Um país (des)governado

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Por PAULO GHIRALDELLI*

A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas

1.

A eleição de Donald Trump foi uma declaração do eleitorado americano pelo fim do imperialismo. “Make America Great Again” era um slogan contrário a gastos americanos no exterior. O operariado branco havia sido ganho por uma plataforma conservadora, mas não completamente xenófoba ou neofascista.

A proposta de Donald Trump era dupla: a volta da manufatura para os Estados Unidos, portanto, o aumento de empregos; a retirada americana de encargos com seus tradicionais aliados, portanto, a possibilidade de diminuição de impostos. Uma vez no governo, Donald Trump tem feito tudo ao contrário. Nem poderia ser diferente, eram promessas retóricas e de péssimo cálculo.

O aumento de empregos não veio. Afinal, trazer a manufatura de volta para os Estados Unidos implicaria em um passo impossível no capitalismo financeirizado atual. As transnacionais vão bem como transnacionais. As Black Rocks da vida, mais ainda. O fim de gastos no exterior de fato se deu: Donald Trump retirou boa parte da ajuda americana de todas as instituições humanitárias e de pesquisa do mundo.

Perdeu soft power. Mas ampliou gastos militares e, enfim, fez do blá-blá-blá meio belicista uma entrada no belicismo real, em especial agora, com o ataque ao Irã. É certo que foi empurrado por Benjamin Netanyahu, mas, de qualquer forma, rompeu com o prometido.

Donald Trump foi convencido por Benjamin Netanyahu que a melhor forma de uma pessoa de direita permanecer no governo e, então, não cair nas garras da justiça de seu próprio país, é fazer a guerra. Donald Trump cedeu. Aliás, ele se viu sem saída quando seus índices de popularidade despencaram, principalmente após sua polícia migratória (ICE) se comportar de forma nazista diante da população.

A ideia de combate ao narcotráfico e, então, a retórica pela necessidade de prender Nicolás Maduro, não convenceu ninguém. Restou o espetáculo das bombas sobre o Irã, em ação conjunta com forças responsáveis pelo genocídio em Gaza, o exército de Israel.

Bin Laden foi pego por Barack Obama por meio de precisão militar, sem os chamados “efeitos colaterais”. Donald Trump e Benjamin Netanyahu amam efeitos colaterais. Donald Trump mostrou que tem capacidade de acertar o alvo, mas não usa as missões especiais cirúrgicas.

Faz questão de mostrar o máximo de explosões possíveis. Adora pegar hospitais, escolas e criar o terror. É a marca dos governantes que precisam, antes de tudo, do espetáculo midiático de demonstração de poder. Espera-se com isso que a parte mais reacionária do eleitorado não debande. Mas parece que não está adiantando muito! A última pesquisa de opinião mostrou os americanos, na sua maior parte, contrários ao ataque ao Irã.

2.

Junto dessas medidas, Donald Trump corre para ofertar vantagens aos ricos, aos homens das Big Techs e das finanças. Tenta justificar a guerra e outras medidas agressivas. Fala em investimentos militares e estratégicos que beneficiariam o pessoal do Vale do Silício. Essa gente pega o que vem, mas não precisa de Donald Trump para fazer negócios. Aliás, ele só atrapalha o pessoal da Nvidia na sua exportação de semicondutores para a China. As grandes empresas entram em qualquer lugar do mundo por meio de ações não militares.

Tecnologia para “tornar a vida fácil”, como diz Bill Gates, tem salvo conduto no mundo todo. “Inclusão digital” é lema de educadores atordoados, em todo o planeta. Mas Trump volta, chama os ricos, grita para eles dizendo que tem o que oferecer. Ora, eles pegam qualquer contrato do Pentágono, claro. E o Pentágono não é símbolo de honestidade e “amor à pátria”, sabe fazer contratos em que todas as partes possam devorar o dinheiro do contribuinte americano.

Tudo isso mostra que não existe imperialismo. Já faz tempo que não existe. Desde o tempo que Christopher Lasch escreveu A rebelião das elites, sabemos que a classe média alta e os ricos americanos não se interessam pelos Estados Unidos como nação, nem internamente nem externamente.

Quem teima em falar em novo imperialismo ou volta do velho imperialismo ou qualquer coisa com esses títulos, está nutrido por uma ciência que não deve ser levada a sério, a tal geopolítica. Essas pessoas poderiam ganhar um spray do pai ou do avô e escrever no muro de casa “Yankees go home!”. Pronto, ficariam satisfeitos e poluiriam menos a mídia com a sua tara pela falta de imaginação.

Para existir imperialismo são necessários três elementos básicos: (i) O centro do império precisa ter elites que tenham um plano para o próprio centro do império, ou seja, é preciso uma “burguesia com burgo”, uma elite que queira cuidar do país; (ii) É preciso ter planos para a periferia do império no sentido de conquistar suas populações para o estilo de vida do centro do império, ou seja, é necessário ter soft power, uma cultura vendável e amigável capaz de gerar aliados no interior dos lugares a serem dominados, até a força das armas chegar para fazer a “libertação”; (iii) É necessário ter um grande exército que saiba se unir aos pequenos exércitos dos lugares a serem tomados.

3.

Nenhuma dessas condições vigora. Não foi Donald Trump o responsável pela inexistência delas. Elas não existem já desde antes da derrota no Vietnã. Aliás, por falta dessas condições, o Vietnã se tornou um inferno para os americanos. Bush Filho não entendeu isso e enfiou os Estados Unidos no malogro da Guerra do Iraque. Mas Barack Obama entendeu. Barack Obama fez de tudo para os Estados Unidos ter parceiros, não inimigos. Barack Obama viu os Estados Unidos já como “uma nação a mais” no mundo. Não havia o que fazer além disso. Mas tipos como Barack Obama (ou Lula) aparecem só de cem em cem anos.

Os Estados Unidos foram empurrados para essa situação atual por conta da mudança da acumulação capitalista, desde os anos 1970. A financeirização criou um mundo que jogou as elites americanas para o mercado bursátil, para o neoliberalismo e o advento de uma “burguesia sem burgo”.

Os americanos ricos ganham dinheiro sem precisar se interessar pelos destinos da América. Tiraram os pés da Terra. Descolaram. Desinteressando-se da política, abriram espaço para a entrada na presidência de um homem que não tem nenhum projeto a não ser olhar para o próprio umbigo, e que luta para não terminar como Jair Bolsonaro. Arrumou um amigo, Benjamin Netanyahu, em condições semelhantes. Esse homem fora do sistema nem tem mais sistema para defender, caso quisesse.

Então, atabalhoadamente, anuncia a cada semana uma ação espetacular e/ou a continuidade de uma retórica mirabolante. Eis os alvos semanais: Cuba, Venezuela, Colômbia, México, Brasil, Groenlândia e, finalmente, o Irã. Quanto à Coreia do Norte, ficou esquecida no primeiro mandato. E Vladimir Putin foi declarado como chefe “do lado de lá”. É um outro reino, o “lado de lá”.

Toda semana é necessário novo show de garganta, e agora de pirotecnia à la Netanyahu. Um pouco de crianças mortas faz a direita americana querer ir às urnas a favor de Donald Trump. Ele realmente acredita nisso, após a vitória de Benjamin Netanyahu na dizimação da Faixa de Gaza. Mas as pesquisas de opinião mostram menos sadismo da parte da população americana.

Os Estados Unidos não são um império decadente. Faz muito tempo que seus ricos não precisam mais do Estado-nação como alguma coisa que valha a pena cuidar. Não possuem mais nenhuma visão imperialista. Roma e o domínio sobre os bárbaros era uma lição preferida na escola americana. Hoje, não faz mais sucesso entre os estudantes.

Os Estados Unidos são apenas um país (des)governado por um homem de oitenta anos que quer deixar o mandato sem ter de ir para os tribunais ou, pior, talvez para a cadeia. Aliás, ele projetou esse desejo. Pela segunda vez pediu para Israel perdoar Benjamin Netanyahu, não julgá-lo. É o que quer para ele próprio, nos Estados Unidos.

Todos que desconhecem a história da simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro, nos últimos vinte anos, associada ao neoliberalismo, podem falar em “imperialismo”. A boca dessas pessoas fica mexendo, mas não estão dizendo nada. Não querem de modo algum estudar a entrada de um país (des)governado Trump na política e como ele se tornou presidente sem ter tido carreira política.

um país (des)governado Trump é o antissistema no país que tinha o maior sistema, mas que fez sua última incursão efetivamente imperialista na Guerra da Coreia. Aliás, uma guerra que já anunciava o fim de uma época, pois foi um conflito sem vitória, jamais terminado.

Diante de tudo isso, poder-se-ia esperar que os trabalhadores americanos pegassem a condução do país, uma vez que a burguesia não quer olhar pelo burgo. Mas isso demandaria mais transformações. O que não é impossível, uma vez que a eleição em Nova York, com Zohram Mandani, sinalizou essa possibilidade.

*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].

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