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A malta de racistas

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Por SANDRA BITENCOURT*

Os racistas brasileiros parecem mais cautelosos que os espanhóis. Mas nem todos

Opinião pública

Numa conferência proferida em Noroit (Arras) em janeiro de 1972 e publicada em Les temps Modernes, no. 318, em janeiro de 1973, Pierre Bourdieu provocou sua célebre problematização de que a opinião pública não existe.

Desde sua gênese, a democracia estabeleceu uma relação indissolúvel com o público e com a imprensa que faz reverberar opiniões. A ideia de que há modos de capturar e dirigir a opinião coletiva está no cerne de toda estratégia política e ideológica.

Pierre Bourdieu apresentou três postulados que as pesquisas que pretendem capturar a opinião pública assumem implicitamente: qualquer pesquisa de opinião pressupõe que todos podem ter uma opinião; ou, que a produção de opinião está ao alcance de todos; assume-se que todas as opiniões têm o mesmo peso; e por fim que quando se faz a mesma pergunta a todos parece haver um consenso sobre as questões. Pierre Bourdieu afirma que esses três postulados implicam numa série de distorções que são observadas mesmo quando todas as condições de rigor são atendidas na metodologia de coleta e na análise de dados.

Para o autor, embora pareça democrático, nem todos podem ter uma opinião sobre tudo. Para ele, é possível demonstrar que o fato de acumular opiniões que não levam em conta a mesma força real leva à produção de artefatos desprovidos de significado. E ainda, não há de fato acordo sobre as perguntas que vale a pena fazer.

O que a reflexão de Pierre Bourdieu nos mostra é que os problemas propostos pelas pesquisas de opinião estão subordinados a interesses políticos e isso pesa enormemente tanto no significado das respostas quanto na importância atribuída à publicação dos resultados.

De 1973 para cá, a topografia da comunicação e da circulação de informação e opinião mudaram drasticamente. A opinião pública não precisa mais ser convocada pelos institutos de pesquisa e nem está circunscrita à seleção, hierarquização e divulgação da mídia.

Mas a opinião continua sendo instrumento de ação política. Se mantém a crítica de Pierre Bourdieu no sentido de que a captura e tratamento da opinião impõem a ilusão de que a opinião pública existe como uma soma puramente aditiva de opiniões individuais, ao impor a ideia de que existe algo que seria como a média do opiniões ou opinião média. “A “opinião pública” que aparece nas primeiras páginas dos jornais na forma de percentagens (60% dos franceses são a favor de…), esta opinião pública é um artefato simples e puro cuja função é disfarçar que o estado de opinião em um dado momento é um sistema de forças, de tensões, e que não há nada mais inadequado para representam o estado de opinião do que uma porcentagem”.

Hoje, boa parte das pesquisas que buscam coletar posicionamentos de opinião foram substituídas pelo monitoramento nas redes sociais e pelo ranqueamento de hashtags e sistemas de buscas.

O tensionamento, o embate, a disputa em torno de determinados temas é a expressão dos sistemas de forças em disputas. Alguns lugares, atividades e personagens são determinantes para colocar em perspectivas problemas sociais e políticas públicas. Como ensina Pierre Bourdieu, sabemos que todo exercício de força é acompanhado de um discurso cujo objetivo é legitimar a força de quem a exerce; pode-se mesmo dizer que a característica de todas as relações de força é a fato de que só exerce toda a sua força na medida em que se disfarça como tal. “Em suma, simplificando, o homem político é aquele que diz: “Deus está do nosso lado”. Ele é o equivalente atual de “Deus está do nosso lado” é a opinião pública está do nosso lado”, afirma Pierre Bourdieu.

Esse embate, portanto, é extremamente vital sobretudo para os grupos extremistas que precisam, a despeito da verdade e dos fatos, constituir consciências, percepções e afetos para suas causas ou para ocultar seus verdadeiros interesses.

Há ainda um outro aspecto valioso no texto de Pierre Bourdieu. O princípio a partir do qual as pessoas podem produzir uma opinião: o que ele chama de “ethos de classe”, ou seja, um sistema de valores implícitos que as pessoas internalizaram desde a infância e a partir das quais geram respostas para os problemas extremamente diferentes.  Diz Pierre Bourdieu: as opiniões que as pessoas podem trocar na saída de uma partida de futebol devem boa parte de sua coerência, sua lógica, ao ethos de classe. Uma multidão de respostas ao que são consideradas respostas políticas são realmente produzidas a partir do ethos de classe e podem assumir, ao mesmo tempo, um sentido completamente diferente quando interpretado na arena política.

Assim, observamos que muitos protestam contra a politização de todos os temas, quando é próprio do debate público que determinados acontecimentos e disputas sejam analisados na arena política.

Racismo

O tema do racismo é um exemplo bastante contundente dessas dinâmicas que se atualizaram pelos dispositivos tecnológicos, mas que guardam lógicas já mapeadas.

Segundo coluna de José Roberto Toledo, as buscas pelo assunto “racismo” foram 2,2 vezes maiores no Brasil do que na Espanha desde a demonstração racista da torcida rival contra Vini Jr. em jogo do Real Madrid em Valência, no domingo passado. Nas oito horas seguintes as buscas por termos relativos a “racismo” no Google cresceram 17 vezes no país. Proporcionalmente, o interesse foi maior no Rio de Janeiro, estado natal de Vini Jr. e do Flamengo. Mas as buscas por “racismo” cresceram acentuadamente em todo o país. O escândalo também repercutiu na Espanha, mas de modo diferente, menos indignado e ainda mais controverso. A pesquisa por termos relativos a “racismo” cresceu 13 vezes na Espanha.

No Brasil, foi o segundo maior pico de interesse pelo tema racismo no país em 12 meses: o pico anterior também foi motivado por um ataque a Vini Jr, em setembro de 2022, por torcedores do Atlético de Madri. Normalmente, o pico de busca por racismo no Brasil, ocorre em novembro, no Dia Nacional da Consciência Negra. Mas um acontecimento num esporte como o futebol é capaz de acionar a opinião pública, que em movimento e em tensão, disputa posições.

Os racistas brasileiros parecem mais cautelosos que os espanhóis. Mas nem todos. O líder do PT no Senado, Fabiano Contarato, solicitou abertura de inquérito por injúria racial no STF contra as falas do senador do PL, Magno Malta, que convocou associações de animais para defender os macacos e ainda disse que se fosse um jogador negro entraria em campo com uma leitoa branca para mostrar que “não tem nada contra branco”. É algo tão grotesco que custa compreender o público destinatário para ideia tão escrota. Certamente é dirigida aos racistas, mas até essa parcela se mostrou mais comedida.

Em tempos de conexão intensiva e produção de opinião a rodo, vale lembrar as origens da ideia de público. O público, na era moderna, consistia em uma sociedade de faladores e polemistas, grupos que transitavam argumentos. Mas também sempre se tratou de espaço de poder político localizado entre o Estado e o setor privado, onde o poder poderia se vestir com as roupas de racionalidade porque constituía a área onde se podia transcender o interesse privado.

As fronteiras entre o público e o privado se transformaram na pós-modernidade, com a onipresença da cultura narcisista de massa, predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia. Assistimos padrões de diferentes graus de complexidade: o efêmero, o fragmentário, o descontínuo e o caótico predominam.

Não é uma disputa fácil, principalmente porque é imperioso entender o fenômeno. De todo modo, nem porcos, nem macacos seriam abjetos quanto a malta de racistas que nos assola.

*Sandra Bitencourt é jornalista, doutora em comunicação e informação pela UFRGS, diretora de comunicação do Instituto Novos Paradigmas (INP).


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