De costa a costa

Imagem: Rubem Grilo (Jornal de Resenhas)
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Por DANIEL COSTA*

Comentário sobre o livro do historiador Jaime Rodrigues.

Dando prosseguimento ao projeto de reeditar livros fundamentais da historiografia brasileira pertencentes ao seu catálogo – O sol e a sombra (Laura de Mello e Souza), Negros da terra (John Monteiro) e A vida é uma festa (João José Reis) para citar alguns dos títulos reimpressos – a Companhia das Letras traz para o público especializado, ou não, a nova edição do livro De costa a costa. Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860) do professor e historiador Jaime Rodrigues.

Originalmente apresentada como tese de doutorado defendida na Unicamp em 2000 sob orientação da professora Silvia Hunold Lara, o trabalho teve sua primeira edição publicada em 2005, desde então a obra surge como referência obrigatória para os estudos relacionados ao tráfico transatlântico de escravizados, o cotidiano nas embarcações e a dinâmica em torno da dolorosa travessia oceânica dessas almas.

A nova edição não apresenta nenhuma alteração em relação a primeira, exceto pela apresentação escrita pelo autor, que reitera o fato do livro chegar novamente as livrarias no momento onde a sociedade brasileira ainda curava as feridas vividas durante a pandemia e ao longo do desgoverno que “tomou” conta do país até o final de 2022, para Jaime Rodrigues a “associação entre o tráfico de pessoas escravizadas e os horrores do tempo presente nunca foi tão atual e sensível”. Segundo Jaime Rodrigues, apesar da “tentação trazida por uma segunda edição de rever e construir um diálogo com a produção atual”, nem uma alteração foi feita, pois a obra “se sustenta da forma como foi concebida originalmente”.

Ao longo da nova apresentação, o autor procura tecer – mesmo que forma breve, afinal o espaço e a proposta não era realizar uma revisão bibliográfica – comentários sobre algumas obras de destaque na abordagem de temas como o tráfico de escravizados, as estratégias em busca da liberdade e formas de resistência após o lançamento da primeira edição. Entre os trabalhos citados pelo historiador destacamos o fundamental Africanos livres. A abolição do tráfico de escravos no Brasil, da historiadora Beatriz Mamigonian. Adotando um amplo recorte temporal, a historiadora buscou analisar em seu trabalho a questão do direito à liberdade e as estratégias – bem-sucedidas ou não – utilizadas por milhares de pessoas escravizadas vitimadas pelo contrabando.

Utilizando como recorte temporal o período entre 1780 e 1860, Jaime Rodrigues oferece ao leitor a oportunidade de realizar essa travessia oceânica em duas situações distintas, ou seja, ao longo da leitura será possível ter contato com a dinâmica do trafico legal e do ilegal, visto que o mesmo é proibido a partir de 1831. Assim, ao longo da publicação o autor busca verificar como se organizava o comércio de africanos escravizados entre Angola e o Rio de Janeiro, especialmente em um momento de forte demanda e realizada sob o guarda chuva das leis de proteção, que será confrontada por Jaime Rodrigues quando o tráfico passa a ser considerado ilegal, gerando inclusive conflitos com a Inglaterra, especialmente quando embarcações empenhadas no tráfico eram apreendidas.

Jaime Rodrigues lembra ainda que esse momento de transição entre o tráfico legal e ilegal, marcado por “picos de introdução de africanos escravizados”, buscava compensar o “possível encerramento do tráfico transatlântico”, que se desenhava no horizonte. Assim, com a crescente demanda por escravizados na região centro sul, os traficantes encaravam os riscos da empreitada, pois apesar do prejuízo caso houvesse a apreensão da embarcação, tal atividade ainda representava grande lucro para esses investidores no caso de sucesso.

Partindo de uma visão da história protagonizada por aqueles “de baixo”, o autor aborda a complexidade do comércio Atlântico de escravizados, buscando centrar sua abordagem nesses homens e mulheres que de forma involuntária foram submetidos a essa longa travessia marítima.  Cabe ainda destacar ao leitor, que apesar do trabalho comentado ser fruto de uma pesquisa marcada metodológica e teoricamente pelas bases da história social, Jaime Rodrigues não abre mão do diálogo com a produção de autores como Paul Lovejoy, Joseph Miller, David Eltis, Joseph Inikori e Robert Conrad, referências nos temas abordados e autores como Roger Chartier, Robert Darnton, Natalie Zemon Davis e E. P. Thompson, construindo assim um sólido arcabouço teórico.

Segundo a historiadora Maria Cristina Wissenbach, prefaciadora da obra, com a capacidade acurada no trato das fontes e da bibliografia, Jaime Rodrigues é capaz de analisar “um acontecimento linear e unívoco”, transformando o “em processo marcado por características e variações próprias ao longo do tempo”.

O livro é dividido em três partes, o que pode dar ao leitor a sensação de uma travessia oceânica com escalas. A primeira parte intitulada, “Negociação e conflito em Angola”, discute a dinâmica em torno da presença portuguesa na costa africana ocidental. Uma presença que não foi marcada apenas pela dominação da metrópole, mas também por negociação, tensões e conflitos nessas regiões, principalmente em áreas onde os líderes locais ainda detinham autonomia ou em localidades onde o assédio estrangeiro era constante.

Desse modo, o leitor descobrirá que em áreas como Ambriz e Cabinda, o domínio português era tênue, pois quem de fato governava eram os líderes locais, enquanto que em Luanda e Benguela diversos grupos se entrecruzavam representando os mais variados interesses, portugueses ou não, e por fim nas regiões do Loango e do Molembo, a soberania da metrópole era vista como indiscutível. Diante do exposto, concordamos com Maria Cristina Wissenbach, quando a mesma afirma, que o “historiador acompanha as viscitudes do viver e negociar na África” com maestria, mostrando as conexões estabelecidas entre os agentes dos três continentes.

A segunda parte da obra, “Navios e homens no mar”, pode ser visto como o ponto inovador do livro, pois é nessa parte onde temos a abordagem dispensada pelo autor à travessia oceânica propriamente dita. Além das relações sociais estabelecidas desde a preparação da viagem, até embarcação ser lançada ao mar, o autor ainda apresenta ao leitor a dinâmica das embarcações (relações hierárquicas entre os membros da tripulação, alimentação em alto mar e por fim, as questões relacionadas à saúde) e da dolorosa travessia.

Cabe destacar que, ao longo dos capítulos dessa parte do livro temos ainda, a descrição dos variados tipos de embarcações – destacamos aqui o intenso diálogo com o historiador José Roberto do Amaral Lapa e sua clássica obra, A Bahia e a carreira da Índia – utilizadas no tráfico, e uma consistente abordagem do universo social do navio e as relações estabelecidas entre os tripulantes. Cabe destacar a presença significativa de africanos escravizados e livres entre os marinheiros, esses personagens cumpriam importante papel na intermediação do conjunto da tripulação com os cativos durante a viagem.

Nesse percurso o autor ainda abordará o cotidiano desses homens que se lançavam a travessia marítima encarando as dificuldades da vida a bordo, entre as quais, a ameaça constante das doenças e uma ferrenha disciplina, tais temas seguiriam sendo uma constante na produção intelectual do historiador, como pode ser verificado no livro No mar e em terra: História e cultura de trabalhadores escravos e livres, lançado em 2016.

Por fim a terceira parte, “Marinheiros e africanos em ação”, mostra ao leitor que os escravizados transportados estavam distantes de serem vistos como vítimas passivas dentro desse cruel processo. Seja de forma explícita, como em algumas revoltas ocorridas nas embarcações ou nos barracões ainda em África ou na América portuguesa, a resistência desses homens e mulheres era perceptível.

O autor traz como exemplo o relato da viajante Maria Graham, utilizado para mostrar como a resistência nem sempre explícita acabava sendo interpretada como submissão, vejamos: “Enquanto esteve na Bahia convalescendo a bordo do navio que a transportava para o Brasil, a inglesa Maria Graham viu, pela escotilha, um desembarque de escravos no porto de Salvador. Comentou com tristeza e certa estranheza o comportamento dos africanos, que “estão a cantar uma das canções de sua terra em um país estranho”, enquanto eram descarregados sob as ordens de um feitor”. Segundo Rodrigues, o desconhecimento da língua dos recém-chegados fez a inglesa enxergar alheamento ou submissão, quando na realidade era comemorada a sobrevivência após uma atribulada travessia onde a morte os rondando era uma constante.

Nesse sentido podemos destacar ainda o capítulo dedicado ao mercado de Valongo, espaço visto por Jaime Rodrigues como um lugar onde os escravizados vivenciavam suas primeiras experiências de sociabilidade ao terminar a travessia marítima, para o autor, “certamente a experiência do desembarque de um navio negreiro não foi igual para todos os africanos que chegaram ao Brasil”. Mesmo com a extenuante viagem e as doenças que vitimavam centenas de escravizados ao longo da travessia, “a chegada a um mercado de uma grande cidade envolvia possibilidades de reencontro que um desembarque clandestino não oferecia”.

Em relação ao conjunto de fontes utilizadas, Jaime Rodrigues apresenta ao longo da obra um conjunto substantivo de informações tiradas de correspondências oficiais, cartas de ordens e relatórios administrativos, encontrados principalmente no Arquivo Histórico Ultramarino. Completam as fontes, os processos contra embarcações apreendidas por realizarem o contrabando de escravizados, além dos relatos de viajantes e de memorialistas. Sobre a utilização das fontes é o próprio autor que aponta algumas dificuldades e soluções enfrentadas ao longo do trabalho: “Debruçar-se sobre um tema para o qual as fontes são rarefeitas requer cuidados redobrados”.

A opção pelo recorte temporal adotado faz parte desses cuidados, pois ao cobrir um período atravessado tanto pelo tráfico legal quanto o ilegal possibilita melhor manejo das fontes. Sobre o período do tráfico ilegal Rodrigues recorda que “não há crime perfeito, e o tráfico ilegal foi objeto de uma ampla repressão que deixou indícios importantes, que procurei analisar usando um método que conjugue imaginação, invenção e suposição”, método esse inspirado no trabalho da já citada Natalie Zemon Davis.

A historiadora Silvia Lara, autora da orelha do livro afirma que além de inovador, o trabalho de Jaime Rodrigues apresenta um olhar diferente sobre um tema clássico da história do Brasil, já para Wissenbach, apesar da densidade de informações, a escrita do autor proporciona ao leitor uma leitura fluente. Ainda podemos debitar a obra de Jaime Rodrigues o caráter pioneiro, principalmente quando olhamos para o exercício empreendido de centrar sua análise na experiência daquela imensidão de sujeitos desterrados, principalmente os escravizados, que eram afastados de seus familiares e toda a estrutura social que acabara forjando sua identidade e também em certa medida a tripulação das embarcações, que ao se lançarem no mar faziam das embarcações o seu lugar.

Concordando com ambas, podemos afirmar que a leitura do livro oferecerá ao leitor subsídios para compreender a dinâmica da travessia transatlântica ao longo do século XIX e como os diversos atores envolvidos enfrentavam essa tortuosa viagem. Cabe destacar para aqueles que desejam percorrer a historiografia acerca do tráfico de pessoas escravizadas, que em um primeiro momento a ênfase dos trabalhos eram dadas a questões econômicas e demográficas, aqui lembro expoentes como Maurício Goulart, Herbert Klein e Eulália Lobo, o trabalho de Rodrigues não abre mão de tais perspectivas, porém abarca também novas perspectivas, como aquelas trazidas por pesquisadores como Sidney Chalhoub, Robert Slenes e Silvia Hunold Lara produzindo uma obra de referência, que passados quase vinte anos do seu lançamento segue obrigatória para aqueles que têm interesse sobre os temas abordados.

Voltando a apresentação da obra, é ali onde o autor deixará pistas para aqueles que desejam percorrer novos caminhos, segundo Jaime Rodrigues, “a ação em rede, o diálogo com historiadores africanos e a disponibilização de fontes em formato digital – com destaque para o Transatlantic Slave Trade Database – podem pavimentar o caminho a ser trilhado nos próximos anos na problematização do tráfico como questão da História Global, do Atlântico, das Américas, da África, da Europa e do mundo do trabalho”, contribuindo para proporcionar novos enfoques ao tratar tanto da experiência dos escravizados, quanto das condições em que tais situações se davam, porém, “novamente, os africanos escravizados vêm sendo cobertos pelo manto da invisibilidade”, com De costa a costa, o autor contribui para que não só esse processo seja retardado, como também para descortinar novas perspectivas de abordagens e reflexões sobre o tema.

*Daniel Costa é graduado em história pela UNIFESP.

Referência

Jaime Rodrigues. De costa a costa. Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860). São Paulo, Companhia das Letras, 2022, 448 págs (https://amzn.to/4536AuW).


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