Lima Barreto, cronista

Imagem: Elyeser Szturm

Por DANIEL BRAZIL

Comentário sobre uma seleção de crônicas de Lima Barreto

“Decididamente os homens não tomam juízo, e mesmo a Morte, que deve ser a soberana mestra de todos nós, é impotente para nos pôr na cachola um pouco de bom senso elementar.”

Esta sentença, tão atual nesses tempos de pandemia, foi escrita em 1919 por Lima Barreto, numa crônica amarga sobre os efeitos da Grande Guerra na política mundial.

Embora seja reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros, boa parte da obra de Afonso Henriques de Lima Barreto não estava ao alcance do leitor. Por este motivo, a publicação do volume A crônica militante (Expressão Popular, 2016) é uma bem vinda contribuição ao resgate de seu lado jornalista-cronista.

É claro que nos “tempos sombrios” em que vivemos esta coletânea não teve a repercussão que merecia na grande imprensa. O pacto político-judicial-midiático que depôs um governo legitimamente eleito não pode ver com bons olhos os textos de um escritor anarco-socialista que denuncia as mazelas do capitalismo, mesmo que tenham sido escritos há um século.

Antes de morrer, em 1922, Lima Barreto deixou pronto um volume (Bagatelas), enfeixando crônicas publicadas em várias publicações cariocas. O escritor era crítico ferrenho da mídia oficial e chapa-branca, manifestando preferência por publicações marginais e independentes, anarquistas ou satíricas. Destas, a mais famosa foi a revista Careta, onde o autor de O homem que sabia javanês publicou sob diversos pseudônimos.

Grande parte dos artigos desta coletânea foi escrita durante e após a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), e analisa um mundo em convulsão social e política. Barreto escreve contra o racismo, defende a Revolução Russa, critica o imperialismo americano, ironiza os governantes da ocasião, deplora os assassinatos por “honra”, ataca o formalismo acadêmico na imprensa de seu tempo.

De fato, em termos de linguagem, Lima Barreto é um precursor do Modernismo. Sua escrita é direta, muitas vezes irônica, embora pareça pedante a leitores do século XXI a quantidade de citações em francês ou latim de que lança mão. É como se o escritor, mulato, pobre e sem títulos, visto com certa desconfiança por sua militância política (e pelo alcoolismo contumaz), se sentisse na obrigação de “deitar cultura”, demonstrar erudição.

Os organizadores da coletânea (Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis) foram felizes em incluir um saboroso ensaio de Astrojildo Pereira, publicado na 2ª edição de Bagatelas. Fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, o intelectual ressalta que Lima Barreto não era marxista, nem mesmo tinha uma formação ortodoxa, mas era um humanista eclético que escrevia com “aguda intuição”.

Incomoda apenas, nesta edição, o excesso de notas de rodapé primárias que levam o interessado a interromper a leitura para ver se há algum significado especial e retomar a leitura irritado com a obviedade. Nota de rodapé para explicar o que é “missa campal”, “galhofa”, “recluso”, ‘bretão” ou “imaculado”, convenhamos, é fazer pouco da inteligência de um leitor mediano. Pra compensar, há no final um “elenco de nomes, títulos e lugares” de real valor, contextualizando vários personagens e locais citados nas crônicas.

Reler e conhecer de forma mais profunda a obra e o pensamento de Lima Barreto é imprescindível. Homenageado na Flip-2017, o autor de personagens inesquecíveis como Policarpo Quaresma surpreende, em vários sentidos. Desde sua folclórica aversão ao futebol (que considerava uma imitação patética dos ingleses) até a incômoda atualidade de algumas afirmações, como a que emite após participar de um julgamento, de que “a massa dos jurados é de uma mediocridade intelectual pasmosa, mas isto não depõe contra o júri, pois nós sabemos de que força mental são a maioria dos nossos juízes togados”.

Em vários momentos, soa profético: “A crença no todo poderio do dinheiro, que entre nós se apossou primeiramente de São Paulo (…), vai avassalando todo o Brasil, matando as nossas boas qualidades de desprendimento, de doçura e generosidade, de modéstia nos gostos e nos prazeres, emprestando-nos, em troca, uma dureza com os humildes, com os inferiores, com os desgraçados, com tolas e infundadas superstições de raça, de classe, etc., nesta época de grandes e justas reivindicações, ameaça-nos de morte, ou se não de lutas sangrentas”.

Em outro artigo, vai ao âmago da questão.  “Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer”.

Lima Barreto, que tematizou várias vezes esse sentimento (ver o conto A Nova Califórnia, que adaptado para o cinema talvez tenha se tornado o melhor filme da Vera Cruz, Osso, amor e papagaios, de 1957) continua sendo fundamental para entendermos o Brasil.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência

Lima Barreto. A crônica militante. Seleta organizada por Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão, Zenir Campos Reis. São Paulo, Expressão Popular, 2016.