Por ELISEU RAPHAEL VENTURI*
Num mundo intoxicado por fúrias imediatas, a última esperança realista é a arte secular de administrar conflitos, transformando a ira bruta em aprendizado coletivo
“O tempo ocidental precisa ser definido como o tempo de aprendizado para civilizações. Quem só quer fazer ‘história’ fica aquém dessa definição”. (Peter Sloterdjik, Ira e Tempo, 2006).
1.
A política, ao contrário do que imaginam os que a reduzem a um jogo de soma zero ou a um campo de moralismos em disputa, é antes de tudo uma prática de equilíbrio.
Este é o diagnóstico incisivo de Peter Sloterdijk em Ira e tempo (2006), quando recusa tanto as ilusões de uma harmonia duradoura quanto a tentação da violência redentora.
O filósofo recorda que vivemos num mundo globalizado “multi-megalomaníaco e intraparanoico”, no qual cada civilização traz consigo seu estoque inflamável de orgulho, ressentimento e desejo de reparação.
Nesse cenário, propor um código de conduta intercivilizatório não seria gesto de utopia, mas questão de sobrevivência.
O que Sloterdijk recoloca em pauta é a dimensão antrópica da ira. Desde Homero, a mênis – ira divina e desmesurada – inaugura a literatura ocidental como energia primordial. Não há epopeia sem ira, não há história sem indignação.
Na leitura de Peter Sloterdijk, a ira é um capital psíquico que precisa ser investido, administrado, retardado ou sublimado; caso contrário, explode em violência imediata. A política, portanto, nasce do destino que se dá a essa energia.
É por isso que ele descreve as religiões, os impérios e as ideologias como verdadeiros bancos da ira: instituições que prometem guardar a indignação presente e devolvê-la no futuro sob a forma de justiça.
O cristianismo, por exemplo, construiu um banco de longo prazo ao prometer a cada injustiçado que sua ira seria compensada no Juízo Final. O socialismo revolucionário, por sua vez, ofereceu um banco histórico: a ira do explorado teria seu resgate no dia da revolução. A nação moderna também se constituiu como um banco, ao reunir ressentimentos e canalizá-los para a luta contra inimigos externos.
Esses bancos permitiam que a ira não se consumisse no instante, mas fosse investida em projetos de esperança. Eles transformavam a fúria imediata em crédito simbólico.
2.
A crise contemporânea é a crise desses bancos. As religiões já não detêm a promessa universal, as ideologias perderam crédito, a nação já não mobiliza a mesma força unificadora.
O que sobra é um excedente de ira sem destino, energia inflamada que se espalha em microviolências, ressentimentos difusos, ódios digitais. O mundo sem bancos é um mundo em que cada indignação exige satisfação imediata. E o que é mais perigoso: um mundo em que a ira não encontra elaboração coletiva, restando apenas como curto-circuito da convivência.
É nesse ponto que a noção de tempo ganha centralidade. Peter Sloterdijk lembra que o Ocidente viveu sob o signo do tempo épico – o tempo das grandes conquistas, dos feitos heroicos que garantiam imortalidade – e do tempo trágico – o tempo das quedas inevitáveis, das catástrofes inscritas no destino. Ambos os regimes temporais já não bastam.
O tempo épico se tornou inviável na globalização, pois não há mais espaço para heróis absolutos; o tempo trágico, por sua vez, se converteu em paralisia cínica, em impotência diante de crises ambientais, sociais e políticas.
O que Peter Sloterdijk propõe é a invenção de um tempo de aprendizado: a história como processo de reflexão, em que a verdadeira grandeza não está em vencer ou em sucumbir, mas em aprender com os próprios excessos.
O tempo de aprendizado exige o que Peter Sloterdjik chama de observação de segunda ordem. Não basta observar o mundo, é preciso observar como o observamos.
Essa reflexividade é a nova humildade secular: admitir que todo olhar é situado, que nenhuma perspectiva detém a verdade total, que o outro sempre nos devolve o limite da nossa visão.
O cristianismo operava a partir da humildade diante de Deus; a política contemporânea precisa operar a partir da humildade diante da pluralidade. Se não aprendermos a ver com os olhos dos outros, o tempo histórico não será de aprendizado, mas de repetição destrutiva.
A proposta de Peter Sloterdijk é rigorosa: não se trata de eliminar a ira. Isso seria ingenuidade, porque ela é estrutural à condição humana. Também não se trata de recair na crença de que a ira se resolve por si mesma no fim dos tempos.
A política deve, antes, assumir a tarefa de escolher quais lutas merecem ser travadas, evitar aquelas que apenas desperdiçam energia e não desistir quando o processo entrópico ameaça dissolver o tecido comum.
Essa é a arte do equilíbrio: não a neutralização do conflito, mas a sua gestão lúcida.
3.
O problema é que a modernidade globalizada multiplicou as fontes de ira enquanto enfraqueceu os mecanismos de sua contenção. Vivemos um paradoxo: nunca houve tanta circulação de ofensas, indignações, ressentimentos, e nunca estivemos tão carentes de instituições capazes de convertê-los em projetos duradouros.
É nesse vazio que florescem os fundamentalismos e as violências dispersas. A ausência de bancos não extingue a ira; apenas a deixa circular sem regulação, pronta para se cristalizar em formas de ressentimento interminável.
Diante disso, Peter Sloterdijk nos convida a uma espécie de realismo reflexivo. A política não deve ser entendida como promessa de salvação, mas como disciplina do retardamento. Sua função é adiar o colapso, sustentar equilíbrios instáveis, oferecer respiros em meio ao excesso.
Não se trata de idealizar uma comunidade reconciliada, mas de manter o jogo aberto, impedir que se feche em certezas absolutas. O destino político não é a eternidade de uma ordem, mas a invenção permanente de equilíbrios provisórios.
Aqui se encontra a dimensão ética do pensamento de Peter Sloterdijk. Fazer história, no tempo do aprendizado, significa inventar formas de canalizar a ira sem permitir que ela se torne destrutiva. Significa reconhecer que a convivência não se sustenta em consensos absolutos, mas em compromissos frágeis e em renúncias mútuas. Significa também aceitar que o futuro não será dado como epopeia nem como tragédia, mas como processo de aprendizagem coletiva.
A política, nessa chave, é um exercício paciente: lutar sem se perder no ódio, ceder sem se dissolver na indiferença, manter-se atento ao fato de que cada vitória contém sua sombra e cada derrota pode ensinar algo.
O equilíbrio não é paz eterna, mas um modo de viver com a tensão sem sucumbir a ela. É a forma mais realista de esperança: não a esperança de redenção, mas a esperança de que ainda haja tempo para aprender a viver juntos.
A passagem de Peter Sloterdijk em Ira e tempo é, em última instância, um chamado à maturidade civilizatória. Ela nos lembra que a ira é energia inevitável, que o tempo não é dado, mas construído, e que a política só tem sentido se for capaz de transformar a fúria em aprendizado.
Não há bancos eternos que garantam a justiça; resta-nos inventar novas formas de retardar o colapso e prolongar a convivência.
O futuro não será o da epopeia nem o da tragédia, mas o de uma história feita de equilíbrios frágeis, sustentados pela capacidade de aprender com o excesso.
Esse é o destino político que Peter Sloterdijk nos propõe: viver o tempo como escola, e a ira como matéria-prima de um equilíbrio sempre por vir. O destino não é o triunfo, tampouco a queda – é a arte paciente de retardar a catástrofe e, nesse adiamento, inventar modos de aprender e conviver.
*Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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