Daniel Vorcaro e o “novo capitalismo” brasileiro

Imagem: Annie Spratt
image_pdf

Por JALDES MENESES*

O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988

1.

O capitalismo brasileiro está passando por uma transformação de fundo. As fronteiras do capital fictício e plataformizado – nas formas do financismo, do rentismo, do crime organizado e da oligarquia política – estão se associando na perspectiva de criação de uma forma política que será, idealmente, uma das espécies de um novo fascismo.

A esquerda, no essencial, está fora desse jogo, a não ser pela cooptação de trânsfugas useiros em mudar de lado. Vale dizer, e isto é muito importante, que a forma política dessa nova forma de acumulação não pode ser, nem mesmo, uma democracia liberal clássica de baixa intensidade.

Engana-se quem pensa que essas formas em gestação são uma “anomalia”: são, na verdade, as formas teleológicas mais condizentes da acumulação neoliberal de mundialização que foram tratadas, em sua pré-história, lá entre os anos 1970/90, por autores como, por exemplo, François Chesnais.[1] Falta ainda mencionar, neste texto, a cereja do bolo desta nova formação política: a consolidação de um estado policial-jagunço – como o do Rio de Janeiro já serve de protótipo –, de compra e venda de proteção.

Evidentemente, esta nova acomodação do capitalismo não ocorre na ausência de uma crise no sistema político; pelo contrário, ela é a sua expressão mais acabada, e é assim que se apresenta a crise institucional em curso, que enlaça STF, Legislativo e Executivo. Este é, por assim dizer, o pano de fundo da presente gravíssima microcrise conjuntural em torno da prisão de Daniel Vorcaro.

A tentativa permissiva de isentar de taxação setores de fronteira como fintechs e apostas esportivas (bets) no “pacote de segurança”, por exemplo, reflete uma realidade política nova e mais profunda: o Brasil vive uma transição acelerada do modelo de Estado concebido na Constituição de 1988 para um novo Estado Predador, que se molda às exigências de uma economia política híbrida, fundada no rentismo de novo tipo e na simbiose com o crime organizado.

O pacto de 1988 erigiu um Welfare State dependente, um acordo histórico que uniu a burguesia industrial, as forças liberais da redemocratização e o nascente “novo sindicalismo”, criadouro do PT “fordista”, o último partido social-democrata, quase temporão, criado no Ocidente. Era um projeto que, com todas as suas contradições e heranças patrimonialistas, aspirava a uma dominação de tipo legal-racional, nos termos de Max Weber.[2] Sua legitimidade derivava da Carta Cidadã e de uma promessa de racionalização e inclusão. Esse modelo está sendo desmontado por dentro.

2.

A máquina de produção de votos da política já não é a mesma. O lobby das casas de aposta, por exemplo, é hoje o mais poderoso do país, tendo cooptado com impressionante velocidade políticos, agremiações esportivas e astros populares. Não há mais futebol sem bets. Este fenômeno é a face visível de uma disputa subterrânea no coração do capitalismo brasileiro.

Assistimos a um processo análogo à desindustrialização também no sistema financeiro: os antigos “bancões”, estruturas monolíticas de crédito e acumulação do capitalismo fordista, veem seu território ser erodido pelas fintechs, entidades fluidas e desterritorializadas.

A discussão “técnica” sobre tributos, em torno de um Estado “gastador” em eterna “crise fiscal”, oculta o lado de sombras, que ninguém se atreve a discutir publicamente. A incapacidade do Estado em regular e tributar efetivamente esses novos setores não é apenas uma falha administrativa; é um sintoma de uma transformação patológica.

O Estado weberiano, definido pelo monopólio do uso legítimo da força, abdica progressivamente desse monopólio ao fracassar em impor a lei a setores cujas operações frequentemente se entrelaçam com a lavagem de dinheiro e o crime organizado transnacional. O que emerge não é um vazio de poder, mas uma nova formação: o Estado Predador.

Até certo ponto – e devem ser pesquisadas as conexões – os diagnósticos sombrios de personagens trumpistas, como Peter Thiel,[3] ou do Projeto 2025,[4] da Fundação Heritage, de substituição do Estado Administrativo (o velho Estado Legal-Racional liberal) por uma plataforma dirigida por um “rei-filósofo” reacionário, guarda semelhanças nas diferenças com o processo brasileiro.

Este não é um Estado simplesmente corrupto ou ineficiente. É um Estado que foi capturado e reconfigurado para servir a uma coalizão de poder que inclui as novas elites do rentismo digital, velhas estruturas patrimonialistas que se adaptaram e, de forma crítica, facções do crime organizado que encontraram no anonimato das criptomoedas e na volúpia das apostas online o canal perfeito para a legitimação de seus capitais.

Este Estado predador opera por extração sistemática, mas sua lógica é distinta do capitalismo monopolista-industrial que busca suplantar. Enquanto o antigo modelo, ainda que imperfeito, canalizava recursos para políticas sociais e um projeto de desenvolvimento nacional, o novo modelo drena recursos para uma economia política do ilícito e do rentismo de curto prazo.

3.

O Congresso, reflexo dessa nova base social, vem protegendo os interesses desses novos senhores da economia, inviabilizando a própria capacidade estatal de se financiar e impor a lei. Neste contexto, arriscamo-nos a nos tornar não apenas um Estado predador, mas um Estado pária interno.

Um Estado que, para vastos setores da população e da economia formal, corre o risco de perder sua legitimidade última, não sendo mais visto como um árbitro imparcial ou um provedor de direitos, mas como uma força extrativista e opressora a serviço de uma aliança entre o poder financeiro de novo tipo e as sombras do crime. Trata-se de uma mudança coligada do sistema político e do capitalismo brasileiro, base e superestrutura se realimentando.

O caso do Banco Master, com os fatos espetaculares da prisão de seu “CEO”, é um símbolo dessa dinâmica. E de fato o é, mas seria um erro tratá-lo como uma exceção monstruosa em um mercado imaculado. O “novo” capitalismo financeiro brasileiro se revela como um sistema em que a prática de oferecer retornos estratosféricos para atrair investidores se tornou a norma, e não a exceção. O Banco Central, com sua pretensa “autonomia” e sua alegada “cegueira” diante da “mão invisível” do “mercado”, assistiu a tudo com passividade conivente.

O Banco Master, em 2019, quando recebeu autorização do Banco Central para operar, tinha 2,5 bilhões de reais em CDBs. Em 2022, eram 17 bilhões. Em 2024, atingiu a cifra estratosférica de 50 bilhões. Pouco antes de quebrar, chegou a oferecer CDBs com rendimento de 190% do CDI, um absurdo que por si só deveria ter acionado todos os alarmes regulatórios. Mas o Master não estava sozinho nessa dança das cadeiras.

A oferta de CDBs a 130% do CDI ou mais tornou-se – este dado em geral é varrido para debaixo do tapete – uma prática disseminada no sistema financeiro, uma estratégia agressiva de captação de recursos, especialmente por bancos médios e fintechs que precisavam ganhar escala rapidamente. Instituições como PagBank, Banco Pan, Méliuz (com CDBs do banco Digio) e plataformas de investimento como XP, BTG Pactual e Genial listaram em seus portfólios, de forma recorrente, produtos com rentabilidade nessa faixa ou até superior.

O Sofisa Direto, tradicional nesse segmento, frequentemente opera com taxas entre 110% e 120% do CDI em suas promoções. O que o mercado chamou de “inovação” e “concorrência” foi, na verdade, uma corrida desenfreada pelo “funding” fácil, empurrada por um ciclo de juros altos que tornava esses papéis irresistíveis para o investidor comum, ávido por rendimento e seduzido pela promessa de ganhos fáceis, mas alheio aos riscos de crédito embutidos nessas operações.

4.

Recentemente, em um convescote na Alemanha, onde também se fez presente o festejado “novo herói” André Mendonça, que passou em branco (para variar) na imprensa brasileira, useira e vezeira em diversionismos, assim falou o próprio presidente da Febraban, Isaac Sidney Menezes Ferreira, em evento na Universidade de Frankfurt: “Não podemos deixar que a regulação fique atrás da velocidade e do risco. Nós temos que caminhar para uma regulação adaptativa.”

Em sua fala, Isaac Sidney defendeu um debate estrutural sobre o sistema de garantias, em especial o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), criticando seu uso como “chamariz” para convencer clientes a investir em títulos de alto risco. “O mecanismo não pode ser um instrumento de incrementar risco excessivo. Se temos um sistema de garantias que incrementa mais do que mitiga riscos, a regulação então está defasada”, afirmou, numa crítica velada ao modelo de negócios que permitiu a proliferação de ofertas agressivas.

O presidente da Febraban também apontou a distorção no custeio do fundo: “Uma parte significativa da indústria bancária e financeira está suportando o custeio enquanto outra parte significativa apenas usufrui do uso”, referindo-se ao fato de que grandes bancos tradicionais arcam com a maior parte da contribuição, enquanto plataformas que distribuíram os títulos do Master não contribuem na mesma proporção. “Nós não podemos viver num sistema de garantia que acabe socializando perdas privadas”, sentenciou.[5]

O problema, portanto, não se resume às práticas corruptas ou à gestão temerária de um banco específico. A questão é sistêmica. O modelo de negócios de dezenas de instituições passou a se basear na captação a custos insustentáveis, apostando que conseguiriam remunerar o capital investido com aplicações de risco ainda maior.

O balanço de 2024 do Banco Master, que informou o pagamento de R$ 500 milhões a consultorias e escritórios de advocacia, é apenas a ponta do iceberg de um sistema onde as fronteiras entre o lícito e o ilícito, entre a gestão financeira e a lavagem de dinheiro, entre o lobby e a captura do Estado, se tornaram porosas. A liquidação extrajudicial do Master, em novembro de 2025, não “resolveu” o problema; apenas expôs a ferida.

Os CDBs, em sua maioria, eram garantidos pelo FGC até o limite de R$ 250 mil, o que protegeu o pequeno investidor, mas o custo sistêmico da quebra de confiança e a exposição de fundos de pensão e outros bancos ao crédito podre são imensuráveis.

O que temos é uma crise de representação que atravessa todos os poderes, alimentada pela promiscuidade entre o dinheiro novo, de origem muitas vezes obscura, e a velha política do centrão e da extrema direita. Este é o bloco histórico do “novo capitalismo” brasileiro.

*Jaldes Meneses é professor titular do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Notas


[1] CHENAIS, François. A Mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.

[2] WEBER, Max. Economia e sociedade (Vol. 1). Brasília: UnB, 1994.

[3] CHAFKIN, Max. Controverso. Rio de Janeiro: Alta Cult, 2023.

[4] GRAHAM, David A. O projeto. Rio de Janeiro: Zahar, 2025.

[5] STRUCK, Jean-Philip. “Bancos e fintechs divergem sobre como evitar novos ‘Masters'”. Deutsche Welle, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/esc%C3%A2ndalo-do-master-exp%C3%B5e-tens%C3%A3o-entre-bancos-e-fintechs-sobre-regula%C3%A7%C3%A3o/a-76206874.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
2
Guerra na Ucrânia – um duelo sem vencedores
04 Mar 2026 Por EURICO DE LIMA FIGUEIREDO: O conflito que deveria ser relâmpago virou atrito eterno, onde vidas são o preço que nenhuma planilha consegue calcular
3
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
4
O escritor e o intelectual
28 Feb 2026 Por LUCIANA MOLINA: Na escrita acadêmica, já vi quem compartilhasse da ideia de que deve existir uniformidade no tamanho dos parágrafos. O sentido passa a ser construído por coerção externa. Essa homogeneização artificial substitui melodia por monotonia
5
O novo imperialismo de Donald Trump
03 Mar 2026 Por CARLOS EDUARDO MARTINS: O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional
6
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
7
Quem tem medo das mestiçagens?
05 Mar 2026 Por ALIPIO DESOUSA FILHO: Reconhecer as mestiçagens é encarar a história e recusar as ficções de pureza que sustentam o racismo
8
A campanha militar dos EUA
03 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: A campanha contra o Irã não é sobre Teerã, mas sobre Pequim: o petróleo iraniano é a moeda de troca para conter a China
9
Tempos de exceção
04 Mar 2026 Por OLGARIA MATOS: Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias
10
A hegemonia da lógica da financeirização
04 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível
11
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
12
Universidade pública e coragem institucional
05 Mar 2026 Por RODRIGO OTÁVIO MORETTI: A universidade pública sustenta direitos no tempo longo. Defendê-la é um gesto de responsabilidade democrática
13
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
14
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
15
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES