Por ROBERTO HUGO BIELSCHOWSKY*
A capacidade de resposta do Brasil, ancorada no multilateralismo e numa defesa intransigente de seus interesses, expõe a fragilidade de quem tentou usar o porrete tarifário e viu-se forçado a recuar perante uma soberania inesperadamente resiliente
1.
Há pouco mais de dois meses, tive o prazer de publicar no site A Terra é Redonda, um artigo com o título “Temos fôlego para resistir?”. Naquele artigo argumentei que o governo Lula me parecia ter boas condições de resistir a uma situação geopolítica adversa provocada pela administração de Donald Trump, na hipótese de haver método na aparente loucura trumpista. Método este que, na minha hipótese, teria seu foco na guerra fria com a China, neste front de “seus quintais” latino-americanos e, num segundo plano importante, forçar condições muito favoráveis para a negociação na exploração de terras raras e minerais críticos brasileiros. Vale dizer, muito provavelmente, sem Lula na presidência do Brasil a partir de 2027, na ótica trumpista.
Meu ponto neste artigo de agora é dizer um pouco mais do mesmo que antes, na forma de comemorar, com a devida cautela, o recuo do governo de Donald Trump em sua aparente insanidade inicial com o tarifaço como um sinal de que o governo Lula está no caminho certo na defesa de nossa soberania e dos interesses brasileiros. Bem como comemorar o fato que Donald Trump talvez não disponha mesmo, contra o Brasil, as cartas que ameaçava ter.
Me parece ponto pacífico o mote de Lula que propaga ser do nosso maior interesse cultivar relações construtivas e amigáveis com todos os países do mundo, paralelamente ao cultivo institucional de relações multilaterais. Muito especialmente com os EUA. Contudo, não temos o direito de nos enganar quanto às rotas de colisão que temos com interesses de Donald Trump e do deep state americano, no momento ofuscadas pela equação “química”, teatralmente produzida por Donald Trump no palco da ONU.
Até onde consigo enxergar, as principais questões de interesse do governo de Donald Trump numa mesa de negociações com o Brasil seriam, pela ordem: (i) Guerra fria com a China, reapropriação do “quintal” americano prescrito na doutrina Monroe, preservação do dólar como moeda de troca no comércio global. (ii) Exploração de terras raras e demais minerais críticos. (iii) Comércio bilateral. (iv) Desregulamentação das big techs americanas em território brasileiro.
Meu palpite é que as duas primeiras questões são de longe as mais relevantes, tanto para Donald Trump, como para o deep state americano e temo que a tendência de Donald Trump seja de alimentar expectativas descabidas quanto à exploração de terras raras e minerais críticos por aqui, como já ameaçou fazer na Ucrânia e Groenlândia.
O comércio bilateral com o Brasil se reveste de alguma importância microeconômica para os EUA por si só, obviamente, mesmo que relativamente pequena. Contudo, o comércio bilateral na administração de Donald Trump tem se revestido de uma dimensão sem precedentes na geopolítica global, ao se transformar em arma de coação imperial sobre os demais países, passando por cima de qualquer acordo institucional multilateral, como aconteceu recentemente com o tarifaço sobre o Brasil. Usar o comércio bilateral para ingerência em assuntos políticos internos de países que sejam parceiros comerciais regulares seria algo impensável há cerca de um ano.
2.
Tem uma anedota segundo a qual se atribui aos Estados Unidos uma “defesa ferrenha de direitos humanos”, desde que seja em países detentores de petróleo nos quais tenham interesses. Atualizando a anedota, podemos esperar que continuem “defensores ferrenhos de direitos humanos”, desde que em países detentores de reservas importantes de terras raras e minerais críticos.
A defesa dos “direitos humanos” de Jair Bolsonaro pela administração de Donald Trump parece típica desta atualização na anedota. Que dirá, no caso brasileiro, se o governo Lula quiser fazer valer nosso direito soberano de escolher, no planeta Terra, quais empreendimentos seriam mais vantajosos para a transferência de tecnologia e agregação de valor aos minérios brutos brasileiros. E mais ainda, num país co-fundador dos Brics e que é visto pelo deep state americano como ponta de lança, em seus “quintais” latinoamericanos, de interesses inimigos na sua atual guerra fria com a China. Já vimos este filme antes.
Na impossibilidade de enviar seus navios de guerra contra o Brasil com acusações sobre o uso de “armas químicas” ou de “narcoterrorismo”, como faz no momento contra a Venezuela, o governo americano entendeu que podia explorar nossa polarização política interna, nos intimidando com sanções tarifárias pesadas em nome da defesa dos “direitos humanos” de golpistas de plantão por aqui.
Bem como aplicando penas contra juízes brasileiros que condenaram Jair Bolsonaro e que se contrapõem à liberdade irrestrita que o Império exige para suas big techs. Bem ao estilo Donald Trump de humilhar para depois sugar o que deseja na relação bilateral. Deu certo com Europa e Japão, aparentemente. Parece que teve que recuar no caso da China. E agora com o Brasil. Muito provavelmente, também mudará completamente o tom no caso da Índia…
O que eu comemoro sim, é a possibilidade de reafirmar, ainda com toda a cautela, porém com mais convicção, minha aposta no artigo anterior de termos condições de resistir bem a condições geopolíticas adversas com os EUA. Pelo menos até as eleições legislativas americanas de 2026, de meio de mandato, onde nos parece provável que Donald Trump sofra derrotas significativas e, com isto, perca parte importante de seu poder absoluto atual.
Em particular, me parece provável que Donald Trump tenha finalmente percebido que estava muito mais ajudando que atrapalhando o governo Lula e que só tinha a perder insistindo em seu tarifaço descabido. Burro mesmo, seria uma qualificação perfeitamente adequada aqui. Como foi igualmente estúpida a sanção de 50% sobre importações Indianas e totalmente contrária aos interesses americanos na Ásia, a julgar pelo que nos dizem todos os especialistas em geopolítica que sabem como vestir suas calças.
3.
Ainda mais agora que o Brasil se confirma macroeconomicamente pouco vulnerável ao tarifaço, que atualmente incide em cerca de 6% de nossa pauta de exportações, está muito antenado no multilateralismo e tem como repor mercados em parte importante das nossas exportações hoje destinadas aos EUA e submetidas ao tarifaço. Vale mencionar ainda a atuação muito bem articulada do governo brasileiro com nossos setores exportadores, tendo Geraldo Alckmin à frente, junto à sua contraparte americana importadora e que conseguiu sustar quase metade do tarifaço logo de saída.
Bem como não se deve subestimar o fator político sobre o governo de Donald Trump das reações de descontentamento de consumidores americanos, ao sentirem no bolso as subidas de preço do café e do hambúrguer provocadas por sanções políticas descabidas ao Brasil. Nem deixar de mencionar o zelo com o qual o governo Lula está podendo proteger os setores nacionais exportadores que estão sendo mais prejudicados pelo tarifaço americano.
Para completar, podemos destacar o fortalecimento do lugar de fala global de Lula, por conta de sua resiliência, dignidade, racionalidade e competência na resposta ao governo de Donald Trump. Apesar dos sopros na contramão de boa parte da nossa grande mídia tupiniquim…
Para completar o quadro, Lula bem que poderia agradecer ao “companheiro” Donald Trump pelo acréscimo em alguns pontinhos na popularidade de seu governo e por nos ajudar a ir queimando de vez a bucha de canhão “Bolsonaros” que Donald Trump disparou inicialmente.
Em bom português, a tal “química” de Donald Trump com Lula, no essencial, significa: Donald Trump não tinha alternativas decentes a recuar de sua estúpida arrogância inicial… Já havia amarelado com a China, ante a retaliação chinesa de não exportar mais terras raras para os EUA, assim como se espera um recuo importante de Donald Trump com relação à Índia. Deve estar ainda mais chateado com Lula que antes, mas isto fica cá entre nós, não vale a pena dizê-lo para a grande mídia encantada com a “química” entre Donald Trump e Lula.
Em especial, não podemos abrir a guarda e menosprezar a capacidade de retaliação americana sobre o Brasil, em caso de não cedermos ao que querem, seja no caso das nossas afinidades com a China e com os Brics, seja no caso das terras raras e minerais críticos ou até mesmo com relação a enquadramento das big techs numa regulação minimamente ética em território brasileiro.
4.
Precisamos reconhecer que não temos a capacidade da China de responder com o mesmo vigor. Mesmo assim, acredito que os acontecimentos recentes sugerem que os EUA de Donald Trump entenderam que, neste momento, têm que recuar de uma estratégia de dobrar o Brasil com argumentos tão ridículos como as ameaças de intervenção na soberania nacional que nos fizeram até aqui, bem como de apostar em perdedores (“losers”), como os Bolsonaros.
O que realmente vão fazer, até onde vão com a tal da “química” e quando retomam o porrete, não sabemos. A única coisa que me parece certa é que Donald Trump não gostaria de ver Lula reeleito presidente do Brasil, principalmente se não conseguir negociar em seus termos o que lhe interessa impor sobre seu “quintal” latinoamericano. Contudo, vai me parecendo cada vez mais verossímil que Donald Trump não esteja com tantas cartas neste jogo quanto quer fazer crer.
Um de meus receios reside na regulação da exploração de terras raras e minerais críticos, no que depender do Congresso Nacional. Sob pressão de meus instintos otimistas, minha torcida é que fique para 2027 e que enquanto isto Lula consiga ir desarmando Donald Trump, caso este queira forçar uma ultrapassagem nesta questão antes das eleições do ano que vem.
Na falta de narrativas à altura dos acontecimentos, a extrema direita bolsonarista está comemorando a escolha de Marco Rúbio por Donald Trump, como negociador americano. Eu até acho graça nisto, pois meu sentimento é quase de pena do “little Marco”, como Donald Trump pejorativamente se referia a seu adversário Marco Rubio nas primárias republicanas de 2016, ao imaginá-lo enfrentando craques como Fernando Haddad, Mauro Vieira e Geraldo Alckmin, com Celso Amorim na retaguarda e Lula no comando, com o celular de Donald Trump no bolso.
A menos que Donald Trump esteja pensando em chutar o pau da barraca logo, o que me parece improvável, a tendência que vejo é “little Marco” recolhendo sua verborragia e a administração de Donald Trump suspender boa parte do tarifaço atual em pouco tempo. Mesmo que o retome parcialmente em um segundo momento.
Em especial, confio na capacidade de nossos “craques” irem driblando “little Marco” e seu chefe nas reivindicações americanas que julguem descabidas e/ou contrárias a nossos interesses nacionais. Pelo menos até as eleições legislativas americanas de meio de mandato.
E, mais ainda, pelo que vi acontecer nestes dois últimos meses, aumentou consideravelmente minha confiança na capacidade brasileira de bem resistir, no médio prazo, à arroubos alaranjados.
*Roberto Hugo Bielschowsky é professor aposentado do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
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