Quando uma nação se perde da justiça

Imagem: Annika Persin
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Por EUGÊNIO BUCCI*

O que está em jogo na crise do Judiciário não é um detalhe administrativo, mas o coração da vida pública. Sem uma direção justa para os conflitos, resta o fanatismo instrumentalizado e a alma escorrendo pelo ralo

1.

Não é uma instituição, não é um poder, não é uma autoridade. Antes de assumir essas formas, além de muitas outras – uma sentença, um trânsito em julgado, um resultado eleitoral, a lista seria extensa –, a justiça é uma ideia compartilhada por pessoas que se reconhecem partes de uma identidade comum, uma história comum, um futuro comum.

Mas dizer isso é dizer pouco, já me apresso em alertar. É necessário que a ideia compartilhada de justiça tenha vínculo direto com aquilo que, num único ser humano, é intuitivo: o sentimento de justiça. Em resumo, é necessário que a ideia compartilhada de justiça, que é uma elaboração cultural coletiva, represente e traduza, com as devidas mediações, o sentimento intuitivo de cada pessoa. Sem isso, nada feito.

(Sei que o parágrafo anterior soou abstrato em demasia. Por isso, peço licença para aprofundar o ponto. Vai ficar mais abstrato ainda, mas talvez fique mais límpido também.)

Os gregos antigos acreditavam que o sentimento de justiça morava na alma: seria uma sabedoria natural, espontânea, capaz de distinguir quase que por reflexo entre o iníquo e o magnânimo, entre o arbitrário e o parcimonioso, entre o bem comum e a vaidade chula. Viriam daí, desse saber intuitivo, tanto a indignação moral (o impulso que se ergue contra um ato de injustiça) quanto uma certa paz de espírito (aquela que se instala quando se tem segurança de que os direitos de cada um encontram atendidos, em harmonia com os direitos da coletividade).

Pois bem. Quando existe conciliação possível entre o sentimento de cada sujeito e o entendimento racional, socialmente construído, do que é o ideal de justiça e de como ele pode se realizar, podemos falar, enfim, de uma ideia compartilhada legítima. Se a ideia compartilhada existe, se está viva e presente, tudo vai bem.

No entanto, quando a possibilidade de conciliação se desfaz, ou começa a se desfazer, o que começa a morrer é a possibilidade de que as pessoas se reconheçam como partes de uma identidade comum, uma história comum, um futuro comum. Aqui estamos nós.

Parece exagero, eu sei, mas não é. No bojo da agonia de credibilidade do Poder Judiciário no Brasil, o que está em jogo é muito mais do que encontrar uma fórmula para limitar os penduricalhos de desembargadores, muito mais do que redigir um código de ética que discipline os conflitos de interesse dos ministros das altas cortes, muito mais do que julgar e punir magistrados criminosos.

O problema de fundo é mais aflitivo e mais clamoroso, embora invisível para a imensa maioria dos comentadores: o problema é que a nação está se perdendo do que poderia ser uma ideia compartilhada de justiça. Se as coisas prosseguirem assim, seremos um país perdido de si mesmo.

2.

Não minimizemos o que se passa. Deveríamos parar com essa mania cômoda (e suicida) de reduzir os assuntos judicantes a um mero detalhe administrativo da República, um escaninho de repartição pública. A ideia compartilhada de justiça é mais do que isso: ela é o coração de toda atividade pública.

Com isso, volto com os gregos antigos. Não por acaso, a diretriz que orienta o pensamento contido na Politeia (A República) de Platão é o esforço de compreender o que poderia definir a justiça. Em seus diálogos, o discípulo de Sócrates investiga, entre outros temas, o equilíbrio devido entre as pretensões dos cidadãos, a necessidade de dar a cada um o que lhe é de direito, a observância da lei e o dever de desapego daquele que exerce o poder. A política transparece como o método da pólis para a produzir um ambiente justo.

Aristóteles escreveu A política para refutar algumas das “quimeras” que detectava na Politeia de seu mestre, mas não refutou o elo entre a ação política e a realização da justiça. Quando refletiu sobre a mais elevada finalidade (o bem) da política, que concebia como “a mais suprema de todas as ciências”, o filósofo foi categórico: “O bem, em política, é a justiça que consiste no interesse comum”.

Hoje, ao ler Aristóteles e Platão, somos convidados a aprender que, se a política não se destinar a tornar mais justa a sociedade, terá perdido sua razão de ser. Sim, todo mundo sabe que a visão que cada tempo histórico tem do que seja a justiça pode variar, mas segue fora de dúvida lógica ou ética que, numa ordem democrática, o propósito da vida política é caminhar na direção do que seja justo aos olhos dos cidadãos.

Para onde isso nos leva? Muito simples. Quando uma sociedade não sabe mais apontar a direção justa para os seus conflitos internos, sua vida política se perde da própria finalidade. Então, o que vem é o fanatismo instrumentalizado por gangues que se digladiam para se apropriar de nacos da riqueza social, mais ou menos como salteadores divididos em bandos se engalfinham para ver quem é que fica com o butim.

Se você olhar com alguma objetividade à sua volta, verá que não estamos longe da instrumentalização do fanatismo pelas gangues. Quando o sentido mesmo da justiça é disputado pelas facções como se fosse parte do butim, um sentimento de alma escorre pelo ralo.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

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