Por LUIZ EDUARDO SIMÕES DE SOUZA*
Comentário sobre o livro de Milton Blay
1.
Às vezes me perguntam por que desisti de certos temas. Às vezes me pergunto o mesmo sobre outros. Falta-me, não raro, a coragem ou a desfaçatez de indagá-lo. Enfim, entrando na entressafra das atividades do varejo, no recesso comercial do ano, vamos oferecer uma resposta de graça, mesmo sem a demanda: desisti de falar da União Europeia, Zona do Euro, ou que o valha. Larguei mão. Joguei a toalha.
Como alguns outros tantos assuntos, dificilmente voltarei a ele. Não por ausência do que dizer. Mas pelo pudor que me acometeu ao perceber o esvaziamento da relevância do tema. Tirando um papel coadjuvante, quase um cameo, uma figuração, em dois conflitos, a Europa se encontra com seu papel completamente esgotado como player. Ou mesmo como assunto. Traz pouquíssima, quando não nenhuma, novidade à pauta.
Livros, como o de Milton Blay, A Europa hipnotizada: a escalada da extrema-direita tem um significativo papel na diagnose dessa condição. Não por eventuais deméritos. Justamente pelo contrário. Milton Blay está certíssimo. A metáfora que intitula seu livro de pequenos ensaios, e que nomeia um deles, é mais do que adequada. Serve como chave para entender essa vecchia signora em transe.
É importante pontuar que Milton Blay não se limita a uma ou duas dimensões de análise no fenômeno escolhido. Isso faz de A Europa hipnotizada um livro substancioso de conteúdo, informação e significado. Sua polifonia o afasta irremediavelmente da chatice ao abordar temas que vão da ascensão da extrema direita às visões do Brasil do golpe de 2016; das contradições nada surpreendentes do ocidentalismo à inevitável nostalgia causada pelo rastelo que está a passar inexoravelmente por uma série de ícones culturais, física e/ou simbolicamente, como sói acontecer. Milton Blay se apresenta na posição de cronista sensível que observa o ocaso de uma civilização de lugar favorável. Sorte a nossa, que podemos lê-lo.
2.
A adesão crescente da Europa à extrema-direita revela, talvez de forma ainda mais perturbadora, não apenas um deslocamento político, mas uma ruptura ativa com a própria experiência histórica que o continente acumulou a duras penas ao longo do século XX. Ao flertar novamente com discursos de exclusão, pureza identitária e soluções autoritárias, a Europa parece agir como se não tivesse aprendido nada com o colapso civilizatório que ela mesma engendrou, como se Auschwitz, Guernica, os campos, os exílios e as ruínas fossem episódios externos, alheios, quase importados.
Trata-se menos de um retorno do passado do que de uma amnésia conveniente, na qual a memória histórica deixa de funcionar como advertência e passa a ser tratada como ornamento retórico, mobilizado seletivamente. Nesse movimento, a Europa não apenas renega suas promessas iluministas e sociais do pós-guerra, mas abdica do único capital político que ainda lhe restava, a capacidade de aprender com a própria catástrofe.
Ao fazer da exceção a regra e do medo um método, o continente aprofunda sua desconexão com a história que o constituiu, reforçando o estado de suspensão que Milton Blay diagnostica com precisão.
A coisa parece ter começado a desandar ali pelo final do século XIX, quando o neocolonialismo e a industrialização de potências como a Alemanha unificada e o Japão começaram a questionar a supremacia britânica. O sol não se punha no Império. Mas parece ter torrado os miolos de muita gente por ali, abrindo caminho para uma nova rodada de colonialismo. E tivemos a “Era da Catástrofe”, que nos brindou com a dádiva de duas guerras entremeadas pela pior crise econômica já vista.
A Europa ocidental, após a Segunda Guerra (1939-1945), foi, de fato, capturada pelos EUA. De potência, centro autoproclamado de cultura e civilização, passou à tutela das antigas colônias do norte da América. Continente que nomearam, como os outros três, sem perguntar aos nomeados. Correram para os braços dos ianques, em busca de proteção frente ao avanço da outra vencedora do conflito, a URSS.
Seu espólio, autodeclarado “patrimônio da humanidade”, passou, de fato, à curadoria estadunidense. Nem mesmo as iniciativas mais “globais”, por assim dizer, passaram além da barreira dada pela OTAN, inexoravelmente presente nos momentos de tensão durante a Guerra Fria, e eventuais espasmos nessa multipolaridade que ora se apresenta à vista de todos. Eis aí questões humanitárias como o genocídio na Palestina, ou o suicídio e desmanche da Ucrânia frente à Rússia e aos EUA, para mencionarmos dois exemplos cujos corpos ainda não esfriaram. Ainda.
Da tutela imposta do padrão-dólar fixo de Bretton Woods à cafetinagem do dólar flutuante decretada por Nixon em 1971, tem-se hoje uma moeda comum que, vista em retrospectiva, denota a tentativa de estabelecer-se um cordão sanitário frente à imigração das ex-colônias, a “invasão bárbara” temida desde a metade do século passado. Não se sustenta no longo prazo por moto próprio, e não parece atrair também o auxílio dos velhos cuidadores, eles mesmos já carcomidos pela decadência inerente às potências.
3.
A Europa não possui mais autonomia política, econômica, ou mesmo protagonismo cultural para além de referências pretéritas, em uma sociedade global multipolar. Não são mais donos de suas escolhas ou do que podem pensar sobre elas. A aposta em constituir uma Europa singular, independente, não parece ter ressonância ou mesmo sustentação em evidências, imediatas ou remotas.
É justamente nesse pano de fundo que o livro de Milton Blay ganha densidade analítica. A Europa hipnotizada não descreve apenas a ascensão da extrema direita, mas captura o estado de suspensão histórica de um continente que já não dita os termos do mundo que ajudou a criar, e que agora apenas reage às forças que o atravessam. Talvez por isso falar da Europa hoje não seja mais um exercício de crítica, mas de arqueologia.
O que parece restar à vecchia signora é seguir olhando as luzes piscando, em auto-ilusão, enquanto a espiral segue girando, com as finanças e armas cada vez mais controladas por China e Rússia, enquanto os EUA encontram eles mesmos seu ocaso. A Europa já se encontra devidamente anestesiada há uma década, ou duas a se tomar o diagnóstico de Milton Blay.
É provável que sequer sintam o golpe de misericórdia, que talvez venhamos a assistir. Ou ponham um ovo, quem sabe? Nem adianta estalar os dedos, como o belo livro de Milton Blay parece ter tentado.
*Luiz Eduardo Simões de Souza é professor de história econômica na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Milton Blay. A Europa hipnotizada: a escalada da extrema-direita. São Paulo, Contexto, 2019, 192 págs. [https://amzn.to/3NAAW3Z]






















