A esquerda e a democracia

Imagem: Alexander Zvir
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Por BRUNO MACHADO*

A democracia é um valor que sempre esteve no cerne do pensamento socialista do mundo

É fato que as revoluções socialistas que ocorreram no século XX levaram a sociedades que não podem ser consideradas democráticas, e essa é uma realidade que os críticos do socialismo sempre usarão para atrelar a esquerda a regimes autoritários. É evidente que o termo democracia é muito mais vasto do que eleições periódicas dentro de um sistema onde o capital prevalece sobre o poder popular. A dita democracia burguesa, ou ditadura da burguesia para os marxistas, não é nem de perto uma democracia perfeita. Entretanto, de fato, há mais democracia nos EUA do que na China, e essa é uma realidade complexa a ser compreendida.

Primeiramente, na democracia liberal o poder econômico impõe restrições muito rígidas ao poder político eleitoralmente constituído. Só esse fato, que evidencia a incompatibilidade entre capitalismo e democracia, já põe por terra a ideia de que a democracia é de verdade o modelo de governança nos países da América do Norte e da Europa, por exemplo. O poder econômico não apenas financia candidatos, mas controla os preços no mercado financeiro, é dono das terras, detém a mídia de massas e subordina às suas vontades os exércitos de quaisquer países capitalistas, sejam centrais ou periféricos. Portanto, a democracia é um ideal a ser alcançado, e tem como entrave o próprio sistema capitalista.

O que se tem em comum na maior parte das revoluções socialistas do século XX foi seu início profundamente democrático, através do poder decisório de sovietes, comitês e sindicatos, seguido de um progressivo fechamento do regime, até alcançar um estágio de regime autoritário. Isso se deve principalmente pelo fato de que todos os países socialistas sofreram fortes cercos dos países capitalistas centrais que tentaram derrubar o regime contra-hegemônico local através de ameaças militares, bloqueios econômicos, infiltração de inteligência no governo local, operações psicológicas e de mídia, entre outros.

A única maneira de sobreviver a tais ataques externos e internos (pois a burguesia local jamais desistiria de retomar o poder) foi vivendo em constante Estado de defesa e de sítio. O próprio Brasil, se sofresse ataques desse tipo decretaria Estado de Defesa e posteriormente Estado de Sítio o que levaria a duras restrições às liberdades de locomoção, imprensa e expressão, da mesma forma que ocorreu nesses países socialistas do século XX, e nos EUA durante a Guerra Fria. Mesmo na Europa, nos períodos de guerras, o que se viu foram regimes mais fechados e ascensão de ditaduras em diversos países que hoje são exemplos de democracia no Ocidente. A diferença, é que os EUA e a Europa não vivem mais esse estado de guerra, mas os países socialistas do mundo de hoje ainda vivem.

A pressão pela abertura dos regimes na China e em Cuba não se deve a uma preocupação pela democracia mundial por parte dos EUA e da União Europeia. Se fosse assim, veríamos o mesmo esforço quanto aos países ditatoriais alinhados a OTAN. A intenção dos países centrais do capitalismo global é afrouxar os regimes socialistas vigentes do mundo para enfraquecê-los com a entrada de seu capital, e consequentemente seu poder econômico e a abertura das redes de internet, rádio e TV para promover revoluções coloridas e operações de guerra híbrida. A evidente intenção dos países capitalistas centrais é a manutenção do sistema vigente que os coloca no centro do sistema e com o poder de decidir os rumos da humanidade.

Dessa maneira, a consequência esperada de qualquer revolução socialista em um país que não seja uma potência global, e dessa forma, não tenha capacidade política, militar e econômica de proteger sua soberania nacional sem promover um fechamento de regime, seria um cerco imperialista que levaria ou a queda do governo socialista ou ao seu fechamento de regime para manutenção de sua soberania.

É por essa razão, entre outras, que uma revolução socialista no Brasil nos dias de hoje teria tudo para terminar em tragédia. Muito provavelmente, se o Brasil fosse um país socialista viveria sob ataque dos países capitalistas centrais e, se não tivesse seu regime derrubado, viveria sob um governo autoritário onde todas as grandes decisões seriam tomadas por uma classe reinante, pertence ao partido único no poder, que substituiria a classe burguesa da nossa realidade atual. Um governo democrático em estado de guerra sempre tenderá a adotar meios de organização social hierarquizadas, exatamente como é o modelo de governança das Forças Armadas de qualquer país do mundo. Não há democracia em quartéis.

A democracia é um valor que sempre esteve no cerne do pensamento socialista do mundo, mas sua implementação prática depende de uma realidade material e de uma correlação de força e de poder que permita sua plena realização. É fato que a democracia plena só é possível no socialismo, mas em um mundo controlado por países capitalistas, e por consequência imperialistas, o socialismo se tornou a etapa anterior a ascensão de regimes autoritários.

Deve-se ter em mente, porém, que enquanto a esquerda luta pela substituição da classe proprietária pela classe trabalhadora no controle dos rumos da nação, a direita seguirá lutando pela manutenção da prevalência da propriedade sobre a vida e da hierarquia social sobre a igualdade social. E por isso, não é razoável esperar uma defesa prática da democracia do pensamento direitista. Entretanto, olhando para o longo prazo, a história da humanidade vem dando sinais de que o capitalismo e a democracia burguesa darão lugar ao socialismo e a democracia popular, só não sabemos exatamente como nem quando.

*Bruno Machado é engenheiro.

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