Jacques Roumain

Jacques Roumain
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Por JOANA A. COUTINHO*

Verbete do “Dicionário marxismo na América”

Vida e práxis política

Jacques Roumain nasceu na capital haitiana em 1907. Primogênito de uma família numerosa, teve onze irmãos. Seu pai, Auguste Roumain, foi um grande proprietário de terras, e sua mãe Émilie Auguste, era filha de Tancrède Auguste (presidente do Haiti entre 1912 e 1913). De uma família de mestiços letrados, Jacques falava fluentemente o dialeto criollo e o francês – características incomuns em um tempo no qual a maioria da população nativa sabia somente o criollo e era analfabeta.[i]

A infância e época de formação de Jacques Roumain foi marcada por seguidas revoltas camponesas no país – contra as altas taxas tributárias, a miséria e exploração – situação que culminaria em mudanças constantes no governo e em uma prolongada ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934), com o apoio das elites haitianas. Os EUA desocupariam o Haiti apenas vinte anos depois, após alcançarem seus objetivos: garantir o pagamento dos empréstimos contraídos com o Citibank e abolir um artigo da constituição haitiana que proibia a venda de suas plantações para estrangeiros.[ii]

Importa destacar que o Haiti havia se endividado com esse banco estadunidense para conseguir pagar a enorme indenização imposta pela França como requisito para o reconhecimento da independência do país – pagamentos que só foram encerrados em 1947, contabilizando cerca de 21 bilhões de dólares e mais 200 anos de juros. À época da libertação haitiana do jugo colonial francês (1804), o país era considerado a “joia do Caribe”: uma sociedade composta por cerca de 500.000 escravos, 30.000 brancos e 28.000 negros livres que mantinha uma economia organizada em torno da plantação da cana-de-açúcar e, em menor medida, do café – produção que dava a São Domingos (nome colonial do Haiti) o status de colônia altamente lucrativa.

Jacques Roumain teve uma educação esmerada, como era comum aos de sua classe social: primeiramente no Haiti, estudou no famoso colégio Saint-Louis de Gonzague, e a partir dos 14 anos, mudou-se para a Suíça, onde terminou sua formação escolar no Institut Grünau, em Berna e depois na École Polytechnique Fédérale de Zurique[iii]. Ali, aprendeu o idioma alemão, leu com paixão rthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Charles Darwin, além de estudar paleontologia.

Depois, viajou à Madri, capital da Espanha, para estudar agronomia, visitando também a Alemanha, França e Inglaterra. Nesta capital sua atenção se voltou às touradas, que o encantaram a ponto de ele chegar a ter aulas de toureio, além de ter escrito um poema em prosa sobre o tema, intitulado “Corrida”. Afinal, não terminou o curso – e caberia a seus irmãos estudarem agronomia e cuidar das terras da família.

Em 1927, ainda em meio à ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, Jacques Roumain decidiu regressar a seu país. À época com 20 anos de idade, se juntou a Philippe Thoby-Marcelin (poeta, escritor e jornalista), Carl Brouard (poeta) e Antonio Vieux (escritor) – jovens intelectuais haitianos críticos à agressão estadunidense – para fundar o periódico La Revue Indigène: les Arts et la Vie[iv] [A Revista Indígena: as Artes e a Vida], que estimulava a exploração de novas formas de escrita que tratassem das complexidades da sociedade haitiana. A publicação representa um marco fundador do movimento Nègritude [Negritude] – corrente de vanguarda caribenha que, por meio da literatura e da política, buscou mostrar ao haitiano como ter orgulho de suas raízes culturais, de sua tradição oral e da religião vodu.

Em 1928, foi nomeado gerente de um jornal chamado Petit Impartial [Pequeno Imparcial], e na sua nomeação o diretor elogiou a “chama patriótica” do jovem Roumain, ao mesmo tempo em que lhe pediu calma e ponderação. O debutante não tinha nem uma nem outra. Cofundador da Liga da Juventude Patriótica, em dezembro deste ano foi preso (pela primeira vez), junto com Georges Petit e Elie Guérin, por crime relacionado à “imprensa”. Foram condenados a um ano de detenção e ao pagamento de uma multa de cinco mil gourdes haitianos. A sentença depois seria reduzida, mas eles foram mantidos presos sob o argumento de existirem outras acusações. Somente alcançaram a liberdade em agosto de 1929.

Nesse mesmo ano, Jacques Roumain começou a publicar a coluna “Mon Carnet” [Meu Caderno], primeiro, no jornal La Presse e, depois, no Le Nouvelliste. Mas seu trabalho foi logo interrompido porque, em outubro, Jacques Roumain foi novamente preso, junto com dois companheiros, Victor Cauvin e Antoine Pierre-Paul, por ferirem a lei que proibia a associação de vinte ou mais pessoas. Em dezembro de 1929, uma anistia liberou todos os presos políticos. Estando em liberdade, Jacques Roumain se casou com a haitiana Nicole Hibbert, filha do romancista Fernand Hibbert (1873-1928).

Em 1930, com a queda do presidente Louis Borno, Jacques Roumain foi nomeado chefe de divisão do Ministério do Interior pelo presidente interino, Eugène Roy. Porém, se demitiu do cargo depois de alguns meses para fazer campanha para o então candidato Sténio Vincent, eleito presidente no mesmo ano. Em 1931, Roumain retornou ao cargo, dessa vez nomeado por Sténio Vicent (que governou entre 1930 e 1941).

Em 1932, um promotor o convocou por suspeita de “subversão”. A acusação o levou à prisão no ano seguinte, na Penitenciária Nacional, junto com o socialista Max Hudicourt, sendo ambos acusados de conspiração. Em carta ao poeta Léon Laleau, Roumain declarou: “eu sou comunista”, e “nenhum poder no mundo pode me tirar este direito”[v].

Em junho de 1934, publicou a obra Analyse schématique (1932-1934) [Análise esquemática], expondo algumas de suas perspectivas do marxismo, e ao lado de alguns companheiros fundou o Parti Communiste Haïtien (PCH) [Partido Comunista Haitiano], sendo eleito secretário-geral. Neste primórdio, o Comitê Central do partido lançou o lema “Cor não é nada, classe é tudo”. Ainda nesse ano da fundação, em agosto foi preso e, em outubro, condenado a três anos de cárcere, acusado de conspiração com estrangeiros, recepção de panfletos e preparação de ataques. A prisão gerou um movimento internacional por sua liberdade.

Em junho de 1935, Jacques Roumain foi libertado, mas mantido sob estreita vigilância policial. Além disso, havia contraído malária na prisão, o que deixou sua saúde debilitada. Em novembro deste mesmo ano, o PCH foi banido.

Em agosto de 1936, após aprovação do Comitê Central, partiu para o exílio ao lado de sua mulher e filho, instalando-se primeiramente em Bruxelas (Bélgica). Naquelas circunstâncias, continuar a viver em seu país submetido à total vigilância dos órgãos do Estado implicava “estar reduzido à impotência”[vi].

Em abril de 1937, na capital belga, nasceu sua filha Carine, e neste mesmo ano a família partiu para Paris. Ali, colaborou com as revistas Regards [Olhares], Communes [Comunas] e Les Volontaires [Os Voluntários]. Roumain se inscreveu no Institut d’Ethnologie [Instituto de Etnologia]e foi assistente de Paul Rivet no Musée de l’Homme [Museu do Homem]. A razão pela qual se dedica à etnologia explica-se, segundo o próprio, pela “necessidade de uma preparação mais ampla” que o permitisse “melhor compreender a sociedade haitiana”.

Em 1938, Jacques Roumain e Pierre Sant-Dizier, gerente da revista Regards, são acusados de insultar o chefe de Estado da República Dominicana. A causa foi um artigo escrito por Jacques Roumain, “La tragédie hatienne” [“A tragédia haitiana”], que acusava o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo (1930-1938) de genocídio e cumplicidade – em 1937, ele havia determinado a erradicação da população de origem haitiana que residia no território dominicano, principalmente das áreas agrícolas da fronteira entre Dominicana e Haiti. Por este texto, Jacques Roumain e Pierre Saint-Dizier foram julgados e condenados a 15 dias de prisão e multa de 300 francos[vii].

Em 1939, proibido de regressar a seu país por ordem do presidente Sténio Vincent, Jacques Roumain decide enviar sua família para o Haiti, para então seguir, em um cargueiro, com destino a Martinica, para de lá ir para os EUA. Em agosto deste ano, chegou a Miami e viajou imediatamente para Nova Iorque, sendo recebido pelo professor L. Bradley e sua esposa Francine (a quem dedica seu poema “Bois d’ébene”). Encontrou moradia no Harlem – bairro afroestadunidense –, onde sobreviveu lecionando francês, enquanto sua esposa, naquele contexto, decidiu regressar com os filhos ao Haiti.

Em 1941, participou de um simpósio cujo tema foi “The Frustrated Harlem Renaissance” [“A frustrada renascença do Harlem”]. Neste mesmo ano, deixou este país e seguiu rumo a Cuba, onde encontraria seu amigo Nicolas Guillén, poeta comunista cubano. Ainda em 1941, algumas mudanças, como a eleição de Élie Lescot (1941-1946) para presidente no Haiti, permitiram o regresso do poeta, depois de seis anos de exílio.

De volta a Porto Príncipe, dedicou-se ao trabalho científico, tendo participado de uma conferência no Institut Haïtien-Américain [Instituto Haitiano-Americano] sobre o tema Le culte de l’assôtô [O culto do assotor] – o tambor “assotor” é o maior instrumento de culto do vodu, cuja dança ritual é feita a sua volta. Em seguida foi nomeado diretor do Departamento de Etnologia da República do Haiti, onde passou a lecionar arqueologia pré-colombiana e antropologia pré-histórica.

No ano de 1942, participou da luta contra a “Campanha anti-superstições”. Tal campanha era parte da estratégia do clero católico, que atribuía à “superstição” do povo haitiano uma suposta subalternidade e inferioridade. Jacques Roumain trabalhou ativamente para desmascarar essa falsa polêmica, defendendo que os problemas do país não se explicavam pela religião, mas sim por questões de ordem econômica e histórica. Em setembro desse ano, foi nomeado encarregado de negócios do governo do Haiti na Cidade do México – função diplomática que aceitou, embora com desgosto por novamente se distanciar de sua terra.

Jacques Roumain regressou a seu país em 1943. Em agosto de 1944, poucos dias após voltar de viagem a Cuba, ele veio a falecer em Porto Príncipe, com apenas 37 anos de idade. Houve suspeita de sua morte ter sido por envenenamento, apesar de que sua saúde já estava debilitada – devido às várias prisões que sofreu.[viii]

Contribuições ao marxismo

O jovem Jacques Roumain começou sua militância política em um contexto de ocupação do Haiti pelos Estados Unidos. A invasão pelos EUA (em 1915) se dera após o país passar por diversas revoltas e trocas de governo: a revolta de 1908, da qual ascendeu à presidência o general Antoine Simon (1908-1911); um levante popular que levou ao curto governo de Cincinnatus Leconte (1911-1912), que, assassinado durante o exercício do cargo, seria substituído por Tancrède Auguste (avô de Jacques), quem exerceu a função por apenas nove meses, vindo a falecer. Em 1913 as manifestações se radicalizariam contra o despotismo do presidente Michel Oreste (1913-14). E a tensão política aumentou quando os revoltosos se aliaram à pequena burguesia, fazendo com que as classes dominantes percebessem que não tinham condições para derrotar o movimento.

Com a crise política e econômica instaurada, deu-se então a ação direta imperialista – e o Haiti perdeu sua soberania até 1934. A origem desta situação foi o endividamento externo imposto pela França após a Revolução Haitiana (1804), motivo pelo qual o Haiti contrairia dívida com os EUA. Isto constituiu forte barreira ao desenvolvimento econômico do país caribenho, sendo depois usado para justificar sua invasão e consequente fim da independência política formal.

Com o processo da ocupação, deu-se também o afastamento da elite local – formada por mestiços – do poder. No plano discursivo, interesses econômicos eram camuflados pela evocação de missões civilizacionais carregadas de racismo. Como exemplo, o então secretário de Estado dos EUA, Robert Lansing (1915-1920), chegou a afirmar que “a raça negra é incapaz de governar-se a si própria”, pois teria “tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”.

Para enfrentar o cenário de opressão, entre 1918 e 1920 formou-se a guerrilha dos Cacos – grupo armado de base camponesa originário das regiões montanhosas do Norte do país, que se insurgiu contra as condições impostas pela dominação imperialista e a relação da burguesia haitiana com a especulação financeira.

Tais acontecimentos políticos, somados às manifestações explícitas de racismo para a legitimação do status quo, impulsaram Jacques Roumain a adentrar o debate público existente sobre “raças” – em um momento no qual a discussão se centrava no conceito de superioridade do europeu em relação ao negro. Ele se tornou assim parte do movimento segundo o qual militantes políticos e escritores haitianos buscaram romper com formas de pensar colonizadas, conclamando a classe dominante a assumir a cultura popular haitiana, de forte tradição africana.

De modo geral, os membros deste movimento deram início à criação de uma antropologia “contracolonial”, contestando o domínio da cultura francesa e sugerindo à nação haitiana se abrir para a influência cultural de outras partes do mundo, sem, no entanto, abdicar de sua particularidade. Para isso, afirmavam, era necessário conhecer e amar o país – e não seguir ideologicamente as “elites” do país;reconhecer que as artes plásticas, o romance, a poesia, o teatro, a música possuem dupla herança cultural: a europeia e a africana.

A produção de Jacques Roumain e a sua contribuição ao materialismo histórico estão apoiadas em estudos antropológicos e incorporam temas como etnia e religião. Desse modo, o marxista contribuiu para desenvolver um novo campo de pesquisa, em diálogo com o que vinha sendo produzido por Jean Price-Mars (1876-1969), Léopold Sédar Senghor (1906-2001) e Aimé Césaire (1913-2008).

Decerto por postura ideológica, certos críticos e analistas da obra de Roumain ignoram ou subestimam seu marxismo, isolando seu romance Gouverneurs de la rosée (1944) [Governadores do orvalho] do livro teórico Analyse schématique (1934) [Análise esquemática] – que trata de temas como nacionalismo, preconceito racial e democracia.

Como exposto, o nacionalismo haitiano desenvolveu-se como resposta à ocupação estadunidense. Foi fruto, portanto, da luta cotidiana que se travou a partir deste momento e, sobretudo, do massacre de camponeses haitianos que protestavam contra a expropriação de suas terras por grandes empresas dos EUA – conhecido como Massacre de Les Cayes (1929). Jacques Roumain via no nacionalismo haitiano um produto do sofrimento das massas, de sua miséria “aumentada pelo imperialismo”.

No entanto, ele admite que, embora uma parte da burguesia tenha se associado aos invasores, uma outra parcela se tornou oposição – ainda que de modo tímido e meramente verbal. Jornais ligados a essa fração burguesa opositora alardeavam clichês patrióticos e fingiam estar do lado das massas anti-imperialistas – não obstante desprezassem a população negra (de que mesmo se envergonhavam). Entretanto, os burgueses obtiveram êxito, e as massas passaram a segui-los.

Segundo Jacques Roumain, o nacionalismo haitiano surgiu com a burguesia interna reivindicando para si o papel de “vanguarda do proletariado”, explorando o discurso anti-imperialista das massas para seus próprios fins políticos. Tal movimento nacionalista teria logrado difundir ideais autonomistas em meio às massas entre os anos de 1915 a 1930. Com a renúncia do presidente Louis Borno (1922-1930), colaborador da ocupação estadunidense, Eugène Roy (mai.-nov. 1930) assumiu interinamente para garantir a realização de eleições presidenciais.

Jacques Roumain viu na vitória de Sténio Joseph Vicent (1930-1941) a chegada ao poder de um representante do movimento nacionalista que havia sido germinado nos anos anteriores. Paradoxalmente, contudo, esta ascensão ao poder deu início a um processo de esvaziamento das reivindicações soberanistas do movimento. Jacques Roumain explica isto afirmando que aquele era um movimento composto por frações da burguesia e da pequena burguesia, e suas promessas autonomistas chocavam-se com seus interesses de classe.

Sobre o tema do preconceito racial, Jacques Roumain não nega a importância do racismo: o preconceito baseado na cor da pele, diz ele, “é uma realidade”. Considera-o um problema moral; o racismo seria uma expressão sentimental da oposição de classes, da luta de classes. Ou seja, uma reação psicológica a um fato histórico e econômico, uma manifestação da exploração sem freios das massas pela burguesia. Para o marxista a degradação social, econômica e política dos negros é evidente e não pode ser explicada por uma simples questão de cor. O lema do Partido Comunista Haitiano – “cor não é nada, classe é tudo” – sintetiza a maneira como o tema era percebido por Jacques Roumain.

Um texto assinado pelo PCH, do qual Jacques Roumain participou da redação, afirma acerca deste tema que o preconceito racial é uma “realidade que é inútil tentar ignorar”; que o racismo é “a expressão sentimental da oposição de classes, da luta de classes”, isto é: “a reação psicológica a um fato histórico e econômico, a exploração desenfreada das massas haitianas pela burguesia”. Tentar reduzir a questão dos negros a uma questão de cor seria “uma máscara” através da qual se buscava esconder a luta de classes.

Para o autor, trata-se de compreender, primeiramente, a hierarquia e as dinâmicas de classe: de um lado, o proletariado negro e uma pequena burguesia negra; do outro, uma burguesia (minoria principalmente mestiça) que explora “impiedosamente” os primeiros. A opressão é econômica e se manifesta também no âmbito político. Não é possível, no entanto, negar a questão racial e os danos psicológicos oriundos do preconceito de cor e do desdém dos mestiços (considerados em algumas situações quase-brancos). Tal fenômeno social, de caráter perverso, tem por função apoiar a opressão econômica exercida pela burguesia.

Portanto, o papel do Partido – majoritariamente formado por operários negros – seria caracterizar corretamente o problema como sendo o da luta de classes, para com isto denunciar a pretensa solidariedade burguesa em favor das massas. Como resposta, trabalhadores pretos, mestiços e brancos deveriam formar uma frente proletária, sem distinções de cor. E a pequena burguesia deveria alinhar-se com o proletariado, inclusive porque a exploração burguesa-imperialista acelerava seu processo de proletarização.

Jacques Roumain também discutiu o tema da democracia. Ao responder a um panfleto intitulado Manifeste de la réaction démocratique (1934) [Manifesto da reação democrática] – escrito por um grupo de jovens haitianos –, denunciou seu viés idealista, enumerando os problemas do manifesto, a começar por sua má compreensão do caráter do Estado. O que o grupo exigia dos patrões – a adoção da jornada estatutária de trabalho e de uma legislação relativa a acidentes de trabalho – significava exigir dos empregadores “o sacrifício de uma margem considerável de seu próprio lucro”, ou seja, que agissem contra os próprios interesses.

Tal argumento idealista ignorava a história de luta dos trabalhadores, cujas conquistas de direitos foram frutos de batalhas sangrentas, e não dádivas caídas do céu. O Estado burguês só iria intervir em favor do proletariado quando pressionado para tanto. O autor lembra que a concepção burguesa de Estado faz deste uma entidade etérea, sem relação com a realidade. Essa percepção já havia sido desmontada por Marx, que apontou para o fato de o Estado representar uma relação de “forças sociais e reais”; isto é, em uma sociedade de classes o Estado representa a organização responsável pelo controle e pela coerção da classe dominante.

Em suma, Jacques Roumain acusou o manifesto de não tocar no ponto crucial do problema, a luta de classes, mantendo-se preso a uma concepção liberal do Estado e de democracia.

O autor também tratou do papel da religião. Ao travar um debate com o padre Foisset (1935), no jornal La Nation, Jacques Roumain colocou o vodu no mesmo lugar ocupado pelo cristianismo, ou seja: como uma crença presente no imaginário do povo haitiano, como qualquer outra religião. Para enfrentar a superstição, diz ele, não é necessária uma campanha anti-superstição, mas sim acabar com a miséria. Diante da repercussão da polêmica com o religioso, alguns companheiros de Jacques Roumain criaram o grupo antifascista Les amis de Jacques Roumain [Os Amigos de Jacques Roumain].

Ao introduzir o problema colonial em sua análise, a contribuição de Jacques Roumain para o marxismo o aproxima de outros pensadores críticos, como José Carlos Mariátegui (1894-1930) e Cyril Lionel Robert James (1901-1989). Trata-se de uma concepção marxista periférica, que parte da crítica à questão colonial desenvolvida pelo próprio Marx, para então analisar o modo como as análises marxianas sobre o colonialismo evoluíram ao longo do tempo: desde o entendimento inicial de que as conquistas do colonialismo ocidental teriam acelerado o desenvolvimento de certas regiões, até a severa crítica ao domínio britânico na Índia (escritos de 1853) e a abordagem dessa mesma questão nos Grundrisse (1857-1858), quando Marx percebeu o quão deletério era o colonialismo para o desenvolvimento das colônias.[ix]

Uma das marcas do marxismo haitiano foi o de ter sido forjado no exílio, carregando esse sofrimento, essa “desterritorialização” que é fonte de motivação teórica e também de raiva. Segundo Jean-Jacques Cadet (2019), os marxistas haitianos, ao estudar o materialismo histórico, se propuseram a discuti-lo “sem cair na armadilha eurocêntrica”. Deste modo, contrapunham-se ao marxismo europeu, no sentido de que partiam primeiro de estudos aprofundados da formação social das sociedades nativas, para então identificar quais ferramentas analíticas do marxismo poderiam ser úteis para uma melhor compreensão das realidades locais.

Jacques Roumain abriu um caminho fecundo que relaciona a questão da etnia e da religião em perspectiva marxista. Embora considerando a importância do preconceito racial, argumentou que dissociar esta questão das lutas de classes atende unicamente aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.

Comentário sobre a obra

Jacques Roumain é autor de uma obra extensa, principalmente romances que buscaram retratar a realidade da sociedade haitiana. E, alguns poucos, mas densos, textos teóricos em que sua filiação política e ideológica comunista ficam evidenciadas. Vejamos em seguida algumas dessas obras, de modo que se possa ter um panorama geral das questões por ele debatidas – e que continuam atuais.

O livro Analyse schématique (1932-1934) et autres textes scientifiques (Porto Príncipe: Les Éditions Fardin, 1934)[x] foi publicado numa coleção chamada “Théoriciens et Penseurs Haïtiens” [“Teóricos e Pensadores Haitianos”]. Este é o texto mais importante de sua elaboração marxista, sendo a maior parte de seus escritos romances literários – que tratam de desvendar a sociedade haitiana, mas não trazem tão detalhadamente as problemáticas discutidas neste livro. As discussões teóricas e metodológicas deste texto levam a pensar as questões urgentes para o Haiti daquele momento, mas também para a atualidade, e ultrapassam a problemática local, atingindo temas importantes para o socialismo de modo geral. A obra está dividida em cinco capítulos.

No primeiro capítulo, intitulado “L’écroulement du mythe nationaliste” [“O colapso do mito nacionalista”], o autor defende que o nacionalismo haitiano teria surgido da ocupação estadunidense, fortemente relacionado à violência exercida contra os protestos que denunciavam a expropriação das terras de nativos em benefício de grandes empresas. Portanto, tendo nascido do sofrimento das massas, mesmo que inconscientemente era anti-imperialista.

Já no segundo capítulo, “Préjugé de couleur et lutte de classes” [“Preconceito racial e luta de classes”], omarxista haitiano define como “de excepcional importância o problema do preconceito de cor”. Este seria a expressão sentimental da luta de classes, a reação psicológica a um fato histórico e econômico: a exploração desenfreada das massas haitianas pela burguesia.

O terceiro capítulo, “Le ‘Manifeste de la réaction démocratique’” [“O ‘Manifesto da reação democrática’”], trata do problema da democracia e faz uma crítica contundente ao Manifeste de 1934. Aponta a confusão teórica e política do coletivo que escreveu o manifesto (formado por jovens e correligionários políticos), por desconsiderarem que em uma sociedade de classes há apenas uma classe cujos interesses se fundem com o interesse geral – o proletariado.

Esta característica deriva de sua condição de classe explorada, o que também faz com que seja a única a adotar um programa progressista – expõe Jacques Roumain – acrescentando que a classe de um tipo social “é determinada não de acordo com sua cor, mas de acordo com sua posição econômica”. Por isso, defende que somente a classe trabalhadora poderia levar a cabo uma transformação radical.

Ainda em sua crítica ao Manifeste, Jacques Roumain aponta para a ausência de uma discussão aprofundada sobre o imperialismo: “para uma abordagem séria do tema, seria necessária uma investigação científica de sua base econômica, ou seja, o imperialismo seria antes de tudo uma necessidade das grandes economias capitalistas obterem influência sobre zonas reservadas. Neste ambiente, uma luta anti-imperialista só poderia ser séria se assumisse a forma de “uma atitude irredutivelmente anticapitalista”.

No breve quarto capítulo, “Introduction: necessité de la théorie” [“Introdução: a necessidade da teoria”], Jacques Roumain trata de como os “operários práticos” veem a questão teórica como algo desprovido de importância real, como algo que seria uma “perda de tempo”. É necessário se comunicar com o trabalhador prático na sua luta cotidiana, posto que a teoria deve guiar sua ação.

Em outras palavras, o trabalhador precisará saber responder à questão: “qual o objetivo que se pretende atingir”? Mesmo na organização de uma greve, quando o trabalhador seria forçado a apelar para razões gerais, esses “fatos gerais estão ligados precisamente aquilo que chamamos teoria”, e “a teoria de toda atividade socialista consciente é o marxismo”.

Por último, no quinto capítulo, “Complot contre la sûreté de l’État” [“Complô contra a segurança do Estado”], o autor polemiza acerca de uma acusação feita a ele: de que teria atentado contra a segurança do Estado. Jacques Roumain refuta essa possibilidade e ironiza seu acusador de pouco saber sobre o imperialismo, a Rússia e a questão dos negros.

Quase uma década depois, Jacques Roumain publica a obra Le sacrifice du tambour assôtô(r) [O sacrifício do tambor assotô(r)](Porto Príncipe: Bureau d’Ethnologie de la République d’Haïti, 1943). Trata-se de um texto que analisa o ritual do vodu: é em torno do “assotô” ou “assotor” que o ritual, a dança e os cânticos religiosos ocorrem. Como observa Jacques Roumain, o vodu está muito ligado à dança e à música.

Antes da cerimônia, os instrumentos, o sacrificador, os sacrificantes e o local do sacrifício são sacralizados através de ritos apropriados. Uma vez consagrado o local, batizado o tambor e purificado o sacrificador, o sacrifício deve ser introduzido pela cerimônia de Legbá, divindade daomeana[xi] que “deve ser saciada”. Jacques Roumain recupera a importância do ritual na religião desde a escolha da madeira para a fabricação do tambor até os cânticos que invocam as divindades.

No pequeno livro Le Musé du Bureau d’Ethnologie [O Museu do Departamento de Etnologia] (Porto Príncipe: Bureau d’Ethnologie, 1943), ele aborda o museu e o seu papel educativo – que deve alcançar todas as camadas da população. Sua missão é educar e estimular o estudo. Para tanto, apresenta a pré-história das Grandes Antilhas e dos sítios dos ciboneis – antiga tribo que no período pré-colombiano habitava ilhas do Caribe. Estes textos foram recentemente incluídos na nova edição de Analyse schématique et autres textes scientifiques (Porto Príncipe: Les Éditions Fardin, 2016).

Já em sua obra ficcional, Jacques Roumain aborda temas como a questão da terra, a questão da religião entre outros. É o caso de La montagne ensorcelée [A montanha encantada] (Porto Príncipe: Imprimerie E. Chassaing, 1931), romance prefaciado porJean Price-Mars, em que o autor desvela uma série de eventos dramáticos e os pensamentos irracionais que levam ao assassinato da jovem Grace e de sua mãe, vítimas da miséria, mas também da superstição. As personagens são sacrificadas por uma comunidade enlouquecida por seu isolamento, extrema pobreza e obscurantismo – temas recorrentes em sua obra literária.

Na novela Les fantoches [Os fantoches] (Porto Príncipe: Imprimerie de l’État, 1931), Roumain demonstra a visão pessimista e desdenhosa que nutre pela burguesia (sua classe social de origem). Na trama, relaciona a ocupação estadunidense com a formação de uma geração de fracassados, fantoches, esmagados e impotentes.

Em 1942, vem à luz o ensaio Les superstitions [As supertições] (Porto Príncipe: Imprimerie de l’État). O pequeno livro segue a linha de La Revue Indigène (fundada por Roumain), bem como de Jean Price-Mars – pioneiro em questionar a “superstição” do haitiano. Jacques Roumain afirma aqui que o haitiano não era nem mais nem menos supersticioso de que qualquer outro povo: as chamadas práticas supersticiosas eram de caráter universal. O vodu, por sua vez, seguia o caminho do sincretismo, misturando seus símbolos com os do catolicismo. Entende que as crenças religiosas não têm rigidez, nem resistência à imposição de novas fórmulas. E que a religião oferece uma saída mágica aos problemas terrenos, que afligem especialmente as classes trabalhadoras.

Acusa, contudo, a “negligência e brutalidade da evangelização colonial”: foi o clero que ofereceu e alimentou nas massas uma visão sobrenatural, promovendo a fusão de crenças originárias africanas e católicas. O que é necessário no Haiti, diz o autor, “não é uma campanha anti-superstição”, mas sim uma “campanha anti-miséria”.

O romance Gouverneurs de la rosée (Porto Príncipe: Imprimerie de l’État, 1944), foi publicado depois da sua morte – sendo traduzido para o português e editado no Brasil em 1954, com o título Donos do orvalho (Rio de Janeiro: Editorial Vitória), na coletânea “Romances do Povo” (org. Jorge Amado). Em 2020, foi reeditado com o nome Senhores do orvalho (São Paulo: Carambaia). É o trabalho mais conhecido de Jacques Roumain. O personagem central, Manuel, regressa à pequena cidade haitiana de Founds-Rouge depois de 15 anos vivendo em Cuba.

Em sua terra natal, ele encontra uma realidade bem diferente daquela que guardava no seu imaginário: a paisagem verde, agora, havia sido tomada pela seca. O título do livro remonta ao idioma crioulo, numa referência ao “Mestre da Água”, personificado por Manuel, personagem central dotado de um poder mágico capaz de detectar onde a água está. E o encontro da água pode salvar a aldeia da seca e da pobreza, reconciliando seus habitantes presos a rivalidades entre clãs.

Dentre as publicações de Jacques Roumain, faz-se menção ainda ao ensaio Contribution à l’étude de l’ethnobotanique précolombienne des Grandes Antilles [Porto Príncipe: Imprimerie de l’État, 1942). À novela La proie et l’ombre [A presa e a sombra] (P. Príncipe: Éditions La Presse, 1930). E ao volume de poesia Bois-d’ébène [Madeira de ébano] (Porto Príncipe: Imprimerie Henri Deschamps, 1945).

Vários dos poemas de Jacques Roumain podem ser encontrados na internet.[xii] Dentre eles, “Nouveau sermon nègre” [“Novo sermão negro”] (1939), no qual conclama a que fiquem “de pé os condenados da terra” – verso que intitularia a obra clássica de Frantz Fanon (Les damnés de la Terre, 1961).

Em 2003, Léon-François Hoffmann organizou o conjunto das obras do marxista haitiano no tomo Oeuvres complètes (Madri: ALLCA XX).

*Joana A. Coutinho é professora de ciências sociais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Autora entre outros livros, de Problemas teóricos do Estado integral na América Latina (Lutas Anticapital). [https://amzn.to/49voQAK]

Referências


ALEXIS, Jacques Stéphen. “Prolégomènes à un manifeste du réalisme merveilleux des Haïtiens. Dérives, Montréal, n. 12, 1970.

ALTMAN, Max. “Hoje na História: 1937 – ‘Massacre da Salsinha’, ditador dominicano ordena erradicação de haitianos”. Ópera Mundi, out. 2013. Disp.: https://operamundi.uol.com.br.

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Notas


[i] Ver: “Biographie: Jacques Roumain”, em Les classiques des sciences sociale – Université du Québec à Montreal. Disp.: https://classiques.uqam.ca.

[ii] Para uma visão geral da ocupação dos EUA ao Haiti, ver: Everaldo Oliveira Andrade, “A primeira ocupação militar dos EUA no Haiti e as origens do totalitarismo haitiano”, Anphlac, n. 20, 2016 (disp.: anphlac.emnuvens.com.br); e Léon-François Hoffmann (1995).

[iii] MARQUES, e KOSBY, 2020.

[iv] O texto de Vicente Romero “Los prolegómenos del comunismo indo-afroamericano en Haití y Jacques Roumain: 1927-1933 (disp.: https://journals.openedition.org) descreve esta revista como importante instrumento para o conhecimento da cultura haitiana.

[v] HOFFMANN (1995).

[vi] Em suas palavras: “Após minha libertação, fui colocado sob a mais rigorosa vigilância policial. […] assim que me vi forçado a tomar, com o assentimento do C.C. [Comitê Central], a decisão de me exilar temporariamente do Haiti” (Roumain, “Carta ao Committee”, 16/08/1936, apud Hoffmann, 201, p. 7).

[vii] Ver Hoffmann (2011).

[viii] Segundo Hoffmann (2011), a causa da morte não é certa: alguns afirmaram ter sido envenenamento, outros sugeriram malária ou ainda úlcera ou anemia.

[ix] CADET (2019).

[x] Disp.: http://classiques.uqac.ca

[xi] Relativo ao antigo Reino de Daomé, na África Ocidental.

[xii] Em portais como por exemplo: Le Bar à poèmes (www.barapoemes.net); e La Zebra (lazebra.net).

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