A colonização digital da vida

Imagem: Igor Omilaev
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Por THIAGO MOTA*

A colonização digital não ocorre por invasão territorial, mas pela modelagem silenciosa dos nossos desejos e trajetos, transformando a liberdade em mera escolha entre opções pré-determinadas por uma racionalidade matemática

Tomemos um exemplo banal, que poderia ter sido retirado da vida cotidiana de qualquer pessoa, nos dias atuais. De início, você liga de seu celular para um amigo, pensando em combinar uma saída. Depois de buscar no Google as opções de saída, vocês decidem ir a um restaurante. Então, você consulta o nome do restaurante em um aplicativo de localização e, em seguida, pede um Uber. O preço da corrida será cobrado no seu cartão de crédito. Por fim, você comunica a outros amigos, através do Whatsapp, onde estarão e em que horário.

Talvez você não saiba, mas em poucos minutos de utilização de aplicativos e da internet, enormes bases de dados (big data) receberam e transmitiram inúmeras informações sobre você e sua movimentação. Esses dados passam continuamente por varreduras baseadas em algoritmos complexos, que buscam por informações específicas (datamining), possibilitando a identificação de padrões de comportamento.

Algoritmos que, na maioria das vezes, nem sequer sabemos que existem influenciam nossas escolhas e decisões. Enquanto imaginamos que as tecnologias que utilizamos são meros instrumentos em nossas mãos, somos guiados por elas em silêncio.

Esse é um exemplo bastante simples e claro do que vem sendo chamado, há cerca de dois ou três anos, de “governamentalidade algorítmica”. Do que se trata? Digamos, de saída, que a governamentalidade algorítmica é uma tecnologia de colonização da vida, aquela que parece se ocupar da vida da maneira mais massiva que já se conheceu.

O termo “governamentalidade” é um neologismo criado por Michel Foucault para se referir às racionalidades políticas de acordo com as quais os modos de governo funcionam. Assim, toda governamentalidade tem um alvo, mobiliza um saber e utiliza uma técnica.

Por sua vez, um “algoritmo”, em informática, é uma sequência finita de regras e procedimentos lógicos, que podem ser aplicadas a um número finito de dados e que levam à solução de um problema. À medida que as inovações em informática avançam, numerosos algoritmos vêm sendo criados, cada vez mais complexos e capazes de lidar com quantidades maiores de dados. Com isso, podemos dizer que a governamentalidade algorítmica consiste no uso de algoritmos para solucionar problemas relativos ao governo da vida.

Governamentalidade algorítmica

Em outras palavras, o que está em jogo na governamentalidade algorítmica é o acoplamento da racionalidade matemática dos algoritmos à programação governamental atualmente hegemônica no plano mundial, ou seja, ao neoliberalismo. O que está em jogo aí é precisamente a utilização dessa capacidade de solução de problemas envolvendo grandes quantidades de dados, que é característica dos algoritmos, para fins de governo e colonização da vida.

Do ponto de vista técnico, a governamentalidade algorítmica se alimenta de dados digitais, que são armazenados em quantidades imensas – trata-se dos chamados big data. Porém, o uso prático dos big data depende da existência de aplicativos, que rodam algoritmos capazes de fazer o “garimpo” ou a “mineração” desses dados – é o datamining –, tendo em vista estabelecer correlações e definir padrões ou modelos de comportamento.

É a partir desses padrões que os algoritmos criam as opções, disponibilizadas pelos aplicativos aos usuários, que solucionam seus problemas alimentando novamente as bases de dados. Na era dos big data, a liberdade corresponde ao poder de escolha entre opções geradas por um algoritmo.

Um dos aspectos mais desconcertantes da governamentalidade algorítmica é que, enquanto forma de modelização da vida social baseada em dados quantitativos, ela não se funda em normas jurídicas, políticas ou ideológicas. Ela se baseia, por outro lado, no chamado “dado cru” (raw data), isto é, a informação despersonalizada, descontextualizada, desindexada, anonimizada.

Por isso, a governamentalidade algorítmica sustenta a pretensão de ser imanente, como uma espécie de governo da vida por si mesma, através de seus próprios dados. Assim, de acordo com uma certa ideologia tecno-positivista, os dados brutos constituem a linguagem espontânea e natural da vida, possibilitando o mapeamento de demandas oriundas da própria vida, bem como a elaboração das soluções compatíveis.

No entanto, dados brutos não existem. Todo dado é produzido. Os dados concretos relativos a quem quer que seja não são fatos prontos e acabados, mas efeitos de relações de força, de dominação e de poder. Pode-se dizer, portanto, que a transcrição da vida em dados numéricos acarreta uma naturalização dos fatos. Esta, por sua vez, visa uma neutralização do aspecto agonístico da vida. É desse modo que os algoritmos participam da gestão dos conflitos na contemporaneidade.

Governo imanente, governo dos possíveis

Um outro aspecto da governamentalidade algorítmica é que ela não lida com fatos, mas com potencialidades. Não se trata de considerar os indivíduos como pertencentes a um determinado grupo étnico, a uma certa faixa etária, a uma categoria profissional.

Agora, as ações governamentais, securitárias, comerciais, sanitárias se baseiam em “perfis pessoais” definidos por algoritmos – perfil de cidadão, de consumidor, de criminoso, de terrorista, de doente etc. Vale dizer assim que o alvo da governamentalidade algorítmica não são os fatos, mas os possíveis, isto é, aquilo que podem a vida e os corpos (inclusive em condições extremas).

Existe uma relação profunda entre a governamentalidade algorítmica e a engenharia genética. Por exemplo, a produção de microorganismos, que não existiam antes, mantém clara relação com o poder, podendo perfeitamente ser lida como parte do processo contemporâneo de colonização da vida.

Um dos grandes saltos na história da engenharia genética foi produzido pela inserção de algoritmos nas pesquisas da área. Tornou-se possível, então, a criação de “algoritmos genéticos”, tendo em vista solucionar problemas relativos ao meio ambiente, a processos de mutação e de autopoiese de organismos clonados.

Além disso, o processo de colonização da vida desce ao nível molecular (uma “colonização molecular”). Com efeito, milhares de tipos de moléculas, que eram desconhecidas há 25 anos, contidas em químicos, herbicidas, pesticidas etc., são liberadas por grandes corporações multinacionais, diariamente, nos ecossistemas ao redor do mundo. A introdução de algoritmos aqui tem visado, sobretudo, controlar e gerir essa produção de moléculas, tornando-as, em princípio, menos ofensivas ao meio-ambiente e reduzindo sua participação no processo de aquecimento global.

É assim que algoritmos vêm sendo utilizados na produção de novas moléculas em pesquisas financiadas, sobretudo, pelo capital privado de grandes corporações. Esses exemplos dão uma amostra das proporções que o âmbito de atuação das tecnologias de colonização da vida adquire atualmente, sobretudo, quando incluímos, entre tais tecnologias, os novos recursos da governamentalidade algorítmica.

As possibilidades de resistência

Entretanto, se esse é o cenário, quais são as possibilidades de resistência? Parece-nos, em suma, que, por um lado, é preciso aprender a hackeá-los e crackeá-los, por outro lado, também é preciso aprender a utilizá-los de maneira construtiva, em estratégias de resistência e descolonização.

Sob esse aspecto, seguimos Karl Marx e, mais especificamente, as teses aceleracionistas. O que necessitamos não é da reedição de um luddismo nem de um cartismo, não carecemos de um primitivismo, não precisamos destruir as máquinas. Antes de mais nada, máquinas são instrumentos, ferramentas, meios de produção. O que precisamos é aprender a nos apropriar delas e fazê-las rodar na potência máxima, para fins de resistência e de descolonização.

É nesse máximo de potência do funcionamento do sistema atual que se encontra o momento crítico da sua implosão, isto é, seu ponto de ruptura e descarrilamento. Podemos dizer que, nos dias atuais, é desse tipo de aceleração e de potência que o movimento e as práticas de descolonização necessitam para ganharem velocidade.

*Thiago Mota é professor de filosofia na Universidade Estadual do Ceará (UECE).


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