História no divã – parte 2

Imagem: Maximilian Bungart
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Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO*

A disciplina História resiste à sua própria liquidação por um projeto neoliberal que troca pensamento crítico por empreendedorismo e apagamento do passado

3ª Sessão

Psi: Boa tarde.

História: Boa tarde, Dea. Feliz ano novo! Como foram as festas de final de ano?

Psi: Bem, bem…, tudo dentro do previsto.

História: Mas nesse ano novo não começamos nada bem, né? Invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, sequestro do Maduro, ameaças à Colômbia. Assustador! Tenho pensado muito nisso desde o dia 3 de janeiro, sabe? Ouvi diversas análises, muitas delas falaciosas, algumas pertinentes, mas quase sempre sem parâmetros. Tem muito chute, muita militância contra e a favor.

Parece que estamos perdendo a capacidade de olhar para o passado, pensar em perspectiva histórica. Estamos vivendo um presentismo, como se não houvesse conexões com outras temporalidades. Fomos condenados ao tempo presente! Outro dia li que uma jornalista disse que achava “tão cafona essa coisa de imperialismo”. O que é isso?! Isso é argumento que se utilize, “tão cafona”?! Só falta dizer que é “tão cafona” falar em racismo, nazismo, fascismo, genocídio!

Psi: Foi uma jornalista ou um jornalista?

História: Nesse caso foi “uma”. Sei onde quer chegar, mas esse tipo de aberração temporal não é uma questão de gênero. Na verdade, é provável que haja mais homens cometendo esses equívocos, dado que, proporcionalmente, há mais homens em lugares de poder e de controle da informação. E é provável, também, que essa fala tosca tenha tido mais repercussão devido ao fato de ter sido proferida por uma jornalista. Mas a fala, propriamente dita, é um desvario total, poderia entrar para o Febeapá, o Festival de Besteira que Assola o País.

Psi: Sei… Mas o que exatamente a aflige nesse tema?

História: O que me assombra?… É… a perda da dimensão temporal desses comentários. É como se estivéssemos perdendo a capacidade de estabelecer relações entre o tempo presente e outras temporalidades, é como se estivéssemos perdendo a capacidade de pensar historicamente, parece que tudo o que está acontecendo decorre exclusivamente dos fatos do tempo presente, do presente imediato.

E assim explicam o ataque à Venezuela, o genocídio em Gaza, o conflito entre Ucrânia e Rússia, a violência e a desigualdade no Brasil, pelo que ocorreu meio hora atrás, ontem ou, máximo, na semana passada. Notou que com as barbaridades do Donald Trump ninguém mais fala das mortes em Gaza? As mortes na Ucrânia deixaram de ser assunto faz algum tempo, o massacre no Complexo da Penha e do Alemão caiu no esquecimento, o sequestro de Nicolás Maduro já é notícia velha, vida que segue. A velocidade das redes sociais determina o foco dos nossos interesses, nossa capacidade de entendimento e nossa indignação.

Psi: Mas o que a aflige, exatamente?

História: (…) Como tudo isso será entendido? Se há alguma possibilidade de compreensão do nosso tempo presente, se é que desejamos compreender algo, como isso se dará? Pelo TikTok? Pelos 2.200 caracteres do Instagram?

Psi: Insisto, o que a aflige, exatamente?

História: O que me aflige?… No caso da educação escolar brasileira, notadamente a pública, por onde passam milhões de estudantes de diferentes idades, como ocorrerá a transmissão, ou melhor, a construção desse conhecimento historiográfico? Ou dito de outra forma, a escola tem algum papel nessa produção de conhecimento, como vem tendo desde o século XIX? É claro que o próprio ensino de história tem sua historicidade, e nem sempre foi uma maravilha.

Mas, de modo geral, sempre houve um entendimento, de que a disciplina história seria fundamental para a formação desses estudantes. A pergunta que não quer calar, e que me aflige, é: o ensino de história deixou de ser relevante para a formação dos cidadãos brasileiros? É isso que me aflige…

Psi: Parece haver certa soberba da sua parte. Você não estaria se achando a última bolacha do pacote? Já lhe ocorreu que esse tipo de conhecimento pode vir por outros meios e por outras disciplinas?

História: Soberba, eu? Aí você está me desqualificando! Foi você que perguntou sobre o que me aflige.

Psi: Não me leve a mal. Meu papel é provocar.

História: Pois entrando na sua provocação, eu lhe pergunto: É possível compreender a psicanálise sem pensá-la historicamente? A psicanálise nasceu pronta, só tem presente? E ainda, é possível substituir o processo de análise por uma live de autoajuda com um coach no YouTube ou por um reel de 90 segundos sobre narcisismo no Facebook? Entende o que estou falando?

Psi: …

História: Pensar historicamente é fundamental para compreender a psicanálise ou qualquer outro tema. Compreender os processos de transformação e os motivos pelos quais chegamos aonde chegamos, no presente, amplia nossa perspectiva temporal, nos esquiva de uma visão fatalista, e é crucial para pensarmos alternativas e possibilidades de atuação em nosso tempo. No caso do conhecimento histórico escolar, qual componente curricular seria mais adequado para substituir a disciplina História: Empreendedorismo? Projeto de Vida? Retórica? Educação Financeira?

Psi: Entendo, entendo. Mas se essa disciplina é tão, por assim dizer, crucial, por que vem perdendo importância? Parece que você está tomada por uma certa obsessão persecutória.

História: Veja, estamos diante de um jogo, e no meu caso, estou dentro do jogo, diretamente implicada. Nesse momento de predominância de princípios neoliberais, e isso é historicamente verificável, o objetivo mal disfarçado é formar um sujeito neoliberal, que comungue com tais princípios, que se perceba como empreendedor de si mesmo, que considere o mercado como solução para todos os males e o estado como um problema a ser eliminado.

Nessa ótica é preciso formar um sujeito individualista que não se perceba como parte de um grupo ou classe social, um sujeito sem história, quase um ovni que pousou no aqui e agora. Considerando que a escola ainda tem um papel fundamental na formação de milhões de estudantes, as principais peças do jogo curricular (é esse o jogo!) estão sendo movimentadas pelas fundações e institutos privados. Isso explica por que certas disciplinas como História e Artes, por exemplo, perderam importância, pois são inúteis, nessa perspectiva neoliberal, e inventaram, literalmente, Empreendedorismo e Projeto de Vida.

Não é curioso que, de repente, assim do nada, do nadão!, alguém descobriu que é fundamental para os estudantes aprenderem a empreender? Descobriram a pólvora! Quase 38 milhões de estudantes brasileiros precisam aprender a empreender?! E fez-se o consenso nacional! Descobriram que História não serve para nada e que a grande lacuna educacional brasileira é Projeto de Vida! Os males do Brasil não são mais “muita saúva e pouca saúde”, como ironizou o Mário de Andrade, mas falta de empreendedorismo e de projeto de vida! Nossos problemas acabaram! Isto é um delírio! Você assistiu o filme O agente secreto?

Psi: Sim, assisti na semana passada. Ganhou dois prêmios no Globo de Ouro, né? Muito bom! Quem sabe o Oscar…

História: Lembra que o filme se passa nos anos 1970. Em certo momento há uma quebra temporal, há uma personagem do tempo presente, uma jovem pesquisadora, que parece ser estagiária do ensino superior, talvez de história. Essa jovem pesquisadora estagiária teve acesso a algumas fontes documentais, gravações e jornais daquele período, e se interessa pela história ali narrada.

Numa cena que me deixou emocionada, com os olhos marejados, essa jovem estagiária tem o lampejo do pesquisador que descobre indícios do passado nas fontes pesquisadas e vai atrás dessa história. Isso é… fascinante! Fico emocionada novamente, só de lembrar… Estou misturando tudo, né?

Psi: Deixe o seu inconsciente falar.

História: Quando vi o filme, nessa cena, não pude deixar de notar que essa personagem, feita pela jovem atriz Laura Lufési, tem o perfil e o fenótipo de muitas e muitos estudantes que ingressaram nas universidades com os programas REUNI e o ProUni, do MEC, nos anos 2000, que ampliaram o acesso ao ensino superior. Note que essa personagem, muito bem construída, é mulher, jovem, mãe, seu companheiro é um jovem negro, ela é mineira, mora em São Paulo e sua família é de Pernambuco, e tem um fenótipo mestiço de indígenas, negros e brancos.

E é justamente essa personagem que vai atrás das pistas do passado para compreender a história, é ela que procura lembrar do passado que os outros esquecem, como escreveu Eric Hobsbawn. É ela que considera importante não romper o contato com esses mundos perdidos do passado, como escreveu Robert Darnton. Eu posso estar muito enganada, mas penso que o recado tenha sido esse: As transformações que o Brasil precisa virão, não dos tecnocratas neoliberais, mas desses jovens que passaram a acessar a universidade nas últimas décadas.

Psi: Interessante, mas o que a deixou tão emocionada?

História: A lucidez! A lucidez! A lucidez alucina, escreveu a poeta Orides Fontela. Parece-me óbvio que não interessa à lógica neoliberal que esses estudantes saiam do lugar social que lhes foi destinado, não interessa que pensem o Brasil, estudem o Brasil, transformem o Brasil. Pelo contrário, é importante que esses sujeitos considerem que as transformações sociais dependem apenas e exclusivamente de seus projetos individuais e de sua capacidade empreendedora.

É necessário que esses quase 38 milhões de estudantes estejam investidos dessa ideologia neoliberal, que estejam disponíveis à precarização do trabalho, que se disponham a serem trabalhadores de aplicativos, em qualquer área, sem quaisquer direitos, e ainda se considerem empreendedores de si mesmos, sem passado e sem futuro.

Psi: Sei…

História: E para isso o conhecimento histórico, a disciplina história, é dispensável, mais que isso, é indesejável. E isso não é uma obsessão persecutória. E antes que você diga que eu estou me vitimizando…

Psi: Agora você deu para ler meus pensamentos?

História: (rs rs) Não é só o conhecimento histórico que se tornou dispensável. Também artes, sociologia, filosofia, literatura, educação física. Todas essas disciplinas e campos de conhecimento, com algumas variações entre os estados e as cidades, tornaram-se irrelevantes. Trata-se de um crime perfeito, pois aparentemente esses conhecimentos ainda constam nos documentos curriculares, na BNCC, mas como componentes curriculares, não mais como disciplinas, e tiveram sua carga horária reduzida. Ou seja, estes conhecimentos estão sem estar, sacou? Presença na ausência, uma representação. Enganosa!

Psi: Representação… Vamos parar por aqui. Até a próxima sessão.

4ª Sessão

Psi: Olá, tudo bem?

História: Sim, sim. Seguimos.

Psi: Muito bom…

História: Antes de começarmos, e já começando, queria fazer uma observação, só agora me dei conta de uma coincidência incrível. Seu nome, Dea, é o mesmo nome de uma grande referência no ensino de história no Brasil: Dea Fenelon. Já ouviu falar? Foi uma grande historiadora brasileira, entusiasta do ensino de história. Cruzei com ela algumas vezes nos anos 1980, 1990. Foi presidente da ANPUH, e hoje dá nome a um prêmio dessa mesma associação, voltado a professores de história da educação básica. consta que ela foi uma defensora da filiação de professores de história da educação básica como sócios da ANPUH. Uma grande figura. E é uma baita coincidência de nomes.

Psi: Talvez não seja exatamente uma coincidência. Entre algumas possibilidades de psicanalistas você fez uma escolha, afinal.

História: Confesso que não busquei muitas possibilidades. Consultei um amigo historiador que entende mais que eu de psicanálise e ele te indicou. E estou aqui. Simples assim.

Psi: Você é sempre assim, direta e reta, tipo, fatos são fatos?

História: Não. Não me vejo assim. Às vezes, até me vejo como mais complexa do que deveria. É certo que, às vezes, fico bem perturbada. Não posso negar, gosto de certa perturbação.

Psi: “Gosto de certa perturbação”. Vamos cortar aqui. Nos vemos na próxima sessão.

História: …

5ª Sessão

Psi: Boa tarde.

História: Na sessão passada eu usei a palavra “perturbação”, disse que gostava “de certa perturbação”. Você me cortou, não entendi muito bem, mas…, vá lá, pensei muito nisso.

Psi: Ótimo.

História: Penso que ao usar essa palavra, eu tenha tido um propósito mais filosófico que psicanalítico. Entendo que o que chamei de “perturbação” decorre de um deslocamento que provoca estranhamento sobre algo, e é condição central para o pensamento histórico. Não há conhecimento histórico, segundo meu entendimento, sem alguma perturbação, sabe?

No filme O agente secreto, que eu mencionei uns dias atrás, aquela personagem da jovem pesquisadora só se interessa pela pesquisa porque fica perturbada com os indícios que saltam das fontes documentais, sobre a ditadura militar, sobre um passado do Brasil que ela não viveu, mas que também é o passado de sua família pernambucana, que se conecta com sua história em São Paulo, onde ela vive com seu filhinho e marido, que é o passado de tantas pessoas anônimas, sujeitos históricos que desconhecem o que lhes ocorreu, é também a história da universidade brasileira, marcada por interesses nem sempre tão nobres.

Não é lindo isso? Eu acho isso lindo… Trata-se de uma perturbação tão grande que ela, a jovem pesquisadora, é lançada num novo fluxo temporal, ela é deslocada para um novo lugar que a faz enxergar coisas que antes não percebia. Isso é, a meu ver, a poíesis da história, o ato criativo. Fico até arrepiada ao falar disso.

Psi: Então fale mais sobre isso.

História: Penso que não apenas o conhecimento histórico surja dessa inquietação. Veja na psicanálise, Freud, Lacan, Melanie Klein e sei lá mais quem, não teriam pensado e criado o que pensaram e criaram se não tivessem tido alguma perturbação, por assim dizer. Isso vale para a sociologia, a física, a arquitetura, a literatura, a educação, a arte, e tantos outros campos do conhecimento. Foi nesse sentido que afirmei que “gosto de certa perturbação”. Entende? Falo de uma perturbação intelectual.

Psi: Entendo, entendo.

História: E mesmo no ensino de história na educação básica, há uma poíesis, um ato criativo. A escola, essa instituição frequentemente vista como local de mera reprodução do que vem de fora, produz uma cultura lhe é própria, é criativa, para o bem e para o mal. Também o professor de História pode provocar esse estranhamento no estudante. Mas receio que estejamos vivendo um momento em que essa possibilidade vem sendo estrangulada. É como se estivesse havendo um novo desaparecimento dos vagalumes, para usar a bela e lúgubre imagem do Pasolini.

Psi: Vagalumes? Não entendi.

História: É uma ideia que está num artigo de Pier Paolo Pasolini, publicado em 1975, eu acho. Ele diz que nos anos 1960, na Itália, com a poluição do ar e da água, os vagalumes começaram a desaparecer e, em poucos anos, tornaram-se apenas lembrança. Ele associa essa mudança à modernização da indústria, novos padrões de consumo e continuidade de um poder fascista democrata-cristão, o que teria marcado não apenas um novo tempo, mas uma nova era, como uma nova forma de civilização. Ele, a meu ver, teve esse lampejo poiético de que falei, essa perturbação, e associou essa mudança ao desaparecimento dos vagalumes. Bonito, né?

Psi: Sim. Muito bonito.

História: Ele ainda diz que mesmo os intelectuais mais críticos não perceberam o desaparecimento dos vagalumes. E que surgiram, inclusive, novas maneiras de se expressar, uma nova linguagem. Por isso fiquei pensando se não estaríamos vivendo algo similar, com novos discursos e práticas fascistas, capitalismo de nuvem, ampliação do poder das Big Techs, controle por algoritmos, hipercomunicação, pós-verdade. A própria forma escolar, hegemônica no século XX, foi abalada com a pandemia e as aulas virtuais. E, da mesma maneira, estamos às voltas com uma nova linguagem neoliberal, um novo léxico que foi incorporado até mesmo pela esquerda, que mistura companheiro com empreendedor. Está difícil de acompanhar.

Psi: Dificuldade para acompanhar as mudanças na linguagem. Fale mais sobre isso.

História: É que existe um novíssimo discurso neoliberal, inclusive no campo educacional. Muitas vezes são palavras novas aplicadas a práticas arcaicas. Um truque antigo, no qual muita gente ainda cai. E escola foi invadida por um léxico totalmente estranho ao ambiente: empreendedorismo, competências socioemocionais, excelência, capital humano, performance, gestão por resultados, produtividade, resiliência. Estudante virou cliente!

Por outro lado, às vezes tenho a impressão de que nos faltam palavras para explicar algumas dessas mudanças. Como uma afasia, sabe? São tantas mudanças, tão violentas e aceleradas, que não acompanhamos e não conseguimos explicar pela linguagem convencional. Veja o caso dessas reformas curriculares da última década. Foi, e tem sido, uma avalanche de mudanças tão grandes que nem mesmo os tecnocratas reformadores conseguem explicar, batem cabeça, operam ajustes semanais, corrigem erros com outros erros, editam medidas sem pé nem cabeça, de modo que os professores, educadores, pesquisadores, não encontram palavras que deem conta de dar algum significado a esses fatos.

Outro dia, aquele professor, o Antonio, taí um sujeito perturbado (rs rs), participou de uma banca de mestrado, em que o pesquisador e autor menciona algumas expressões que professores de história (só podia ser!) inventaram para se referir a essas reformas: “reforma-Frankestein” e “reforma-ornitorrinco”. Não é maravilhoso isso?!

São muito sagazes! Essas reformas são verdadeiros monstrengos, uma coisa esquisita, com partes que não se conectam, criadas por pessoas alheias à escola. Vamos e venhamos, alguém que propõe discutir Projeto de Vida com estudantes que sequer possuem material escolar, numa escola que não tem nem banheiro, não sabe o que é escola, não conhece a realidade do Brasil. É muita sordidez!

Alguém que propõe slides plataformizados e padronizados para milhões de estudantes de uma rede pública de ensino imensa e desigual, como é o caso do Paraná e de São Paulo, nunca pisou numa escola, não tem a menor ideia do que seja uma aula. O professor Antonio acabou criando uma expressão para explicar essa bizarrice curricular: “reforma-pombo”

Psi: Reforma-pombo?

História: É. Lembra daquela conversa sobre jogar xadrez com um “pombo bolsonarista”? O pombo desconhece e desconsidera as regras, derruba as peças, caga no tabuleiro e ainda se proclama vencedor. Pois, segundo ele, o Antonio, as reformas curriculares da última década foram feitas por pombos, técnicos de fundações privadas que não entendem nada de educação escolar.

Basta olhar nos sites das fundações privadas, o time (outra palavrinha da novilíngua neoliberal) é formado por economistas, administradores/as, jornalistas, engenheiros/as, advogados/as, contadores/as, todos “apaixonados por educação” (rs rs rs).

Esses pombos desconsideraram as inúmeras pesquisas feitas do campo educacional em diversas universidades nos últimos 60 ou 70 anos, desmontaram todo o sistema sem critério algum, inventaram trilhas formativas malucas e disciplinas alienígenas, desvalorizaram ou liquidaram disciplinas tradicionais (como é o caso de história), os professores (que são os que entendem de escola) não foram efetivamente consultados (só fizeram algumas consultas públicas burocráticas), ninguém consegue explicar como “a coisa” funciona, todo ano são feitas reformas dentro das reformas, e até o momento, passados 10 anos dessas reformas, não logrou nenhum resultado positivo.

Mas alguém tungou o dinheiro dos fundos públicos da educação! Ou seja, os pombos-tecnocratas desconhecem educação escolar, derrubaram as peças, cagaram no tabuleiro, pegaram a grana e anunciam que está tudo uma maravilha. Então é disso que eu estava falando, tenho a impressão de que essas metáforas jocosas, verdadeiros chistes, tentam dar conta daquilo que não conseguimos entender ou explicar. São tantas reformas e tão malucas, que temos dificuldade de saber se o que estão propondo é a sério, se alguém sabe o que está ocorrendo, se há um adulto na sala, e quem é a mente brilhante por trás desse…, desse…, dejeto curricular.

Psi: Nosso tempo acabou. Mas retornaremos ao chiste na próxima sessão.

*Antonio Simplicio de Almeida Neto é professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Autor, entre outros livros, de Representações utópicas no ensino de história (Ed. Unifesp) [https://amzn.to/4bYIdly]

Para ler o primeiro artigo dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/historia-no-diva/

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