Por MATHEUS FERNANDES DE CASTRO*
Comentário sobre o livro recém-lançado de Ana Celeste Casulo
1.
Ana Celeste Casulo é psicanalista e mestre em Psicologia e Sociedade pela Unesp de Assis. Muito antes de seu mestrado começou a escrever sua obra acadêmica, revelando-se como uma autora fértil e eloquente sobre variados temas de nossa atualidade: saúde do trabalhador, maternidade, sociopatia e, dentre tantos outros, nos traz neste livro, o tema do desejo. Também revela talento para costurar variados enfoques teóricos, concentrando seus esforços, principalmente na psicanálise e na ontologia marxiana, apesar de a segunda só aparecer de forma insinuada neste texto.
O livro se organiza em três capítulos e um epílogo: o primeiro apresenta uma análise da marca da devastação materna na vida de Camille Claudel que se revela em sua práxis artística, na sua vida amorosa e na sua impossibilidade de construir um lugar simbólico para seu desenvolvimento subjetivo.
O segundo argumenta sobre a centralidade da sexualidade no desenvolvimento do sujeito e, sendo assim, como isso atravessa a vida da protagonista, garantindo, ao mesmo tempo, seus traços de genialidade e sua fragmentação subjetiva, explicitadas no relacionamento profissional/amoroso conturbado com o famoso mestre Auguste Rodin, bem como suas dificuldades para obter o reconhecimento social de sua obra, à sua época.
No terceiro capítulo se destaca o retorno à devastação materna, à destruição subjetiva e à pulsão de morte que tem como ápice sua internação psiquiátrica. Em sua última parte, o Epílogo, a autora amarra o legado de Camille Claudel ao legado da psicanálise, pois sem esta última seria impossível chegar-se a compreensão do desejo, da vida e da obra como um enigma e tudo isso se articular não como um mistério, mas como uma solução possível de uma subjetividade diante do estranhamento de sua época.
Para ilustrar e sustentar sua argumentação, Ana Celeste Casulo recorre à expressão artística de Luis Bruñel em seu filme O obscuro objeto do desejo; um dos pontos altos do texto.
Dentro desta organização supracitada, a autora produz uma análise psicanalítica da vida e da obra de Camille Claudel destacando o conceito lacaniano de “devastação”: como sua relação familiar se constituiu num marco fundamental para sua futura relação profissional, amorosa e social.
Explica que a não interdição da figura paterna diante do gozo destrutivo da figura materna cria a possibilidade para uma estrutura subjetiva marcada pela necessidade de encontrar outros caminhos que permitam sua inserção na linguagem, algo que não foi possível em suas relações primárias com seu pai e, principalmente, com sua mãe. Nesse caminho, a práxis artística, no caso a escultura, surge como uma forma de resistência psíquica para transformar o desamparo em possibilidade criativa e em seu legado para o mundo.
2.
Sua genialidade, forjada por conflitos afetivos radicais, e a necessidade de encontrar um caminho para sua potência criativa – e criar uma ponte entre a sua individualidade, fragilizada pela dinâmica familiar, e a sociedade – possibilitaram a Camille Claudel buscar na arte uma forma de expressão, uma linguagem que lhe permitisse lidar com a realidade insuportável da devastação materna.
Contudo, por uma questão de gênero, a sociedade de sua época lhe negou essa via sublimatória, pois, tanto o fato de uma mulher burguesa assumir um trabalho que não fosse o reprodutivo, quanto o fato de que Camille Claudel representava com grande maestria a sensualidade feminina, a ficção amorosa e os caminhos sinuosos do desejo, eram insuportáveis para os vitorianos do final do século XIX e começo do sèculo XX.
Sendo assim, sua busca não encontrou o reconhecimento vital para o indivíduo que se objetiva no trabalho, impedindo, consequentemente, a possibilidade do estabelecimento de uma ressonância simbólica e de uma sublimação necessária, para a um equilíbrio favorável a Eros e não a Thanatos, no seu desenvolvimento subjetivo.
Em seu percurso errático, por uma forma de se inscrever como membro de sua sociedade e permitir um devir entre um exemplar e seu gênero, o amor pelo mestre Auguste Rodin, foi mais um movimento catastrófico: na busca pela inserção no gozo do outro, encontra-se novamente com a devastação. A configuração afetiva do seu relacionamento amoroso, além de não lhe garantir uma inserção no registro simbólico, lhe apresenta um caminho de retorno para um sofrimento conhecido e destrutivo, vivenciado, primeiramente, junto à figura materna.
Neste ponto, Ana Celeste Casulo sustenta que tanto a mãe, quanto o mestre/amante, ambos nunca conseguiram lhe possibilitar um olhar amoroso. Então, o leitor pode vislumbrar que os caminhos seguidos pela heroína falharam dramaticamente e Camille Claudel não encontra o mapa para fora do abismo gerado pela devastação materna.
Essas análises nos permitem pensar na família, no trabalho e nas relações amorosas hodiernas, marcadas por índices nada desprezíveis de abusos sexuais, feminicídios, superexploração do trabalho produtivo e invisibilização do trabalho reprodutivo, que revelam a sociopatia instaurada em nossa sociedade ocidental e tão destacada, por outras vias, em obras como A corrosão do caráter (SENNETT, 2011), A sociedade autofágica (JAPPE, 2021), O divino mercado (DUFOUR, 2008) e etc.
O grande número de feminicídios que assola nosso país encontra eco nessa devastação do sujeito narrada pela autora em uma vida que nos parece tão distante, mas que se olharmos com cuidado e atenção encontraremos inúmeras denúncias de sua repetição em nosso tempo. As evidentes repetições e conexões do drama de Camille Claudel com o drama individual de muitas pessoas em nossos dias, não foram exploradas pela autora, o que pode corresponder com seu objetivo de ser um livro com um formato acessível ao público em geral, tanto pelo seu tamanho físico, como pela clareza da exposição dos argumentos, mas não passa despercebido pelo leitor.
3.
Entretanto, é preciso precaver esse mesmo leitor, que tais objetivos não impedem a autora de trazer a complexidade do olhar psicanalítico sobre o feminino e de se aprofundar em análises explicativas do denso emaranhado categórico que sustenta o feminino como um enigma para seu método de compreensão do processo de sexuação e de constituição do sujeito desejante.
O texto congrega o rigor metodológico e a clareza expositiva para apresentar ao leitor o feminino como uma posição subjetiva marcada por um duplo registro de gozo: o fálico e o do Outro. No primeiro vê-se a inserção da mulher no simbólico através de uma posição subjetiva, também chamada de “máscaras” que permitem acessar o gozo do Outro; o segundo é marcado pela permanência de um registro inacessível à concepção conceitual, um acesso ao real que funciona como um elo para a devastação ou para a criação.
Um motor que dinamiza a posição subjetiva feminina em um movimento singular que não se universaliza e impede o engendramento de um significante mulher, mas viabiliza o significante mulheres, para o feminino. Neste espaço, onde o simbólico não acessa, a arte pode aparecer como uma forma de invenção que permite à matéria tomar a palavra para transformar o gozo outro em potência criativa que enseje, de alguma forma, resistir.
Para a autora é através da arte que Camille Claudel busca sua inserção no simbólico, um contorno para a sua subjetividade, uma ponte que viabilizasse uma saída do abismo de devastação trazido pela figura materna, que não só a negou como mulher no nascimento, pois queria um substituto para o filho primogênito morto, mas negou o feminino desenvolvido na práxis artística, que subvertia o ideal burguês defendido por sua mãe, onde a mulher deveria se voltar ao trabalho reprodutivo.
Auguste Rodin, a figura amorosa, não entregou a completude, nem um contorno possível para a sustentação de uma posição feminina no gozo do Outro: explorou-a afetivamente e produtivamente, ou seja, como amante submetida unicamente ao seu desejo narcísico e como escultora subordinada às obras do mestre e ao seu lucro financeiro, artístico, material e simbólico.
A autora se vale da teoria lacaniana para mostrar o lugar de devastação ocupado por Auguste Rodin, naquilo que Jacques Lacan (1985) designa como a impossibilidade de uma relação harmoniosa e plena entre dois seres: “não existe relação sexual”. Nesse buraco impossível de preencher entre os amantes, eles erigem uma fantasia “de que a arte poderia, enfim, escrever a relação sexual que o simbólico interdita” (Casulo, 2026; p. 71).
4.
Essa ficção amorosa não foi suficiente para consolidar uma relação que permitisse a Camille Claudel a inserção no gozo do Outro, trazendo à tona o gozo destrutivo e devastador de sua figura materna, agora com Auguste Rodin funcionando como o elemento de devastação.
Nessa vitória da destruição, o ápice se dá no delírio de perseguição que aparece após a imposição de um aborto à Camille Claudel, pelo amante, que impede novamente qualquer possibilidade de acesso a uma inscrição simbólica de nossa heroína: é a ruptura definitiva e a porta de entrada para o consumo excessivo de álcool, os escândalos públicos e a derrocada profissional, tão agravados pelo preconceito da social machista, de ontem e de hoje.
A artista passa a esculpir a devastação como tentativa de uma reorganização subjetiva através do trabalho artístico. Desta forma, a autora nos apresenta a internação como uma conclusão lógica de uma vida e uma obra que tornaram tangível a disputa fundamental de Eros e Thanatos, como tão bem nos falou Freud.
A posição de explorador, ocupada por Auguste Rodin, também se sustentou nos ditames morais de sua época, que repercutem ainda hoje e sustentam muitas formas de feminicídio, inclusive o simbólico, da mulher como um sujeito desejante, produtivo e autônomo. Mas não para por aí, o Brasil de hoje apresenta um aumento assustador no número de casos de feminicídio, apesar da diminuição nos índices de mortes violentas e nos surpreende com a complacência e, por que não dizer, a cumplicidade da sociedade com esse fato.
Casos como o do ex-marido que por ciúmes da ex-mulher matou seus próprios filhos e se matou, revelam como a devastação encontra ecos na sociedade, que ficou ao lado do assassino e tentou impedir a mãe de participar do velório de seus próprios filhos.
O ponto negativo da obra decorre exatamente de sua qualidade de permitir ao público leigo acesso a uma análise psicanalítica da vida e da obra de uma das principais artistas plásticas do século passado, mas que foi extremamente esquecida e mesmo obscurecida pelo seu infortúnio pessoal: ao tentar simplificar a análise para o leitor leigo a obra não permite ao mesmos a percepção dos diversos referenciais costurados para a construção da síntese interpretativa.
Como exemplo, podemos citar as inúmeras referências indiretas à ontologia do ser social de György Lukács, dentre outros. Somente aqueles leitores iniciados conseguem observar tais referências o que não permite uma compreensão mais clara da profundidade da análise proposta pela autora. Contudo, parece ser o preço assumido para publicar uma obra mais acessível, tanto no que se refere ao conteúdo como a sua forma, já que o livro, apesar da profundidade do grande conteúdo abordado, se resume a um pouco mais de cem páginas.
Além disso, há um grande potencial da obra no que se refere às discussões sobre a sociabilidade hodierna e o papel da mulher no âmbito produtivo e reprodutivo, como sujeito de seu desejo que resiste duramente à exploração, dentro e fora de casa.
5.
Para finalizar, gostaríamos de destacar a importância desta obra que nos obriga, então a pensar neste tema do desejo e de sua produção conjunta com as pessoas que nos cercam. Não nascemos, nem nos desenvolvemos isolados, precisamos dos outros: como seres sociais estamos em constante interação com nosso ambiente e com os outros homens. Em um mundo, como o nosso, onde tanto se diz sobre o narcisismo e a dificuldade do sujeito de ultrapassar o complexo de Édipo e constituir-se como sujeito desejante, como pensar o desejo, dentro de um metabolismo social tão destrutivo, como nos aponta Alves (2013).
Dardot e Laval (2016) nos dão uma pista ao trazerem à luz o “neosujeito”, uma personalidade marcada pelo individualismo narcisista e pela competição, onde o outro aparece como objeto atômico, indivisível e totalmente visível, como algo a ser manipulado na minha contribuição para a manutenção da destruição produtiva: não há amor nesse metabolismo social de destruição, só colaboração destrutiva, o outro não é percebido como outro em sua totalidade, em sua possibilidade de ser sujeito e, também, de desejar.
Como nos mostrou Pellegrino (1987) já há tanto tempo, o pacto social em que nos inserimos é marcado pela imposição de uma lógica perversa e destrutiva de uma sociabilidade, um modo de produção que explora a todos nós, nos remetendo a impactos significativamente negativos para nossa subjetividade e para as relações sociais.
Nesse sentido, o livro que comentamos aqui é fundamental, já que nos obriga a pensar na situação daqueles que se atrevem a olhar e a buscar, amorosamente, o olhar do outro em nossa sociedade, aqueles que acreditam na possibilidade de que o outro seja um sujeito e que ele possa, apesar das contingências e das determinações históricas, amar. Aqueles que não se conformam com a precariedade existencial e buscam a sensibilidade como forma de relação com os objetos e pessoas do mundo, como a protagonista desse livro, que só encontrou nos outros a fragmentação do humano, a brutalização e a violência sem limites.
Camille Claudel significa assim a insistência de uma diferença que quer, que deseja, como não deveria, que insiste até o limite em sua necessidade de sentir e de expressar seus sentimentos frente à confusão fetichista de uma sociabilidade invertida. Eles não conseguiram vê-la, viram somente o espelho e a confundiram consigo mesmos e a enlouqueceram. Se pensar sobre isso em sua época teria sido muito difícil, porém fundamental, em nossa época é ainda muito mais necessário e muito mais difícil. Esta é a importância desse livro: revelar de outra forma o que nos revelou o poeta em sua música – “não existe amor em SP” (CRIOLO, 2011).
O livro nos evidencia que, como sociedade, sufocamos o amor destruindo as possibilidades de dedicarmos nosso tempo aos outros e construirmos espaços e práticas de cuidado efetivas: lugares onde o afeto mais genuíno de nossa humanidade possa ser vivido como práxis. Lendo-o, percebemos que, se não encontrarmos Camille Claudel, se não encontrarmo-nos uns com os outros, continuaremos a não crescer como sujeitos, ontogeneticamente ou filogeneticamente.
Sendo assim, não se trata de uma ode a desilusão, mas um desabafo e um apelo, um ato, uma prática artística que nos permita ainda continuarmos trabalhando, em um dos melhores sentidos desta palavra, da ação permanente em direção ao outro e a nós mesmos: um caminho possível para uma nova sociabilidade.
*Matheus Fernandes de Castro é professor do Departamento de Psicologia Social da Unesp.
Referência

Ana Celeste Casulo. O amor e seus abismos: um estudo sobre Camille Claudel. Marília, Projeto editorial Praxis, 2026, 108 págs. [https://amzn.to/4cVBRHb]
Bibliografia
ALVES, Giovanni. Capitalismo à deriva: a crise da sociedade do trabalho e o destino da humanidade. Marília: Projeto Editorial Práxis, 2013.
CRIOLO. Não existe amor em SP. São Paulo: Oloko Records, 2011. 1 arquivo de áudio (4 min 43 s).
DUFOUR, Dany-Robert. O divino mercado: a revolução cultural neoliberal. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.
JAPPE, Anselm. A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição. Tradução de J. Guinsburg. 1. ed. São Paulo: N-1 Edições, 2021.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
PELEGRINO, Hélio. Pacto edípico e pacto social. In: PELEGRINO, Hélio. Escritos psicanalíticos. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. p. 115-130.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Tradução de Marcos Santarrita. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.





















