Por VENÍCIO A. DE LIMA*
O “horror metafísico” do envelhecimento: por que a busca espiritual na velhice não é fuga, mas uma forma superior de militância
1.
A primeira vez que entrei no “office” do professor Thomas H. Guback, no Institute of Communications Research (ICR) da University of Illinois em Urbana-Champaign, outono de 1976, levei um baita susto: bem defronte à porta, atrás de sua mesa de trabalho, havia um enorme retrato de Vladimir Lênin!
Apesar de saber que Thomas Guback era o principal herdeiro da tradição de estudos conhecida como economia política da comunicação – que surgira em Illinois com o canadense Dallas Smythe (1907-1992), prosseguiu com Herbert Schiller (1919-2000) e tinha como fundamento a análise da comunicação como mercadoria (commodity)[i] – jamais suspeitava deparar com a imagem do líder da revolução soviética na parede da sala de um professor, em uma universidade do meio oeste americano, a princípio, região politicamente conservadora.
Apesar de ainda jovem (nasceu em 1937), Thomas Guback era conhecido e respeitado por seu livro The international film industry: Western Europe and America since 1945, (Guback, 1969), reelaboração de sua tese de doutorado, orientada por Smythe (ICR, 1964), que já se tornara um clássico.
Na apresentação da tradução espanhola (Guback, 1980), está escrito: “Hay un aspecto del mundo del cine que suele olvidarse, aun siendo fundamental: las películas son mercancías, suponen inversiones y unos canales comerciales; las compañías y los gobiernos de los países implicados tendrán que tomar decisiones económicas y políticas. Este entramado de base puede condicionar y de hecho condiciona aspectos tan importantes como el contenido de las películas, la existencia de industrias cinematográficas racionales, etc.”.
Thomas Guback construiu uma carreira acadêmica sólida. Era o responsável pelas disciplinas de Economia política da comunicação, tanto na graduação como na pós-graduação; publicava com frequência nos principais journals da área; reuniu, editou e publicou os escritos inéditos deixados por Dallas Smythe (Guback, 1994); e foi um dos articuladores e autores do Last Rights (Nerone, 1995), livro que, 40 anos depois, respondeu criticamente ao Four Theories of the Press de Siebert, Peterson e Schramm.
Thomas Guback havia sido batizado na Igreja Ortodoxa Russa, mas não a frequentava. Em 1988, aos 51 anos, divorciado, casou-se novamente. Sua esposa era envolvida com a Igreja Episcopal, nome dado à Igreja Anglicana nos Estados Unidos, desde a independência da Inglaterra (1776). Aos poucos ele também passou a frequentar e a se envolver com a Igreja Episcopal.
Ao final do livro que editou sobre Smythe, Guback transcreve a “Eulogy” que leu na missa celebrada em sua memória na Emmanuel Memorial Episcopal Church, em Champaign, no dia 17 de outubro de 1992. Eis o último parágrafo[ii]: “Perguntei a Dallas, na última vez que o vi, se ele achava que havia uma conexão muito mais estreita – do que aparentava superficialmente – entre os pontos de vista radicais e cristãos. Sua resposta foi inequívoca: Sim. Embora seu trabalho atual fosse em outras áreas, acho que ele teria aprovado os crescentes laços entre a economia política radical e a teologia cristã, entre a justiça econômica e a religião, entre a luta para acabar com a opressão e uma ética econômica cristã.
Descobri, ao ler a autobiografia inacabada de Dallas, que, quando jovem, ele havia sido confirmado na Igreja Anglicana do Canadá, que, juntamente com a Igreja Episcopal nos Estados Unidos, faz parte da Comunhão Anglicana (p.333)”.[iii]
Cinco anos depois (1997), Thomas Guback interrompeu sua carreira acadêmica, aposentou-se da University of Illinois e matriculou-se no Nashotah House Theological Seminary, em Wisconsin, onde obteve o Master of Divinity e foi ordenado Padre Episcopal, aos 64 anos de idade, em 2000. Desde então, foi “pároco” da Saint Christopher’s Church em Northport, Leelanau County, Michigan, até 2008. Na verdade, obteve extensão de mais um ano, após chegar aos 70, limite para sua aposentadoria compulsória. Ainda hoje continua colaborando nas celebrações de domingo, “quando necessário”.
Em raríssima entrevista, Thomas Guback fala sobre sua opção pela vida religiosa, colocando fim a carreira na University of Illinois, aos 60 anos. Diz ele: “Passei a me interessar mais pelos problemas de bem-estar social e equidade em geral. (…) Fui apresentado às Escrituras e ao que o cristianismo estava fazendo em relação a essas questões. (…) Houve um foco maior na justiça social e na ação social. Senti que ouvi um chamado para a vida religiosa.[iv] (Berkson, s/d).
2.
Relembro a história de Thomas H. Guback, professor conhecido e respeitado de economia política da comunicação, porque me parece emblemática para dialogar com duas questões que, ocasionalmente, surgem quando se trata do julgamento preconceituoso de opções de vida, sobretudo, daqueles/as que, embora cronologicamente “velhos/as”, encontram-se ainda no pleno gozo de suas capacidades mentais e se mantem ativos e produtivos.
A primeira é que não há qualquer incompatibilidade entre cristianismo e análise marxista da realidade econômico-social. Bastaria evocar toda a celeuma em torno da Teologia da Libertação que, até hoje, continua atacada por grupos fundamentalistas, tradicionalistas e de extrema direita, exatamente por praticar a opção preferencial pelos pobres, criticar estruturalmente o capitalismo e utilizar métodos e instrumentos de análise marxistas da realidade econômico-social.
A opção pelos pobres, aliás, recebeu fundamentação bíblica, confirmação na história da Igreja e reafirmação doutrinaria e teológica na recente Exortação Apostólica Dilexi Te, do Papa Leão XIV, que continua o magistério do Papa Francisco.[v]
Vale lembrar também a célebre resposta de Paulo Freire, em sua última entrevista, concedida a alunos da PUC-SP (17/4/1997), sobre sua relação com Cristo e com Marx Disse ele: “Quando muito moço, jovem, fui aos mangues do Recife, aos córregos, aos morros, às zonas rurais de Pernambuco, trabalhar com os camponeses, as camponesas, os favelados, confesso que fui até lá movido por uma certa lealdade ao Cristo, de quem eu era mais ou menos camarada. Mas o que acontece quando chego lá? A realidade dura do favelado, do camponês, a negação do seu ser como gente, a tendência àquela adaptação, àquele estado quase inerte diante de negação da liberdade, aquilo tudo me remeteu a Marx. (…) Quanto mais eu li Marx, tanto mais eu encontrei uma certa fundamentação objetiva para continuar camarada de Cristo. Então, as leituras que fiz de Marx (…) não me sugeriram jamais que eu deixasse de encontrar Cristo na esquina das próprias favelas. Eu fiquei com Marx na mundanidade e à procura de Cristo na transcendentalidade” (Freire, 1997).
A segunda questão refere-se à opção que “velhos/as”, não raro fazem de retomar convicções antigas, enraizadas em sua própria história de vida e/ou de lidar com o chamado “horror metafísico”, conceito popularizado pelo filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009), que se refere a “questões existenciais profundas” (…) e “ao horror diante da realidade que não pode ser totalmente compreendida” (Kolakowski, 1990).
Em ensaio sobre o Nobel de Literatura peruano Vargas Llosa (1936-2025), recentemente falecido, o filósofo Martim Vasques da Cunha, depois de fazer alusão ao fato de que “quando um grande homem se aproxima da morte resta apenas o confronto com ‘as primeiras e ultimas coisas”, cita Edward Said, que diz: “o “estilo tardio” de um artista é caracterizado pela marca da mortalidade em cada uma das suas linhas, preocupando-se com o problema do mal e do sofrimento humano, não como uma forma de imersão neles, mas como um meio para superá-los” (Cunha, 15/11/2025).
O enfrentamento consciente do “horror metafísico”, portanto, não constitui um “refúgio” de “velhos/as” que não sabem ou não conseguem lidar com o envelhecimento. Ao contrário, trata-se de uma prova de amadurecimento e de reencontro consigo mesmo, que só o envelhecimento possibilita. Em alguns casos, o enfrentamento é bem-sucedido. Em outros, não.
Thomas H. Guback, herdeiro e continuador da tradição de estudos da economia política da comunicação, tornado padre episcopal aos 64 anos, certamente, é um bom exemplo de “velho” que, assim como Paulo Freire, permaneceu militante tanto com Cristo, quanto com Marx e, ademais, soube enfrentar com lucidez o “horror metafísico”. E foi bem-sucedido, como todos/as esperamos ser.
*Venício A. de Lima é Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Liberdade de expressão versus liberdade da imprensa – direito à comunicação e democracia (Publisher Brasil).
Referências
BERKSON, Jennie (s/d). “Tom Guback – From the silver screen to the pulpit”. Sharecare of Leelanau. Disponível in https://sharecareleelanau.org/member-stories/tom-guback/
CUNHA, Martim V. da (15/11/2025). “Obra final de Vargas Llosa explica apoio à direita radical, desilusão política e morte serena”. In Ilustríssima, Folha de São Paulo. Disponível in https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2025/11/obra-final-de-vargas-llosa-explica-apoio-a-direita-radical-desilusao-politica-e-morte-serena.shtml
FREIRE, Paulo. (17/4/1997). “Entrevista a alunos/as da PUC-SP”. Disponível in https://www.youtube.com/watch?v=fBXFV4Jx6Y8
GUBACK, Thomas, H. (1994). Editor. Counterclockwise: Perspectives on Communication – Dallas Smythe. Boulder, CO. Westview Press.
GUBACK, Thomas, H. (1980). La industria internacional del cine. Madrid, Espanha. Editorial Fundamentos.
GUBACK, Thomas, H. (1969). The International Film Industry: Western Europe and America since 1945. Bloomington, IN. Indiana University Press.
KOLAKOWSKI, Leszek (1990). Horror Metafísico. Campinas, SP. Papirus Editora.
LIMA, Venício A, de (2026). “Anotações sobre a Dilexi Te e o discurso de Leão XIV para os movimentos populares”. Ciberteologia – Revista de Teologia e Cultura. Edição 81. Ano 2026, Jan-Abr. (no prelo).
MOSCO, Vincent (2009). The Political Economy of Communication. 2nd. Edition. London, UK. SAGE.
NERONE, John C. (1995). Editor. Last Rights – Revisiting Four Theories of the Press. Urbana, IL. University of Illinois Press.
SIEBERT, Fred. S, PETERSON, T. e SCHRAMM, W. (1955). Four Theories of the Press. Urbana, IL. University of Illinois Press.
Notas
[i] Para uma visão geral sobre as origens e história da tradição da economia política da comunicação cf. Mosco, 2009.
[ii] As traduções do inglês para o português, neste texto, foram feitas pelo autor.
[iii] O texto original é: “I asked Dallas, when I saw him last, whether he thought there was a much closer connection – than would be superficially apparent – between radical and Christian points of view. His answer was unequivocal: Yes. Although his current work was in other areas, I think he would have approved the growing links between radical political economics and Christian theology, between economic justice and religion, between the struggle to end oppression and a Christian economic ethic.
I discovered when I read Dallas’s unfinished autobiography that as a youngster he had been confirmed in the Anglican Church of Canada, which, with the Episcopal Church in the United States, is part of the Anglican Communion”.
[iv] O texto original é: “I became more generally interested in the problems of welfare and equity. (…) I was opened up to Scripture and what Christianity was doing about these issues. (…) There was more of a focus on social justice and social action. I thought I heard a call to ordained orders.”
[v] Para uma análise da Dilexi Te, cf. Lima, 2026 (no prelo).
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