Marx e ecossocialismo

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Michael Löwy*

Ecologistas tradicionais frequentemente rejeitam Marx por considerá-lo “produtivista” e cego para problemas ecológicos. Um corpo crescente de escritos eco-marxistas tem sido desenvolvido recentemente nos Estados Unidos, o que contradiz agudamente esse senso comum. Os pioneiros desta nova linha de pesquisa foram John Bellamy Foster e Paul Burkett, seguidos por Ian Angus, Fred Magdoff e outros; eles contribuíram para transformar a Monthly Review em uma revista eco-marxista. Seu principal argumento é que Marx estava completamente ciente das consequências destrutivas da acumulação capitalista para o meio-ambiente, um processo que ele descreveu por meio do conceito de ruptura metabólica. Alguém pode discordar de algumas das interpretações feitas sobre os escritos de Marx, mas essas pesquisas foram decisivas para um novo entendimento da contribuição dele para a crítica ecológica do capitalismo.

Kohei Saito é um jovem acadêmico marxista japonês que pertence a essa importante escola eco-marxista. Seu livro, publicado pela Monthly Review Press, é uma contribuição muito valiosa para a reavaliação da herança Marxista, de uma perspectiva ecossocialista.

Uma das ótimas qualidades de sua obra é que – ao contrário de muitos outros acadêmicos – ele não trata os escritos de Marx como um conjunto sistemático de escritos, definidos, do início ao fim, por um forte compromisso ecológico (conforme alguns), ou por uma forte tendência não-ecológica (conforme outros). Como Saito muito persuasivamente argumenta, há elementos de continuidade na reflexão de Marx sobre a natureza, mas há também algumas mudanças muito significativas, e reorientações. Além disso, como o subtítulo do livro sugere, suas reflexões críticas sobre a relação entre economia política e meio ambiente estão “inacabadas”.

Dentre as continuidades, uma das mais importantes é a questão da “separação” capitalista entre os homens e a terra, isto é, a natureza. Marx acreditava que em sociedades pré-capitalistas existia uma forma de unidade entre os produtores e a terra, e ele viu como uma das tarefas chave do socialismo restabelecer a unidade original entre homens e natureza, destruída pelo capitalismo – mas em um patamar superior (negação da negação). Isso explica o interesse de Marx por comunidades pré-capitalistas, tanto em sua discussão ecológica (por exemplo, de Carl Fraas) ou em sua pesquisa antropológica (Franz Maurer): ambos os autores foram percebidos como “socialistas inconscientes”. E, é claro, em seu último documento importante, a carta para Vera Zassoulitsch (1881), Marx afirma que, com o fim do capitalismo, sociedades modernas poderiam retornar para uma forma elevada de um tipo “arcaico” de propriedade e produção coletivas. Eu argumentaria que isso pertence ao momento “anti-capitalista romântico” nas reflexões de Marx… Em todo caso, essa interessante percepção de Saito é muito relevante hoje, quando comunidades indígenas nas Américas, do Canadá à Patagônia, estão na linha de frente da resistência à destruição capitalista do meio-ambiente.

Não obstante, a principal contribuição de Saito é mostrar o movimento, a evolução das reflexões de Marx sobre a natureza, num processo de aprendizado, repensando e remodelando seus pensamentos. Antes d’O Capital (1867), alguém poderia achar na obra de Marx uma avaliação um tanto acrítica do “progresso” capitalista – uma atitude frequentemente descrita pelo termo mitológico vago “Prometeanismo”. Isso é óbvio no Manifesto Comunista, o qual celebra a capitalista “sujeição das forças da natureza ao homem” e a “limpeza de continentes inteiros para o cultivo”; mas isso também se aplica aos Cadernos de Londres (1851), aos Manuscritos econômicos de 1861-63, e a outros escritos daqueles anos. Curiosamente, Saito parece excluir o Grundrisse (1857-58) de seu criticismo, uma exceção que, em minha visão, não se justifica, considerando o quanto Marx admira, nesse manuscrito, “a grande missão civilizatória do capitalismo” em relação à natureza e às comunidades pré-capitalistas, prisioneiras de seu localismo e de sua “idolatria da natureza”!.

A mudança vem em 1865-66, quando Marx descobre, pela leitura dos escritos do químico agrícola Justus Von Liebig, os problemas da exaustão do solo e a ruptura metabólica entre sociedades humanas e ambiente natural. Isso levará, n’O Capital vol. 1 (1867) – mas também nos demais volumes interminados – à uma avaliação muito mais crítica da natureza destrutiva do “progresso” capitalista, particularmente na agricultura. Após 1868, pela leitura de outro cientista alemão, Carl Fraas, Marx vai descobrir também outras questões ecológicas importantes, tais quais desmatamento e alteração do clima local. De acordo com Saito, caso Marx tivesse sido capaz de terminar os volumes 2 e 3 d’O Capital, ele teria enfatizado com mais veemência a crise ecológica – o que também implica, ao menos implicitamente, que em seu estado inacabado atual não há ênfase forte o bastante sobre tais questões…

Isso leva-me ao meu principal desacordo com Saito: em diversas passagens do livro ele afirma que, para Marx, “a insustentabilidade ambiental do capitalismo é a contradição do sistema” (p. 142, ênfase do autor) –  ou que em seus anos tardios ele chegou a ver as rupturas metabólicas como “o mais sério problema do capitalismo”, ou que o conflito com limites naturais é, para Marx, “a principal contradição do modo capitalista de produção”.

Eu me pergunto onde Saito encontrou, nos escritos, livros publicados, manuscritos ou cadernos de Marx, quaisquer dessas declarações… Elas não podem ser encontradas, e por uma boa razão: a insustentabilidade do sistema capitalista não era uma questão decisiva no século XIX, como se tornou hoje; ou melhor, desde 1945, quando o planeta entrou em uma nova era geológica, o Antropoceno. Aliás, eu acredito que a ruptura metabólica, ou o conflito com limites naturais, não é um “problema do capitalismo” ou uma “contradição do sistema”; é muito mais que isso! É uma contradição entre o sistema e “as eternas condições naturais” (Marx), e, por isso mesmo, com as condições naturais da vida humana no planeta. De fato, como Paul Burkett (citado por Saito) argumenta, o capital pode continuar sua acumulação sob quaisquer condições naturais, ainda que degradadas, desde que não haja uma completa extinção da vida humana: a civilização pode desaparecer antes da acumulação de capital tornar-se impossível…

Saito conclui seu livro com uma avaliação sóbria que me parece sumarizar de forma muito apta do problema: O Capital (o livro) continua um projeto inacabado. Marx não solucionou todas as questões, nem previu o mundo de hoje. Contudo, sua crítica do capitalismo fornece uma base teórica extremamente útil para a compreensão da crise ecológica atual. Portanto, eu acrescentaria, o ecossocialismo pode se inspirar nas reflexões de Marx, mas deve, com as mudanças da era Antropocena no século XXI, desenvolver por completo um novo, eco-marxista, modo de enfrentamento.

*Michael Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique

Tradução por Marina Bueno

Kohei Saito. Karl Marx’s Ecosocialism. Capitalism, Nature, and the Unfinished Critique of Political Economy. New York: Monthly Review Press, 2017.

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Armando Boito Paulo Fernandes Silveira Tales Ab'Sáber Bento Prado Jr. Leda Maria Paulani João Carlos Loebens Remy José Fontana Chico Whitaker Vanderlei Tenório José Raimundo Trindade Ricardo Fabbrini Valerio Arcary Luiz Werneck Vianna Fernando Nogueira da Costa Anderson Alves Esteves Sergio Amadeu da Silveira Eduardo Borges José Micaelson Lacerda Morais Priscila Figueiredo Henry Burnett Ladislau Dowbor José Geraldo Couto Rubens Pinto Lyra Mário Maestri Marilia Pacheco Fiorillo Michel Goulart da Silva Marcos Silva André Márcio Neves Soares Leonardo Sacramento Marcelo Guimarães Lima Celso Frederico Tarso Genro José Luís Fiori Berenice Bento Érico Andrade Dennis Oliveira Luciano Nascimento Carla Teixeira Liszt Vieira Celso Favaretto Anselm Jappe Elias Jabbour Michael Roberts Marcelo Módolo Luiz Marques Thomas Piketty José Machado Moita Neto Jean Marc Von Der Weid Atilio A. Boron Tadeu Valadares Chico Alencar Gilberto Lopes Alysson Leandro Mascaro Luiz Carlos Bresser-Pereira Lincoln Secco Sandra Bitencourt João Carlos Salles João Adolfo Hansen Gilberto Maringoni Michael Löwy Jorge Branco Alexandre de Freitas Barbosa Daniel Costa Vladimir Safatle Alexandre de Lima Castro Tranjan Fernão Pessoa Ramos Paulo Martins Ricardo Antunes Ronaldo Tadeu de Souza José Costa Júnior Leonardo Avritzer Luiz Renato Martins Gabriel Cohn João Sette Whitaker Ferreira Lucas Fiaschetti Estevez Francisco de Oliveira Barros Júnior Flávio Aguiar Paulo Sérgio Pinheiro Rodrigo de Faria Eleonora Albano Claudio Katz Afrânio Catani Antonio Martins Ronald León Núñez Bruno Machado Yuri Martins-Fontes Marilena Chauí Samuel Kilsztajn Ricardo Musse Bruno Fabricio Alcebino da Silva Manuel Domingos Neto Igor Felippe Santos Milton Pinheiro Luis Felipe Miguel Slavoj Žižek Antonino Infranca José Dirceu Annateresa Fabris Vinício Carrilho Martinez Juarez Guimarães Osvaldo Coggiola Antônio Sales Rios Neto Valerio Arcary Luiz Bernardo Pericás Luiz Roberto Alves Ricardo Abramovay Fábio Konder Comparato Otaviano Helene Flávio R. Kothe Dênis de Moraes Ari Marcelo Solon João Lanari Bo Paulo Nogueira Batista Jr Mariarosaria Fabris Leonardo Boff Andrew Korybko Heraldo Campos Denilson Cordeiro Rafael R. Ioris Kátia Gerab Baggio Walnice Nogueira Galvão Eliziário Andrade Marcos Aurélio da Silva Luís Fernando Vitagliano João Feres Júnior Henri Acselrad Francisco Pereira de Farias Francisco Fernandes Ladeira Eugênio Trivinho Salem Nasser André Singer Jean Pierre Chauvin Daniel Brazil Matheus Silveira de Souza Jorge Luiz Souto Maior Boaventura de Sousa Santos Marcus Ianoni Julian Rodrigues Eugênio Bucci Airton Paschoa Gerson Almeida Alexandre Aragão de Albuquerque Daniel Afonso da Silva Renato Dagnino Paulo Capel Narvai Carlos Tautz Ronald Rocha Everaldo de Oliveira Andrade Luiz Eduardo Soares Marjorie C. Marona Andrés del Río Eleutério F. S. Prado Lorenzo Vitral Benicio Viero Schmidt Maria Rita Kehl Plínio de Arruda Sampaio Jr. Caio Bugiato João Paulo Ayub Fonseca Bernardo Ricupero Manchetômetro

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada