Genealogia da episteme da modernidade dependente

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Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*

Síntese latino-americana que reconstrói o materialismo histórico a partir da dependência, revelando um tempo futuro bloqueado pela financeirização

A episteme da modernidade dependente não surge como inovação isolada nem como simples renomeação de tradições anteriores. Ela resulta de um processo cumulativo de elaboração teórica e investigação empírica desenvolvido ao longo de décadas de pesquisa sobre universidade pública, produção do conhecimento e capitalismo periférico. Sua emergência pode ser compreendida como momento de síntese de deslocamentos sucessivos no interior do pensamento social latino-americano.

O primeiro deslocamento decisivo encontra-se na tradição marxista. A ontologia social de Karl Marx estabeleceu a necessidade de compreender a sociedade como totalidade historicamente determinada (Marx, 2013). György Lukács radicalizou essa perspectiva ao demonstrar que a totalidade constitui princípio metodológico indispensável à compreensão da realidade social (Lukács, 2012). A produção do conhecimento não pode iniciar-se pela fragmentação do real, mas pela reconstrução de suas mediações fundamentais.

O segundo deslocamento ocorre com a teoria marxista da dependência. Autores como Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos demonstraram que o capitalismo periférico não constitui etapa incompleta do desenvolvimento, mas forma estrutural da acumulação mundial (Marini, 1973; Bambirra, 1978; Santos, 2000). A dependência deixou de ser interpretada como atraso e passou a ser compreendida como mediação constitutiva do capitalismo global.

O terceiro deslocamento emerge com a crítica da razão dualista formulada por Francisco de Oliveira (2003). Ao demonstrar que a modernização reorganiza a desigualdade em vez de eliminá-la, a razão dualista revelou a coexistência funcional entre modernização e precariedade. A heterogeneidade estrutural deixou de ser interpretada como anomalia transitória e passou a ser reconhecida como forma histórica persistente.

O quarto deslocamento ocorre com a incorporação da colonialidade do poder, que evidencia a dimensão epistemológica da dependência (Quijano, 2005). A dominação passa a ser compreendida também como produção de critérios de verdade e hierarquias de conhecimento.

A episteme da modernidade dependente emerge da convergência desses deslocamentos. Sua formulação definitiva, contudo, ocorreu no interior de um programa de pesquisa dedicado à universidade pública e à produção do conhecimento nas sociedades dependentes. A universidade tornou-se laboratório privilegiado dessa elaboração. O estudo do trabalho docente, da avaliação científica e da internacionalização da pesquisa revelou a necessidade de reconstruir o materialismo histórico sob as condições da modernidade dependente.

A EPISTEME DA MODERNIDADE DEPENDENTE NASCE, PORTANTO, DA ARTICULAÇÃO Entre longa maturação teórica e experiência intelectual situada. Trata-se da passagem de uma teoria da dependência centrada na economia política para uma episteme capaz de articular economia, instituições, temporalidade histórica e produção do conhecimento.

Método da episteme da modernidade dependente

A episteme da modernidade dependente não constitui apenas conjunto de categorias analíticas; ela propõe deslocamento metodológico no modo de produzir conhecimento. Esse deslocamento decorre do princípio da totalidade presente no materialismo histórico (Marx, 2013; Lukács, 2012). Se a realidade social é produzida por múltiplas mediações interdependentes, a investigação não pode iniciar-se pela fragmentação empírica do real.

O método parte da reconstrução da totalidade histórica e reencontra o empírico como momento dessa totalidade. Trata-se de inversão em relação ao fluxo dominante de produção científica, que geralmente se inicia pela delimitação de objetos empíricos especializados.

O percurso metodológico articula quatro momentos. O primeiro consiste na reconstrução da totalidade histórica e das mediações estruturais contemporâneas. O segundo consiste na escolha de uma forma social específica – universidade, saúde, previdência ou fundo público – na qual a totalidade se manifesta empiricamente. O terceiro consiste na articulação entre investigação empírica e reconstrução teórica. O quarto consiste na incorporação de fontes culturais e literárias como registros da experiência histórica (Sevcenko, 1983).

O resultado é a produção de conhecimento elucidativo: conhecimento orientado à reconstrução das mediações históricas que tornam determinados fenômenos possíveis.

Agenda de pesquisa

A episteme da modernidade dependente constitui programa de pesquisa aberto. Seu campo inicial foi a universidade pública, cuja investigação permitiu compreender a financeirização institucional, a reorganização do tempo de trabalho e a transformação da subjetividade acadêmica.

A agenda amplia-se para o sistema de saúde, para a previdência social e para o fundo público. Reformas sucessivas reorganizam continuamente o presente, enquanto a gestão fiscal passa a ser orientada pela credibilidade financeira (Marx, 2013). A expansão de métricas e indicadores revela a difusão da avaliação permanente como característica transversal da vida social contemporânea.

A subjetividade dos quadros torna-se dimensão transversal dessa agenda. A reorganização do trabalho intelectual permite compreender os efeitos subjetivos da financeirização e do tempo histórico bloqueado.

A incorporação da literatura constitui deslocamento epistemológico deliberado. A experiência social do tempo não se encontra integralmente registrada em documentos institucionais. A literatura registra sensibilidades coletivas e atmosferas históricas emergentes (Sevcenko, 1983).

Narrativas literárias frequentemente antecipam diagnósticos teóricos, registrando experiências de espera, repetição e promessa adiada. A literatura torna visível aquilo que a teoria posteriormente conceitua como razão dualista e bloqueio do tempo histórico.

A episteme da modernidade dependente propõe, assim, articulação entre teoria social, análise institucional e sensibilidade histórica. Produzir conhecimento passa a significar reconstruir a totalidade social em suas dimensões econômicas, institucionais, culturais e existenciais.

A compreensão do tempo histórico bloqueado torna-se incompleta se não for articulada à categoria marxiana de capital fictício. Em O capital, Marx demonstra que o capital portador de juros constitui forma específica de autonomização do valor, na qual o dinheiro aparece como capaz de produzir mais dinheiro independentemente do processo produtivo (Marx, 2013). Ações, títulos e papéis financeiros representam direitos sobre renda futura. São capital porque prometem rendimento; são fictícios porque representam valor ainda não produzido.

Essa característica altera profundamente a relação entre presente e futuro. No capitalismo industrial, o futuro aparece como expansão das forças produtivas. No capitalismo financeirizado, o futuro torna-se objeto de antecipação econômica. O valor esperado passa a ser negociado no presente.

O futuro deixa de ser apenas horizonte histórico e transforma-se em ativo financeiro. Essa transformação atinge diretamente o fundo público. A dívida pública constitui uma das formas centrais de capital fictício. Títulos da dívida representam compromissos de pagamento futuro garantidos pelo Estado. A gestão orçamentária passa a ser orientada pela credibilidade financeira, pela estabilidade fiscal e pela previsibilidade institucional.

O futuro torna-se compromisso já contratado. Nesse contexto, o fundo público deixa de ser apenas instrumento de políticas sociais e passa a operar também como garantia de rendimentos financeiros. A política econômica passa a organizar-se em torno da administração permanente da escassez. Reformas fiscais, previdenciárias e administrativas tornam-se recorrentes, pois o equilíbrio prometido precisa ser continuamente reafirmado.

Essa reorganização produz transformação profunda da temporalidade histórica. Se o futuro é permanentemente antecipado por compromissos financeiros, ele deixa de operar como horizonte aberto de transformação coletiva. O futuro continua existindo como categoria econômica, mas enfraquece como categoria política e social.

O presente transforma-se em gestão contínua de compromissos com o futuro já antecipado.

É nesse ponto que emerge o conceito de tempo histórico bloqueado. O presente deixa de ser vivido como transição e passa a ser experimentado como permanência administrada (Arantes, 2014). Reformas sucedem-se, políticas se transformam e instituições se reorganizam, mas a experiência histórica permanece marcada pela repetição.

O futuro permanece como promessa discursiva, mas perde consistência como experiência coletiva. A ruptura entre esforço presente e expectativa futura produz efeitos sociais profundos. Nesse contexto tornam-se compreensíveis as chamadas mortes por desespero – suicídio, alcoolismo e abuso de drogas associados à perda de horizonte social (Case; Deaton, 2020).

O bloqueio do tempo histórico não significa ausência de transformação institucional. Significa transformação sem abertura histórica equivalente.

Lucidez como categoria da episteme da modernidade dependente

A formulação do tempo histórico bloqueado conduz à categoria da lucidez. A lucidez não constitui postura pessimista nem disposição subjetiva individual. Ela designa forma histórica de consciência que emerge quando o bloqueio do futuro deixa de ser percebido como crise passageira e passa a ser reconhecido como estrutura histórica.

Na tradição marxista, a consciência é compreendida como produto das mediações sociais (Lukács, 2012). A episteme da modernidade dependente amplia essa tradição ao propor que determinadas formas históricas de consciência tornam-se possíveis apenas em contextos específicos. A lucidez emerge quando a promessa histórica deixa de organizar a experiência social do tempo.

Produzir conhecimento passa a significar tornar inteligível aquilo que a sociedade já vive de forma difusa. A lucidez constitui, assim, categoria central da episteme. Produzir conhecimento deixa de significar anunciar futuros inevitáveis e passa a significar compreender o presente que se reproduz.

A episteme da modernidade dependente afirma que, em contextos de bloqueio do futuro, compreender torna-se forma de ação histórica.

O bloqueio do tempo histórico não significa ausência de transformação institucional. Significa transformação sem abertura histórica equivalente.

Conclusão

A episteme da modernidade dependente reconstrói o materialismo histórico sob as condições contemporâneas da dependência, articulando totalidade marxiana, tradição latino-americana da dependência e crítica da razão dualista. A dependência deixa de ser apenas fenômeno econômico e passa a ser compreendida como forma histórica que atravessa instituições, produção do conhecimento e experiência social do tempo.

Universidade, saúde, previdência e fundo público mostram que reformas continuam a ocorrer sem produzir abertura histórica equivalente. A razão dualista evidencia a coexistência entre modernização e precariedade (Oliveira, 2003), enquanto o capital fictício revela a captura antecipada do futuro pelo presente (Marx, 2013), configurando o tempo histórico bloqueado (Arantes, 2014).

O futuro permanece como promessa discursiva, mas perde consistência como horizonte coletivo, produzindo efeitos sociais profundos, entre eles as mortes por desespero (Case; Deaton, 2020). A universidade torna visível essa transformação ao reorganizar o trabalho docente sob avaliação permanente.

Nesse contexto, a lucidez emerge como forma histórica de consciência (Lukács, 2012), reforçada pela literatura como registro da experiência histórica (Sevcenko, 1983). Produzir conhecimento torna-se exercício de lucidez diante do bloqueio do futuro.

João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

Referências

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.

BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

CASE, Anne; DEATON, Angus. Deaths of Despair and the Future of Capitalism. Princeton: Princeton University Press, 2020.

LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2012.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. México: Era, 1973.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

SANTOS, Theotonio dos. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.

SOHN-RETHEL, Alfred. Trabalho intelectual e trabalho manual: uma crítica da epistemologia. São Paulo: Boitempo, 1989.

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