A diáspora das crianças em Uganda

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Por MARILIA PACHECO FIORILLO*

Enquanto a justiça internacional tropeça na sua lentidão, a verdadeira resistência floresce nas sombras: crianças que, com livros nas mãos, convertem a fuga diária em um ato silencioso de desafio e esperança

1.

Há uma semana, em 7 de novembro de 2025, a ICC (International Criminal Court, ou Tribunal Penal Internacional) confirmou, finalmente(!!!), acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra o genocida ugandês Joseph Kony. Considerando-se que o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ele há quase duas décadas, é caso de se perguntar: só agora?

Das desmoralizadas instituições supra-nacionais, o Tribunal Penal Internacional é a mais criticada, por suas limitações e lentidão. Não foi ela que levou a julgamento os criminosos sérvios da guerra dos Balcãs , por exemplo, mas sim um tribunal ad-hoc da ONU. Joseph Kony é o facínora que serviu de inspiração a muitos filmes sobre crianças sequestradas e transformadas em combatentes-suicidas ou escravos sexuais.

O peculiar é que justifica suas atrocidades em nome de Deus, o Deus da Bíblia (bem, leiam o Deuteronômio e está explicado) Considera-se a reencarnação do Espírito Santo, enviado ao mundo para governar através dos Dez Mandamentos. Sua milícia se intitula LRA (Lord ‘s Resistance Army, Exército dos Combatentes de Deus).

Há 39 acusações formalizadas contra ele (assassinato, destruição e saque de vilas, tortura, escravidão sexual e estupro, só entre 2002-2005). Estima-se que o profeta bíblico Joseph Kony assassinou cerca de 100 mil pessoas, sequestrou outras 100 mil crianças (a partir de 5 anos de idade) e provocou o deslocamento forçado de 2,5 milhões de ugandeses. Mas permanece foragido (provavelmente na República Centro-Americana). Não há operações em curso para capturá-lo, e o julgamento só se daria com a presença do réu.

2.

Há 17 anos publiquei um curto texto sobre a Lord ‘s Resistance Army, o facínora em pele de profeta e as crianças de Uganda, que migravam toda noite de seus vilarejos para não serem capturadas, e ler. Sim. Os livros eram sua arma, a única de que dispunham para não serem forçados a empunhar uma Kalashnikov.[1]

“Todo dia, quando começa a escurecer, centenas de meninos e meninas saem de suas casas, em vilarejos ou campos de refugiados, e andam quilômetros até a cidade de Gulu, buscando refúgio em hospitais, estacionamentos, marquises, calçadas. De manhã, fazem o caminho de volta. Isto vem se repetindo há duas décadas, no norte de Uganda. Elas fogem dos assaltos noturnos da Lord Resistence Army (Exército dos Combatentes de Deus), que já sequestrou mais de 20 mil crianças para servirem como soldados em seu bando armado.

A LRA é liderada por Joseph Kony, que se diz a encarnação do Espírito Santo e promete, assim que tomar o poder, restaurar os Dez Mandamentos e governar em nome da Bíblia. Joseph Kony, ex-coroinha, é responsável por cerca de 100 mil mortes e dois milhões e meio de refugiados que deixaram seus lares e vivem em campos internos.

O Tribunal Penal Internacional expediu contra ele e os membros do “Altar” (seus comandantes), em 2005, um mandado de prisão pelos crimes de genocídio, assassinato, estupro, mutilação, escravidão e rapto de crianças que são forçadas a servir em suas fileiras. Em 2006 houve uma trégua com o governo de Kampala, mas em abril de 2008 Joseph Kony rompeu-a, e a escalada de violência recomeçou.

Um dos indiciados pelo Tribunal Penal Internacional é o jovem Dominic Dominic Ongwen, chefe de uma das brigadas mais temidas do Exército de Deus, e ele próprio um veterano soldado mirim, raptado no início dos conflitos. Discute-se se Dominic Ongwen deve ou não ser poupado do julgamento. Isso porque, das milhares de crianças raptadas e levadas à escravidão, estupro e morte, uma das violências mais frequentes cometidas contra elas é a “conversão” forçada, a lavagem cerebral a que são submetidas por Joseph Kony e que os transforma em precoces psicopatas.

As meninas servem como prostitutas dos soldados. Os meninos são treinados para se tornarem matadores, e muitos aprendem a nova habilidade de modo inesquecível: são forçados a atirar numa vítima conhecida, um amigo, alguém de sua aldeia, de preferência num membro da família. Depois
deste batismo de fogo, durante os ataques do bando de Joseph Kony às vilas, as crianças são posicionadas à frente dos soldados, como escudo, uma infantaria desarmada. Mas antes são ungidas com um óleo abençoado pelo ex-coroinha, que lhes garante que a unção os tornará invulneráveis às balas, que derreterão assim que tocarem seus corpos.

O terror disseminado pelo Exército dos Combatentes de Deus é tal que o próprio governo do presidente Museveni, temeroso de retaliações, está negociando com o Tribunal Penal Internacional a anulação dos mandados e do processo contra os membros do Altar.

Nas três localidades ao norte do país mais atingidas pelo LRA, Gulu, Kitgum e Pader, cerca de 80% a 95% das pessoas tiveram que abandonar suas casas e estão precariamente alojadas em campos de refugiados, sofrendo a habitual penúria, sujeira, falta de água, de suprimentos e de remédios para doenças que se espalham rápido, e um altíssimo índice de alcoolismo entre os homens, que tem incrementando outro índice, o da violência doméstica. E essas famílias não têm sequer o privilégio de possuírem o estatuto de refugiados, pois sua diáspora deu-se dentro das fronteiras do país – são não-cidadãos de lugar nenhum.

As crianças, alvos preferidos dos raptos noturnos dos Combatentes de Deus, não têm outra defesa senão viajar diariamente para dormir em cidades maiores, mais seguras. Uma foto flagrou esses “night commuters”, essas crianças invisíveis, numa pausa, à noite, numa rua de Gulu. Estão abrigados ao relento e extremamente atentos, lendo. Um livro, uma cartilha, um caderno, é difícil saber exatamente o quê. Tamanha é a concentração que eles parecem participar de alguma epifania, de um momento realmente sagrado. Estão visivelmente arrebatados, e mesmo quem não crê em anjos pode apostar que há um par deles revoando em torno dos quatro garotos.

Diz uma lenda talmúdica que, a cada geração, há 36 homens justos que são o fundamento do mundo. Eles são os “santos ocultos”. Ninguém os conhece ou terá a chance de elogiá-los, mas é exatamente graças às suas ações anônimas que este planeta se torna um lugar mais habitável e decente. As quatro “crianças invisíveis” estão fazendo algo parecido à lenda talmúdica, algo extraordinário.

O livro ou a cartilha, o prazer e a aventura do conhecimento, se transformaram, naquele momento, na única realidade. Curiosidade e imaginação as fizeram esquecer o perigo, jogando os Combatentes de Deus para a lixeira da história. Essas crianças são faíscas de luz, um clarão microscópico de 36 centenas de pequenos justos cujo nome nunca se vai saber.

*Marilia Pacheco Fiorillo é professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Deus exilado: breve história de uma heresia (Civilização Brasileira).

Nota


[1] Agradeço  a republicação, em 28 de março de 2022, pelo Portal E.M. Cioran.


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