A poesia de Rubem Braga

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre livro de poemas do cronista Rubem Braga

Reza a lenda que Rubem Braga (1913-1990) escreveu, ao longo de sua carreira na imprensa, durante seis décadas, cerca de 15 mil crônicas, difundidas em jornal, revista, rádio e televisão. Apenas uma pequena parcela, estimada em pouco mais de mil, foram publicadas. Em breve, aqui mesmo em A Terra é Redonda, espero me dedicar à análise dos escritos desse magnífico cronista, que leio desde os quinze anos.

Hoje comento seu Livro de Versos, pequenino, reunindo apenas 14 poesias escritas entre 1938 e 1963 – ele que, conforme informa o prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna, “aí pelos 40 foi considerado um poeta bissexto. É assim que aparece com três poemas na Antologia de poetas Bissextos Contemporâneos coligida por Manuel Bandeira. Quarenta anos mais tarde, volta o bissexto agora numa edição marginal pernambucana [Edições Pirata, Recife, 1980]. Bissexto e marginal. E, no entanto, todos sabem que ele é dos maiores poetas da língua, só que em prosa”.

Este Livro de Versos foi republicado em 1993, uma bela edição comemorativa dos 80 anos do velho Braga, com ilustrações de Jaguar e Carlos Scliar, prefácio de Lygia Maria Moraes, comentário sobre os livros de crônicas do autor feito por seu filho Roberto Seljan Braga, além do já mencionado prefácio.

Aliás, Sant’Anna vê nos versos de Rubem um diálogo com amigos e com a poesia modernista, que se elaborava no Brasil entre 1920 e 1960, sobretudo com Bandeira e Vinícius de Moraes. Além disso, Drummond, Bandeira, Paulo Mendes Campos e outros poetas falaram em poesia ao falar de Braga – Bandeira diz que o capixaba de Cachoeiro de Itapemirim talvez não fosse um “poeta de oficina montada”, mas que era também poeta, não há a menor dúvida.

Sant’ Anna considera Vinícius e Bandeira “irmãos literários” de Rubem, explorando temas como “o fascínio pelas mulheres, o diálogo com a morte e a apreensão do cotidiano através de uma carioquice enternecedora”. São exemplos alguns destes poemas:

(1) “Senhor, eu quero andar na Rua do Catete/ Veria moças sem meias, desalinhadas e ágeis,/ As eternas moças populares, democráticas/ Da eterna Rua do Catete,/ (…) Sou pobre e superficial como a Rua do Catete./ Quero a pequena e amada agitação,/ A inquieta esquina, aves e ovos, pensões,/ Os bondes e tinturarias, os postes,/ Os transeuntes, o ônibus laranjeiras/ Único no mundo que tem a honra de pisar na Rua do Catete” (“Senhor! Senhor!”, 1938).

(2) “Uma alta, bela, desconhecida mulher (…)/ No seu corpo havia a doce dignidade essencial/ Que é a marca suprema da beleza da mulher./ Eu a fitei, eu detive os seus olhos com os meus,/ Foi apenas um segundo./ Ela não desviou os seus,/ Apenas continuou na sua marcha mansa/ Não sentiu nos meus olhos a aflição deslumbrada (…)/ Senti num instante toda a sua longa, longa,/ Mortificante melancolia” (“Aquela Mulher”, 1941).

(3) “Deus guarde Blanca Diana/ Dita La Negra Vergara,/ Bela e séria!/ Um sonho de Santiago/ Que não cheguei a sonhar/ Mas ficou no coração/ Como uma coisa no ar/ (…) Vem ao Rio de Janeiro/ Onde um ex-agregado/ Comercial/ Teve a inútil fantasia/ De fazer, pensando em ti/ Numa tarde de verão/ Este poema banal” (“Para Blanca Vergara”, 1952).

(4) “Tens uns olhos de menino/ Doce, bonito e ladino/ E és um calhordaço fino:/ Só queres amor e ócio./ Capadócio (…)/ Apesar do que, faz falta/ Tua presença, que a malta/ Do Rio pede em voz alta/ Deus te dê vida e saúde/ Em Hollywood” (“Bilhete para Los Angeles”, 1949).

(5) “Volta portanto a cara, vê de perto/ A cara, tua cara verdadeira,/ Oh Braga envelhecido, envilecido” (“Ao Espelho”, 1957).

(6) “Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder/ E são recebidos pelas Embaixadas./ Gostam muito de missas de ação de graças/ E às sextas-feiras comem peixadas” (“Ode aos calhordas”, 1953).

(7) “Sei que Zina vai morrer./ Zina gritará desesperada de dor./ O menino não nasce. Durmo. Tenho 16 anos/ (…)Os médicos a levam para o Rio de Janeiro (…)/ Passam dias. O menino nasceu./ Mas abro um telegrama com a morte de Zina./ Passo a noite num banco da estação esperando o trem./ Fumo/ (…)Aqui estamos enterrando Zina./ (…)Não rezei nem chorei (…)/ Carmozina morreu/ (…)Lembro Zina. É magra/ Nem bonita nem feia./ Tem uma graça meio triste./ Vejo seu penteado antigo, amigo./ Seu jeito. Era minha madrinha (…)/ Me olhava com seriedade./ Nos seus olhos sérios havia/ Um límpido carinho./ (…)Não tenho em casa nenhum retrato de Zina (…)/ A garganta seca. Desabo/ Sobre a mesa. Choro/ Como um menino. No quarto./ A água me enche os olhos/ Me banha a cara.É um alívio./ Vou dormir.Essas lágrimas/ São uma bênção de Zina. Adormeço./ Ela está no quarto./ Não grávida. Magra, séria, triste/ Olhando o seu irmão” (“A Morte de Zina”, 1946).

Em “Senhor! Senhor!” (poema 1), o cotidiano do Rio de Janeiro urbano dos anos 30 encontra-se presente de forma vigorosa e bem humorada; as mulheres sedutoras aparecem em “Aquela Mulher” (2) e “Para Blanca Vergara” (3); a amizade dá o tom em “Bilhete para Los Angeles” (4), na despedida de Vinícius, que estava indo trabalhar nos Estados Unidos; o passar dos anos, o envelhecimento e a perda da doçura comparecem em “Ao Espelho” (5); a boçalidade da elite brasileira de então se encontra em “Ode aos Calhordas” (6); o longo e dolorido trabalho de luto, realizado 13 anos depois, está em “A Morte de Zina” (7), sua irmã e madrinha Carmozina, que desaparece aos 30 anos, quando Rubem tem apenas 16, traumatizando toda a família.

Em suma, até posso entender que a poesia de Rubem Braga, quando comparada à sua produção enquanto cronista, em que foi um verdadeiro mestre (ver, a respeito, dois brilhantes ensaios de Davi Arrigucci Jr. – 1979 e 1985), não experimente o mesmo brilho; entretanto, feio ela não faz. Affonso Romano de Sant’ Anna escreveu em seu prefácio ao Livro de Versos que tais poesias “talvez pertençam à estirpe de Viola de Bolso, de Drummond e Mafuá do Malungo, de Bandeira” – o que, convenhamos, não é de se descartar com facilidade.

*Afrânio Catani é professor titular aposentado da Faculdade de Educação da USP e, atualmente, professor sênior na mesma instituição.

 

Referência


Rubem Braga. Livro de Versos. Rio de Janeiro: Record, 1993, 60 págs.

 

Bibliografia


Davi Arrigucci Jr. Onde andará o velho Braga? In: Achados e perdidos: ensaios de crítica. São Paulo: Polis, 1979, p. 159-166.

Davi Arrigucci Jr. Braga de novo por aqui. In: Os melhores contos: Rubem Braga (Seleção: Davi Arrigucci Jr.). São Paulo: Global, 1985, p. 5-28.