segurança Nacional. Ele também trabalhou como conselheiro do serviço de segurança de P.W. Botha no Apartheid da África do Sul (Botha era oponente declarado do poder político negro e do comunismo internacional, bem como impiedoso defensor do Apartheid).

[xiii] Reena Flores, “Donald Trump: I could ‘shoot somebody and I wouldn’t lose any voters.’” [Donald Trump: eu poderia ‘atirar em alguém e não perderia quaisquer eleitores’]. CBS News (23 de janeiro de 2016): <https://www.cbsnews.com/news/donald-trump-i-could-shoot-somebody-and-i-wouldnt-lose-any-voters/> (acesso em 22 de novembro de 2022).

[xiv] Veja, por exemplo, Noam Chomsky, 9/11: Was There an Alternative? [11/9: havia alternativa?] (New York: Seven Stories Press, 2001) e Michael Parenti, The Terrorism Trap: September 11 and Beyond [A armadilha do terrorismo: o 11 de setembro e além] (San Francisco: City Lights Books, 2002).

[xv] Questões referentes a plágio e autoplágio de Žižek surgiram com tal frequência que há até uma seção em seu verbete da Wikipedia, com links para diversos artigos. Veja, em particular, Jay Pinho. “A Year of Writing Dangerously: Žižek’s Serial Self-Plagiarism.” [Um ano escrevendo perigosamente: o autoplágio serial de Žižek]. The First Casualty (22 de setembro de 2012): <http://archives.jaypinho.com/2012/09/22/the-year-of-writing-dangerously-slavoj-zizeks-serial-self-plagiarism/> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xvi] Veja sua descrição na série de livros “Phronesis”, em Slavoj Žižek. The Sublime Object of Ideology (London: Verso, 1989) [ed. bras.: Eles não sabem o que fazem – o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992]. Para uma perspicaz crítica da democracia radical, veja Larry Alan Busk, Democracy in Spite of the Demos: From Arendt to the Frankfurt School [Democracia apesar do demos: de Arendt à Escola de Frankfurt] (London: Rowman & Littlefield International, 2020).

[xvii] Žižek, The Sublime Object of Ideology, p. 6 (sobre a adesão de Žižek à matriz intelectual deles, veja seus reconhecimentos na pág. XVI). Também remeto o leitor ao livro escrito para a série “Phronesis” por Žižek, Laclau e sua comparsa democrata-radical, “anti-totalitária”, Judith Butler. Na introdução, co-assinada por eles, argumentam que o livro é baseado em Hegemony and Socialist Strategy, na medida em que este “representou uma virada ao pós-estruturalismo dentro da teoria marxista, considerando o problema da linguagem como essencial na formulação de um projeto democrático anti-totalitário e radical” (Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary Dialogues on the Left. London: Verso, 2000, 1, ênfase minha).

[xviii] Žižek descreveu seu segundo livro na série “Phronesis” como baseado em diversas palestras dadas na Eslovênia, “voltadas a um público ‘benevolente e neutro’ de intelectuais que foram a força motriz do movimento pela democracia” (For They Know Not What They Do: Enjoyment as a Political Factor. London: Verso, 1991, p. 3) [ed. bras.: Eles não sabem o que fazem – o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992]. Além de Laclau e Mouffe, também a lacaniana Joan Copjec ajudou a facilitar a ascensão de Žižek no mundo anglófono, graças à promoção de sua obra em círculos de teoria-francesa que giravam em torno do jornal de artes nova-iorquino Outubro. Como ele comenta nos agradecimentos de seu livro Looking Awry (1991) – publicado pela Outubro conjuntamente com a MIT Press –, Copjec “esteve presente desde a própria concepção” do projeto, encorajando-o a escrever e aplicando seu tempo no manuscrito (Looking Awry: An Introduction to Jacques Lacan through Popular Culture [Olhando torto: uma introdução a Jacques Lacan por meio da cultura popular]. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 1991, p. XI).

[xix] Jodi Dean. Žižek’s Politics (New York: Routledge, 2006), p. xi.

[xx] Benoit Denezit-Lewis, “The Man Behind Abercrombie and Fitch” [O homem por trás de Abercrombie & Fitch”.]. Salon (24 de janeiro de 2006): <https://www.salon.com/2006/01/24/jeffries/> (acessado em 22 de novembro de 2022)

[xxi] Slavoj Žižek, “The Communist Desire” [O desejo comunista]. Los Angeles Review of Books. “The Philosophical Salon” (July 25, 2022): <https://thephilosophicalsalon.com/the-communist-desire/#_ednref1> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxii] Michael Parenti. To Kill a Nation: The Attack on Yugoslavia [Matar uma nação: o ataque à Iugoslávia] (London: Verso, 2000), p. 17. Baseando-se em dados do Banco Mundial – nada suspeito de simpatias pró-comunistas –, Michael Chossudovsky traça um quadro similar da Iugoslávia no pre-1980, em The Globalization of Poverty and the New World Order [A globalização da pobreza e a nova ordem mundial] (Pincourt, Canada: Global Research, 2003), p. 259.

[xxiii] Tony Myers, Slavoj Žižek (New York: Routledge, 2003), p. 10.

[xxiv] Ibid., p. 7.

[xxv] Sobre a “oposição” heideggeriana e o primeiro livro de Žižek, ver Christopher Hanlon e Slavoj Žižek, “Psychoanalysis and the Post-Political: An Interview with Slavoj Žižek” [Psicanálise e a pós-política: uma entrevista com Slavoj Žižek], New Literary History, 32:1 (Winter, 2001), p. 1-21.

[xxvi] Veja, por exemplo, Barbara Day, The Velvet Philosophers [Os filósofos de veludo] (London: The Claridge Press, 1999).

[xxvii] Sobre a NED, ver William Blum, Rogue State: A Guide to the World’s Only Superpower [O Estado trapaceiro: um guia para a única superpotência global](London: Zed Books, 2014), p. 238-243. Allen Weinstein, que ajudou a escrever os estatutos da NED, reconheceu publicamente que “muito do que a gente faz hoje era feito secretamente pela CIA há 25 anos” (ibid., p. 239).

[xxviii] Veja, por exemplo, Ian Parker, Slavoj Žižek: A Critical Introduction [Slavoj Žižek: uma introdução crítica] (London: Pluto Press, 2004). Sobre o apoio da CIA à teoria francesa e a intelectuais anticomunistas em geral, veja Gabriel Rockhill, “The CIA Reads French Theory: On the Intellectual Labor of Dismantling the Cultural Left”. [A CIA lê teoria francesa: sobre o trabalho intelectual de desmantelar a esquerda cultural] Los Angeles Review of Books. “The Philosophical Salon” (28 de fevereiro de 2017): <https://thephilosophicalsalon.com/the-cia-reads-french-theory-on-the-intellectual-labor-of-dismantling-the-cultural-left/> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxix] Thomas Moller Nielsen, “Unrepentant Charlatanism (with a Response by Slavoj Žižek)”. [Charlatanismo impenintente – com uma resposta de Slavoj Žižek]. Los Angeles Review of Books. “The Philosophical Salon” (25 de novembro de 2019): <https://thephilosophicalsalon.com/unrepentant-charlatanism-with-a-response-by-slavoj-zizek/> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxx] Ernest Laclau. “Preface”. Žižek, The Sublime Object of Ideology, p. xi.

[xxxi] Veja este documentário da BBC: “The Death of Yugoslavia”: <https://www.youtube.com/watch?v=H3VyGPu6PKc> (acessado em 22 de novembro de 2022). Sobre a coluna semanal de Žižek, veja seu verbete na Encyclopedia Britannica: <https://www.britannica.com/biography/Slavoj-Zizek> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxxii] Entre outras fontes, veja a sua entrevista para o programa “HARDtalk”, da BBC britânica, em 4 de novembro de 2009: <https://www.youtube.com/watch?v=ThTJBKYPiNo&t=153s> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxxiii] Žižek, “A Leftist Plea for ‘Eurocentrism’” [Um apelo de esquerda pelo ‘eurocentrismo’], p. 990.

[xxxiv] Citado em F. William Engdahl, Manifest Destiny: Democracy as Cognitive Dissonance [Destino manifesto: democracia como dissonância cognitiva] (Wiesbaden: mine.Books, 2018), p. 101.

[xxxv] Matthew Sharpe, em seu artigo sobre o filósofo esloveno na Internet Encyclopedia of Philosophy (ver <https://iep.utm.edu/zizek/>, acessado em 22 de novembro de 2022), afirma que Žižek co-fundou o PLD. Ainda que eu não tenha encontrado outras fontes para essa informação, é bastante claro que Žižek foi, no mínimo, um destacado porta-voz desse partido.

[xxxvi] Veja, por exemplo, “Lacan in Slovenia: An Interview with Slavoj Žižek and Renata Salecl”. [Lacan na Eslovênia: entrevista com Slavoj Žižek e Renata Salecl]. Radical Philosophy, n. 58 (verão de 1991). Seria interessante investigar o financiamento desse partido, seguindo o fio da rica análise feita por Michael Parenti sobre o desmantelamento da Iugoslávia: “Dirigentes dos EUA – usando o National Endowment for Democracy, várias frentes da CIA e outras agências – canalizaram dinheiro de campanha e deram conselhos a grupos políticos separatistas conservadores, descritos na mídia norte-americana como ‘pró-ocidentais’ ou ‘oposicionistas democráticos'”. (To Kill a Nation, p. 26).

[xxxvii] Veja o debate eleitoral televisivo arquivado aqui: <https://www.youtube.com/watch?v=942h8enHCZs> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xxxviii] “Lacan in Slovenia”, p. 30.

[xxxix] Veja aqui outro trecho do mesmo debate eleitoral televisivo de 1990: <https://www.youtube.com/watch?v=rGfNeIRQ350> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xl] Veja aqui o arquivo digital da NSDD 133: <https://irp.fas.org/offdocs/nsdd/nsdd-133.htm> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xli] Geert Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality: A Conversation with Slavoj Žižek” [Sociedade civil, fanatismo e realidade digital: uma conversa com Slavoj Žižek]. Ctheory (21 de fevereiro de 1996): <https://journals.uvic.ca/index.php/ctheory/article/view/14649/5529> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xlii] Neil Clark, “NS Profile—George Soros” [Perfil da NS – George Soros]. New Statesman (2 de junho de 2003): <http://www.slobodan-milosevic.org/news/ns062203.htm> (acessado em 22 de novembro de 2022). “Desde 1979”, esclarece Clark em seu artigo, “ele [Soros] distribuiu US$ 3 milhões anualmente a dissidentes, entre eles o movimento Solidarity polonês, o Charter 77 na Checoslováquia e Andre Sakharov na União Soviética. Em 1984, ele fundou seu primeiro Open Society Institute na Hungria e injetou milhões de dólares em movimentos oposicionistas e mídias independentes. Claramente visando a constituir uma ‘sociedade civil’, tais iniciativas foram voltadas a enfraquecer as estruturas políticas existentes e a pavimentar o caminho à colonização do leste europeu pelo capital global”.

[xliii] Citado por Néstor Kohan, Hegemonía y cultura en tiempos de contrainsurgencia “soft”. [Hegemonia e cultura em tempos de contra-insurgência ‘soft’] (Ocean Sur, 2021), p. 63.

[xliv] Veja Myers, Slavoj Žižek, p. 9.

[xlv] Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality”.

[xlvi] Veja, por exemplo, Chossudovsky, The Globalization of Poverty, p. 267: “Croácia, Eslovênia e Macedônia concordaram em pagar suas porcentagens dos pacotes de empréstimos da dívida iugoslava. O padrão muito similar de fechamento de fábricas, falências bancárias induzidas e empobrecimento seguiu inabalado desde 1996 [i.e., na esteira dos Acordos de Dayton, em novembro de 1995]. E quem conduzia os ditados do FMI? Os líderes dos recém-soberanos estados que colaboraram amplamente com os credores”.

[xlvii] “A queda do muro de Berlim”, escreve Mink Li, “foi seguida de uma queda massiva no nível de vida de amplos setores da população mundial. A desintegração das economias socialistas contribuiu para o enfraquecimento das classes trabalhadoras globais. A renda nacional foi redistribuída do trabalho para o capital em praticamente todos os lugares do mundo” (“The 21st Century: Is There an Alternative (to Socialism)?” [Século 21: há uma alternativa (para o socialismo)?]. Science & Society, 77:1 [janeiro de 2013], p. 11). Veja também Božo Repe. “Slovenia”, em Günther Heydemann and Karel Vodicka. From Eastern Bloc to European Union: Comparative Processes of Transformation since 1990 [Do bloco do leste à União Europeia: comparação do processo de transformação desde 1990] (New York: Berhahn Books, 2017) e Leopoldina Plut-Pregelj and Carole Rogel. The A to Z of Slovenia [O A a Z da Eslovênia] (Lanham, Maryland: Scarecrow Press. 2010), p. 241. Sobre o desmantelamento imperialista da Iugoslávia, cujas terríveis consequências para a maioria da população local estavam em proporção inversa ao aumento dos lucros para a classe capitalista, veja também o filme documentário de Boris Malagurski, The Weight of Chains [O peso das correntes] (2010), bem como, ainda, esta palestra de 1999 de Michael Parenti, “The U.S. War on Yugoslavia” [A guerra dos EUA na Iugoslávia]: <https://www.youtube.com/watch?v=waEYQ46gH08> e <https://www.youtube.com/watch?v=GEzOgpMWnVs> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xlviii] Veja Matjaž Klemenčič and Mitja Žagar, The Former Yugoslavia’s Diverse Peoples [Os diversos povos da ex-Iugoslávia] (Santa Barbara, California: ABC-CLIO, Inc., 2004), p. 300-301.

[xlix] Veja, por exemplo, Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality”.

[l] Veja o segundo trecho do debate presidencial já mencionado: <https://www.youtube.com/watch?v=rGfNeIRQ350> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[li] Ibid.

[lii] Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality”.

[liii] Slavoj Žižek, “NATO, the Left Hand of God”. Nettime (29 de junho de 1999): <https://www.lacan.com/zizek-nato.htm> (acesso em 22 de novembro de 2022).

[liv] Parenti, To Kill a Nation, p. 81.

[lv] Citado em ibid., p. 92.

[lvi] Slavoj Žižek, “Eastern Europe’s Republics of Gilead”. New Left Review, I/183 (setembro/outubro de 1990): p. 58.

[lvii] Segundo Žižek, em “Lacan in Slovenia” (p. 29), Milošević teria lançado sua campanha pela “limpeza étnica” do Kosovo num discurso proferido em 1989. Como documentado por Michael Partenti – que fornece uma contextualização essencial e contradiz em diversos pontos as sacadas ardentes de Žižek –, eis o que Milošević afirmou: “Cidadãos de diferentes nacionalidades, religiões e raças têm vivido conjuntamente com cada vez mais frequência e sucesso. O socialismo, em particular, por ser uma sociedade progressista e democrática, não pode permitir que as pessoas sejam divididas em questões nacionais e religiosas”. (To Kill a Nation, p. 188).

[lviii] Žižek, “NATO, the Left Hand of God”.

[lix] Citado em Parker, Slavoj Žižek, p. 35.

[lx] Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality”.

[lxi] “Slavoj Žižek on Cuba and Yugoslavia” [Slavoj Žižek sobre Cuba e Iugoslávia] (1 de dezembro de 2016): <https://zizek.uk/slavoj-zizek-on-cuba-and-yugoslavia/> (acessado em 22 de novembro 2022). Veja também Žižek, “The Communist Desire” [O desejo comunista].

[lxii] Žižek, “Nous pouvons encore être fiers de l’Europe!”.

[lxiii] Veja sua entrevista ao programa da BBC britânica “HARDtalk”, citado acima, e Lovink, “Civil Society, Fanaticism, and Digital Reality”.

[lxiv] Essa parte do debate televisivo está arquivada aqui: <https://www.youtube.com/watch?v=rGfNeIRQ350> (acessado em 22 de novembro de 2022). Para um rápido sumário das contribuições de Churchill às atrocidades imperialistas, incluindo a fome em Bengala – que ceifou a vida de três milhões de pessoas –, veja Johann Hari, “Not His Finest Hour: The Dark Side of Winston Churchill” [Não o seu melhor momento: o lado obscuro de Winston Churchill], Independent (28 de outubro de 2010).

[lxv] Sobre a Europa, veja, por exemplo, Steve Weissman, Phil Kelly e Mark Hosenball, “The CIA Backs the Common Market” [A CIA apoia o mercado comum], in Dirty Work: The CIA in Western Europe [Trabalho sujo: a CIA na Europa ocidental]. Eds. Philip Agee and Louis Wolf (New York: Dorset Press, 1978). Vale também notar que a União Europeia tem servido como uma importante força anticomunista. Em 2019, o parlamento europeu aprovou uma resolução que igualava amplamente comunismo e fascismo e condenava “todas as manifestações e a propagação de ideologias totalitárias tais como o nazismo ou o comunismo”. Ver em <https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-9-2019-0021_EN.html> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxvi] Žižek, “Nous pouvons encore être fiers de l’Europe!”.

[lxvii] Slavoj Žižek, First as Tragedy, then as Farce (London: Verso, 2009) [ed. bras.: Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2015], p. 115.

[lxviii] Žižek, “Nous pouvons encore être fiers de l’Europe!”.

[lxix] Slavoj Žižek, “New Statesman Interview, with Jonathan Derbyshire” [Entrevista da New Statesman, com Jonathan Derbyshire], New Statesman (29 de outubro de 2009): <https://zizek.uk/new-statesman-interview-with-jonathan-derbyshire/> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxx] Veja, por exemplo, as perspicazes críticas de Croce por Domenico Losurdo, em Antonio Gramsci: Del liberalismo al comunismo crítico [Antonio Gramsci: do liberalismo ao comunismo crítico] (Madrid: disenso, 1997).

[lxxi] Ronald Radosh, “Steve Bannon, Trump’s Top Guy, told Me He Was ‘a Leninist’.” [Steve Bannon, o cara mais importante de Trump, me disse que era “um leninista”], Daily Beast (13 de abril de 2017): <https://www.thedailybeast.com/steve-bannon-trumps-top-guy-told-me-he-was-a-leninist> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxxii] O tweet do Spencer foi arquivado aqui: <https://archive.ph/qT5Xu> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxxiii] Slavoj Žižek, “New Statesman Interview”.

[lxxiv] Michael B. Kelley, “Last Year President Obama Reportedly Told His Aides that He’s ‘Really Good at Killing People’.” [No ano passado, o presidente Obama disse a seus assessores que é ‘realmente bom em matar pessoas’]. Business Insider (2 de novembro de 2013): <https://www.businessinsider.com/obama-said-hes-really-good-at-killing-people-2013-11?op=1> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxxv] Žižek, “New Statesman Interview”.

[lxxvi] “Doug Henwood Interviews Slavoj Žižek”, No Subject – Encyclopedia of Psychoanalysis (27 de fevereiro de 2002): <https://nosubject.com/I_am_a_fighting_atheist> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[lxxvii] Ibid.

[lxxviii] Slavoj Žižek, Repeating Lenin [Repetindo Lenin] (Zagreb: bastard books, 2001), p. 137.

[lxxix] Žižek, “The Communist Desire”.

[lxxx] Para tomar apenas um dentre vários exemplos: Žižek teve a audácia de afirmar que a luta de classes não é parte “da realidade social objetiva”; ela seria muito mais o Real “em estrito sentido lacaniano”, o que significa que a luta de classes “não é outra coisa senão o nome do limite insondável que não pode ser objetivado, localizado dentro da totalidade social”. (Slavoj Žižek, Ed. Mapping Ideology. London: Verso, 2000, 25, p. 22).

[lxxxi] Karl Marx & Friedrich Engels, Collected Works. Vol. 5 (Moscow: Progress Publishers, 1976), p. 49.

[lxxxii] Badiou chama a atenção particularmente aos livros do dissidente de direita Aleksandr Solzhenitsyn, recebido de braços abertos por Hienrich Böll e pelas redes da CIA com as quais se envolvera na Alemanha (ver o documentário de Hans-Rüdiger Minow de 2006 para a ARTE, Quand la CIA infiltrait la culture [Quando a CIA se infiltrou na cultura]: <https://www.youtube.com/watch?v=58QTcf_mFag>, acessado em 22 de novembro de 2022). O metafísico também se refere à obra “notável e incontestável” a respeito do terror stalinista e coloca “em primeiro lugar” o “grande livro” de J. Arch Getty, The Road to Terror: Stalin and the Self-Destruction of the Bolsheviks 1932 – 1939 [O caminho para o terror: Stalin e a autodestruição dos bolcheviques, 1932-1939] (Slavoj Žižek, Ed. The Idea of Communism. Vol. 2. London: Verso, 2013, p. 6). Badiou se recusa a mencionar que esse trabalho foi financiado pelo Departamento de Estado dos EUA, pelo National Endowment for the Humanities e pelo Open Society Fund. Ele também omite o fato de que o livro foi publicado em uma série cujo conselho consultivo inclui membros poderosos da elite imperial norte-americana, incluindo o agente do Departamento de Estado dos EUA, Strobe Talbott, e o Conselheiro de Segurança Nacional, anticomunista, Zbigniew Brzezinski. Este esteve envolvido, entre outras coisas, em operações secretas da CIA no Afeganistão, que financiaram e apoiaram os Mujahideen – incluindo Osama bin Laden – para lutar contra a União Soviética (ver Chomsky, 9/11, p. 82).

[lxxxiii] Para uma excelente crítica de Badiou nesse sentido, ver Losurdo, Western Marxism.

[lxxxiv] Costas Douzinas & Slavoj Žižek, Eds. The Idea of Communism (London: Verso Books, 2010), p. viii.

[lxxxv] Veja Gabriel Rockhill & Jennifer Ponce de León. “Toward a Compositional Model of Ideology: Materialism, Aesthetics and Social Imaginaries”, Philosophy Today, 64:1 (inverno de 2020).

[lxxxvi] Žižek, Looking Awry, p. 39; Slavoj Žižek, Metastases of Enjoyment: Six Essays on Woman and Causality [Metástases de gozo: seis ensaios sobre mulher e causalidade] (London: Verso, 1994), p. 30. “O Real”, escreve Žižek, “é exatamente aquilo que resiste e escapa ao alcance do Simbólico e, consequentemente, é detectável dentro do Simbólico apenas sob o disfarce das suas perturbações” (Metastases of Enjoyment, p. 30).

[lxxxvii] Ibid., p. 76.

[lxxxviii] Žižek, Looking Awry, p. 12. Não tenho ilusões quanto à constância das posições políticas de Žižek, ou, a esse respeito, de sua interpretação de Lacan e outros temas. Como oportunista, ele assumiu, é claro, inúmeras posições diferentes, algumas das quais mostram claros sinais de autocontradição. Mas o que aponto aqui é simplesmente uma das linhas mestras constantes em sua obra, a saber, o tema do ato ético, conforme a teoria do sujeito de Badiou.

[lxxxix] Alain Badiou. L’hypothèse comuniste (Paris: Nouvelles Éditions Lignes, 2009) [ed. bras.: A hipótese comunista. São Paulo: Boitempo, 2012], p. 189. Em várias ocasiões, Žižek abraça explicitamente a Ideia de comunismo de Badiou, a qual se sobrepõe a extensos escritos do primeiro sobre ato ético. Eis um exemplo: “A Ideia comunista então persiste: ela sobrevive aos fracassos de sua realização como um fantasma que retorna sempre, numa persistência infinita melhor descrita pelas palavras já citadas de Beckett: ‘Tente outra vez. Fracasse de novo. Fracasse melhor’” (Douzinas & Žižek, Eds., The Idea of Communism, p. 217).

[xc] Badiou, L’hypothèse communiste, p. 188.

[xci] Ibid., p. 189.

[xcii] Ibid. 202. Para jamais ser alcançado no reino do exagero, Žižek dobra a aposta de Badiou e a leva além: “Se quer sobreviver, a esquerda radical deve repensar as premissas básicas de sua atividade. Devemos descartar não apenas as duas principais formas de socialismo de Estado do século XX (o Estado de Bem-estar socialdemocrata e a ditadura de partido stalinista), mas também o próprio padrão por meio do qual a esquerda radical geralmente mede o fracasso das duas primeiras: a visão libertária do comunismo como associação, multidão, conselhos, democracia direta não-representativa baseada no engajamento permanente dos cidadãos”. (Taek-Gwang Lee & Slavoj Žižek. The Idea of Communism. Vol. 3. The Seoul Conference. London: Verso, 2016).

[xciii] Badiou, L’hypothèse comuniste, p. 190. É revelador que Badiou se refira a estes exemplos: “o movimento Solidarność na Polônia nos anos 1980-81, a primeira parte da Revolução Iraniana, a Organização Política francesa [o grupo político de Badiou], o movimento zapatista no México, os maoístas no Nepal” (ibid., p. 203). Nos comentários iniciais do terceiro volume de The Idea of Communism, baseado numa conferência na Coreia do Sul – um Estado capitalista, e, de facto, uma colônia dos EUA, ocupada militarmente –, Badiou insiste que os participantes da conferência “não têm nada a ver com o Estado nacionalista e militar da Coreia do Norte”. Acrescenta, para garantir: “Não temos, de forma mais geral, nada a ver com os partidos comunistas que nisto e naquilo seguem a velha moda do século passado [ou seja, do socialismo realmente existente]”.

[xciv] “Slavoj Žižek: ‘Humanity Is OK, but 99% of People Are Boring Idiots” [A humanidade é OK, mas 99% das pessoas são idiotas chatos]. The Guardian (10 de junho de 2012): <https://www.theguardian.com/culture/2012/jun/10/slavoj-zizek-humanity-ok-people-boring> (acessado em 22 de novembro de 2022).

[xcv] Žižek escreveu bastante sobre a Antígona como alguém que executou um ato grandioso ao se rebelar contra o Estado e ao rejeitar o reino do “princípio de realidade” em favor de uma dedicação intransigente a seu desejo (de enterrar seu irmão e honrar assim a lei maior dos deuses). “Um ato não é apenas um gesto que ‘faz o impossível’”, afirmou em sua glorificação do desejo individual à la Antígona, “mas uma intervenção na realidade social que muda as próprias coordenadas do que é percebido como ‘possível’” (Did Somebody Say Totalitarianism?, p. 167).

[xcvi] Badiou e Žižek assumiram pontualmente posições políticas em apoio à classe trabalhadora. Isso não é objeto da minha crítica, mas sim a sua forte oposição – com exceções muito pequenas e explicáveis – ao movimento socialista internacional desde 1917 (o qual assumiu a forma de projetos de construção de Estados anti-imperialistas da URSS ao Vietnã, China, Cuba e outros).

[xcvii] Veja Radhika Desai. “The New Communists of the Commons: Twenty-First-Century Proudhonists”. International Critical Thought,1:2 (1 de agosto de 2011), p. 204-223.

[xcviii] V.I. Lenin. Collected Works. Vol. 19 (Moscow: Progress Publishers, 1977), p. 396.

[xcix] Karl Marx & Friedrich Engels. Collected Works [Carta a J.B. von Schweitzer]. Vol. 20 (Moscow: Progress Publishers, 1976), p. 33.

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