O caso SBT News

Imagem: DAVIDSON L U N A
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Por LUCYANE DE MORAES*

O pronunciamento contra o SBT News exemplifica a substituição do logos pela doxa, onde a retórica emocional e inconsistente busca persuadir sem qualquer compromisso com a verdade ou a racionalidade

1.

Não é necessário grande esforço de observação para perceber, em certos discursos, um deslocamento recorrente do eixo epistêmico para o plano afetivo-retórico, no qual tentativas de persuasão passam a prevalecer sobre critérios de validade. Em termos clássicos, trata-se de uma velha querela na qual a vitória da doxa revela-se no momento em que a opinião, sustentada por aparências e crenças, se impõe sobre o logos, enfraquecendo o exercício da razão, o que invoca a sentença milenar: a doxa é inimiga da episteme.

Como exemplo emblemático desse fundamento, tem-se o recente pronunciamento de um cantor de música sertaneja (em notável decadência) que usou suas redes sociais para anunciar o seu rompimento com a emissora de televisão SBT, reivindicando que um programa de especial de Natal, gravado por ele, não fosse exibido pelo canal.

A exposição pública ocorreu a partir doevento institucional de lançamento do novo media, SBT News, focado exclusivamente em notícias, no qual teve como convidado – como não podia deixar de ser – o presidente Lula da Silva, homenagem essa que, nas palavras do cantor, não estava alinhada com suas convicções pessoais.

Após o pronunciamento, caracterizado por uma postura agressiva em relação às herdeiras de um dos impérios mais conhecidos de mídia aberta do país, a empresa de comunicação, reagindo à indignação do público (e a sua própria), decide alterar a grade de fim de ano, determinando o cancelamento da exibição e a retirada do conteúdo de sua programação. Solicitação atendida, como no mundo dos sonhos, com toque de presteza inesperada.

Como num show de barbáries, o discurso empreendido com desprendida energia pelo cantor, traduzido por ataques pessoais em linguajar inflamado, não constitui critério de validade, não garante coerência e tampouco guarda relação com a realidade. Será que o cantor, que não sabe qual número que multiplicado por ele mesmo resulta em 49, desconhece que empresas de comunicação não podem simplesmente transmitir sinais sem autorização, e que o governo federal é a instância que concede esse direito por meio deconcessão publica?

Ainda, ao se fazer refém das circunstâncias e adotar uma postura de vítima, assumindo um papel de impotência perante a realidade, a atitude do cantor, sob uma perspectiva filosófica, faz lembrar a noção de má fé de Jean-Paul Sartre, que afirma que a liberdade deve ser algo inescapável e que ao abdicar dessa liberdade, o indivíduo se torna responsável justamente ao tentar escapar dessa mesma responsabilidade.

2.

Por outro lado, remete ao escrito de Harry Frankfurt, Sobre as besteiras, que destaca o quanto uma totalidade discursiva destinada à persuasão pode ignorar a verdade, sendo que o falastrão que a profere não se preocupa se aquilo que diz é verdadeiro ou falso. Em On Bullshit, Harry Frankfurt defende que o respeito e a valorização da verdade estão entre os pilares da civilização, enquanto a estupidez desponta como distorção desses princípios. Também, faz uma distinção entre mentirosos e falsificadores, observando que os últimos são mais insidiosos, pois representam maior ameaça à verdade do que os mentirosos.

Certo é que o pronunciamento em questão se caracteriza por uma instabilidade argumentativa que decorre de contrassensos internos e do emprego não controlado do pathos, revelando tanto a inabilidade de seu uso quanto seu efeito decorrente. Em outras palavras, suas afirmações não se sustentam de forma consistente nem buscam qualquer sentido de veracidade, senão a simples adesão. Marcadas por incoerências internas tanto quanto por incongruências factuais, tal declaração pública não deve ser vista unicamente como lapso individual.

Essas repetidas inconsistências revelam modos de enunciação que produzem, a partir de afirmações sucessivas, deslocamentos de sentido manipulados mediante apelos indevidamente persuasivos que parecem mais promover confusão mental, caracterizada por uma cegueira coletiva de natureza sectária traduzida como ordem política.

O que conta aqui não é mais o conteúdo, mas, sobretudo, o ritus operandi discursivo que mina os próprios critérios de conhecimento. À apelação emocional que resulta de cada discurso truncado corresponde a não validade das proposições que se quer enunciar e que, por isso mesmo, atua como critério disfuncional de verdade.

Ao deslocar o eixo da justificação racional para o plano da mobilização emocional, as presunções enunciadas não obedecem a uma estrutura inferencial minimamente consistente. Tal deslocamento suspende os critérios epistêmicos de verificação e enfraquece a responsabilidade discursiva exigida no âmbito do espaço público. É a retórica do caos que, incitada pela performance da incoerência, inviabiliza o debate público orientado pelo critério da razão.

A presente análise, ao concentrar-se no enunciado e não no sujeito da enunciação, examina a forma discursiva cuja fragilidade compromete as condições possíveis do debate empreendido de modo racional: a prova viva de que o silêncio às vezes é ouro.

Mediante a exposição de múltiplos contrassensos, evidencia-se o fato de que a hostilidade do pronunciamento – por meio de lengalenga, chorumela, tagarelice e palavreado – é empregada de forma incompatível com a estrutura que fundamenta o discurso racional. Não se trata, portanto, de discordância interpretativa, mas da ausência de um eixo lógico que permita reconhecer premissas e conclusões minimamente válidas.

A reintrodução de qualquer parâmetro de racionalidade requer coesão semântica, estabilidade discursiva e abertura à crítica argumentativa. O foco não deve recair apenas sobre o que foi dito, mas, também, sobre o porquê foi dito. Em resumo, vale sempre evocar a hermenêutica da suspeita, mediante critérios de racionalidade que implicam na consistência interna, no uso responsável de considerações e apreciações, bem como na disposição à confrontação crítica.

A realidade insiste em ser inexorável e aceita-la é, convenhamos, uma forma civilizada de evitar dores desnecessárias.

*Lucyane de Moraes é doutora em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin: em torno de uma amizade eletiva (Edições 70/Almedina Brasil) [https://amzn.to/47a2xx7]


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