Distopia ou utopia?

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Por ANDRÉ MÁRCIO NEVES SOARES*

A utopia precisa voltar a ser a chave benjaminiana contra os escombros do progresso e a catástrofe do futuro

O cientista político argentino José G. Giavedoni, professor de Teoria Política na Universidade Nacional de Rosário, Argentina, escreveu um belo artigo (1) dias atrás, sustentando que “o espírito benjaminiano parece querer nos advertir que a coisa verdadeiramente chocante é reconhecer no futuro distante e apocalíptico, não algo longínquo, ainda que talvez um provável destino, mas, sim, nosso próprio presente”.

A famosa tese IX de Walter Benjamin no trabalho “Sobre o conceito de Históriamostra o anjo da história chocado com a falta de capacidade da humanidade de reconhecer a sua própria catástrofe e naturalizá-la sobre as ruínas do passado. Assim, o presente só pode se apresentar sob os escombros do que sobrou e o futuro amalgamará todas essas catástrofes e ruínas sob o manto do progresso.

Nesse sentido, vislumbro a discordância de Benjamin em relação à famosa frase marxiana de que “as revoluções são as locomotivas da história”, pela percepção daquele de que o trem se desgovernou ao longo da história, e as revoluções nada mais fizeram do que impor um freio na própria humanidade.

Como o próprio professor Giavedoni colocou: “O grande êxito do capitalismo neoliberal é nos governar, não contra nossa vontade e liberdade, mas graças a ela e através dela, convencendo-nos que a situação em que nos encontramos é resultado de nossas próprias escolhas e decisões”.

Entretanto, existe algo, uma passagem, no texto, que me incomodou profundamente, a ponto de dela discordar. Não está claro, ainda, quem estará certo no final (não posso deixar passar a frase de Keynes: “no final, estaremos todos mortos”), mas gostaria de deixar explícito, nesse breve texto, o motivo da minha discordância.

Nessa toada, o professor Giavedoni, apesar de todo o seu discurso receoso-cético quanto à velocidade tresloucada do trem (progresso) da humanidade, afirma que: “Os cenários futuros tecnolozidados sem mão de obra fazendo o mundo se mover, no marco das presentes relações sociais de produção, não são mais que fantasia”.

Minha pergunta é simples: Será? E dou dois exemplos contidos no próprio texto que reforçam essa dúvida: o primeiro é quando o professor pede ajuda ao recente artigo de Noami Klein (2), para citar o presidente executivo da Google e Alphabet Inc, Eric Schmidt, que afirma que: “As primeiras prioridades sobre as quais estamos tratando se centram na telessaúde, aprendizagem remota e banda larga … Precisamos buscar soluções que possam ser apresentadas agora e acelerar a utilização da tecnologia para melhorar as coisas”.

No segundo exemplo, ele mesmo destaca as palavras da CEO da empresa Steer Tech, Anuja Sonalker, para quem: “Os humanos são bioperigosos, as máquinas não”.

Ora, juntando o trem desgovernado do progresso (capitalismo neoliberal), as falas dos(as) executivos(as) das empresas citadas, bem como as “migalhas” factuais oferecidas nos escombros do presente, é possível que a fantasia esteja em afirmar, categoricamente, que os cenários tecnologizados no futuro não prescindirão da mão de obra para o fazer o mundo se mover.

E dou, logo de cara, um bom motivo para respaldar essa dúvida: desde a eleição francesa de 2017, que empossou Emmanuel Macron como o décimo-primeiro presidente da Quinta República Francesa, em verdade desde as primárias, o candidato socialista Benoit Hamon já defendia uma renda mínima universal no país. Não que aqui no Brasil, país tão atrasado em termos tecnológicos, essa proposta nunca tenha aparecido. Pelo contrário, o então senador Eduardo Suplicy (PT-SP), já advogava essa causa há muitos anos.

Mas, então, estaríamos na frente da França em questões que remetessem à preocupação sobre o futuro da humanidade? De jeito nenhum. A preocupação de Suplicy originava-se no passado-presente sombrio da população brasileira pauperizada. Hamon estava mirando o futuro. E nem poderia ser de outra maneira, dadas as diferenças sociais entre França e Brasil.

Realmente, o debate sobre uma renda mínima universal, logo impugnado pela fanfarronice do capital “que-tudo-pode” na França (mas também no mundo todo), almejava discutir justamente o excesso da tecnologia na vida diária das pessoas. Pois se a invasão dos robôs domésticos é uma questão de tempo (3), assim como foram outras tecnologias no passado (a microeletrônica, por exemplo, mais recente), nada impede que os novo “membros” do nosso cotidiano, seja ele familiar, laboral e/ou de prazer, absorvam os afazeres dos trabalhadores, especialmente os menos qualificados.

Por conseguinte, a recente discussão europeia sobre impostos para robôs é emblemática. A tributação denominada “taxa GAFA”, contra os gigantes da internet, como Google, Amazon, Facebook e Apple, já é uma realidade na França. Mas outros países da União Europeia estão a estudá-la.

Contudo, não acredito que o professor Giavedoni tenha se referido apenas à mão de obra super-qualificada para expressar sua discordância quanto ao fim das presentes relações sociais de produção. Seria de um elitismo cínico que não se coaduna com o teor do artigo. Ao invés, parece que ele incorre no mesmo erro que tanto critica, a saber, a incapacidade de nós, seres humanos, de reconhecermos a catástrofe, quando ela se apresenta rotineira.

É preciso, portanto, ficar atento aos sinais que nos levarão para um lado (da catástrofe absoluta no futuro, este guiado pela máquina imparável do progresso) ou para o outro lado (a da Revolução como freio de emergência).

Considerando a momentânea vitória do capitalismo neoliberal desgovernado, na atualidade histórica contemporânea, os borrões em contrastes ao que está posto ainda são pequenos e difusos, porém importantes. É bom lembrar a narrativa construída nesses últimos anos pelo economista francês Thomas Piketty (4). Desde seu livro “O Capital no século XXI” (2013), e agora mais intensamente no seu novo livro “Capital e Ideologia” (a ser lançado no Brasil), este autor vem propondo um imposto sobre os patrimônios mais elevados que poderiam chegar até 90%.

Sem dúvida, a despeito de não resolver a questão central da humanidade – a emancipação civilizatória –, posto que ainda permaneceríamos acorrentados aos grilhões do Estado-nação, pelo menos enquanto este perdure, no mínimo inverteríamos a atual equação da crescente despesa orçamentária global e regional, a qual sempre acaba sendo paga pelos mais pobres, e incrementaríamos o lado dos rendimentos, da receita fiscal.

Outro pensador importante no borrão do caderno da história humana na atualidade é o filósofo francês Dany-Robert Dufour (5). Autor de vários livros publicados no Brasil pela editora Companhia de Freud, seu mais recente livro “O indivíduo que virá depois liberalismo” traz a questão central do que acontecerá com o indivíduo após os cataclismos e intervenções globais do liberalismo.

A ideia central de Dufour é que, apesar da aparente vitória do liberalismo, traduzido na sua face mais sombria do neoliberalismo tecnoburocrático, este apresenta sinais de esgotamento. A aparente libertação das forças totalitárias da época do fascismo italiano e do nazismo alemão engendrou, em si mesmo, as forças centrípetas inerentes ao um novo tipo de alienação. O que resultou dessa força para o centro em movimento curvilíneo foi um sistema político-econômico-social que transformou a sociedade humana em tudo que seja rentável. Em outras palavras, somos o que o lucro nos dá. Fora dele, não existimos mais como alteridade.

A bela utopia ocidental, após as duas grandes guerras mundiais, de que a democracia representativa poderia unir os povos, interna e externamente, no alvorecer do Estado do Bem-Estar Social (Welfare State), esvaneceu-se diante da realidade matemática e fria dos números do “Mercado”. Explicando melhor, ao invés da política emancipar o povo criador da constituição (Marx (2016), foi a economia que submeteu a todos criando, ela própria, a constituição para o povo; ou, como afirma Dufour, através do seu operador, o “Divino Mercado”.

Se retrocedermos um pouco mais no tempo, coisa de 25 anos atrás, o filósofo e ensaísta alemão Robert Kurz, em artigo publicado pelo jornal Folha de São Paulo (6), já alertava para a “concepção ingênua, porém sensata, sobre a produtividade: quanto mais ela cresce, assim pensa o bom raciocínio humano, mais alívio traz à vida do homem”. Porém, ele questiona a maravilha dessa ingenuidade teórica ao arrematar logo em seguida: “Em nossa época, no entanto, parece que o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade exagerada de bens, resultou numa avalanche de desemprego e miséria”.

Portanto, antes mesmo do século XXI abrir seus olhos, Kurz já estava com os dele arregalados para a catástrofe que poderia ser o nosso futuro. O desemprego tecnológico ou “estrutural”, nascente na década de 1970, aliado à visão irracional do mercado sobre os motivos desse desemprego em massa, e somado à massificação ideológica pelos aparelhos de Estado, este cooptado pelo próprio mercado, já prenunciavam que algo de muito errado estava acontecendo na sociedade da terceira revolução industrial, a da microeletrônica.

De fato, como bem demonstra Kurz: “Pela primeira vez na história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de economizar mais trabalho, em termos absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos”. Assim, Kurz demonstra rapidamente no seu artigo, que o sistema de mercado não está preocupado com o seres humanos enquanto indivíduos, mas apenas enquanto totalidade consumidora dos produtos cada vez mais disponíveis e diversificados, à luz da teoria shumpeteriana (podemos incluir também Kondratieff) dos “grandes ciclos” econômicos.

Todavia, ele faz uma pergunta crucial: “Quem comprará então a quantidade cada vez maior de mercadorias?”. É óbvio que Kurz está a mirar no crescente desemprego no atual campo da modernidade. A microeletrônica não foi, nem será a redentora dos “grandes ciclos”, apesar de todo o discurso político-econômico-midiático das vantagens que ela trouxe. Os operadores do “divino mercado” não sabem, ou não querem saber, a diferença entre vantagens (no sentido de conveniência, comodidade, luxo até) e a efetiva necessidade dessa corrida desenfreada pela produção inesgotável de bens. Certeiro, Kurz fnaliza: “Em vão, eles ainda esperam o ‘grande ciclo’ da microeletrônica – em vão ainda esperam Godot”.

É bem provável que o leitor que chegou até aqui sinalize pela opção da distopia, referente à pergunta do título. E não podemos criticá-lo, pois, como bem disse o linguista e ativista político Noam Chomsky (7): “A vitória do neoliberalismo foi destruir a política como refúgio para os vulneráveis”. A pior sensação para os desempregados, e até mesmo para os atuais hiper-precarizados nos seus intermitentes trabalhos, é a do desamparo, é a invisibilidade perante uma sociedade que, a cada dia, atrofia-se para dentro do seu núcleo de poder global.

Pois bem, pelo menos parece não restar uma dúvida: a de que a utopia precisa voltar a ser a chave benjaminiana contra os escombros do progresso e a catástrofe do futuro. É preciso escovar a história a contrapelo para vislumbrar uma saída diferente do que a mesma projeta para nós. Caso contrário, o freio de emergência pifou!

*André Márcio Neves Soares é doutorando em Políticas Sociais e Cidadania na Universidade Católica do Salvador.

Referências


MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. 3ª. ed., 2ª. reimpressão. São Paulo. Boitempo. 2016, pág. 56;

http://www.ihu.unisinos.br/599680-nao-e-distopia-e-capitalismo;

https://theintercept.com/2020/05/13/coronavirus-governador-nova-york-bilionarios-vigilancia/;

http://www.dmtemdebate.com.br/crise-do-coronavirus-resgata-ideia-de-imposto-dos-robos-para-enfrentar-desemprego/;

https://poliarquia.com.br/2020/06/08/piketty-se-queremos-entrar-em-um-novo-mundo-precisamos-desconstruir-regimes-embasados-na-desigualdade/;

https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/havera-individuo-pos-neoliberal/;

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/11/mais!/32.html;

https://diplomatique.org.br/o-neoliberalismo-destruiu-a-politica-como-refugio-dos-vulneraveis/.