Por PAULO GHIRALDELLI*
O livro de Haddad revela uma desconexão entre o ministro experiente e o acadêmico: falta a reflexão madura sobre a simbiose entre capital financeiro e capitalismo de plataforma que ele vive no dia a dia
1.
Como articulador político, Fernando Haddad viabilizou a candidatura de Lula em 2022, mesmo em um cenário difícil. Trouxe Geraldo Alckmin para a coligação com o PT. A união de PSDB e PT era um sonho de certa elite paulistana de esquerda. O PSDB de Covas deveria estar com o PT, mas FHC e José Serra sempre atrapalharam tudo. Fernando Haddad esperou FHC e José Serra ficarem menos ativos e consertou o eixo da história.
Como ministro da Fazenda, Fernando Haddad deu as condições básicas à candidatura de Lula, agora em 2026. Ele se saiu bem em seu dia-a-dia no jogo de empurra com o mercado financeiro de um lado e os compromissos sociais do PT do outro. Duvido que existia alguém mais capaz para o cargo que Fernando Haddad, levando em conta o que Lula desejava fazer e podia fazer.
Caso não bastasse esse dois feitos, que em si têm um valor inestimável para a história da esquerda no Brasil e, enfim, para nós todos brasileiros, Fernando Haddad continuou mostrando duas qualidades que o sustentam digno na política: lealdade ao seu coordenador político, Lula, e lealdade aos seus próprios princípios, de linhagem social-democrata autêntica. É uma ave rara. Uma pessoa incapaz de perseguir alguém ou guardar rancor. E ele não precisa de nenhum esforço para fazer isso, é de sua natureza.
Fernando Haddad não requer de mais nada em sua biografia. Não precisa mesmo! Mas sua insistência em ser também escritor acadêmico, no meio dessas atribulações de político, o atrapalham. Filósofo social é filósofo social, político com tempo contado é outra coisa. Fernando Haddad tem desprezado essa pequena sabedoria, a de que livro é algo que precisa de ruminação, e a cada época de campanha aparece com uma publicação. Resultado: o texto fica aquém do autor. Dá noite de autógrafo, mas não dá caminho para ele mesmo, o autor.
O livro que Fernando Haddad acaba de lançar, Capitalismo superindustrial, é um conjunto de textos do passado, feitos em função de sua formação para se tornar mestre e doutor. Eu conhecia a maior parte dos capítulos. O que ele apresenta de inédito, o capítulo 12, deveria deixar o leitor saber qual a narrativa teórica de Fernando Haddad para explicar o capitalismo atual, que ele, a meu ver, estranhamente, chama de “superindustrial”.
É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. Mas, o título é o de menos. O que salta aos olhos de um leitor como eu é outra coisa.
2.
A vida de Fernando Haddad é a do homem que faz uma luta de esgrima com o capitalismo financeiro, dando estocadas e tomando estocadas, mas, ao sentar para escrever, esse quotidiano desaparece, e ele narra a sua experiência com o capitalismo por meio de resenhas de algumas abordagens que falam de nossa época como sendo exclusivamente a do capitalismo cognitivo.
Nisso, senti uma pegada de estudante, não de um autor maduro, na altura do político Fernando Haddad. Ele leu e resumiu, não exibiu uma reflexão sobre o que leu. Mas, principalmente, não deu atenção para o que viveu – ele é o ministro da Fazenda! Não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro. Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro, sendo que o segundo precisa da velocidade e precisão do primeiro e este se fez pelo impulso de investimento do segundo.
Vou resumir de modo máximo o imbróglio de nossos tempos. Com o final do Acordo de Bretton Woods, o dólar, moeda mundial, perdeu lastro. Houve um flexibilização geral de câmbio, de gerências empresariais e de organização trabalhista. O neoliberalismo se tornou a capa política e legal para que a lógica das bolsas e dos “papeis” pusesse o “capital fictício” (Marx) em comando do capital em geral.
Dinheiro passou a gerar dinheiro, de modo semimetafísico, ou seja, com poucos pés na terra. A mercadoria tradicional ficou secundária no âmbito da acumulação. E eis que a internet (e agora a Inteligência artificial) veio a calhar no sentido de dar o ambiente necessário para a virtualização do dinheiro e dos negócios, fazendo com que a velocidade do capital, que tende a zero, realmente seguisse seu destino.
Assim, o capitalismo cognitivo é algo que não se explica por ele mesmo, mas somente em sua simbiose com a expansão e domínio do mercado financeiro. Atualmente, se falamos em GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Meta), devemos antes de tudo falar na primolândia de Wall Street. Quando falamos de Inteligência artificial incentivada por Big Techs, todo o assunto gira ao redor da ampliação de algo que se chama nova bolha financeira, e não propriamente em robôs.
E se há necessidade de minérios chamados “terras raras”, isso mais ainda invoca o capital das finanças e sua a lógica extrativista. Fernando Haddad até cita a Black Rocks, mas como um dado a mais do que colheu nos resumos do que leu. Passou por cima do que viveu como ministro da Fazenda, que é a lida com as finanças, não com o “cognitariado”. Aconteceu aí uma espécie de escrita não reflexiva.
3.
Em alguns momentos, por causa de sua leitura das teses do “tecnofeudalismo”, ele ainda consegue notar que o aparato de extração do excedente, no “capitalismo cognitivo”, é de caráter rentista. Então, ele acerta, há renda e não lucro. Mas ele realmente não pensou bem sobre isso, não percebeu que para descrever o nosso momento atual, tinha que ir para o interior das teias que fundem capitalismo financeiro e capitalismo cognitivo.
Não vendo a simbiose apontada, Fernando Haddad acabou se atropelando, não podendo então descer para aquilo que, aparentemente, seria o seu mais efetivo interesse: a mudança das subjetividades, a configuração da alma do trabalhador e, então, as possibilidade ou não de novos sonhos de emancipação que são atinentes a ideais de esquerda.
O livro termina de forma um tanto que ingênua, pondo esperanças em cima de frases vazias. Na verdade, Fernando Haddad sentiu a falta de rumo, e isso aparece no livro. Tem surgido também em suas falas: “não acredito que a humanidade vá ficar parada”.
Esse caminho, o de notar as subjetividades dessa nossa época, foi iniciado pelo artigo seminal de Gilles Deleuze, ainda de antes da internet ter se popularizado, e que recebeu o nome de “sociedade do controle”. E a sugestão de Gilles Deleuze tem a ver com os insights que pessoas como Fernando Haddad eu podemos ter: siga o dinheiro e lhe direi o que está acontecendo com a alma humana. Nossa leitura de Karl Marx nos capacita para ver com bons olhos essa sugestão de Gilles Deleuze.
Nós todos, pessoas desse começo de século, nos volatizamos de acordo com o dinheiro, e por isso nosso trabalho foi junto, tornando-se tendencialmente mais articulado ao conhecimento e informação. O dinheiro se tornou sinal magnético que corre o mundo, e as elites do mundo seguiram essa lógica.
Vivemos hoje, então, a época de uma burguesia sem burgo. As burguesias nacionais se desinteressaram pelos seus estados e suas nações. As elites econômicas deixaram de ter programas para seus estados capazes de receberem o título de “programas nacionais”. Passaram a viver segundo interesses mesquinhos, que espelham o sistema descorporificado e alheio às cidades e ao chão dos países. Esse sistema é instituído pelo mercado financeiro.
O curto prazo invade todo e qualquer espírito. Daí que a política vira um resto, uma sobra para figuras estranhas ao caminho nacional tradicional: um Jair Bolsonaro no Brasil e um Donald Trump nos Estados Unidos. Concomitantemente, os trabalhadores integram a rede neoliberal. Seguem o lema do “seja o empresário de si mesmo”. Primeiro, começam a acreditar que precisam, nas escolas, da disciplina “empreendedorismo”. Nem bem isso se institui e já aparece outra moda: “educação financeira”.
Paralelamente cresce a conversa dos “influencers”, picaretas que sabem de tudo e, portanto, não sabem de nada, e que cultivam a noção de que não vale mais nada “ser trabalhador”. E se há alguma rebeldia, então, que se substitua o professor pelo policial aposentado analfabeto. É nesse contexto que se tem de estudar os caminhos de um partido de esquerda. Fernando Haddad não chegou nisso. Sendo candidato novamente, não chegará.
Para terminar, não vou deixar de jogar a minha sardinha para o gato, sem qualquer pudor: também eu fiquei enroscado nisso em que está Fernando Haddad, durante um tempo. A superação veio quando consegui terminar o Capitalismo 4.0. Eu li o livro do Fernando Haddad, vou torcer para ele ler o meu.
*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].
Referência

Fernando Haddad. Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum. Rio de Janeiro, Zahar, 2026, 454 págs. [https://amzn.to/4a0LZfM]





















