Dialética do bem e do mal

Imagem: Terry Tran
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Por LUIZ MARQUES*

A condição humana é uma dialética inextricável entre o bem e o mal, uma dualidade que a política e a moral tentam, em vão, simplificar em narrativas unidimensionais

1.

A máxima “Eu sou humano, nada do que é humano me é estranho” (“Homo sum, humani nihil a me alienum puto”) foi criada pelo dramaturgo romano Terêncio no século II a.C., e popularizada por Karl Marx e Friedrich Nietzsche. Significa que decodificamos os sentimentos, os atos e as falhas dos indivíduos faltosos, que transgridem as leis. Mas a familiaridade com as experiências tortas no âmbito da espécie é uma carga incômoda, para nossa necessidade sociocultural de idealizações simbólicas.

A propensão a unidimensionalizar os afetos dificulta o aceite da estrutura de convivência do Homo sapiens com o Homo demens; o médico e o monstro. Sigmund Freud, em Psicopatologia da vida cotidiana, propõe ir mais longe com a máxima ao inverso. “Eu sou humano, nada do que é animal me é estranho”. A humanidade não se cansa de provar a veracidade da afirmativa, diariamente, nos boletins sanguinolentos das ocorrências policiais.

Assimilamos no catecismo a importância de repartir o pão, curar os que sofrem, prevenir as doenças com vacinas, defender a escola pública gratuita e os direitos trabalhistas e de lazer. Aprendemos preceitos éticos de empatia com os outros – a maternidade, a infância, os idosos. Pretos e brancos, homens e mulheres, todos somos iguais no vale de lágrimas. O “bem” é naturalizado.

Em contrapartida, a concorrência e o empreendedorismo objetivo e subjetivo derrubam o “amor ao próximo”. O noticiário elogia a austeridade fiscal, os juros altos, a desindustrialização, logo, o desemprego e a fome. Trata-se de uma resolução neutra, dizem os neoliberais. A participação atrapalha a ordem social; é preciso obedecer, acrescentam. Bilionários sonegam em offshores, fraudam o balanço contábil de grandes corporações, e saem impunes de férias para as Bahamas. O “mal” é normalizado.

A realidade contém sabores doces e salgados, a cada momento. Se ontem comemorávamos a Revolução dos Cravos em Portugal para fechar o ciclo de trinta e quatro anos do déspota António de Oliveira Salazar; indagamos hoje por que o judaísmo se rende a dezoito anos de poder do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Israel traça a política expansionista em terras adjacentes e massacra o povo palestino. O paroxismo paira sobre o genocídio premeditado em bombardeios contínuos, na Faixa de Gaza.

Na região, há quase 70 mil pessoas mortas, 83% do montante formado por civis. Os hospitais e as escolas são alvos dos mísseis. Crianças e mulheres compõem as maiores baixas. Mais de 200 jornalistas são assassinados para que não divulguem a perversidade, que tem por meta se apropriar do território para impedir o sonho do Estado da Palestina, apesar de aprovado pela ONU. O Hamas dá o pretexto para a chacina. O extermínio é o meio para o fim criminoso sob um véu de puro cinismo.

2.

Numa passagem de Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski, o estudante universitário Raskólhnikov raciocina sobre a legitimidade de matar a usurária “estúpida, imbecil, inútil, má, doente, que não dá proveito a ninguém; que nem ela própria sabe para que vive e amanhã acabará por morrer fatalmente”. Coteja-a com as “energias jovens, frescas, que se gastam em vão, sem apoio, e isto aos milhares e em toda parte. Mil obras e boas iniciativas se poderiam fazer com o dinheiro que esta velha deixa”. Fora da literatura, o argumento vil serve à eliminação física dos mais fracos na cadeia produtiva da distopia.

Compreende-se que as religiões façam do “perdão” a ponte para reconstituir a paz. No caso das nações, por intermédio de indenizações pecuniárias pelo prejuízo causado. O valor cobrado da Alemanha (132 bilhões de marcos de ouro em 1921), com a derrota na Primeira Grande Guerra, motiva o rancor que nutre o hitlerismo e desemboca na eclosão da Segunda Guerra. O “arrependimento” só sela a reconstituição da unidade perdida de propósitos e valores, se não houver exagero na dosimetria. E se esta não é manipulada para prosseguir com a rinha. Por vingança.

Uma operação corrupta contra a corrupção, qual a Lava Jato, com procuradores e juízes boçais (no plural) que reputam ilegais a distribuição de cargos entre partidos para reunir apoio a seus projetos, revela algo além do lawfare. O cacoete dos privilégios, junto com o despreparo teórico-técnico e moral no exercício em postos de poder, destruiu as empresas de engenharia nacionais em prol de competidoras estrangeiras. Por ignorância e má fé.

É um escândalo agentes do Estado exercerem funções sem conhecer o modus operandi das democracias, no Ocidente moderno. Negociações parlamentares integram a institucionalização das contendas, para evitar fratricídios. O prestígio da Justiça entorpeceu a capacidade de discernimento da sociedade e da mídia. A última aproveitou a oportunidade para disseminar a antipolítica. Faz sentido. A política, em si, é um instrumento a ser desacreditado para que o livre mercado reine absoluto. A possibilidade de mudar o status quo, faz da política inimiga dos dogmas econômicos do Consenso de Washington.

O engano prosperou por restaurar a unicidade social imaginária das hierarquias rígidas, eliminando as arestas e as surpresas. A frustração e a raiva dos torcedores contra o time de futebol amado, quando não atende as expectativas de vitória, advém da negação que fere a linearidade dos ideais. É como se ainda não soubéssemos lidar com a ausência da mãe, sozinhos no berço.

Sigmund Freud tinha consciência de que suas descobertas exigiam preparo para ser elaboradas, sob o risco de reações emotivas ao expor a duplicidade dialética do “bem” e do “mal” nas individualidades. Nicolau Maquiavel o fez no que concerne à atividade política. Ambos provocam desconforto. A síntese dos contrários no desejo desafia a segurança do Uno, e suas simplificações maniqueístas e infantis. Difícil equacionar tudo.

As correntes políticas e ideológicas lidam com o problema de modo distinto, no Brasil. A extrema direita acena à volta da ditadura militar. Em sua narrativa, a censura restabelece as relações primárias sem precisar optar entre as múltiplas escolhas que a vida apresenta. Os papéis do homem e da mulher estão definidos. A sexualidade é binária. Os conflitos de classes são reprimidos. As convenções são respeitadas pelos convivas na solene sala de jantar. Jesus Cristo continua pregado na cruz.

À esquerda, o caminho é pedregoso pois rompe com o senso comum ao construir a nova “visão de mundo” (Weltanschauung). Incita a mobilização por salários, a formação de sindicatos, partidos de combate, movimentos antissistêmicos. Não teme apontar as contradições sociais, as desigualdades, e não omite a distância até o socialismo democrático. O pensamento crítico e as ações populares educam a cidadania ao priorizar antes os interesses gerais, em vez de os interesses particulares.

Um dia, outra assertiva irá preencher mentes e corações. A saber: “Eu sou humano, nada do que é republicano me é estranho”.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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