A honra de Donald Trump e a de Cuba

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Por GABRIEL COHN*

O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores

“A respeito de Hitler nada me ocorre”. Quem diria que essa frase devastadora com que o grande ensaísta austríaco Karl Kraus iniciaria livro de ataque ao nacional-socialismo há um século retornaria à memória neste momento histórico difícil na figura de Donald Trump?

Pois é, o inefável Donald acaba de proclamar a sua inquebrantável dignidade (e coragem, pelo risco militar envolvido) ao declarar-se pronto a acabar com Cuba como questão de honra que lhe cabe assumir. “Terei a honra de tomar Cuba”, declarou em entrevista. “De alguma forma. Acho que posso fazer o que quiser com ela”. Não em momento qualquer, claro, pois é agora que a nação ameaçada se encontra debilitada, segundo ele.

Debilitada como? Aqui saímos do terreno da pura indignação para enfrentar fatos duros e muito embaraçosos nas condições atuais. É notório que as condições adversas naquela ilha são em grande medida provocadas pelo mais intenso e prolongado embargo de relações econômicas vitais já imposto por potência planetária a pequena nação.

A retórica sem vergonha de Donald Trump não deve, contudo, ocultar a extensão e a gravidade do processo de agressão sistemática envolvido. Documentos obtidos há décadas demonstram que o recurso a quaisquer práticas propícias a tal debilitação já era cogitado na fase inicial dos anos 1960.

Isso ocorria na forma de planos de agências oficiais dos EUA para gerar revolta na ilha por carência até à fome mediante danos químicos a colheitas, junto com “guerra psicológica” naquilo que hoje seria chamado fake news, só não levadas inteiramente a efeito por receio de que transparecesse a mão ianque no processo (sem prejuízo das efetivas tentativas de assassinato do líder nacional, num padrão muito presente hoje).

O fato é que Donald Trump é só o ponto terminal e menos escrupuloso de um processo de longo prazo, que ainda será reconhecido como integrante pleno do arsenal de horrores que marcou o século passado e vem sendo recapitulado em versão piorada no atual. Nesse ponto ele apenas é porta-voz explícito de um processo que se estende há muito, sob vários governos de seu país (começou com John Kennedy).

Há uma mudança, contudo, e essencial. É que na arrogante grosseria dessa figura o que se faz é tornar nítido – explicitar, esse é o ponto – tudo aquilo que se incubava de pior na sociedade e na organização do poder nacional naquela nação que outrora respeitávamos apesar de tudo. Até aí tudo se reduziria, enfim, a uma questão de “honra” e o mundo continuaria girando.

2.

Todavia, o que vemos agora é a ação tresloucada de uma superpotência militar e (por enquanto) econômica cujo mandatário máximo se permite não apenas pronunciar intenções criminosas e fazer pouco das instituições que deveria obedecer como praticar pura e simples traição, como ocorreu no ataque militar ao Irã quando havia entendimentos em curso, tudo isso sem maiores escrúpulos. (Não esperem de mim lágrimas pela teocracia autoritária iraniana, não é isso que está em jogo).

O essencial é que os bramidos trumpianos anunciavam um novo patamar no cenário geopolítico, uma tentativa de um novo colonialismo que deve ser identificado, analisado e combatido. Donald Trump e há um século Adolf Hitler (a aproximação dos nomes não é mera retórica, isso mereceria uma análise à parte) são ambas figuras repugnantes sem dúvida, mas não podem ser menosprezadas.

Entre o muito que os aproxima está isso, de que representam do modo mais consequente (e competente nos seus propósitos, diga-se de passagem, por menos que Hitler proclamasse que faria o que quisesse da Polônia antes de invadi-la) os seus momentos históricos na explicitação plena de suas tendências levadas ao extremo.

O desafio atual, especialmente para um país com importante peso estratégico no cenário global como o Brasil e por extensão para o conjunto ainda mal-ajambrado das nações BRICS (sem a Venezuela, dada de presente aos EUA em parte por deslize do Brasil) consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores.

Cuba certamente está debilitada após o acirramento da agressão acumulada, mas a figura de Donald Trump só se torna mais forte e nítida como a expressão atual e mais cavernosa da conduta dos EUA no mundo.

Se antes se agia institucionalmente em nome de alegados interesses elevados (em nome da democracia, como se veria no Brasil em 1964) agora temos um dirigente nacional que proclama sua capacidade de fazer o que bem entende em outro país, não tanto em nome daquele que representa e sim no clássico gesto autoritário de “eu posso” qualquer coisa.

Simples bravata de quem ocasionalmente representa a maior potência do planeta? É muito mais grave, e a proclamação na imperial primeira pessoa de que posso fazer o que quiser e de que isso me honra encerra uma advertência terrível, que vem se multiplicando ultimamente.

Consiste ela em acelerar um processo já em andamento, de erosão dos princípios mínimos de respeito às condições de legitimidade nas relações internacionais, que costumam ver acompanhadas do desgaste das instituições democráticas nacionais, como se vê agora nos EUA. Enquanto isso a pequenina Cuba (não tanto, talvez, afinal é dez vezes maior do que a ilha do Bananal, mas esta é só fluvial) prossegue na sua tentativa de construir ao seu modo uma sociedade com perfil socialista e, com percalços e não poucos erros externos e internos, pode sim exibir sem jactância nem arrogância o que conseguiu apesar de tudo, na educação, na saúde, na pesquisa, na cultura.

(Lembram-se da frase “há muitas crianças passando fome neste momento no mundo; nenhuma delas é cubana”? Frase dolorosa quando na minha pátria há não muito se lia na imprensa que crianças desmaiavam de fome em escolas enquanto a merenda escolar era desviada).

Cuba se mantém como cenário de uma promessa, com muitos equívocos e também com muita bravura, apesar de tudo. Donald Trump quer sequestrar a honra em sua investida contra Cuba e contra aquilo que representa de admirável. Não conseguirá.

*Gabriel Cohn é professor emérito da FFLCH- USP. Autor, entre outros livros, de A difícil República (Azougue). [https://amzn.to/4mJBJeM]

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