Por que não aqui?

Gabriela Pinilla, Marcha de professoras, Ilustração de livro, Desenho digitalmente colorido, 2015, Bogotá, Colombia

Por VALERIO ARCARY*

O Brasil não “explodiu” ainda como a Colômbia

“Não desespere em meio as sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais escuras cai água límpida e fecunda”
(Sabedoria popular chinesa).

A explosão de imensas mobilizações de massas na Colômbia, realmente, gigantescas, unindo nas ruas a juventude, setores populares e setores das camadas médias provocou um impacto na esquerda brasileira. Por que não aqui?

A pergunta é legítima. Talvez não haja pergunta mais importante. Afinal a Colômbia está também sofrendo, dolorosamente, com a pandemia. A resposta nos remete às peculiaridades da situação reacionária que estamos sofrendo no Brasil e suas tendências de evolução.

A chacina na favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro, a mais mortífera operação policial registrada, em uma cidade em que as milícias mantém, historicamente, vínculos com o bolsonarismo desperta o horror. A morte de Paulo Gustavo pelo coronavírus, um dos mais populares comediantes do país, foi um choque na consciência de milhões de pessoas, e emocionou o país.

Desde março há um novo momento na conjuntura do país, com um enfraquecimento do governo Bolsonaro. O ápice da pandemia, o atraso na vacinação, a suspensão do aumento emergencial em dezembro, a anulação das condenações de Lula, a aprovação da suspeição de Moro, a permanência da contração econômica, o agravamento da crise social com uma escalada da miséria popular, entre outros acontecimentos, incidiram na mente de milhões, e estão deslocando as placas tectônicas das relações sociais e políticas de força entre as classes. Mas ainda não o bastante para que o Fora Bolsonaro possa levar milhões às ruas. Sim, o Brasil sempre foi complicado, mas está difícil.

O destino do governo Bolsonaro é, evidentemente, indivisível da evolução da pandemia, e suas sequelas econômicas e sociais. Acossado pela CPI no Senado, vigiado pelo Supremo Tribunal Federal, pressionado pelas frações mais poderosas entre os capitalistas, desgastado na juventude, debilitado nas camadas médias, e vendo que se avoluma na maioria dos trabalhadores e do povo a rejeição, o governo da extrema-direita vai enfraquecendo a cada semana, desde março.

A maioria dos mais de quatrocentos mil óbitos causados pela calamidade sanitária poderia ter sido evitada, e têm um responsável. A dinâmica da luta de classes está condicionada por mudanças que vêm se acumulando, lenta e crescentemente, na percepção de dezenas de milhões trabalhadores e jovens. Mas ainda não deu um salto.

Bolsonaro e Pazzuelo merecem, evidentemente, prisão. Bolsonaro precisa ser derrotado, deve ser julgado e preso junto com o general Pazzuelo. Mas nenhuma sociedade derruba o governo quando é necessário. Não há revoluções prematuras. O que prevalece na história não é a flexibilidade, plasticidade, ou mobilidade da mente humana, mas a rigidez psíquica e conservadorismo ideológico que perpetua expectativas diminuídas, esperanças reduzidas e perspectivas pequenas.

Há sempre um atraso, que pode ser maior ou menor, entre o apodrecimento das condições objetivas que exigem a queda do governo, e o despertar na consciência das classes populares de uma incontível paixão política. Um atraso terrível.

O Brasil ainda não explodiu como a Colômbia. Há várias hipóteses, e, provavelmente, elas se complementam. Em primeiro lugar não há sequer um setor da classe dominante que se posicione pelo impeachment. O manifesto dos quinhentos, uma expressão da fração mais rica dos capitalistas, sinalizou uma crítica pública à postura de Bolsonaro diante da pandemia, mas nada além disso. Mantém apoio à orientação econômica. Não há na burguesia brasileira ninguém que defenda a derrubada do governo. Não há, tampouco, uma maioria nos setores médios pela derrubada do governo. Os protestos de panelas nas janelas arrefeceram.

A luta pelo Fora Bolsonaro repousa, portanto, somente, na classe trabalhadora. Há quem sublinhe que as condições impostas pela peste inibem a disposição de mobilizações de massas, mesmo entre a juventude, pelo perigo do contágio. É um argumento, realmente, forte, porque os riscos não são irrelevantes. Ainda que tenha acontecido nas últimas duas semanas uma estabilização com ligeiro viés de queda, o patamar da pandemia é ainda o de um cataclismo sanitário. A peste é devastadora, e estamos cercados por muito medo.

Há quem valorize o peso da confusão, dúvida, insegurança na consciência dos setores organizados da classe trabalhadora, depois de cinco anos de acumulação de derrotas. O passado pesa e muito. Desde o impeachment em 2016, no auge da ofensiva da operação Lava-Jato, passando pelo início das contrarreformas, como a trabalhista e a lei de terceirizações, em 2017, com Michel Temer, até a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro, apoiado em uma corrente de extrema-direita com peso de massas, foram anos e anos de situação reacionária. E a destruição de direitos operada em quase dois anos e meio, com a reforma trabalhista e as privatizações, além do processo desmoralizador da pandemia à deriva. É um argumento forte, também.

Há quem ressalte que a percepção de eleições presidenciais em 2022 possa estar alimentando a ideia de que esse será o momento de medição de forças com o bolsonarismo, o que merece ser considerado.

Há, também, quem coloque a ênfase na ausência de convocação de mobilizações para as ruas por parte dos partidos de esquerda, sindicatos, Frentes e organizações populares, que desenvolvem intensa agitação e propaganda, mas somente no mundo virtual das redes sociais. É um argumento plausível, embora tentativas exploratórias tenham sido feitas, inclusive no recente 1º de maio, sem maior ressonância. Atos de vanguarda simbólicos têm sido o limite da capacidade de mobilização da esquerda sindical e popular. Ajudam a elevar a moral e poderão, em algum momento, cumprir o papel de centelha, faísca, chispa que incendeia a esperança de milhões.

Todos nos perguntamos, portanto: até quando? O que sugere a história do nosso país é que não há atalhos. Foi lento o desgaste do governo Figueiredo entre 1978 e 1983. Até que explodiram as Diretas Já em 1984. Foi lento o desgaste do governo Sarney entre 1985 e 1988, até que explodiu a greve geral em 1989, e a campanha eleitoral de Lula. Foi lento o desgaste do governo de FHC entre 1994 e 2002. Com Collor entre 1990/92 foi muito mais rápido, mas uma fração da burguesia apoiou o impeachment.

Até quando? Até o momento em que a experiência com o pesadelo se esgota, e o peso da catástrofe desmorona sobre a cabeça de milhões e impulsiona intensos saltos nas ideias e sentimentos. A esquerda não deve desesperar. O desespero não pode ser uma bússola. Nossa aposta é que a classe trabalhadora, a juventude e as camadas populares irão se levantar.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).