Por MAURICIO METRI*
Os recentes ataques à Rússia, Irã e Venezuela revelam a geoestratégia trumpista de realinhamento: isolar a China, recompor relações com Moscou e assegurar o domínio hemisférico
1.
Três graves acontecimentos pautam a conjuntura internacional neste início de ano. Primeiro, na madrugada do dia 29 de dezembro de 2025, o governo ucraniano realizou um ataque com 91 drones à residência do presidente Vladimir Putin na região de Novgorod, segundo o ministro da defesa russo. Todos os drones foram interceptados pelo sistema de defesa do país. Um deles foi atingido na cauda, preservando as informações de seu sistema de navegação. As informações coletadas foram compartilhadas com as autoridades dos EUA. Kiev nega as acusações.
O ataque ocorreu logo depois de Donald Trump ter indicado “que o processo de paz na Ucrânia estava perto de sua conclusão, após seu encontro com Vladimir Zelensky e um telefonema com Vladimir Putin no domingo”. Segundo as autoridades russas, o ataque não se limitou a uma tentativa de assassinato do presidente russo, mas “contra os esforços do presidente Donald Trump para facilitar uma resolução pacífica do conflito na Ucrânia”.[i] De acordo com o presidente Lukashenko da Bielorrússia, Kiev não operou sozinho. Londres tem responsabilidade compartilhada pelos ataques.
Segundo, no sudoeste asiático, também no final de dezembro de 2025, devido a desvalorizações da moeda iraniana, com efeitos inflacionários importantes, num quadro de severa crise econômica no Irã, que se arrasta por anos em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos, comerciantes de Teerã iniciaram manifestações pacíficas. Para surpresa de analistas e do governo iraniano, estas se transformaram rapidamente numa onda de protestos, bastante violentos, em diferentes cidades do país.
Abertamente, a agência de inteligência israelense, Mossad, assumiu envolvimento, aplaudiu os acontecimentos e “afirmou ter agentes infiltrados entre os manifestantes”.[ii] Teerã reconheceu que forças estrangeiras procuram transformar protestos legítimos em violentas batalhas urbanas. Por sua vez, em 2 de janeiro de 2026, Donald Trump declarou em suas redes sociais que os Estados Unidos estavam prontos para agir, a qualquer momento, em defesa dos manifestantes.
No mesmo dia, Teerã respondeu ameaçando todas as posições estadunidenses na região em reação a “qualquer potencial aventureiro”.[iii] A mensagem das autoridades iranianas está ancorada na forte capacidade ofensiva desenvolvida pelo país, com base em mísseis hiper-sônicos, cujo poder de destruição foi demonstrado na Guerra de 12 dias contra Israel e os Estados Unidos. De acordo com o Canal 12 israelense, em resposta, Tel Aviv considera abrir uma guerra simultânea contra o Irã, o Líbano e a Cisjordânia.
Terceiro, na madrugado do dia 3 de janeiro de 2026, aviões dos Estados Unidos invadiram o espaço aéreo da Venezuela e realizaram um grande ataque a diferentes pontos da capital, Caracas. Seu principal alvo foi a base militar onde estava localizado o presidente Maduro e sua esposa. Estes foram sequestrados e levados para Nova York e, na prática, tornaram-se prisioneiros de guerra. Nessa operação, mais de 100 pessoas morreram, dentre estes, 32 cubanos que faziam parte da guarda pessoal do presidente venezuelano. Na sequência, Trump exigiu acesso total ao petróleo venezuelano, além de afirmar que a Venezuela seria governada pelos EUA até que uma transição adequada fosse implementada.
No dia seguinte, ampliou o espectro de seus alvos e fez ameaças diretas a outros três países, México, Cuba e Colômbia, que juntos com Brasil condenaram a ação dos EUA, denunciando-a como uma violação do direito internacional e uma ameaça à estabilidade regional.
Em resposta à violência estadunidense, ainda no dia 4 de janeiro, a Suprema Corte venezuelana reconheceu a vice-presidente, Delcy Rodríguez, como presidenta interina, com o propósito de garantir a continuidade do governo, diante do sequestro e da prisão do presidente Maduro. Delcy é um importante quadro do chavismo. Foi ministra da Comunicação e Informação, das Relações Exteriores e, recentemente, concentrava as funções de ministra da economia e do petróleo.[iv]
2.
Esses três graves acontecimentos da conjuntura atual, concentrados no tempo, mas dispersos no espaço geográfico mundial, devem ser interpretados à luz da nova geo-estratégia dos EUA, cujos parâmetros já haviam sido indicados por Donald Trump ainda no processo eleitoral de 2024; explicitados no início do novo mandato, por meio de alguns pronunciamentos e ações; e, por fim, sistematizados na nova Estratégia de Segurança Nacional, publicada em dezembro de 2025.[v]
Conforme descrito em outra oportunidade,[vi] está em andamento uma tentativa de redesenho da grande estratégia dos Estados Unidos a partir da redefinição de seu mais importante desafio na área internacional. Em detrimento da Rússia, os Estados Unidos passaram a perceber a China como a principal ameaça à sua segurança e aos seus interesses globais e, por conseguinte, procuram afastar a Rússia da China. Trata-se de um esforço de reconfiguração do núcleo central das grandes potências.
Segundo a nova Estratégia de Segurança Nacional, o fato de os Estados Unidos não terem dado a devida atenção à projeção chinesa nas últimas décadas, em razão de uma preocupação excessiva com a Rússia, constitui-se um erro histórico. “O presidente Donald Trump, sozinho, reverteu mais de três décadas de suposições equivocadas dos americanos sobre a China (…) A China enriqueceu e se tornou poderosa, e usou sua riqueza e poder em considerável benefício. As elites americanas – ao longo de quatro administrações sucessivas de ambos os partidos políticos – ou foram cúmplices da estratégia da China ou negaram a realidade.” (NSS 2025, p. 19).
Na prática, a administração de Donald Trump não está inventando nada novo. Resgata uma visão estruturada por Nixon-Kissinger no contexto da Diplomacia Triangular, inaugurada em 1969, quando se aproveitaram da radical iniciativa chinesa de redefinição da principal ameaça à sua sociedade, dos Estados Unidos para a União Soviética, em plena Guerra Fria. Foi nesse contexto que Washington empreendeu uma política de aproximação estratégica com Pequim de modo a pressionar Moscou a avançar nas agendas de seu interesse, como também reforçar a fissão no seio do bloco comunista.
O que escapa, em geral, é que, em 1972, o próprio Henry Kissinger advertiu Richard Nixon sobre a necessidade futura de inverter a equação do ponto de vista dos interesses de Washington: aproximar-se de Moscou a fim de enquadrar Pequim. “Penso que, num período histórico, eles [os chineses] são mais formidáveis do que os russos. E creio que, daqui a 20 anos, o seu sucessor, se for tão sábio quanto você, acabará por se inclinar para os russos em detrimento dos chineses. Nos próximos 15 anos, temos de nos inclinar para os chineses em detrimento dos russos. Temos de jogar este jogo de equilíbrio de poder de forma totalmente imparcial. Neste momento, precisamos que os chineses corrijam os russos e os disciplinem”.[vii]
3.
A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 caminha na direção sugerida pelo ex-secretário de Estado. Quando aborda o tabuleiro da Ásia, a definição da principal ameaça aos Estados Unidos torna-se mais clara. Identifica a China como o seu repto geopolítico e geo-econômico maior. “O Indo-Pacífico [conceito inventado para tratar da Ásia] já é e continuará sendo um dos principais campos de batalha econômicos e geopolíticos do próximo século. Para prosperarmos em casa, precisamos competir com sucesso lá – e estamos competindo.” (NSS 2025, p. 19). Como será visto, este é o ponto que efetivamente organiza e condiciona o que os Estados Unidos pretendem nos demais continentes, dando, portanto, sentido aos acontecimentos mais recentes, ocorridos na Rússia, no Irã e na Venezuela.
Para a Ásia, do ponto de vista militar, a nova Estratégia de Segurança Nacional reforça a antiga concepção de bloqueio da China aos mares, estruturado a partir de cadeias de ilhas, formulada no contexto da Guerra da Coreia por John Foster Dulles, secretário de estado da administração Eisenhower. Um conjunto de dois cinturões de bases militares que cercam a China, com poder de impedir sua saída marítima. Não por outra razão, Taiwan condensa grande parte da disputa. “Taiwan proporciona acesso direto à Segunda Cadeia de Ilhas e divide o Nordeste e o Sudeste Asiático em dois teatros de operações distintos.
Dado que um terço do transporte marítimo global passa anualmente pelo Mar do Sul da China, isso tem implicações importantes para a economia dos EUA. Portanto, dissuadir um conflito sobre Taiwan, idealmente preservando a superioridade militar, é uma prioridade. Manteremos também nossa política declaratória de longa data sobre Taiwan, o que significa que os Estados Unidos não apoiam qualquer mudança unilateral no status quo no Estreito de Taiwan” (NSS 2025, p. 23).
Associado a isso, a nova Estratégia de Segurança Nacional reforça a necessidade de militarização do Mar do Sul da China a partir do fortalecimento da primeira cadeia de ilhas. “Construiremos um exército capaz de impedir agressões em qualquer lugar da Primeira Cadeia de Ilhas. (…) Os esforços diplomáticos dos Estados Unidos devem se concentrar em pressionar nossos aliados e parceiros da Primeira Cadeia de Ilhas a permitirem maior acesso das forças armadas americanas aos seus portos e outras instalações, a investirem mais em sua própria defesa e, principalmente, a investirem em capacidades destinadas a dissuadir agressões.” (NSS 2025, p. 24). Por fim, compele a militarização dos aliados mais fortes na região, Japão e Coréia do Sul, para deter adversários e defender as cadeias de ilhas.
4.
Do ponto de vista econômico, o documento reconhece, de um lado, a recente e expressiva projeção chinesa para grande parte do mundo e, de outro, a necessidade atual de os EUA garantirem acesso às cadeias de suprimentos e materiais críticos. Juntando esses dois pontos, a resultante para os Estados Unidos passa a ser, primeiro, retirar e obstruir o acesso chinês a regiões estratégicas e, segundo, construir inserções privilegiadas, no limite, monopolistas.
Propõe, com efeito, o redesenho das relações da China com outros países e regiões. “(…) os Estados Unidos devem proteger e defender sua economia e seu povo de danos, provenientes de qualquer país ou fonte. Isso significa acabar (entre outras coisas) com as ameaças às nossas cadeias de suprimentos que colocam em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, incluindo minerais e elementos de terras raras” (NSS 2025, p. 21).
Para a Europa, o documento vai na direção sugerida por Henry Kissinger em 1972 de aproximação com os russos de forma a sonhar com um isolamento chinês. Isso, contudo, envolve necessariamente a reinserção da Rússia no sistema internacional, em outras palavras, o encerramento tanto da Guerra da Ucrânia quanto da política de expansão da OTAN, portanto o reconhecimento da vitória de Moscou no campo de batalha e, com efeito, a necessidade de negociar um tratado de paz conforme os interesses russos.
Isso, por sua vez, implica, dentre outras coisas, a neutralidade da Ucrânia, sua desmilitarização e desnazificação, o reconhecimento da conquista russa da Criméia e a independência ou anexação pela Rússia das regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson.
Não deixa de ser surpreendente que essa proposta, radical do ponto de vista da tradição da política externa dos EUA, apareça explicitamente na Estratégia de Segurança Nacional de 2025. “Como resultado da guerra da Rússia na Ucrânia, as relações europeias com a Rússia estão agora profundamente deterioradas, e muitos europeus consideram a Rússia uma ameaça existencial. A gestão das relações europeias com a Rússia exigirá um significativo envolvimento diplomático dos EUA, tanto para restabelecer as condições de estabilidade estratégica em toda a Eurásia, quanto para mitigar o risco de conflito entre a Rússia e os Estados europeus. É de fundamental interesse dos Estados Unidos negociar uma cessação célere das hostilidades na Ucrânia, a fim de estabilizar as economias europeias, evitar uma escalada ou expansão não intencional da guerra e restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia” (NSS 2025, p. 25).
Fica claro que, do ponto de vista dos Estados Unidos, o centro do problema não é exatamente “combinar com os russos”, como diria o craque Garrincha da seleção brasileira de futebol na Copa de 1958,[viii] mas, sim, combinar com os principais parceiros europeus. A possibilidade de reinserir a Rússia nesses termos configura-se uma bomba de proporções tectônicas para a Europa, sobretudo para Inglaterra, França e Alemanha. Na prática, os EUA ameaçam esvaziar a OTAN, enfraquecendo a Europa; esta, tutelada há décadas pelos EUA via OTAN, possui baixa capacidade de iniciativa no campo militar; a Rússia venceu os armamentos da OTAN no campo de batalha e desfruta de significativa vantagem estratégica; e inexiste uma ameaça em comum entre russos, americanos, chineses e europeus que dilua suas rivalidades, receios e medos.[ix]
5.
É nesse contexto que devem ser analisados os ataques de drones à residência de Vladimir Putin em Novgorod. Interessa sobretudo a ingleses, franceses e alemães a continuidade da Guerra da Ucrânia, a implosão das negociações de paz entre Moscou e Kiev, mediadas por Washington, e mesmo a escalada militar em território ucraniano, de maneira a manter os Estados Unidos presos e atolados no esforço de guerra contra os russos. Faz sentido, portanto, as acusações feitas pelo presidente Lukashenko da Bielorrússia, quando, com base em informações de inteligência russa, apontou para Londres a responsabilidade compartilhada pela tentativa de assassinato do presidente russo.
Em relação às Américas, da mesma forma, a política de Washington está condicionada pelo desafio chinês. Nesse sentido, a nova Estratégia de Segurança Nacional não poderia ser mais explícita. “Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes não hemisféricos [China] a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos” (NSS 2025, p. 15).
Em termos gerais, os Estados Unidos pensam sua projeção global a partir de uma insularidade hemisférica. Dominar o continente americano, em especial o Grande Caribe e sua conexão inter-oceânica, condição chave para a integração de suas marinhas do pacífico e do atlântico, é o pilar com base no qual se expandem para mundo, sobretudo na direção das fímbrias da massa continental eurasiana, o famoso Rimland de que falou Spykman. Pode-se dizer que se trata da ampliação para escala continental da antiga estratégia inglesa, quando esta, na expressão do historiador Fernand Braudel, se transformou numa ilha depois de sua derrota na Guerra de 100 Anos, em 1453. Desde então, os ingleses assumiram a insularidade das Ilhas Britânicas, a base de sua projeção global.
O que mais interessa perceber nesse tipo de concepção geo-estratégica, estruturada numa visão insular, são as implicações para os demais povos e países também presentes nesses mesmos espaços basilares a partir do qual a potência marítima se projeta. Isso porque qualquer inserção autônoma de um país ou aliança de países compromete a capacidade de expansão global das potências insulares.
Essa é a razão precípua, por exemplo, da violência britânica secular contra irlandeses e escoceses, assim como das diversas intervenções e golpes dos Estados Unidos em países da América Latina. Esses espaços não podem funcionar como uma espécie de “cabeça de ponte” de adversários geopolíticos globais. Não se trata de questões político-ideológicas, étnico-religiosas ou econômicas em si, mas fundamentalmente geopolíticas. No limite, poder-se-ia dizer que Fidel Castro na Revolução Cubana (1953-59), em pleno “Grande Caribe”, e Michael Collins nas Guerras de Independência da Irlanda (1919-21), em pleno “Mar Interior Britânico”, lutaram e foram bem-sucedidos contra uma violência de natureza semelhante.
6.
Para além das riquezas naturais, é nesse sentido que também pode ser entendida a racionalidade de algumas das ameaças estadunidenses a países da região, como Venezuela, Cuba, Colômbia, México e Brasil, por suas políticas externas não alinhadas, e Canadá e Groenlândia (Dinamarca), por suas posições geográficas relevantes.
No caso da Venezuela, além de estar no “Grande Caribe”, o país é detentor da maior reserva de petróleo do mundo, 303 bilhões de barris, ultrapassando a Arábia Saudita (267 bilhões). Somado a isso, depois da ampliação das sanções em 2019, a China tornou-se o principal importador de petróleo, deslocando os Estados Unidos. Para se ter uma ideia, em 2023, os chineses foram responsáveis pela aquisição de 68% das exportações de petróleo bruto do país; e os estadunidenses, 23%.
Ademais, a Venezuela tem se aproximado do Irã, Rússia e China em temas sensíveis. Por exemplo, segundo Washington Post, a Venezuela solicitou, em outubro de 2025, assistência militar à Rússia, à China e ao Irã com o propósito de aprimorar seus sistemas defensivos.[x] Para Pequim, Caracas requisitou detectores de radar; para Teerã, equipamentos de interferência de radar e drones capazes de voar até 1.000 km; e, para Moscou, novos mísseis, além de assistência para caças Su-30MK2 e sistemas de radar já adquiridos.
Uma semana antes, a Rússia havia ratificado o tratado de parceria estratégica com a Venezuela negociado em maio do mesmo ano, momento em que manifestou também apoio à defesa da soberania nacional da Venezuela e compromisso de ajuda a “superar quaisquer ameaças, independentemente de sua origem”.[xi]
Não é difícil perceber que, além da projeção chinesa sobre o petróleo venezuelano, Caracas vinha tentando desenvolver importante capacidade militar defensiva e dissuasória com apoio dos principais adversários dos Estados Unidos em outros tabuleiros. De qualquer forma, o sequestro do presidente Nicolás Maduro revelou a vulnerabilidade e o atraso do país à violência de potências estrangeiras.
Para o Oriente Médio, a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 aponta para a mesma questão de garantir que as reservas de óleo e gás estejam disponíveis ao ocidente e vetadas aos seus inimigos. Manifesta, também, preocupação com o acesso ao Estreiro de Ormuz. “Os Estados Unidos sempre terão interesse fundamental em garantir que o fornecimento de energia no Golfo não caia nas mãos de um inimigo declarado, que o Estreito de Ormuz permaneça aberto e que o Mar Vermelho permaneça navegável (…).” (NSS 2025, p. 28).
Assim como Caracas, a aproximação de Teerã com Pequim e Moscou é bastante delicada. Além de possuir a segunda maior reserva de gás e a quarta de petróleo, o Irã ingressou na Organização de Cooperação de Xangai, em 2023; nos BRICS, em 2024; assinou parceria estratégica com a Rússia, em 2025; além de ter suas relações diplomáticas reativadas com a Arábia Saudita, em 2023, por mediação da China. Ademais, o Irã estrutura o eixo de resistência no sudoeste asiático contra a violência estadunidense e israelense (Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen, Resistência no Iraque e Hamas na Palestina).
Portanto, a promoção de uma guerra híbrida contra o Irã, a fim de derrubar o governo, constitui-se uma prioridade para os Estados Unidos. Não por outra razão, o premiado e bem informado jornalista Seymon Hersh escreveu recentemente que: “O próximo alvo [depois da Venezuela], me disseram, será o Irã, outro fornecedor da China, cujas reservas de petróleo bruto são as quartas maiores do mundo”.[xii]
Os ataques de drones, a guerra híbrida e o sequestro presidencial podem ser analisados de modo articulado, a partir da nova geo-estratégia do governo Donald Trump, cujo principal desafio é a China. O que o público, em geral, ainda não se deu conta é que, ao longo da história, toda a vez que um presidente estadunidense tentou uma política de não confrontação com a Rússia, esta política não teve vida longa – Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt e John F. Kennedy. Algo apontado de forma corajosa pelo cineasta Oliver Stone numa entrevista à excelente jornalista Abby Martin.[xiii] Talvez para Donald Trump, sua principal ameaça não seja apenas a China, mas o blowback de sua política de reinserção no sistema internacional da Rússia, vitoriosa na guerra.
*Mauricio Metri é professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Autor, entre outros livros, de História e diplomacia monetária (Editora Dialética). [https://amzn.to/49ysDwU]
Notas
[i] https://www.rt.com/russia/630314-ukraine-drone-putin-residence/
[ii] https://www.rt.com/news/630298-iran-currency-drop-unrest/
[iii] https://www.rt.com/news/630351-us-support-iran-protesters-trump/
[iv] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn0k1jz5lg1o
[v] https://www.whitehouse.gov/issues/national-security/
[vi] https://tutameia.jor.br/metri-sob-a-nevoa-das-bravatas-trumpistas/
[vii] https://geopoliticaleconomy.com/2025/05/19/trump-attempt-divide-russia-china-fail/
[viii] “Diz a lenda que, pouco antes do jogo Brasil x URSS pela Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Vicente Feola, o treinadorbrasileiro, reuniu seus jogadores no vestiário e traçou a estratégia que, com a bola de pé em pé pelo nosso ataque no meio da defesa russa, levaria ao primeiro gol do Brasil. Não tinha erro – a jogada era mortal. De repente, Garrincha perguntou a Feola: “Mas o senhor já combinou com os russos?”.” Ver: www.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2016/12/1840473-combinarcom-os-russos.shtml.
[ix] https://strategic-culture.su/news/2025/03/22/under-fog-of-trumpist-bravado-imprecise-contours-of-new-us-strategy/
[x] https://www.washingtonpost.com/world/2025/10/31/russia-venezuela-oil-trump/
[xi] https://www.rt.com/news/627217-maduro-seeking-aid-russia/
[xii] https://seymourhersh.substack.com/p/what-is-trumps-gambit-in-venezuela
[xiii] https://www.youtube.com/watch?v=cJd3Y94etd4





















