Dissertação sobre o Republicanismo

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Por Everaldo de Oliveira Andrade e Jean Pierre Chauvin*

A crise múltipla que transborda em nosso entorno tem e terá um impacto profundo dentro e fora de cada um de nós, mas também no conjunto das instituições que organizam nossas sociedades

“O Eu tem a tarefa de cumprir as solicitações das três instâncias com que lida – a realidade, o Id e o Super-Eu” (Sigmund Freud, A Técnica Psicanalítica)

A cena talvez seja familiar.

Imagine que dois colegas estejam a conversar sobre leituras fundamentais em seu tempo. A certa altura, um deles, conhecedor de Karl Marx, afirma desconfiar da psicologia, supondo que essa teoria se circunscreve à dimensão psíquica e se limita à órbita individual do homem. Seu interlocutor, que mais leu Sigmund Freud, replica. Sugere que as anomalias da sociedade, premida pela sanha de poder e a ilógica pecuniária, não podem desprezar relações entre o sujeito e o coletivo de que participa, como ator e paciente.

Descontado o tom anedótico do episódio, ele é mais frequente do que se imagina. É possível que a leitora, o leitor se ria(m), especialmente se se lembrarem de que Freud foi um dos primeiros a considerar a coexistência de duas instâncias de confronto do Eu: uma, no nível psicológico; outra, no âmbito exterior. A hipótese de que a psicologia seria uma ciência alheada à discussão social seria facilmente contestada se o leitor que a desconhece fosse apresentado aos ensaios que Freud escreveu entre 1914 (“Introdução ao Conceito do Narcisismo”) e 1940 (“Compêndio de Psicanálise”). Para encaminhar a discussão, indicamos dois textos que embasam a Psicologia Social: Materialismo Dialético e Psicanálise (1929), de Wilhelm Reich, e “Mal-Estar na Civilização”, de Sigmund Freud (1930). Para o primeiro:

Como qualquer fenômeno social, a psicanálise está ligada a uma etapa determinada do desenvolvimento histórico; igualmente, sua existência está determinada pelo grau de desenvolvimento dos meios de produção. Assim como o marxismo, é produto da época do capitalismo mas não mantém uma relação tão imediata com a base econômica da sociedade, como aquele; mas, as suas relações mediadas podem se estabelecer claramente: a psicanálise é uma reação face às condições culturais e morais em que vive o indivíduo socializado (Reich, 1970, P. 69).

De acordo com o segundo:

Mais enérgico e radical é um outro procedimento, que enxerga na realidade o único inimigo, a fonte de todo sofrimento, com a qual é impossível viver e com a qual, portanto, devem-se romper todos os laços, para ser feliz em algum sentido. O eremita dá as costas a este mundo, nada quer saber dele. Mas pode-se fazer mais, pode-se tentar refazê-lo, construir outro em seu lugar, no qual os aspectos mais intoleráveis sejam eliminados e substituídos por outros conformes aos próprios desejos (Freud, 2018, p. 37).

Depois deles, alargadas as bases da Psicologia Social, recomendamos a leitura de dois ensaios publicados em 1955: Eros and Civilization, de Herbert Marcuse, e The Sane Society (traduzido, no Brasil, como Psicanálise da Sociedade Contemporânea), de Erich Fromm. No “Prefácio Político” à edição de 1966, Marcuse (1982, p. 7) recordava que: “Na sociedade afluente, as autoridades raramente se veem forçadas a justificar seu domínio. Fornecem os bens; satisfazem a energia sexual e agressiva de seus súditos. Tal como o inconsciente, cujo poder destrutivo representam com tanto êxito, estão aquém do bem e do mal, e o princípio de contradição não tem lugar na sua lógica. Como a sociedade afluente depende cada vez mais da ininterrupta produção e consumo do supérfluo, dos novos inventos, do obsoletismo planejado e dos meios de destruição, os indivíduos têm de adaptar-se a esses requisitos de um modo que excede os caminhos tradicional.”Por sua vez, Fromm (1976, p. 164) alertava para a doença do consumismo: “Outro aspecto do nosso sistema econômico, a necessidade do consumo em massa, teve um papel instrumental na criação de um traço do caráter social do homem moderno, que constitui um dos contrastes mais surpreendentes com o caráter social do século XIX. Refiro-me ao princípio de que todo desejo deve ser satisfeito imediatamente, e nenhum deve ser frustrado. A ilustração mais óbvia desse princípio nos é dada pelo nosso sistema de compras a prazo”.

As patologias dos indivíduos, isolados ou em convívio social, tornaram-se pautas mais recorrentes no período chamado entreguerras, e se combinavam a diagnósticos psicossociais, após a derrota dos nazistas em 1945. De Jacques Lacan a Edgar Morin; de Guy Debord a Michel Foucault; de Henri Lefebvre a Jean Baudrillard, palavras-chave como “resignação”, “padronização de comportamento”, “contradição”, “opressão”, “cisão”, “dissociação” etc., relacionavam-se a um tripé constituído pelo automatismo humano – o que explicaria a transformação do sujeito em “cibertropo”, como propôs Lefebvre em Posição: contra os tecnocratas (1968); a violência institucional e os variados modos de “interdição”, como explicou Foucault em A Ordem do Discurso (1977); e a compensação prazerosa do consumismo desenfreado, como motor da felicidade-proprietária, a distinguir quem (de)tinha de quem não poderia fazê-lo. Sintoma de uma sociedade fragmentária, superficial e superexposta, que não unia pessoas, mas justapunha células narcisistas – como mostrou Debord em A Sociedade do Espetáculo (1967). Em 1989, David Harvey (2010, p. 207) avançou nas discussões em torno da “pós-modernidade”, sob a rubrica de que: “Em primeiro lugar, quem define as práticas materiais, as formas e o sentidos do dinheiro, do tempo ou do espaço fixa certas regras básicas do jogo social (…) a hegemonia ideológica e política em toda sociedade depende da capacidade de controlar o contexto material da experiência pessoal e social”.

Transcrevemos algumas palavras, dizemos essas coisas porque temos indagações a fazer: 1. Até que ponto o zelo republicano tem sido eficaz na contestação do autoritarismo e negacionismos que sufocam o país? 2. Seria o excesso de republicanismo um sintoma da autocensura, exercida justamente por aqueles que estão na linha de frente das instituições de classe, como sindicatos e associações de categorias profissionais?

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A crise múltipla que transborda em nosso entorno tem e terá um impacto profundo dentro e fora de cada um de nós, mas também no conjunto das instituições que organizam nossas sociedades. Esse “mal-estar” que muitos sentem, esse incômodo com o mundo, isso é sentido pelo indivíduo e em suas relações sociais mais amplas. Não é certamente apenas mais uma economia ou política conjuntural e passageira. A incapacidade do capitalismo e dos “mercados” em dar soluções para o imenso desastre humanitário é reveladora de uma crise civilizacional. Seus impactos já estão em nossos cotidianos mais próximos e aparentemente insignificantes e pessoais. Os psicólogos parecem ter construído os melhores instrumentos ou sensibilidades analíticas para captar essas mudanças mais sutis ou imperceptíveis da realidade política e econômica das sociedades.

Textos luminares de Freud e Reich sobre o período de ascensão dos fascismos europeus nas décadas de 1920 e 1930 tornaram-se referências. Em grande medida proféticos, pela sensibilidade e argúcia de seus argumentos, também se debruçaram com originalidade sobre o fenômeno político e econômico da primeira grande crise do capitalismo no século XX. Freud escreveu na virada da grande crise de 1929, seu “O Mal-estar da civilização” finalizado em 1931 e tendo bem presente a perigosa ofensiva das hordas nazistas na Alemanha. Freud já assinalava as religiões como delírios coletivos e como tentativas de se obter a certeza da felicidade e proteção contra os sofrimentos. Também retomava em uma dimensão mais ampliada a busca de um poderoso Pai protetor que poderia se ampliar para uma dimensão coletiva, buscando tecer possibilidades analíticas de utilização de conceitos psicanalíticos para se explicar o desenvolvimento histórico das civilizações. Mas a questão central que o preocupava era a crise social e política de então e como explicá-la: “A civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto… Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização… O homem trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.” (…) “A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação da sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição…”.

Pouco depois, foi Reich quem dedicaria seu “Massenpsychologie des Faschismus” em 1933 ao tema, depois reeditado em Nova York com novos acréscimos em 1946 como “The Mass Psychology of Fascism”. Ele também destacava que o problema do fascismo não seria unicamente uma questão sócio-política, mas também dizia respeito à organização dos nossos instintos, por exemplo, na repressão da vida amorosa dos homens e mulheres. Uma doença ou distúrbio social provocado por uma ruptura mais profunda que seria preciso investigar em maior amplitude.

Nessa mesma perspectiva, uma das abordagens mais interessantes que investigou considerava o fascismo de uma perspectiva psicológica e social – como um fenômeno de “falsa consciência” (ver J. Gabriel, La fausse conciense) – e o apresenta como acompanhado de uma perspectiva de degradação das temporalidades e da própria historicidade, sob a valorização do “eterno”, de um “fim da história” (“A Roma eterna” de Mussolini, o III Reich nazista, o “Reino dos céus”…): irracional, anticientífico e místico-religioso, talvez, comparável a certo discurso vigente no Brasil atual. Um mundo paralelo ou uma espécie de esquizofrenia coletiva?

As explicações de cunho psicológico foram acompanhadas com grande interesse pelos círculos revolucionários marxistas das décadas de 1920 e 1930. Freud, no ensaio já citado, mantém as portas abertas para a solução socialista, ainda que não adira e apoie abertamente a revolução. Por outro lado, na URSS anterior à ditadura stalinista, havia vivo interesse pela psicanálise. O caráter incipiente da psicanálise como ciência não convencera o então líder Vladimir Lênin, que pouco tempo teve para se envolver com o tema sob aquela perspectiva.

Foi Leon Trotsky que travou contatos com o grupo freudiano, em desenvolvimento na nascente URSS, com interesse em uma psicologia materialista. Naquele período, aprovaram o aborto, a liberdade sexual, o casamento civil, o divórcio, a ampliação e reconhecimento dos direitos das mulheres. Se isso foi positivo para o impulsionamento da psicanálise na Rússia, essas reflexões motivaram depois, durante o período stalinista, perseguições. A psicologia era considerada uma teoria burguesa, individualista ou biológica, não mais compatível com a revolução socialista. Isso também correspondeu às medidas de repressão sexual e puritanismo que se seguiram nos anos 1930 em diante, na URSS.

Sigmund Freud torna-se um perseguido e fugitivo do nazismo, na década de 1930. E Leon Trotsky também busca sobreviver nessa mesma década infame, mas também vibrante, à sanha vingativa do stalinismo. A caricatura stalinista do marxismo criou, na época, muitos obstáculos a estes diálogos necessários entre marxismo e psicanálise. No final da década há um texto luminoso escrito por Trotksy a seis mãos com André Breton e Diego Rivera, o “Manifesto por Uma Arte Revolucionária e Independente”, que revela em 1938, os ricos diálogos do marxismo com a psicologia:

5 – Sob a influência do regime totalitário da U.R.S.S. e por intermédio dos organismos ditos “culturais” que ela controla nos, outros países, baixou no mundo todo um profundo crepúsculo hostil à emergência de qualquer espécie de valor espiritual. Crepúsculo de abjeção e de sangue no qual, disfarçados de intelectuais e de artistas, chafurdam homens que fizeram do servilismo um trampolim, da apostasia um jogo perverso, do falso testemunho venal um hábito e da apologia do crime um prazer. A arte oficial da época stalinista reflete com uma crueldade sem exemplo na história os esforços irrisórios desses homens para enganar e mascarar seu verdadeiro papel mercenário. (…)

7 – A revolução comunista não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que se podem fazer sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação não pode ocorrer senão como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas. Essa única conjuntura, a não ser pelo grau de consciência que resta adquirir, converte o artista em seu aliado potencial. O mecanismo de sublimação, que intervém em tal caso, e que a psicanálise pôs em evidência, tem por objeto restabelecer o equilíbrio rompido entre o “ego” coerente e os elementos recalcados. Esse restabelecimento se opera em proveito do “ideal do ego” que ergue contra a realidade presente, insuportável, os poderes do mundo interior, do “id”, comuns a todos os homens e constantemente em via de desenvolvimento no futuro. A necessidade de emancipação do espírito só tem que seguir seu curso natural para ser levada a fundir-se e a revigorar-se nessa necessidade primordial: a necessidade de emancipação do homem.

A biografia inacabada de Stálin, escrita por Trotsky, é apontada também como um exemplo interessante destas interações e diálogos com a psicologia. E por que falamos afinal de Trotsky e de Freud? Ambos viveram e morreram em um momento da história que o escritor Victor Serge chamaria de “a meia noite do século”. O abismo que se avizinhava, cada vez mais profundo na década de 1930-1940, era sentido e afetava não apenas os seres humanos supostamente mais sensíveis, cultivados ou aculturados, mas cada singelo pescador, coveiro ou operário de fábrica.

*Everaldo de Oliveira Andrade é professor do Departamento de História da USP.

*Jean Pierre Chauvin é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Referências

BRETON A., Rivera D., Trotski L., Manifesto Por uma arte revolucionária e independente, 1938. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/breton/1938/07/25.htm – Acesso em 26.4.2020.

DEBORD, Guy. La Société du Spetacle. Paris: Gallimard, 2017.

FOUCAULT, Michel. L’Ordre du Discours. Paris: Gallimard, 2016.

FREUD, Sigmund. “O Mal-Estar na Civilização”. In: Obras Completas, vol. 18. 7ª reimp. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, pp. 14-122.

_____. “Compêndio de Psicanálise”. In: Obras Completas, vol. 19. 1ª reimp. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, pp. 190-273.

FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 8ª ed. Trad. L. A. Bahia; Giasone Rebuá. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.

GABEL, Joseph. La fausse conscience. L’Homme et la société, n. 3, Paris, pp. 157-168, 1967.

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna: uma Pesquisa sobre as Origens da Mudança Cultural. 19ª ed. Trad. Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

LEFEBVRE, Henri. Posição: Contra os Tecnocratas. Trad. T. C. Netto. São Paulo: Editora Documentos, 1969.

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.

REICH, Wilhelm. Materialismo Dialéctico y Psicoanálisis. Trad. Renate von Hafsstengel de Sevilla. México [D. F.]: Siglo XXI Editores, 1970.

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