Aline Bei

Imagem: Lucas Law
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Por JULIO CESAR TELES*

Aline Bei coreografa a persistência do vivido: seus romances não superam a dor, mas ensinam a carregá-la, transformando ausências em uma gramática delicada do existir

Aline Bei é uma escritora daquelas de quem não conseguimos parar de ler. Após amigos leitores me recomendarem sua obra, iniciei o percurso pelo segundo livro, Uma pequena coreografia do adeus; em seguida, voltei ao primeiro, O peso do pássaro morto; e, por fim, cheguei ao romance mais recente, Uma delicada coleção de ausências.

Na leitura da autora, para além da forma – em que as palavras dançam no ritmo da narrativa, com aproximações, quebras e espaçamentos pouco convencionais –, chamou-me especialmente a atenção o apego de Aline Bei a temas sensíveis, aqueles que tocam a todos nós de uma maneira ou de outra. Falar deles é sempre um desafio; refletir sobre eles, um desafio ainda maior. É desse movimento que nasce este texto, no qual busco compartilhar algumas reflexões sobre as miudezas grandes que essas narrativas me provocaram.

Adeus

Acho que nunca queremos dar adeus. Dar adeus em vida é ainda mais difícil. Júlia, protagonista de Uma pequena coreografia do adeus, é uma jovem que tenta dançar a própria existência em meio às marcas deixadas por seus pais. Com uma mãe que parece constantemente desprezá-la e um pai cuja atenção ela deseja intensamente, Júlia vai se constituindo entre afetos faltantes, silêncios e frustrações.

Nossas relações nos formam na mesma medida em que também nos ferem. É curioso perceber como tanto as marcas boas quanto as ruins são responsáveis por nos moldar e permitir que apresentemos nossa própria coreografia do viver – tal como acontece com a personagem.

Não sabemos dançar de imediato. Muitas vezes, ao tentar, perdemo-nos nos passos, para só depois, talvez, começar a bailar. Essa ideia aparece de forma contundente na relação entre a dança da infância de Júlia – inicialmente imposta como forma de disciplina após um episódio de agressividade na escola – e a dança da vida adulta:

“Obedeci. faria qualquer coisa que ela me pedisse.

– Veja as meninas dançando. elas estão fazendo o movimento completo. e além, expandidas. Está vendo?

balancei a cabeça positivamente.

– pois! a Arte está no além, é nele que podemos colocar um pouco do que somos, sem jamais atrapalhar a coreografia. au contraire, Júlia, não há bailarina que dance a mesma música da mesma forma.

[…]

eu procurava no dicionário palavras que pudessem me representar: desarmonia, descompasso, peso, rocha.” (BEI, 2021, p. 130–131)

Parece haver, aqui, uma correspondência direta entre o aprendizado corporal da dança e o aprendizado existencial. Às vezes, tentamos de tudo e, ainda assim, erramos os passos. Perdemos a sintonia, o ritmo; tornamo-nos descompasso, peso, rocha. Ainda assim, é preciso continuar. Mesmo diante das frustrações, já na vida adulta, Júlia sonha em ser escritora – e segue escrevendo.

Daí surge a primeira reflexão deste texto: não importa o quanto erremos a coreografia ou quanto tempo leve para que nossos sonhos – profissionais ou não – se realizem, é necessário continuar. Seguir tentando acertar o passo. Continuar escrevendo, dançando, vivendo. Dói, sem dúvida. Mas é possível evitar a dor? Ao que tudo indica, não.

Morto

Ao longo de suas diferentes idades, acompanhamos a protagonista de O peso do pássaro morto até os 52 anos. O marco dessa narrativa é uma mulher que, desde a infância, precisa lidar com o peso da morte. Durante toda a vida, a memória das perdas se acumula, sempre associada à imagem dos meninos que atiravam nos passarinhos ou à falsa esperança infantil de que seu Luís – que rezava para curar as pessoas – pudesse fazer uma amiga retornar à vida:

“– por que as pessoas morrem?

– tudo o que é vivo morre, você já teve um peixe? eles morrem muito. todo mundo morre muito, se não for de uma coisa é de outra.

– foi o deusinho que morreu a carla, seu luís?

– não.

– então quem?

– ninguém te contou?

– ninguém me contou. eu perguntei pra bastante gente. ela nunca tinha doença. eu queria apresentar o senhor pra ela, mas antes ela precisava ficar doente. ela nunca ficava.

– bom, a carla morreu de Cachorro, […]

– é uma pena, mas eu não sei fazer a morte parar.” (BEI, 2017, p. 25).

Em algum momento – seja na infância, na adolescência ou na vida adulta – todos nos deparamos com a perda irreversível. A protagonista atravessa seus anos acumulando partidas e, com elas, outras violências da vida, como o abuso sofrido perto dos 18 anos e o filho resultante desse trauma. A narrativa não busca explicações nem redenções fáceis; ao contrário, insiste na permanência do peso. O pássaro morto não desaparece: ele é carregado.

Essa escrita fragmentada, marcada por silêncios e interrupções, parece mimetizar o próprio impacto do trauma, aquilo que não se organiza plenamente em discurso. Diante dessas incógnitas que nos atravessam, resta buscar modos de sobreviver. Eis a segunda reflexão: viver, muitas vezes, não é superar, mas aprender a carregar.

Ausências

Em Uma delicada coleção de ausências, o ritmo da narrativa se apresenta mais lento, se comparado às outras obras. Ainda assim, quando o desfecho se aproxima, há um ápice intenso, em parte inesperado. O que atravessa toda a obra, contudo, é a ausência. Acompanhamos a história de Margarida, sua neta Laura e Filipa, mãe de Margarida. A ausência da mãe de Laura – filha de Margarida – ecoa ao longo de todo o romance e tensiona as relações entre essas três mulheres.

Cada uma delas encontra seu próprio modo de sobreviver, ainda que esses modos sejam, muitas vezes, antagônicos. Margarida sustenta-se lendo mãos desde o tempo em que fugiu do circo; Filipa, profundamente católica, rejeita essa prática. As tensões familiares se somam às dificuldades materiais, em parte mediadas pela presença de Camilo, personagem que, ao final, será responsável por um desfecho duro e perturbador.

Como nos romances anteriores, as ausências constroem as relações. Seja o tempo em que Margarida e Filipa permaneceram afastadas, seja a ausência da mãe na vida de Laura, seja ainda o esgarçamento dos laços cotidianos de amizade na escola. As perdas, parece nos dizer Aline Bei, são constitutivas dos vínculos – ainda que profundamente dolorosas. A infância de Laura é atravessada por ausências que moldam sua percepção do mundo e de si mesma. Nas palavras da autora:

“[…] porque dizer um adeus nunca ensina a dizer o próximo? é horrível ver alguém diminuir e aumentar de tamanho dentro de você. além do mais, quando uma pessoa se afasta ela parece se tornar mais verdadeira no momento exato em que parte. e você nunca terá aquela pessoa que mora na pessoa que você costuma ter.” (BEI, 2025, p. 67–68).

Ao final das três leituras, fica a impressão de que Aline Bei escreve sobre aquilo que permanece quando algo se perde. Suas narrativas não oferecem consolo fácil, mas produzem reconhecimento. Talvez seja justamente aí que residam essas miudezas doloridas: naquilo que dói porque é comum, porque nos atravessa, porque insiste em ficar.

*Julio Cesar Teles é mestre em história pela Unifesp e professor da rede municipal da cidade de São Paulo.

Referências


Aline Bei. Pequena coreografia do adeus. São Paulo, Companhia das Letras, 2021, 264 págs. [https://amzn.to/4k1GSPY]

Aline Bei. O peso do pássaro morto. São Paulo, Editora Nós, 2017, 240 págs. [https://amzn.to/4rdRHRi]

Aline Bei. Uma delicada coleção de ausências. São Paulo, Companhia das Letras, 2025, 288 págs. [https://amzn.to/4k1ZGyA]

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