A questão dos pequenos partidos

Dora Longo Bahia. Revoluções (projeto para calendário), 2016 Acrílica, caneta à base de água e aquarela sobre papel (12 peças), 23 x 30.5 cm cada
image_pdf

Por FABIANO SANTOS*

Uma análise das causas da recente fragmentação partidária no Brasil

Um dos principais problemas da política brasileira diz respeito ao sistema partidário. Eleição após eleição, principalmente nas realizadas para a Câmara dos Deputados, os analistas vêm mostrando a ampliação da fragmentação. A explosão do número de partidos, em particular, acontece a partir de 2006-2010, revertendo uma tendência histórica – notada desde a transição da ditadura para a Nova República – de concentração das forças partidárias em torno de alguns clusters, de alguns agrupamentos políticos. A fragmentação aumentou de 2010 para 2014 e, de forma muito significativa, de 2014 para 2018.

Fragmentação é um nome técnico utilizado na ciência política para designar o grau de dispersão das forças políticas – o que pode sinalizar problemas de governabilidade, capacidade de organizar coalizões, consistência no processo decisório. Como se trata de um tema importante na ciência política, agora, na eleição local, existe muita curiosidade para saber, afinal de contas, qual é a origem dessa fragmentação, como ela está distribuída nas regiões, no país, em suma, se ela tem origem na vida política dos municípios.

As eleições municipais constituem assim um experimento significativo no exame da trajetória do sistema político brasileiro, nas análises sobre qual é o seu processo e como os partidos estão se organizando em torno disso. Gostaria de chamar a atenção para um aspecto importante para a investigação do problema da fragmentação que é a questão geográfica.

Alguns estudos elaborados mais recentemente mostram que a fragmentação tem muito a ver com os pequenos partidos. Se há muita fragmentação é porque os grandes partidos dispõem de pouca força hegemônica, o que acarreta uma dispersão grande para partidos médios e pequenos. Nessa linha de pesquisa existe uma preocupação destacada com os partidos de aluguel, os partidos nanicos, os partidos que são feitos de uma hora para outra e são desfeitos em uma velocidade muito grande, que só existem para momentos eleitorais e para negociações.

Quando se observa a geografia da fragmentação é possível notar um dado muito interessante. Os partidos de centro-direita – o PSDB, o DEM, o PMDB, o PP –, têm muita força no Brasil litoral, no Brasil tradicional, no Brasil da Colônia para a frente, no Brasil que se industrializou. E há muita fragmentação e partidos pequenos, nanicos, periféricos, nas demais regiões, ou seja, longe do Sul, do Sudeste e de uma determinada faixa do Nordeste, que é mais litorânea.

Quando se examina com lupa, quando se observa as eleições locais para as assembleias legislativas e depois para a Câmara dos Vereadores e para as prefeituras, nota-se uma grande fragmentação, a presença nas disputas locais de um grande número de partidos periféricos que não têm sequer representação na Câmara dos Deputados. Isso acontece especialmente, e com mais força, na região Centro-Oeste, na região Norte e num pedaço do Nordeste.

Assim cabe destacar duas coisas importantíssimas nas eleições locais. Como essas fragmentações se distribuem nas eleições para as prefeituras e para as Câmaras de Vereadores? Será que a distribuição geográfica é homogênea em todo o país? A minha desconfiança é que não. Nós vamos observar de novo os partidos periféricos, nanicos, sem expressão nacional tendo representatividade nessas regiões de fronteira, que são regiões relativamente recentes na geografia brasileira.

O outro aspecto a ser destacado é a distribuição ideológica dessa fragmentação. Temos que partir da seguinte hipótese: qual é a importância desses partidos – pouco expressivos do ponto de vista nacional – para o campo da direita política. Afinal, a mesma coisa não se reflete no campo da esquerda, que tem certa hegemonia do PT, tem o PSB, tem o PDT competindo, e agora o PSOL.

Temos assim duas hipóteses principais a respeito da fragmentação a serem examinadas na computação dos resultados das eleições locais. Primeiro, a sua distribuição geográfica, para verificar se há mais fragmentação, ou melhor, uma fragmentação induzida pela presença de mais partidos nanicos, nas regiões de fronteira. A segunda consiste em verificar se essa pulverização de partidos periféricos se deve à pouca capacidade dos partidos tradicionais de direita de penetrarem nessas regiões. Nesse caso trata-se de fenômeno atinente sobretudo à direita e aos seus vários formatos do que às outras forças do centro-esquerda e da esquerda.

*Fabiano Santos é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), onde coordena o Núcleo de Estudos sobre o Congresso (NECON).

Texto estabelecido a partir de depoimento para o Observatório das Eleições 2020 do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação (INCT/IDDC).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES