Por TALES AB’SABER*
Considerações sobre o filme dirigido por Oliver Laxe, em exibição nos cinemas
1.
O filme vai direto ao ponto, e o ponto se expande, como um espaço no limite de todas as fronteiras. Pode-se dizer que sua estrutura fabular é a de uma linha entre dois lugares – duas festas que desvanecem e a viagem entre elas – um traço no seu mundo deserto. Mas essa jornada linear, fantástica negativa, este traço real, está cercada por um plano, ainda mais que um plano, um espaço, o “espaço mundial”, o plano da guerra que vem do horizonte e envolve a viagem por todos os lados, por cima, por baixo e por dentro.
Estamos em um deserto, o que existe é o trabalho de juntar a maquinaria velha de guerra da aparelhagem de som, a parede das caixas gigantescas contra as paredes de pedras da natureza de fundo. Surge a música eletrônica pesada, que vem do nada, multiplicada no eco da natureza concreta, e dezenas de corpos que dançam sem parar. Os corpos, as roupas, os cabelos, as cabeças, os dentes, os membros, os rostos, os pés. São corpos estranhos, mas socialmente reconhecíveis.
Tudo neles é marginal e tudo está marcado. Existem em algum lugar entre muito prejudicados e afirmativos de uma própria diferença, qualidade falha que revela a nossa própria norma conservada, um próprio estrangeiro. Uma comunidade dionisíaca do nada, o fim da linha das vanguardas anti-burguesas, do século XIX até agora.
Históricos e negação da cultura a um tempo, são mundanos e oposição ao mundo apenas em um corpo que dança. Pulsão música, espírito droga, contra todo o resto. E gozam, sem fronteiras com os outros, mas inteiramente sós, em uma coletividade de singularidades radicais. Cada um porta sua história nas marcas intensas do corpo, entre vivido e ferido, e também são todos iguais na música só corpo, tão mundanamente técnica.
Aqueles corpos, como aquela música, são experiência e são ruína a um tempo. Em um mundo de transe e exceção, são a exceção consciente. Parados em movimento, no tempo festa sem mundo, a comunidade de vagabundos orgiásticos, mendigos e artistas que só vivem o que vivem, nos provoca com a diferença radical, criada assim, enquanto não esperam nada.
Essa estrutura, da festa da música infinita, entre explodir e pulsar, no deserto e à beira do abismo, com seus homens e suas mulheres abismo, os homo sacer, excluídos e autoexcluídos, decadentistas de todos os tempos, como Herbert Marcuse olhava para eles, será projetada por um traço de tempo na viagem do filme pelo deserto. A jornada dos caminhões da rave, de festa em festa, de nada ao nada. O tempo narrativo avança, mas também está parado no mundo só dança, só pulso.
2.
Blow up eletrônico, Ulisses coletivo vagando em mundo insubsistente, cujo único território sob a própria humanidade é o corpo/droga/música-eletrônica, a utopia negativa, tecnicamente mediada com o mínimo – para afirmar a vida como um fora, inexistência de qualquer cultura, de qualquer economia, que não essa – dos que vão pelo mundo de festa em festa, de alucinose em alucinose.
Olhando desde o interior do mundo, a mesma dissolução pela festa eletrônica se observa em Eden, de Mia Hansen-Love, em que um jovem DJ busca inserção e sucesso no grand monde do espetáculo mundial, enquanto caminha sobre o próprio nada. Ilusões perdidas pós-industriais europeias, educação sentimental de um mundo que se dissolve no mesmo movimento em que se autocelebra. Brás Cubas da técnica do mundo…, dançam, dançam e dançam, enquanto nada – e tudo… – acontece.
Em Blow up, Michelangelo Antonioni olhou para a mesma fuga e o mesmo deserto de Sirât, registrando o momento da virada da contracultura positiva, utópica na abstração da ideia de viver de amor, para a contracultura absolutamente estrangeira, do confronto entre a própria queda infinita e sua bomba contra o que existe. A explosão desejada do mundo, do fim do filme, anunciava o negativo total como explosão de si mesmo.
Como no fim do deserto sem fim, em Greed, de Erich von Stroheim, a jornada e o grande plano geográfico da terra, sol e poeira, corpo que desfalece, dá precisamente no nada, a morte trágica do fora absoluto então movida por voracidade e dinheiro.
Também, no mais estrangeiro, nos corpos estrangeiros, dos filmes do nosso cinema marginal – da forte recusa marginal brasileira em participar da cultura da ditadura, do final dos anos 1960, começo dos 1970 – Orgia, o homem que deu cria, temos a mesma profunda e radical imagem dos corpos múltiplos em jornada, também trans-humanos da miséria humana, sambando em uma orgia de superfície, da fragmentação carnavalesca múltipla e limite. Daquilo que será, que será?, e seu gozo indeterminado.
Mas em Sirât a jornada direta do Ulisses eletrônico coletivo, da Ítaca da festa sobre o nada rumo à Ítaca da festa futura, que promete a redenção do sempre o mesmo, como a sua música, vai atravessar um campo minado. O mundo recusado vai bombardear a utopia do nada dos ravers sobreviventes que tentam escapar dele.
Se é a linearidade da jornada atravessando perigos, do mar que virou deserto, Blow up e Ulisses coletivo, deus e o diabo na terra do nada, que define o movimento do filme, interpretando assim a contracultura da música infinita eletrônica, de festa em festa, excitação e vazio, como traço no deserto, ela estará cercada, em um plano muito mais amplo, espaço filme que vem do todo e vem do mundo, pela guerra total.
Essa abertura vertiginosa à explosão do mundo, hiper determinada na história, modernidade se dissolvendo como morte e como controle programático, sobre o rastro e o vazio das existências que insistem no fora, no “inteiramente outro”, é muito responsável pela explosão do “espaço de pensamento” do filme. Livre, e louco, nesta forma, ele pode ir em qualquer direção, em quaisquer escalas, do pé batendo no chão, dizendo que existe, até a guerra mundial, e o próprio niilismo absoluto do poder.
Aquilo que se quer fugir, na vida da negação absoluta, retorna por todos os lados como a coisa pior do próprio mundo que se quer distância: guerra. Como Rubens Rewald me disse, “o filme revoluciona a ideia da guerra no cinema”. Se for assim, agora o contato é com a guerra do mundo super determinado, que encontra o deserto do próprio niilismo: Apocalipse now.
Sim, trata-se do que explode exatamente agora: nossos corpos, o que nos joga no abismo em tempo real, a velha tragédia, a guerra atual. A guerra que nos persegue, tenhamos ou não algo a ver com ela, acreditemos ou não nos seus termos, vinda por todos os lugares, por cima, por baixo e por dentro. Por isso, e por ainda mais disso, alguns preferem dançar sobre o nada, sem nada, contra tudo. Até a próxima bomba, interna, vinda dos deuses, vinda de algum homem, contra todos.[i]
*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]
Referência
Sirât
Espanha, França, 2025, 114 minutos.
Direção: Oliver Laxe.
Roteiro: Oliver Laxe e Santiago Fillol.
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Richard Bellamy.
Nota
[i] Se houver curiosidade sobre o destino técnico utópico negativo da contracultura ocidental ver A música do tempo infinito, Cosac e Naify, 2014.






















