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A aristocracia refém de si mesma

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Por JOÃO SETTE WHITAKER FERREIRA*

A inépcia das reações aos delírios de Bolsonaro deve ser buscada na aristocracia poderosa e discreta que decide os destinos do país

Nada isenta o capitão genocida. Ele é antidemocrático desde criancinha, e há trinta anos bradava isso aos quatro ventos, para quem quisesse ouvir. Mas era apenas visto como um lunático bravateiro. Até mesmo os grupinhos que iam para a avenida Paulista com faixas pedindo a volta da ditadura eram vistos como excêntricos. Como fomos parar aqui? Com um presidente da República que ameaça o STF e a democracia em comício, sem que lhe aconteça nada de mais grave?

Pois é, após as reações no mínimo covardes dos presidentes da Câmara e do STF, temos que nos perguntar. Será mesmo apenas frouxidão? Medo do Bolsonaro? Será realmente que estão apequenados porque acreditam que o capitão seria capaz de aglutinar apoio para uma sublevação contra a democracia? Quando todos aqueles que circulam nos meios do poder indicam que ele não tem apoio para isso? Será que, como sustentam alguns, estamos menosprezando a força do golpe que Bolsonaro sorrateiramente prepara? Acredito que a resposta não está propriamente no Bolsonaro.

Há uma questão que sempre vale lembrar: quem começou com essa história de destruir a democracia, não foi Bolsonaro. Quem duvidou do resultado da penúltima eleição presidencial, insinuou fraude, lançou ameaças ao governo que recém vencia, não foi Bolsonaro. Foi Aécio Neves. Quem começou a subir, semana sim semana não, mais um degrau no desmonte da democracia, não foi Bolsonaro, mas um juiz que decidiu, à luz do dia e sem reação de ninguém, virar justiceiro e desrespeitar a lei. Quem iniciou um impeachment sem crime não foi Bolsonaro, foi o MDB associado ao PSDB.

Pois bem, há uma aristocracia poderosa e discreta que decide os destinos deste país. A imagem folclórica, embora haja testemunho de gente que presenciou, é que se reúnem de vez em quando em salões aveludados para discutir a conjuntura e os rumos do país. São grandes banqueiros, gigantes da indústria, donos das mídias, ex-mandatários, empresários de peso, e alguns políticos, mas não todos (escrevi este artigo antes do vídeo do jantar do Temer na casa do Naji Nahas, com todos os barões reunidos. Não poderia haver uma ilustração melhor do que essa). Pois desconfio que muito da inépcia das reações aos delírios de Bolsonaro deve ser buscado no meio dessa turma, e não no meio da família de dementes que eles deixaram, por um lapso, chegar ao poder. A explicação está em outro lugar. Está no impasse em que essa gente se meteu, por conta própria.

A questão é a seguinte: a aristocracia que manda cedeu à força democrática ao aceitar engolir Lula, convencidos pela “Carta aos brasileiros”. Deu até mais certo do que eles pensavam, mas, quando o caldo começou a entornar, porque Dilma mostrou-se mais à esquerda do que o desejado, porque enfrentou sem sucesso uma crise econômica que não era mais nenhuma “marola” (como havia prometido Lula), quando Dilma resolveu endurecer com os bancos, e quando viram que a brincadeira democrática podia perpetuar o PT no poder por décadas, resolveram que a brincadeira já não tinha mais graça. Prepararam-se com tudo – com a mídia e todo seu poder econômico – para tirar Dilma do poder nas eleições, mas não conseguiram. Restou-lhes questionar o pleito e iniciar um paulatino, mas seguro, processo de erosão da democracia.

O que não esperavam é que seus potenciais representantes políticos iriam cindir-se e, com mais de um candidato, todos sem nenhum carisma, iriam afundar-se eleitoralmente. Alkmin, Meirelles, Amoedo e, em certa medida, Marina, dividiram os votos do “centro esclarecido”, um eufemismo para uma direita aristocrática montada em seus privilégios, mas que se quer progressista, e se afundaram nas urnas. Seu inimigo naquele momento não era Bolsonaro, vale lembrar. Era o PT, de quem tinham medo que voltasse ao poder e ali ficasse.

Por isso, não se importaram em apostar naquele que havia gritado “Viva Ustra” poucos meses antes. Nem Ciro, nem FHC, ninguém. Todos aceitaram igualar dois candidatos incomparáveis, e ajudaram a parir o monstro, a acordar não um gigante, mas uma massa de brasileiros toscos, individualistas, racistas, xenófobos, machistas, egoístas, intolerantes, violentos, que de repente viram que lhes tinha sido dado espaço para se manifestarem sem vergonha. Pior, com orgulho.

Com Bolsonaro no poder, entraram – ou acharam que entraram – no clubinho dos poderosos novas figuras que na verdade não foram aceitos. Empresários do comércio de varejo, vaqueiros do agrobusiness, gente mais tacanha, focada no seu lucro imediato, habituada às burlas e falcatruas, à sonegação de impostos, às malas de dinheiro. Pastores das igrejas da enganação, tosqueadores do dinheiro dos mais pobres. Essa gente começou a falar alto. Ah, e também, é claro, as milícias.

Jair Bolsonaro vive, ou melhor, sobrevive da sua popularidade com esses setores. E só. Nenhum militar de mais alta patente com algum neurônio (e seria muito simplismo achar que eles não têm nenhum neurônio) iria se embrenhar em uma aventura golpista com um fanfarrão na liderança. As PMs podem até apoiá-lo, mas precisaria de muita coordenação entre forças estaduais desconectadas para que constituíssem uma força armada capaz de sustentar uma aventura militarista. Nenhum empresário, banqueiro, industrial, está interessado em ver o país virar um faroeste dominado por milicianos e aventureiros novos ricos. Sabem que seria o pior cenário para seus lucros. Aliás, nem mesmo o centrão parece disposto, pois sabe que isso seria o fim de sua fonte de clientelismos, seriam rapidamente substituídos por outras forças bem piores, milicianos e afins.

Mas ai, o que fazer? O problema é esse. Nessa dinâmica toda, essa elite aristocrática perdeu a mão da política. Ela é, no fundo, profundamente antidemocrática. Talvez mais até do que o próprio Bolsonaro, pois o é de maneira mais sofisticada. Sua estratégia é vencer legitimamente nas eleições, desde que ganhe quem eles queiram. Só que, desta vez, eles têm a frente um fanfarrão que tem o poder, e do outro lado, mais forte do que nunca, a possibilidade da volta do PT. Podem dizer o que quiserem, mas Lula é o que é, gostem ou não. Carrega caminhões de apoiadores legítimos. E a expressão mais acabada do modo antidemocrático de ser dessa gente surge quando algum jornalista ou político sugere que Lula deveria renunciar à candidatura, “em nome do país”. Vamos colocar em outras palavras: Lula deveria desistir porque ele impede que tirem o Bolsonaro para por no lugar alguém que eles queiram, “em nome e para o bem do país”.

Eles bem que tentaram: Moro, Huck, Mandetta e até mesmo um idiota como aquele humorista, foram testados para a tarefa. Mas aí que está o problema, ninguém “pega”. Nem mesmo o Ciro, que está disposto a tudo, até a se assumir de vez como representante dessa aristocracia. Eles todos até poderiam tirar o Bolsonaro, mas o problema não é bem esse: não tiram o Lula. E então estão se desesperando em busca de uma “terceira via”, um eufemismo para dizer que não aceitam a vontade democrática se ela confirmar que a escolha popular será Lula.

Então, por ora, aceitam as bravatas. Assim como ocorreu nas eleições, Bolsonaro, um oportunista profissional, aproveita o espaço. E sobe o tom. Se não conseguir um golpe, ao menos sairá atirando com uma base intacta de 25%, assim como Donald Trump. O STF e Artur Lira sustentariam uma reação à altura que as provocações de Bolsonaro merecem? Mas para dar no que? Em um impeachment que colocará Mourão à espera de uma eleição aparentemente já decidida? A solução não serve. O andar de cima deve estar fervendo. Urge achar uma saída, antes que percam de vez o pé da aventura bolsonarista.

Temos que entender que o DNA antidemocrático não é uma exclusividade de um louco que deixou o país à deriva e à morte em nome de seus projetinhos pessoais tacanhos, e que clama por um golpe desde que existe. O DNA está em quem deixa ele agir impunemente porque, do alto das instituições democráticas que deviam servir, não tomam as atitudes que se impõem.

Lembremos que Dias Toffoli, quando presidente do STF, colocou um militar para assessorá-lo, em um gesto para conciliar com Bolsonaro. Disse que a ditadura havia sido um movimento. A alta corte calou-se quando um general a emparedou caso seguissem a lei e soltassem o Lula. Porque tamanha condescendência? Porque estão perdidos, sem achar um caminho que tire o fanfarrão de onde não deveria estar, mas lhes garanta o poder. Se quisessem, têm dinheiro para pôr o centrão no bolso. A questão é que ser democrático, hoje, no Brasil, significa aceitar as eleições. E eles não querem do jeito que está. Então vão empurrando o capitão até algo novo surgir. Não se espantem se esse “algo novo” não venha a ser de novo o Moro: como a Folha já mostrou, a absolvição de Lula e a condenação do ex-juiz no STF não significa nada, para eles são só arranjos. O problema é que, nessa brincadeira, o fanfarrão pode acabar dando-lhes novamente um olé, e conseguir o que quer: um golpe de verdade.

*João Sette Whitaker Ferreira é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP).

 

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