A ascensão do fascismo no mundo e no Brasil

Imagem: Oskar Kadaksoo
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Por LEONARDO BOFF*

O fundamentalismo, seja político ou religioso, é o solo onde floresce o fascismo: a crença de ser o único dono da verdade que justifica apagar a dos outros

1.

Nota-se no mundo inteiro e também no Brasil a ascensão de ideias fascistas ou de atitudes autoritárias que rompem todas as leis e acordos como se nota claramente na política do presidente dos EUA Donald Trump com seu ufanismo MAGA (Make Amerika Great Again).

As promessas feitas pelas grandes narrativas modernas fracassaram. Produziram uma enorme insatisfação e depressão mais ou menos generalizadas e ondas de raiva e de ódio. Cresce a convicção, especialmente devido ao clamor ecológico, que assim como o mundo está não pode continuar. Ou mudamos de rumo ou vamos ao encontro de uma catástrofe bíblica. É neste contexto que vejo o fenômeno sinistro do fascismo e autoritarismo se impondo em nossa história.

A palavra “fascismo” foi usada pela primeira vez por Benito Mussolini em 1915 ao criar o grupo “Fasci d’Azione Revolucionaria”. Fascismo se deriva do feixe (fasci) de varas, fortemente amarradas, com um machado preso ao lado. Uma vara pode ser quebrada, um feixe, é quase impossível.

Em 1922/23 Benito Mussolini fundou o Partido Nacional Fascista que perdurou até sua derrocada em 1945. Na Alemanha se estabeleceu a partir de 1933 com Adolf Hitler que ao ser feito chanceler criou o nacional-socialismo, o partido nazista que impôs ao país dura disciplina, vigilância e o terror dos SS.

A vigilância, a violência direta, o terror e o extermínio dos opositores são características do fascismo histórico de Benito Mussolini e de Adolf Hitler e entre nós de Augusto Pinochet no Chile, de Jorge Rafael Videla na Argentina e no governo de João Figueiredo, de Emílio Médici e como tendência, de Jair Bolsonaro no Brasil.

O fascismo originário é derivação extremada do fundamentalismo que tem larga tradição em quase todas as culturas. Samuel Huntington em sua discutida obra Choque de civivlizações (1997) denuncia o Ocidente como um dos mais virulentos fundamentalistas e nas guerras coloniais mostrou claros sinais de fascismo. Imagina-se o melhor dos mundos, junto com os EUA, o que lhe confereria, segundo eles, a sua excepcionalidade. Quando o presidente Donald Trump afirma “America first” está entendendo “só a América” e o resto do mundo que se lasque.

Conhecemos o fundamentalismo islâmico com seus inúmeros atentados e crimes e outros, também de grupos da Igreja Católica atual. Estes creem ainda ser ela a única e exclusiva Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação. Tal visão errônea e medieval, oficialmente publicada ainda no ano 2000 pelo então Card. Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, num documento Dominus Jesus, humilhou todas as igrejas, negando-lhes o título de igrejas, sendo apenas comunidades com elementos eclesiais.

Graças a Deus o Papa Francisco, cheio de razoabilidade e de bom senso, invalidou tais distorções e favoreceu o mútuo reconhecimento das igrejas, todas unidas, no serviço da humanidade e na salvaguarda do planeta seriamente ameaçado.

2.

Todo aquele que pretende ser portador exclusivo da verdade está condenado a ser fundamentalista, com mentalidade fascistóide e sem diálogo com os outros. Dalai Lama bem disse: “não insista em dialogar com um fundamentalista. Apenas tenha compaixão dele”.

Aqui vale recordar as palavras do grande poeta espanhol António Machado, vítima da ditadura de Francisco Franco na Espanha: “Não a tua verdade. Mas a verdade. Vem comigo buscá-la. A tua guarde-a para ti mesmo”. Se juntos a procurarmos, ela será então mais plena.

O fascismo nunca desapareceu totalmente, pois sempre há grupos que, movidos por um arquétipo fundamental desintegrado da totalidade, buscam a ordem de qualquer forma. É o protofascismo atual.

No Brasil houve uma figura mais hilária que ideológica que propôs o fascismo em nome do qual justificava a violência, a exaltação da tortura e de torturadores, da homofobia, da misoginia e dos LGBTQ+1. Sempre em nome de uma ordem a ser forjada contra a pretensa desordem vigente, usando de violência simbólica e real.

Sob o governo do condenado Jair M. Bolsonaro o fascismo ganhou uma forma assassina e trágica: se opôs à vacina contra o Covid-19, estimulou as conglomerações e ridicularizou o uso da máscara e, o que é pior, deixou morrer mais de 300 mil dentre os 716.626 vitimados, sem qualquer sentido de empatia pelos familiares e próximos. Foi a expressão criminosa de desprezo pela vida de seus compatriotas. Deixou um legado sinistro.

Mas finalmente o líder desse protofascismo rude, Jair Messias Bolsonaro, forjou uma organização criminosa com militares de alta patente e outros, tentando dar um golpe de estado com o eventual assassinato das mais altas autoridades a fim de impor sua visão tosca do mundo. Mas foram denunciados, julgados e condenados e assim nos livramos de um tempo de trevas e de crimes hediondos.

O fascismo sempre foi criminal como se viu recentemente em Utah nos EUA com o assassinato de um fundamentalista Charlie Kirk, supremacista, antiislâmico e homofóbico, proclamado falsamente de mártir. Sob Hitler criou-se a Schoah (eliminação de milhões de judeus e de outros). Usou a violência como forma de se relacionar com a sociedade, por isso nunca pode nem poderá se consolidar por longo tempo. É a perversão maior da sociabilidade essencial nos seres humanos.

Combate-se o fascismo com mais democracia e povo na rua. Deve-se enfrentar as razões dos fascistas com a razão sensata e com a coragem de reafirmar os riscos que todos corremos. Deve-se combater duramente quem usa da liberdade para eliminar a liberdade. Devemos unirmo-nos pois não temos um outro planeta nem um outra Arca de Noé.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência (Vozes). [https://amzn.to/4nWdtY8]


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