COP 30 – nem mapa, nem caminho

Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil
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Por LISZT VIEIRA*

O consenso que condena o planeta: por que as conferências climáticas falham em enfrentar a verdadeira causa da crise que ameaça a todos

1.

O modelo das Conferências Internacionais da ONU sobre Clima, chamadas COPs, parece ter se esgotado. As Declarações Finais com as decisões são aprovadas necessariamente por consenso. E os países produtores de petróleo, gás e carvão jamais concordariam com a crítica aos combustíveis fósseis, apesar das gravíssimas denúncias dos cientistas de que estamos ultrapassando a meta de 1,5º C fixada no Acordo de Paris.

A COP 30 terminou como todas as anteriores. Aprovou uma Declaração Final sem tocar no principal problema responsável pelo aquecimento global e pela crise climática: a queima de combustíveis fósseis. A linguagem diplomática tenta ocultar esse fracasso que não é exclusividade da COP 30, ocorreu nas 29 COPs anteriores. Um bom exemplo foi a frase do Comissário Europeu do Meio Ambiente afirmando que desejava um acordo mais ambicioso, mas esse acordo está na direção certa.

O presidente da COP 30, embaixador André Correia do Lago, afirmou que o mapa do caminho para a redução gradual do uso de combustíveis fósseis não entrou na Declaração Final, mas ganhou “tração”, vida própria, e será anunciado fora da COP. Ele se comprometeu a apresentar até a COP 31 dois mapas do caminho: um para o combustível fóssil e outro para desmatamento. Para o Greenpeace, esse compromisso é uma espécie de “prêmio de consolação”.

Na realidade, cerca de 80 países passaram a apoiar a construção de um mapa do caminho para a transição rumo ao fim do uso de fósseis. Apesar disso, o tema foi bloqueado nas negociações sobretudo pelos países árabes, liderados pela Arábia Saudita. Mas o governo da Colômbia se antecipou e assumiu liderança ao convocar uma Conferência Internacional sobre Fósseis em abril de 2026 na Colômbia. No que se refere ao desmatamento, não houve avanços no texto final que manteve a mesma linguagem do texto da COP 29.

Os cientistas do Pavilhão da Ciência Planetária criticaram a falta de menção aos combustíveis fósseis no texto final da COP 30: “A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040 ou, no mais tardar, até 2045.

Não cumprir isso empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos, causando extremos climáticos cada vez mais intensos que afetarão bilhões de pessoas”. E mais adiante: “No início da semana, dissemos que a COP tinha uma escolha – proteger as pessoas e a vida, ou os interesses da indústria de combustíveis fósseis”. Segundo eles, as negociações oficiais estão “fora da realidade do planeta” – declaração assinada por diversos cientistas, entre eles Carlos Nobre, Johan Rockstrom, Thelma Krug (presidente do Conselho Científico da COP30); Paulo Artaxo (USP) e diversos outros.

2.

Apesar disso, houve avanços pontuais que merecem ser citados. Por exemplo, na Cúpula dos Líderes, que ocorreu antes da COP 30, o governo brasileiro lançou o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre) que já captou 7 bilhões de dólares. Mas no encontro paralelo da Cúpula dos Povos, foi constituída uma coalização de mais de 100 entidades condenando o TFFF e buscando uma proteção para os bosques e florestas numa perspectiva pública.

Um avanço foi o reconhecimento da importância dos povos indígenas para a mitigação climática. Pela primeira vez os povos de origem africana foram citados. O texto final convocou esforços para triplicar o volume de financiamento para adaptação até 2035, mas nada garante que isso será cumprido.

Destaque especial deve ser atribuído ao papel dos cientistas e das organizações da sociedade civil denunciando que, se não houver mudanças rápidas na política ambiental, caminharemos breve para um Colapso que ameaça a sobrevivência humana no planeta. A Marcha Global pelo Clima reuniu cerca de 30 mil pessoas.

O Presidente Lula teve papel importante defendendo em Belém o fim da exploração de combustíveis fósseis, e contrariando o Presidente Lula do Governo que defendeu a exploração de petróleo na margem equatorial do Amazonas e “anunciou a inclusão de mais de 275 blocos na oferta permanente de licitações da Agência Nacional de Petróleo” (Observatório do Clima, O Globo, 22/11/2025).

Às vésperas da COP 30, divulguei um artigo dizendo que essa COP iria ser julgada pela decisão a respeito de três grandes temas: queda significativa no uso dos combustíveis fósseis, redução drástica no desmatamento e financiamento adequado para a adaptação dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Não houve avanço real em nenhuma dessas questões na Declaração Final da COP 30, conhecida como Decisão Mutirão.

Muito se falou sobre a infraestrutura precária da cidade de Belém para receber os mais de 75 mil participantes que estiveram na última COP 29 em Baku, Azerbaijão. Pelos dados oficiais, vieram 195 países e mais de 42 mil participantes, bem menos do que nas COPs anteriores, mas o número final, embora possa ter prejudicado alguns países e ONGs mais pobres, parece não haver influenciado o resultado. Os incidentes na organização da infraestrutura, como falta água num dia e incêndio no outro, tampouco influenciaram o resultado final.

3.

Na realidade, uma COP é uma Conferência global e seu resultado não depende do local onde é realizada. Além de eventuais interesses políticos do Governo, Belém foi escolhida por razões simbólicas de estar na Amazônia. Um símbolo meramente retórico, pois isso não influencia nada nas decisões oficiais, embora deva se destacar a força das reuniões e manifestações da sociedade civil.

O fato é que a COP 30 repete o mesmo script das COPs passadas. Como não há consenso sobre os três pontos assinalados acima – redução dos combustíveis fósseis, do desmatamento e o financiamento adequado para a adaptação dos países pobres à crise climática – os delegados oficiais dos países fazem um malabarismo diplomático para encobrir o fracasso e aparentar um avanço que só existe em alguns pontos específicos.

Na Declaração Final, a crítica aos combustíveis fósseis está completamente ausente. Tampouco foram mencionados os “mapas do caminho” (road maps) para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis e com o desmatamento.

Segundo declararam os cientistas, com apoio de toda sociedade civil presente, suprimir a menção aos combustíveis fósseis “é uma traição à ciência e às pessoas, especialmente as mais vulneráveis, e é completamente incoerente com as metas reafirmadas de limitar o aquecimento a 1,5 grau Celsius e rapidamente acabar com o estoque de carbono. É impossível limitar o aquecimento a níveis que protejam as pessoas e a vida sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento”.

Por seu lado, o Greenpeace afirmou que a “Decisão Mutirão” não dá uma resposta ao tamanho da emergência climática que o mundo vive. “Não traz nem mapa e nem caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento até 2030, e não garante que os recursos necessários para adaptação, absolutamente essenciais para os países em desenvolvimento, sejam de fato mobilizados pelos países desenvolvidos”, disse Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil.

Enfim, acabou saindo uma Declaração Final aquém das expectativas do governo brasileiro, dos cientistas e ambientalistas, mas na linha das COPs anteriores. Os países produtores de petróleo lideraram o embargo a um plano de transição para energias renováveis, com indicações concretas para um mapa do caminho em direção a uma redução drástica das emissões de gases de efeito estufa responsáveis pela crise climática. E os EUA, grande produtor de petróleo, boicotou e não apareceu na COP 30.

Assim, a COP 30 decepcionou por não ter avançado, com exceção de alguns poucos pontos específicos, no enfrentamento da crise climática que, em poucos anos, começará a ameaçar a sobrevivência da humanidade em nosso planeta. Segundo os cientistas, se não houver decisões drásticas a curto prazo, o Colapso em pouco tempo surgirá no horizonte.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]


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